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| MONUMENTO EM HOMENAGEM À NÍSIA FLORESTA (HISTÓRIA DE NÍSIA FLORESTA, ADAUTO DA CÂMARA, 1941). |
No Sítio Floresta, onde existiu a casa em que nasceu, no dia 12 de outubro de 1810, a ilustre Nísia Floresta Brasileira Augusta, filha do advogado português Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa e da senhora Antônia Clara Freire do Revoredo, encontra-se hoje um conjunto histórico de singular importância para a memória cultural do Rio Grande do Norte.
Não há viajante que
percorra a modesta estrada, vindo das praias ou em direção a elas, que não se
surpreenda com a imponência do local, detendo-se para observá-lo e fotografá-lo.
À primeira vista, tem-se a impressão de estar diante de um único túmulo
monumental. Na realidade, trata-se de duas estruturas arquitetônicas distintas,
porém complementares: em primeiro plano, o mausoléu; ao fundo, o monumento
comemorativo erguido em sua homenagem.
O monumento constituiu a primeira edificação do conjunto: erguido sobre uma base quadrangular, apresenta um bloco de forma cuboide que sustenta um soco, sobre o qual se eleva uma flecha tetraédrica em alvenaria. Originalmente, possuía a cor azul. Foi construído em apenas doze dias por Eduardo dos Anjos e inaugurado em 1909, em terreno doado por Chico Teófilo, localizado nas proximidades das ruínas da casa onde ela nasceu. A obra esteve sob a responsabilidade do Congresso Literário e dos estudantes do Atheneu Norte-Rio-Grandense, contando ainda com a supervisão e o apoio do então governador Alberto Maranhão, que figurou como presidente de honra. A construção teve como finalidade assinalar o centenário de nascimento de Nísia Floresta, embora, como se sabe hoje, de forma equivocada, uma vez que a data correta da efeméride seria apenas em 1910, considerando que Nísia nasceu em 1810.
Esse movimento
revela o reconhecimento já existente, no início do século XX, da relevância
intelectual e moral de Nísia Floresta, considerada uma das pioneiras na defesa
da educação feminina e dos direitos das mulheres no Brasil. A escolha de seu
local de nascimento para a edificação do monumento reforça o caráter simbólico
da obra, transformando o espaço em marco de identidade regional.
O monumento apresenta inscrições de grande valor histórico e poético, preservadas até os dias atuais. Em uma de suas faces, encontra-se uma citação em francês atribuída ao filósofo Auguste Comte, datada de 29 de agosto de 1857, testemunhando o reconhecimento internacional da escritora potiguar. A presença dessa inscrição revela não apenas o alcance intelectual de Nísia, mas também sua inserção em círculos de pensamento avançado para sua época.
Já o mausoléu,
construção posterior, foi erguido em 1955, aos cuidados do construtor Álvaro
José de Melo em circunstâncias igualmente significativas. Os restos mortais de
Nísia Floresta foram trasladados da França para o Brasil em 1954, durante o
governo estadual de Sylvio Pedroza,
atendendo a um movimento de resgate histórico e valorização da memória da
escritora.
Entretanto, um fato
curioso marcou esse processo: aguardava-se a chegada dos restos mortais
acondicionados em urna ossuária, mas o que chegou foi um caixão em padrões
tradicionais. Diante disso, o ataúde permaneceu provisoriamente depositado na
nave lateral que dá acesso à sacristia da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó,
na então cidade de Papari (hoje Nísia Floresta), onde ficou por cerca de nove
meses.
Somente
em 1955, já sob a administração estadual de Dinarte
de Medeiros Mariz, e com o mausoléu devidamente construído, recebendo
uma capa de marmorito cor de rosa - realizou-se o sepultamento definitivo. A placa, em
alto relevo, confeccionada por importante firma de Belo Horizonte, Minas
Gerais, foi providenciada pelo Prefeito José Ramires, o sub-prefeito Capitão
João Marinho de Carvalho e o Presidente da Câmara Municipal, Coronel João
Marinho de Carvalho. É de justiça salientar o interesse do contador Otacílio
Ximenes Jales, representante da referida firma, nesta capital, que tudo fez
para que a confecção da placa de Nísia Floresta se realizasse na presente
gestão da Academia de Letras.
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| MAUSOLEU DE NÍSIA FLORESTA (EM PRIMEIRO PLANO/PEÇA MAIS BAIXA COM CRUZ) |
Concluído o trabalho do Mausoléu e do Monumento
reuniu-se a Academia, marcando a sua inauguração para o dia 3 de abril de 1955.
Efetivamente, naquela data, daqui partiu a Academia em viatura gentilmente
cedida pelo Comando da Base Naval de Natal, ali chegando às 9 horas e fazendo
logo depois o trasladamento dos restos mortais da escritora da Igreja local
para o Mausoléu a ser inaugurado. Esse ato solene consolidou o local como
espaço de memória, reverência e identidade cultural.
Assim, o conjunto arquitetônico formado pelo
monumento (1909) e pelo mausoléu (1955) constitui um verdadeiro santuário
cívico dedicado à memória de Nísia Floresta. Ele sintetiza diferentes momentos
históricos: o reconhecimento precoce de sua importância, no início do século
XX, e o resgate mais sistemático de sua trajetória, na metade do século, quando
o Brasil buscava reafirmar suas referências culturais e intelectuais.
Outro aspecto
curioso e frequentemente observado por estudiosos é o erro na datação do
monumento, que registra o ano de nascimento como 1809, e não 1810. Tal
equívoco, apesar de já ser conhecido por alguns intelectuais da época, foi
mantido, possivelmente por tradição ou descuido, tornando-se parte da própria
história do monumento.
Felizmente, todas
as placas originais permanecem preservadas, permitindo ao visitante
contemporâneo não apenas contemplar a estrutura física, mas também mergulhar
nas narrativas simbólicas e históricas que ali se inscrevem. Trata-se, portanto,
de um dos mais importantes marcos da memória cultural do Rio Grande do Norte,
reunindo história, arte, literatura e identidade em um único espaço.
Com relação ao monumento, houve um cuidado poético
nas inscrições. Vale a pena conhecê-las, tendo em vista que uma delas está
escrita em francês e que tive o cuidado de traduzir mais abaixo. Em suas faces
há as seguintes inscrições:
A LESTE: Deste ninho, até agora ignorado, levantou
voo altaneiro a notável norte-rio-grandense a quem a mocidade rende esta homenagem.
A OESTE: - “Votre touchante composition est irrévocablement placée dans la tiroir sacré qui ne contient que la correspondance exceptionelle. Respect e sympathie. AUGUSTE COMTE”. Carta de 29 de agosto de 1857. OBS. Tradução abaixo.
AO NORTE - NÍSIA FLORESTA. 1809-1909.
12 de Outubro. Papari.
AO SUL: - O Congresso Literário, reunido em
setembro de 1909, sob os auspícios do exmº dr. Alberto Maranhão, seu presidente
de honra e Governador do Estado, resolveu erigir este monumento.
..............................
Tradução: “Sua comovente composição será
irrevogavelmente arquivada na gaveta sagrada reservada apenas para
correspondências excepcionais. Respeito e condolências. AUGUSTE COMTE”.


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