ELISA, "A MENINA DO VESTIDO ROXO" PARTIU...
Não ando mais querendo ver quem morre. Prefiro os cemitérios em seu sentido arquitetônico e histórico. Tudo mais dos cemitérios – pelo menos para mim –, é fantasia. Velórios soam-me estranhos, junta tudo, desprende energias e paisagem ruins. Há uma espécie de eflúvios emanando ondas desconfortáveis. Alguns lugares dão-me a impressão de terem mãos, alguma coisa física, como espectros roçando a pessoa. E quando isso se soma às pessoas presentes, com intenções diversas, tudo se amplia. Prefiro as catacumbas. Por mais que soe esdrúxulo, os cemitérios me fortificam. Há uma paz plenificante. Já disse para Fídias que me velasse sozinho, ou que pagasse alguém para me velar sozinho, acaso não pudesse. Não quero amigos, nem “amigos”, nem inimigos gratuitos me vendo. Recordo-me de Angélica Timbó, que visitava eventualmente o Cemitério do Alecrim, em Natal. Uma vez, de súbito, encontrei-a nesse cemitério. Viva, é lógico. Foi muito interessante. Hoje ela está lá, mas como moradora. Eu ainda ando por aqui, e com certeza não estou só nesse costume.
Ontem foi sepultada Lúcia Elisa do Nascimento, aos 78 anos de idade, “A menina do vestido roxo”. Foi uma grande surpresa a notícia, pois eu supunha que ela seria longeva. Muitos sabem do episódio do livro que seria lançado em Nísia Floresta em 2021, sobre a história dela, mas um monstro impediu. Foi um dos fatos mais horrorosos que vi em toda a minha vida. Planejei uma bela homenagem, onde estariam presentes vários escritores. Ela receberia flores, seriam declamados poemas e poesias em seu louvor e outras homenagens. Uma escritora de Literatura Infantil teve o capricho de mandar fazer um vestido roxo e trajaria assim para homenageá-la. Inclusive comprei um tecido de seda roxa nas Casas Cardoso, na Cidade Alta, e enviei para Lúcia. Ela mandou fazer o vestido e usaria no evento. Fez fotografias com o vestido, seu sobrinho me enviou. Ela estava cheia de alegria e expectativa. Mas o mau impediu, gratuitamente, na pessoa de um indivíduo totalmente equivocado. Eu não tinha nada a ver com as alegações doentes, feitas por esse indivíduo. Ele queria transformar o evento particular – que era meu, pago por mim –, num evento político partidário, sem sequer ter sido convidado. Seria um evento intimista, com convidados exclusivos, sem relação alguma com esse indivíduo que nada entende de Literatura. Inclusive até aí eu não tinha nenhum problema com esse ser. Nem era pessoa das minhas relações de amizade. Mas paguei o pato.
O resultado foi cancelar a bela homenagem, pois o dito indivíduo prometeu destruir tudo o que estivesse no espaço onde se realizaria o evento, disse que desligaria a transmissão de energia elétrica do local e outras truculências. Como moro em Natal, resolvia tudo por telefone. E todas essas informações me eram repassadas por celular, através de familiares de Lúcia Elisa, que estavam envolvidos no evento em Nísia Floresta, os quais, desesperados, não sabiam o que fazer. A essa altura, Lúcia Elisa desenvolveu um nervosismo, passou a chorar. Então abortei tudo, pois seria assustador fazer uma homenagem a alguém, tendo que encher o local de policiais para garantir a realização. Escrevi um texto e enviei a todas as pessoas que eu havia convidado. Constrangimento terrível. Foi num prejuízo psicológico, financeiro etc. Foram danos diversos. Mas o que fazer num local sem lei? Deixou-se de homenagear um tesouro de Nísia Floresta.
Eu já vi a Justiça impedir a realização de eventos que trariam danos a outras pessoas – uma aglomeração com tráfico de drogas, por exemplo –, mas um único indivíduo mimado, megalomaníaco e narcisista impedir a Cultura, impedir a Educação, impedir a História, impedir de se oferecer louros a quem estava no anonimato e merecia todos os holofotes do respeito e reconhecimento, colocando-a no panteão que ela merece, foi a primeira vez. Foi a experiência mais estúpida e impactante que já vi. Depois de tudo, falei para um familiar de Lúcia Elisa que faria o lançamento do livro na casa dele, com a presença dela e uns dois ou três parentes, mas dessa vez a morte dela impediu. Restou-me entregar um livro a um sobrinho dela, onde fiz a dedicatória a ela. E pedi que ele o colocasse dentro do caixão para que ela levasse. Foi essa a minha homenagem. Homenagem que jamais pretendi ser dessa forma, mas só restou essa possibilidade... L.C.F. 20h59, Natal, 6 de abril de 2024.
A MENINA DO VESTIDO ROXO
Aos 11 de setembro de 1954, há 70 anos, às 15 horas, uma imensa caixa de madeira com os restos mortais de Nísia Floresta, desembarcou do navio “Pirapiá”, um caça da Marinha de Guerra do Brasil, aportado nas docas da Ribeira, em Natal. Uma multidão se espremeu até a Praça André deAlbuquerque Maranhão. Houve homenagens na Base Naval e o cortejo seguiu para o Instituto de Educação, onde Nísia Floresta receberia homenagens organizadas pela professora Chicuta Nolasco. No dia seguinte o cortejo se deslocou para Nísia Floresta, cujo município já havia recebido o nome dela por força de um projeto idealizado pelo deputado estadual Arnaldo Barbalho Simonetti, seis anos antes. E justamente em Nísia Floresta aconteceria um fato muito curioso, e que ficaria perpetuado nesse livro.
Assim que a "grande caixa de madeira" chegou ao município de Nísia Floresta, aos 12 de setembro, houve um impasse. Todos aguardavam uma pequena caixa com os ossos de Nísia Floresta, jamais um caixão tradicional. A falta de comunicação permitiu que construíssem uma peça de alvenaria para sepultar os restos mortais, ao invés de construírem um túmulo para acomodar o caixão. Ninguém avisou. Comunicação naquele tempo era complicada. O que fazer? Onde colocar aquela imensa caixa Na missa de corpo presente, celebrada pelo cônego Rui Miranda, perceberam que não seria possível o “enterro”, portanto resolveram guardar o caixão sobre uma mesa nos corredores desta Matriz, próximo à entrada da sacristia. A grande caixa ficou ali no período de quase uma gestação humana. Passou o Natal e Ano Novo sob a sentinela da Senhora do Ó, mediante um acordo feito entre o prefeito José Ramires e as autoridades natalenses.
Nesse interim, muitos faziam fila para verem a caixa. O prefeito demorou muito para cumprir o acordo, então a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras resolveu assumir a obra, fazendo uma campanha envolvendo instituições e pessoas influentes. O túmulo foi construído oito meses após a chegada dos restos mortais. É nessa data que entrará para a história a pequena Lúcia Elisa do Nascimento, com apenas 8 anos de idade, e que se tornaria “A Menina do Vestido Roxo”.
A grande caixa foi conduzida em cortejo até o “Sítio Floresta” no dia 11 de maio de 1955, acompanhada por uma multidão vinda de Natal. O ponto de apoio foi o alpendre de uma casa grande, muito antiga, situada no sítio de propriedade de Carlos Gondim. A caixa foi depositada sobre uma mesa de madeira. Ali moravam os tios da pequena Lúcia Elisa do Nascimento. Eles eram empregados nesse sítio e presenciaram tudo. No local onde seria sepultado o caixão de Nísia Floresta já existia um monumento em homenagem a ela, construído em 1909, pelo pedreiro Eduardo dos Anjos.
Em 1993, Lúcia Elisa do Nascimento contou para o pesquisador Luís Carlos Freire o seguinte: “Ainda me lembro dos meus tios prá lá e prá cá... um pedia uma coisa, outro pedia outra... era um monte de gente naquele dia, parecia que Natal veio toda ‘pralí’... tava até o ‘seu’ Zé Ramires, mas para mim aquilo era uma festa... eu não entendia aquelas coisas... não sabia que ali tinha uma morta, ficava só brincando, curiosa, olhando o povo... coisa de criança...”.
A pequena Lúcia ficou nas imediações, bastante admirada. Ao abrirem a grande caixa encontraram, intacto, um caixão de pinus envolvido numa grande quantidade de cetim de seda roxa. “Era um ‘panão’ grande... brilhoso... a coisa mais linda do mundo... Fiquei olhando aquilo muito admirada, doida pra pegar... era brilhoso, bonito que só!”, contou Lúcia.
Hoje, os jovens não associam mais a cor roxa à morte devido aos modernismos, mas a tradição católica sempre relacionou a cor roxa aos tecidos mortuários, acessórios de féretro, caixão etc. Com certeza isso vem da ritualística católica, que associa o roxo à penitência, cujos tecidos roxos prevalecem nos paramentos sacerdotais, nos templos e procissões na “Sexta-Feira da Paixão”, quando o “Senhor-Morto” é envolto em tecido roxo.
Uma das pessoas que ajudou a abrir a grande caixa foi o senhor Antônio Amador do Nascimento, conhecido como “Tetéu”, tio da menina Lúcia, irmão de seu pai. Ele estava por ali em visita aos tios. O tecido era novo e ainda cheirava. Lúcia contou que seu tio pegou a bela fazenda e jogou sobre ela, dizendo “Pega prá tu! “Eu nem acreditei, fiquei assim, olhando, abestalhada com o pano... Saí doida, correndo pra mostrar pra mamãe". (É preciso esclarecer que esse tecido não tocou nos restos mortais. Veio enrolado no caixão e era uma peça nova, muito grande).
Sobre esse tecido, Lúcia contou exatamente isso: “Eu nunca vi um tecido tão lindo... embolei no corpo e fui correndo pro quarto... era um pedação grande... bastante pano... mamãe logo escondeu de mim. No outro dia, quando fomos no Porto, mamãe lavou o tecido, e vovó Geminiana fez um vestido de sair e uma camisolinha pra mim... eu adorava vestir o vestido e ficar sentada no alpendre... queria que as outras meninas que passavam na estrada me vissem com o vestido...achava bonito, era o vestido mais bonito de Nísia Floresta... eu parecia uma menina rica... corria até a cancela, subia nas árvores, pulava... o vento voava o vestido, às vezes enganchava nas árvores, mamãe dava brava, gritando: ‘menina, tu vai rasgar o vestido!’... para mim o vestido dava alegria, não tinha nada de morte... achava linda a cor roxa... Quando eu usava a camisolinha nem sabia que dormia com os paninhos de Nísia Floresta... eu lá sabia quem era Nísia Floresta! O povo só dizia que era uma mulher muito sabida...”.
Lúcia Elisa do Nascimento nasceu no dia 27 de novembro de 1946, filha de João Amador do Nascimento e Naura Elisa do Nascimento, neta de Geminiana Elisa do Nascimento, gente antiqüíssima da velha Papary. Francisco Amador do Nascimento era pai de “Maria de Zuza”, era irmão do pai de Lucia Elisa. Lúcia também contou o seguinte: “Eu cresci ouvindo o tio Tetéu mangando muito de mim por causa desse vestido roxo... dizia que eu tinha usado o vestido de Nísia Floresta... outra hora dizia que o meu vestido tinha vindo no caixão de Nísia Floresta... depois dizia que eu tinha usado o vestido de uma morta... ficava me caningando o tempo todo. Só depois de muito tempo eu dei conta daquela marmota, mas como era criança, nem percebi, achei foi bom. Até brincava, dizendo que o tecido do meu vestido tinha vindo da França. Quando eu ia pra rua com a minha mãe, vestia logo o vestido, ia bem importante.. exibida que só! Na minha cabeça todos estavam achando lindo o vestido roxo”.
O terreno onde se encontra o túmulo e o monumento à Nísia Floresta não pertencia à família Gondim quando construíram o monumento de 1909. O sr. Luiz Bezerra Augusto da Trindade o comprou - por procuração - à Srª Antonia Freire, mãe de Nísia Floresta, em 1857, pela importância de 400 Réis. Luiz Bezerra faleceu em 1881 e o sítio foi repartido entre os herdeiros. A maior parte ficou para Francisco Teófilo Bezerra da Trindade, falecido em 3 de outubro de 1838. Ele foi o doador do referido terreno.
Lúcia Elisa do Nascimento, uma brasileira, uma mulher simples, mulher honrada, cheia de dignidade e importância. Ela não foi importante por ter escrito livros famosos ou ter assumido altos cargos, mas o destino fez com que a história dela se cruzasse com a história de Nísia Floresta numa circunstância muito curiosa. Parece que Nísia quis dar esse presente, e era para a pequena Elisa. A ela todos devem gratidão por ter protagonizado aos nisiaflorestenses esse belo e curioso episódio. Sua história é um achado, é uma pérola, é o seu poema de vida...
Hoje a “A menina do vestido roxo” nos deixa. É a vida! Mas nesse mesmo momento de deixar, ela fica. Fica em nossos corações, e sua história estará eternamente guardada neste livro “A menina do vestido roxo”.
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