ANTES DE LER É BOM SABER...

CONTATO COMIGO: (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. O pelo formulário no próprio blog. Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico. Fruto de um hobby, é uma compilação de escritos diversos, um trabalho intelectual de cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos de propriedade exclusiva do autor Luís Carlos Freire. O título NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE foi escolhido pelo fato de ao autor estudar a vida e a obra de Nísia Floresta desde 1992 e usar esse equipamento para escrever sobre a referida personagem. Os conteúdos são protegidos. Não autorizo a veiculação desses conteúdos sem o contato prévio. Desautorizo a transcrição literal e parcial, exceto trechos com menção da fonte, pois pretendo transformar tais estudos em publicações físicas. A quebra da segurança e plágio de conteúdos implicarão penalidade referentes às leis de Direitos Autorais. Luís Carlos Freire descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pelas raízes de sua mãe, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, um dos maiores genealogistas potiguares. O livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. 'A linguagem Regionalista no Rio Grande do Norte', publicados neste blog, dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não está concluída, inclusive várias são inéditas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-las, visando contribuir com o conhecimento, pois certos assuntos não são encontrados em livros ou na internet. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ, bem como o A Linguagem Regional no Rio Grande do Norte, fruto de 20 anos de estudos em muitas cidades do RN, predominantemente em Nísia Floresta. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Há muita informação sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, lendas, crônicas, artigos, fotos, poesias, etc. OBS. Só publico e respondo comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 30 de agosto de 2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

IRIS LETTIERI, MAIS QUE A VOZ DOS AEROPORTOS, UMA BREVE HISTÓRIA...


Hoje de manhã, assistindo ao jornal “Hora Um”, fui surpreendido com a informação da morte de Iris Lettieri, famosa pela “Voz do Aeroporto”. Nós, que lidamos com História, muitas vezes vivemos episódios que não acontecem como imaginávamos, mas que acabam se tornando a sua história...

Em 2014, conheci com meu filho F. a chamada “Casa nazista de Natal”, construída por Guglielmo Lettieri em 1910, inclusive já escrevi um texto sobre ela no meu blog. À ocasião, fiquei curioso para saber mais sobre a história desse italiano, que é avô de Iris Littieri.

Algum tempo depois, após sucessivas tentativas, cheguei até Iris Lettieri, a qual se mostrou muito receptiva. Creio que o fato de eu estar aqui no Rio Grande do Norte, onde seu avô passou a maior parte da vida, inclusive faleceu em Natal, despertou nela memórias afetivas do avô, e  passamos a conversar muito sobre a família, como quem se conhece há anos. Falávamos sobre assuntos afins, afinal precisei me apresentar também, enviava fotografias daqui de Natal etc. Inclusive ela lia minhas postagens. Conversávamos sobre as publicações. Foi uma experiência muito amigável e respeitosa.

Guglielmo era italiano, chegou a Natal ainda rapaz e construiu um dos mais imponentes palacetes da Ribeira. Era um homem muito rico, inclusive cônsul da Itália em Natal. Sua casa recepcionava as mais importantes figuras norte-rio-grandenses, inclusive homens notáveis que vinham da Europa. Mas se sabe pouco sobre ele. É uma história ainda a ser contada. E foi exatamente isso que me fez localizar Iris Lititieri, tendo me surpreendido ao saber que ela era a mulher da “Voz do Aeroporto”.

Conversamos até o ano passado, pois, inexplicavelmente, ela desapareceu de cena. Não respondia mensagens nem atendia telefone. Eu não sabia, mas isso se dava em virtude de ela estar muito doente, a ponto de ter se desligado do mundo digital.


Nas nossas últimas conversas – já balizados pela familiaridade – e sem que eu tivesse pedido, ela disse: “Vou separar algumas fotografias, bottons e alguns documentos do meu avô e enviar para você, pois tenho certeza absoluta que você guardará bem esse acervo, dando-lhe uma finalidade justa”. Ela dizia que guardava aquele material como fosse o próprio avô dela, o qual ela o amou intensamente, inclusive falava dele com muito carinho. Fiquei muito feliz ao saber que herdaria esse material tão precioso para ela, afinal, e, com certeza, de posse dele, eu escreveria uma bela matéria no meu blog, reproduziria o acervo recebido, faria fotografias desses bottons e, depois, doaria ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN. Não teria sentido algum esse material tão significativo ficar comigo, pois é de interesse do Rio Grande do Norte.


Ela pediu que eu mandasse o endereço por escrito e um valor em dinheiro para que ela me enviasse o acervo pelos Correios. Seguimos conversando, ora através de mensagens escritas, ora em áudios, ora falando por telefone (inclusive, assim que nos conhecemos, ela me explicou que quando eu quisesse ligar, o fizesse impreterivelmente entre às 14 às 22h00 e nenhum outro horário mais). Achei interessante e fui entendendo gradualmente o motivo do pedido. Ela sofria de insônia e, devido a remédios, dormia pouco, acordava o tempo todo, e isso a cansava muito, portanto, decidiu que a hora que o sono chegasse ela dormiria sem preocupação, nem que fosse à tarde toda.

Iris morava com o segundo marido, também idoso. Quando se casaram, ela foi morar no apartamento que era dele. Ela própria preparava as refeições dela e do dele, dizia que fazia tudo num dia e guardava as porções no congelador para irem consumindo. A limpeza da casa também era missão dela, atividade que fazia com certo esforço, pois enfrentava grande dificuldade para andar devido às doenças. Foi assim que entendi o porquê de ela ter estabelecido horário para telefonema. Devido a essa instabilidade, eu poderia telefonar no momento em que ela estivesse fazendo almoço ou limpando a casa. Não seria bom para ela, inclusive nossas conversas eram muito demoradas.

No curso dessa amizade, ela falava sobre o avô, sempre uma lembrança, sempre uma novidade, mandava fotografias, inclusive contou – achando graça – que Guglielmo escondeu o governador Gurjão na caixa d’água da casa dele quando houve o levante comunista (Imagine essa cena!). Ela Falava sobre a mãe, dona Júlia Amazonas, com muita saudade e admiração. Tinha ojeriza da família do avô Guglielmo, pois ela era neta da segunda esposa dele, quando, viúvo, se casou com dona Júlia (Futuramente, separada, ela se casaria com o locutor da Rádio Cruzeiro do Sul, José Avelino Costa, pai de Iris Luttieri Costa).


Os filhos italianos de Guglielmo com a primeira esposa, também italiana, detestavam a mãe dela e os filhos e netos dela. Chamavam a eles de pobretões, gente desqualificada, nas palavras de Íris. A recíproca era igual. Enfim...  conversa vai, conversa vem – a gente nunca imagina que a morte não marca data –, então, preso às coisas da vida, descuidei de mandar o meu endereço e ela desapareceu de cena, conforme expus no início. Cheguei a pensar que era defeito no aparelho, que podia ter sido roubado, enfim, fiquei no vácuo.

Íris com os pais

Íris Lettieri veio ao mundo em 1941, em meio a um Brasil que atravessava turbulências políticas e sociais. Pouco tempo depois, em 1942, seu avô, o italiano Guglielmo Lettieri, foi encarcerado considerado fascista/nazista, e, infelizmente, isso é fato. O primeiro encontro entre avô e neta não se deu em ambiente doméstico ou festivo, mas sim dentro de um presídio, quando Íris tinha apenas quatro anos. Mais tarde, ela retornou a Natal algumas vezes, embora apenas para passear, inclusive visitou o palacete do avô que se encontra ali até hoje (por incrível que pareça). Já não havia avós vivos para recebê-la, e nunca sentiu necessidade de se aproximar dos descendentes da família Lettieri.

O cenário político da época era conturbado. Rafael Fernandes Gurjão governava o Rio Grande do Norte e, em 1935, a chamada “Intentona Comunista” transformara Natal na primeira capital latino-americana sob domínio revolucionário de orientação comunista, ainda que por poucos dias. A insurreição coincidiu com a solenidade de formatura do Colégio Marista, realizada no antigo Teatro Carlos Gomes — hoje Teatro Alberto Maranhão. Houve tiroteios, quebra pau, tumultos, obrigando o governador e o secretário-geral do Estado, Aldo Fernandes Gurjão, se refugiaram na residência Xavier Miranda e, em seguida, buscaram proteção no Consulado da Itália, sediado justamente na casa de Guglielmo Lettieri (foi então que o governador mergulhou na caixa d’água)

Esses anos de contato com Íris Lettieri percebi sua personalidade vigorosa, marcada por opiniões firmes e postura decidida. Ainda muito jovem, ela chamou atenção no carnaval carioca, sendo homenageada por uma escola de samba. Na ocasião, causou furor ao anunciar a entrada da agremiação como se estivesse comandando o embarque de passageiros em um avião - voz que era a trilha sonora das partidas e chegadas nos maiores aeroportos do país.

Embora tenha sonhado inicialmente em ser médica, o gosto pela boa dicção levaram-na a estudar técnicas de voz. Aos 16 anos, conciliava o trabalho de recepcionista com os estudos noturnos, quando acompanhou a mãe - pianista - a uma apresentação na Rádio MEC. Curiosa, pediu para testar um gravador e registrou sua voz. Pouco tempo depois, recebeu convite para atuar como locutora na Rádio Metropolitana. Era o início de uma trajetória notável.

Com apenas alguns meses de experiência, foi incentivada a ingressar na recém-criada TV Continental. Em 1959, assinou contrato e logo conquistou o Troféu Garota Propaganda, destacando-se não apenas como locutora, mas também como atriz em peças de teleteatro. Nessa fase, viveu um casamento breve com um engenheiro eletrônico ligado à televisão, que a levou a Porto Alegre. Lá atuou em rádio e televisão, mas, após a separação, regressou ao Rio de Janeiro. Ela contava com 26 anos e foi trocada por uma mulher desquitada de 38 anos e três filhos.

Em 1963, a TV Excelsior abriu-lhe novas portas. Tornou-se a primeira mulher a atuar como locutora de telejornal no Brasil, dividindo bancada com nomes lendários como Luiz Jatobá e Sérgio Porto. Um ano depois, já participava de programas esportivos ao lado de João Saldanha, Nelson Rodrigues e Luís Mendes, transitando com naturalidade entre jornalismo, esporte e entretenimento. Frequentou também os palcos do Beco das Garrafas, epicentro da Bossa Nova, onde chegou a dividir espaço com Elis Regina.

Em 1965, escreveu seu nome definitivamente na história da televisão brasileira ao ser convidada para inaugurar a TV Globo como locutora de telejornais, ao lado de Hilton Gomes. Pouco depois, integrou a equipe da TV Tupi, onde permaneceu por mais de uma década e conquistou, ano após ano, o reconhecimento da crítica como a melhor voz do jornalismo televisivo.

Sua carreira foi marcada por convites singulares. O estilista Pierre Cardin chegou a convidá-la para ser manequim em Paris, mas ela recusou, alegando que a rotina de trabalho não lhe permitia aceitar a proposta. Sobre isso, ela me disse que, no calor daquela vida superativa, requisitada para tudo, não percebeu o quanto aquele convite tinha relação com ela. Mesmo assim, consolidou-se como uma profissional pioneira numa área singular, abrindo caminho para inúmeras mulheres na locução e no jornalismo televisivo.

Ainda em idade avançada, Íris renovou contrato com a Infraero, garantindo que sua voz inconfundível seguisse presente nos aeroportos do Brasil. Passageiros de Santos Dumont, Congonhas, Foz do Iguaçu, Galeão, Guarulhos, Manaus e, entre outros, ainda hoje podem ouvir suas gravações ecoando nas salas de embarque e desembarque. Paralelamente, mantinha um pequeno estúdio em casa, onde gravava comerciais e locuções para eventos, sempre fiel à profissão que a consagrou.

Entretanto, o brilho público nem sempre correspondia à realidade íntima. Nas nossas conversas, ficava claro que a aposentadoria modesta, os custos crescentes da vida e os gastos com saúde traziam dificuldades financeiras. A mulher que fora referência nacional, premiada e aplaudida, que ganhou muito dinheiro e gastava na proporção que ganhava, enfrentava na velhice as limitações de quem já não tinha o mesmo padrão de outrora. Isso me fez pensar sobre o quanto não sabemos sobre o nosso futuro e a que poderemos estar sujeitos...

Mesmo agora, tendo partido, Íris Lettieri permanece como um ícone da comunicação brasileira. Sua trajetória não se limita à história da televisão ou da aviação civil, mas se entrelaça também com a memória de sua família, especialmente de Guglielmo Lettieri - figura ligada aos eventos políticos que marcaram Natal em meados do século XX, tendo recebido em seu palacete, na Ribeira, notáveis figuras europeias. A história desse avô, pouco lembrada, corre o risco de se perder, assim como o acervo que Íris desejou me repassar.

Hoje, resta a esperança de que sua memória, tanto pessoal quanto familiar, não seja relegada ao esquecimento. Afinal, Íris foi mais que uma voz nos alto-falantes: foi pioneira, atriz, locutora, presença cativante nos lares brasileiros e testemunha de uma época de grandes transformações no país.

Hoje, entrei em contato com algumas pessoas no Rio de Janeiro, pois, conseguindo o contato do viúvo de Íris, eu diria sobre a intenção dela de me doar o acervo de Guglielmo - que, inclusive, não tem relação familiar nem afetiva com o viúvo de Iris – e também não acredito que alguém mais íntimo da família – que nesse momento deve estar dando-lhe apoio, saberia que Guglielmo teve uma história muito interessa a Natal (inclusive morreu aqui há muitos anos). Também penso que talvez tudo isso vá parar em algum lixão no Rio de Janeiro. Não sei, mas seguirei tentando obter esse precioso material que, por legitimidade, pertence ao Rio Grande do Norte.

 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

HOJE, UMA GRANDE NOTÍCIA SOBRE O CASARÃO DE AMÉLIA DUARTE MACHADO...

 

Casarão de Amélia Duarte Machado

Nessa tarde morna de 27 de agosto, mês do folclore, vivi momentos emocionantes. Visitei o ancestral casarão da Fazenda Pitimbu, em Parnamirim, vivenciei uma experiência ímpar, graduada pela tendência a que o tempo nos convida: a de refletir sobre preservação de patrimônio histórico, memória, raízes e legado. Ali, no pátio empoeirado por lembranças, senti o sopro delicado da história, enquanto contemplava o imponente solar, guardião silencioso de múltiplas narrativas. Estávamos eu, representando o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, ao lado da ilustre vereadora Rárika Bastos, seu diligente assessor Erysson, representantes da construtora Ecocil, funcionários da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo - SEMUR (arquiteta e urbanista Alyne da Cruz Santos de Lima e Jeane Evangelista Bezerra da Silva, desenhista e Historiadora) e, de forma ainda mais comovente, o senhor Humberto Mercucci - filho da emblemática Amélia Duarte Machado (1881-1981) -, sua neta Amélia e alguns bisnetos.


A visita havia sido gerada por minha Carta de Apelo enviada a todos os vereadores parnamirinenses no dia 13 de agosto último, documento este motivado por um telefonema de uma moradora do Jardim Planalto, cuja mãe foi empregada de Amélia Machado e viveu décadas no assobradado casarão que ainda resiste intacto. Essa senhora, que conheço a um bom tempo, me alertou para o risco iminente: uma empresa adquirira a fazenda e encontra-se fazendo intervenções na área. Ela temia que o casarão carregado de valorosa história pudesse ser demolido. 

Esse imóvel histórico simboliza muito mais do que um prédio antigo - representa a memória da família que doou parte das terras para a implantação da Base Aérea Norte-Americana, hoje Base Aérea de Natal. A magnitude dessa ação é pouco reconhecida, mas fundamental para entender a formação territorial de Parnamirim, cuja origem se entrelaça com as doações dos Machado. O casarão é a construção civil mais antiga e intacta de Parnamirim. O resto - excetuando o que está na área militar, foi demolido.

Nesse contexto, abracei a causa enviando à Casa Legislativa de Parnamirim uma carta de apelo, expondo o fato, sintetizando a significação desse precioso casarão, e pedindo intervenção urgente,  ao que a vereadora Rárika Bastos reagiu prontamente, engajando-se com maestria, articulou e mobilizou instituições municipais e dialogou com a Ecocil, que, surpreendentemente, já guardava intenção de preservar o casarão, embora ainda sem projeto para o mesmo.

Ao chegar, todos nos reunimos sob a sombra das inúmeras mangueiras: Rárika fez as devidas apresentações e apresentamo-nos mutuamente. Nesse instante, agradeci e parabenizei a todos, recordando textos que produzi sobre Amélia Duarte Machado e o espetáculo "Nísia Floresta Brasileiras Augustas" que escrevi e que enaltece o pioneirismo dessa mulher tão injustamente deturpada por uma maldosa lenda que não gosto de contá-la. Em seguida, a família gentilmente nos conduziu por pontos fascinantes da propriedade - o casarão majestoso, ruínas do engenho e da casa de farinha, e um engenhoso “bunker” que Amélia mandara construir durante a Segunda Guerra Mundial. Esses refúgios lembravam-nos do contexto bélico, quando Natal servia como ponto estratégico para aeronaves norte-americanas que chegavam e saiam com destino à África, mediante acordo entre os presidentes Roosevelt e Vargas, em que muitas famílias locais construíam bunkers precavendo-se junto às bases militares americanas.

Naquele cenário, o silêncio foi quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelos relatos entusiasmados e encantadores do senhor Humberto Mercucci e de sua filha Amélia. Humberto, com alegria contagiante, evocou a pureza cristalina do rio Pitimbu da sua mocidade, capaz de tornar visível uma agulha lançada em suas águas. Compartilhou, com nostalgia, o intenso cultivo de melado, rapadura e açúcar mascavo ali produzido. Amélia, a neta, emocionada, recordou com carinho os tempos de infância embalados naquele local paradisíaco, lembrando os “bolos de farinha” quentinhos com que se deliciavam à mesa da casa de farinha junto a outras crianças. Esses relatos nos permitiram perceber o quanto a maldade humana e mal intencionada sepulta histórias doces como a de Amélia Duarte Machado, pois Amélia, a neta, fala da avó com "suspiros poéticos e saudades", tendo em vista a amorosidade da avó.

Também nos acompanhou um homem cuja infância se entrelaça com a própria fazenda - seus pais foram caseiros. “Essa fazenda é parte da minha vida”, disse-me, comovido. “Sr. Alberto Mercucci nos ajudou muito — até casa nos deu; nem consigo medir o bem que ele fez por nós.” Foi esse senhor quem nos abriu o casarão: os corredores revelaram belas estampas de ladrilho hidráulico, janelas de madeira de lei, telhado muito alto e alguns móveis de época que quase sussurravam o passado. São peças que precisam ser restauradas mediante um patrocínio, pois Humberto revelou que o casarão já foi arrombado algumas vezes e levaram muita coisa. No último furto, levaram toda a fiação elétrica do imóvel.



O sr. Humberto Mercucci abriu um armário e me contou que Amélia Machado guardava ali os seus LP’s. “Era lotado de discos... parece que estou vendo ela pegando algum para ouvir”, contou. Essa experiência, para mim, foi como estar no passado. É indescritível. A forma como o filho fala da mãe, traduz muito. Percebi que Amélia Duarte Machado não foi rica apenas de bens materiais, mas de amor, e que isso foi repassado a eles de maneira abundante, pois notava-se a amabilidade de todos, inclusive dos bisnetos. Todos acolhedores.

O ponto mais reconfortante do dia foi saber que a Ecocil, longe de demolir o casarão, já trazia intenção de preservá-lo. Nossa visita lançou uma semente promissora: há entusiasmo e pluralidade de ideias para projetos museológicos e memorialistas que potencialmente revitalizarão aquele espaço histórico, em parcerias envolvendo profissionais diversos. E com toda certeza, estará fortemente ligada a ele a vereadora Rárika Bastos. Neste momento, sou impulsionado a agradecer imensamente à vereadora Rárika Bastos - única autoridade a responder à minha Carta de Apelo, prontamente. Parabenizo sua sensatez e o olhar visionário sobre o patrimônio histórico de Parnamirim. Não tenho palavras para agradecê-la.

Também deixo o registro sobre a importância de as instituições públicas e até mesmo privadas estarem sempre de mãos dadas em causas a favor do bem comum, ouvindo a sociedade, seus anseios, suas reivindicações e sugestões.

Encerramos a visita com fotografias em grupo. Contudo, a neta, com delicadeza, me pediu que não publicasse fotografias onde ela aparece, pois valoriza demais sua privacidade, inclusive nunca teve redes sociais, e mencionou que, no recente lançamento do livro “Viúva Machado: a grandeza de uma mulher”, de Elzinha Bezerra Cirne, ocorrido na Pinacoteca Potiguar, participou do evento, mas declinou de qualquer registro fotográfico, tendo feito esse mesmo pedido à autora. Respeitei sua solicitude, compreendendo que sua escolha deve ser honrada. Às 16 horas despedimo-nos, e constatei que, às 17h em ponto, chegava em casa com o sentimento de quem vivenciou um dia singular. Conforme disse, pessoalmente ao sr. Humberto e à sua neta Amélia “Esse dia foi um presente”. L.C.FREIRE, Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

UMA BREVE SÍNTESE SOBRE O ASPECTO VISINÁRIO DE AMÉLIA DUARTE MACHADO

Amélia Duarte Machado, nascida em Mossoró em 1881, assumiu posição de comando após a prematura morte do marido Manoel em 1934, tornando-se pioneira no empreendedorismo feminino potiguar - uma verdadeira pioneira empresarial em momento em que, nascia o mito da “Viúva Machado”, alimentado por preconceito e medo, mas que mascarou sua coragem real. Sua visão estratégica se manifestou em inúmeros empreendimentos: administrou a Despensa Natalense, sócia de um império de importação, exportação e comércio diversificado.

Durante a Segunda Guerra Mundial, tornou-se fornecedora da Base Aérea de Parnamirim, adaptando seus negócios às demandas da época. Doou terras que se tornaram fundamentais para a aviação e expansão urbana: a base aérea, bairros como Morro Branco, Nova Descoberta, áreas como Petrópolis e ainda estruturas como o Parque Aristófanes Fernandes e instituições como o Colégio Atheneu. Manoel, seu esposo, também foi visionário em investir em terrenos que, hoje, definem a geografia urbana da Região Metropolitana – mas foi Amélia quem, com firmeza e visão, deu continuidade ao legado. Além disso, a lenda terrível, que prefiro sempre não contá-la, é fruto do machismo e da sociedade patriarcal que não tolerava a figura de uma mulher no comando. Cabe a toda pessoa esclarecida, resgatar a verdadeira dimensão dessa mulher - sua grandeza, humildade e contribuição extraordinária à cidade, longe das sombras das lendas. 

 

Sr. Humberto Mercucci e sua neta


A visita contou com diversos seguranças da propriedade




Antigas camas de mola, intactas, peças museológicas a serem preservadas para um futuro museu.




Escrivaninha usada por Amélia Machado

O filho, Humberto, abre o armário e conta sobre os LP's da mãe.







A fazenda foi esquadrinhada por nós em seus detalhes mais significativos.

O sr. Humberto Mercucci disse que essa tamarineira tem mais de 200 anos.



Eu, Rárica e o sr. Humberto Mercucci (A pedido da filha dele, Amélia, a excluí da fotografia).







Nessa imagem vemos uma bisneta de Amélia Duarte Machado (de camiseta branca), o bisneto (de camisa rosa) e a bisneta, de camiseta preta, abraçada pela avó.



Em todo momento uma parada para aquela aula magna e única, protagonizada pelo filho Humberto Mercucci.



O caseiro atual que vive na localidade desde que nasceu


Do meio do mato a chaminé do engenho vai se revelando




As grossas paredes resistem, intactas. Ao lado, bisnetos de Amélia Duarte Machado.




Cada elemento que se revelava entre a mata, uma história de que viveu ao lado de Amélia Duarte Machado



Há uma informação de que a fazenda guarda um túnel e que há um 'bunker',  o que pode ser esse.

A chaminé resiste, imponente, intacta.




Uma peça de ferro que segurava o telhado do barracão.








 Abaixo: link do documento que enviei a todos os vereadores de Parnamirim no dia 13.8.2025:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: CARTA DE APELO ÀS AUTORIDADES COMPETENTES DE PARNAMIRIM, NATAL E INSTITUIÇÕES CULTURAIS E DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Texto que escrevi sobre Amélia Duarte Machado no dia 7.8.25:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A DESCONSTRUÇÃO DO SILENCIAMENTO: AMÉLIA DUARTE MACHADO...

Texto que escrevi sobre Amélia Duarte Machado no dia 12.11. 2009:


Texto que escrevi sobre Amélia Duarte Machado no dia 24.5.2023:

Carta e Apelo aos vereadores de Parnamirim (a mesma acima), escrita em março de 2025 no blog PARNAMIRIM: TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: