ANTES DE LER É BOM SABER...

CONTATO COMIGO: (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. O pelo formulário no próprio blog. Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico. Fruto de um hobby, é uma compilação de escritos diversos, um trabalho intelectual de cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos de propriedade exclusiva do autor Luís Carlos Freire. O título NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE foi escolhido pelo fato de ao autor estudar a vida e a obra de Nísia Floresta desde 1992 e usar esse equipamento para escrever sobre a referida personagem. Os conteúdos são protegidos. Não autorizo a veiculação desses conteúdos sem o contato prévio. Desautorizo a transcrição literal e parcial, exceto trechos com menção da fonte, pois pretendo transformar tais estudos em publicações físicas. A quebra da segurança e plágio de conteúdos implicarão penalidade referentes às leis de Direitos Autorais. Luís Carlos Freire descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pelas raízes de sua mãe, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, um dos maiores genealogistas potiguares. O livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. 'A linguagem Regionalista no Rio Grande do Norte', publicados neste blog, dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não está concluída, inclusive várias são inéditas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-las, visando contribuir com o conhecimento, pois certos assuntos não são encontrados em livros ou na internet. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ, bem como o A Linguagem Regional no Rio Grande do Norte, fruto de 20 anos de estudos em muitas cidades do RN, predominantemente em Nísia Floresta. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Há muita informação sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, lendas, crônicas, artigos, fotos, poesias, etc. OBS. Só publico e respondo comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

FOTOGRAFIAS DA MINHA VIDA - EU E PARNAMIRIM (POR FRANCISCA HENRIQUE)...



 FOTOGRAFIAS DA MINHA VIDA - EU E PARNAMIRIM – FRANCISCA HENRIQUE – 20.4.2018

Vi Parnamirim pela primeira vez aos sete anos de idade. Era março de 1965, auge da Ditadura Militar, momento conturbado da História do Brasil, perpetuado como “anos de chumbo”. Morávamos no Sítio Jacaré, em Vera Cruz, cidade interiorana, distante 60 km de Natal. Meu pai, Luiz Marcelino da Silva, era agricultor. Além de cego, muito doente e teve frustrado o compromisso de manter a família, como rezava a tradição naqueles tempos.

Minha mãe, Regina Alce de Andrade, viu-se responsável por dois três filhos: eu, meu irmão caçula, José Francisco Alves da Silva, então com dois anos de idade, Francisca Alves Medeiros, de dezesseis, e Manoel Marcelino, de vinte e um. Em Vera Cruz, éramos agricultores, trabalhávamos juntos na roça, fazendo “leirões” para plantio de macaxeira, batata-doce, inhame e hortifrutigranjeiros básicos e tínhamos alguma criação. 

Naquela época não existiam amplas políticas públicas de assistência, como as atuais. A cidade mais parecia uma fazenda sem a mínima estrutura, sem emprego, sem dar esperanças a ninguém, onde o que se quisesse deveria ser arrancado da terra, portanto, muito suado. As famílias mais abastadas da região não eram tão solidárias, certamente temerosas da próxima estiagem e da possibilidade de dificuldades futuras. Era cada um por si, e para uma mãe cheia de dignidade e decência, esmolar era uma prática impensável impensável. 

Vera Cruz foi onde o famoso monsenhor Antonio Xavier de Paiva fez dali a “Colônia” que abrigou mais de 600 pessoas famintas, fugidas da seca terrível que assolou o Rio Grande do Norte em 1877. Todos nós crescemos ouvindo as mais amargas histórias de miséria desse longínquo tempo. Mas o fantasma da fome ainda assombrava o pequeno distrito. E minha mãe quis exorcizá-lo.

A palavra-mestra da minha mãe era “trabalhar, arrumar emprego, melhorar de vida”. Nossa situação econômica era precária e isso trazia muita inquietação principalmente à minha mãe, a qual tornou-se o esteio da família. De uma hora para a outra vimo-nos sem horizontes. Somente ela poderia buscar um porto seguro, o qual não poderia ser naquele município acanhado e com o mínimo a oferecer. 

Certo dia minha mamãe decidiu tomar o rumo de Natal. Ela saiu com a minha irmã mais velha, vislumbrando um lugar promissor, justamente pela condição do meu pai que precisaria de maiores cuidados, além de oportunidades mais amplas de trabalho para ela e os filhos. Elas chegaram a Parnamirim e, por incrível que pareça, dali não quiseram passar. Houve uma química involuntária. A cidade, ainda acanhada, mas com um movimento que não se comparava com Vera Cruz, cativou-a. Ela apaixonou-se por sua topografia plana, o sabor da água, enfim sentiu que a terra do rio pequeno era a grande solução. Nessa ocasião uma prima de minha mãe, Maria Nazaré de Souza, residia aqui há um bom tempo e isso a animou ainda mais, pois era uma referência, mas mesmo assim mamãe não queria recomeçar a vida incomodando parente.

Naquele mesmo dia, muito constrangida pela precisão, mas empurrada pela necessidade, mamãe recorreu ao saudoso prefeito José Augusto Nunes, o qual se tornaria para sempre uma referência para a minha família. Era um homem público muito prestativo. Ela contou-lhe a sua história. Ele se compadeceu e ofereceu, por empréstimo, um galpão que poderia abrigar a nossa família enquanto as coisas melhorassem. O galpão era composto por um quartinho e um banheiro coberto com telhas. Um alpendre o abraçava totalmente, coberto com palha de coqueiro. O terreno era cercado com um muro de 80cm de altura. 

O gestor prometeu um terreno para minha mãe construir uma casa, pois o galpão fora uma doação do Clube dos Caçadores de Natal para a Matriz de Nossa Senhora de Fátima construir a igreja de Santos Reis (esse galpão ficava onde atualmente se localiza a avenida Senador Georgino Avelino e ficou no meio da avenida e, no futuro, na lateral do Ph3). 

Tendo obtido êxito naquela audaciosa atitude, mamãe e minha irmã retornaram à Vera Cruz. Ela conversou com papai, e em comum acordo decidiram deixar Vera Cruz. Viemos ‘de favor’, num caminhão Ford antigo. Ela conversou com o motorista; ele vinha trazer tijolos para Natal e aceitou nos levar. A maior parte da carroceria estava tomada de tijolos. Assim acomodamos nossas poucas tralhas num espaço menor e deixamos para sempre Vera Cruz. 

Lembro-me que um bom trecho da estrada era de terra batida emoldurada por mata nativa. Na minha ingenuidade de criança, conforme o caminhão ganhava velocidade, eu imaginava que era a paisagem que passava ligeira por nós, e não o veículo. Assim, olhava admirada os morros, os rios, as pontes e árvores desembestados, fazendo o caminho inverso. Lembro-me como se fosse hoje o cheiro dos tijolos. Passei a viagem cutucando seus 'chaboques', passando o dedo em seus contornos, cheia de imaginações. Nunca pensei que aquela viagem triste e aquelas pequenas peças de barro cozido – que serviam para construir – impactariam o meu futuro de maneira incomum.

Apesar dos meus oito anos, entendia o que se passava com a minha família. Aflorava em mim o gosto amargo de incerteza e dúvida. Suponho que uma criança de hoje, diante da mesma situação, dificilmente teria a sensação igual. Naquela época existia um jeito diferente de ser criança. Como afirmam os grandes pedagogos, éramos adultos em miniatura, pois de maneira muito espontânea eu ajudava os meus pais nos afazeres domésticos e na roça. Tínhamos responsabilidades que já não se veem aplicadas nos dias atuais. E tudo ocorria de maneira muito natural. Mamãe, apesar de forte, nunca foi uma mulher autoritária.

Enfim, chegamos a Parnamirim pela velha BR 101. Descemos na esquina da rua Aspirante Santos e fomos recebidos justamente pela prima de mamãe, a qual morava na referida rua. Ali almoçamos, guardamos as bagagens e as poucas coisas que trouxemos. Aos poucos fomos transferindo para o bairro de Santos Reis, onde ficava o galpão, cujo meu irmão mais velho cercou com palhas de coqueiro. Essa foi a nossa primeira residência em Parnamirim. Ali moramos durante nove meses, pois minha mãe não se acomodava àquela situação, mesmo que houvesse um certo conforto. Ela queria a sua casa. 

Nesse interim, mamãe conseguiu uma doação de 5 mil tijolos. Mas quando o prefeito Augusto Nunes viu o material alegou que não seria possível doar o terreno, pois em imóveis doados não se construía em alvenaria. Exatamente nessa semana o trator da Base Aérea estava terraplenando as ruas e avenidas do bairro Santos Reis. Quando a lâmina rasgava a terra, revolvendo os seus torrões e as raízes, emanava um cheiro que, hoje, soa-me como perfume. Perfume de saudade. Perfume de inocência. Perfume de pureza. Perfume de luta!!!

A máquina motoniveladora Caterpilar revolvia as raízes das árvores e arbustos que outrora se espraiavam na antiga campina. Ali estava o combustível do nosso fogão a lenha. Diariamente recolhíamos os gravetos e pedaços de tocos que se espalhavam em abundância, arrancados pelas máquinas. Com o tempo, íamos buscar lenha numa mata fechada, onde atualmente está a Bonnor. Essa foi a primeira avenida aberta naquele bairro.

Enquanto os serviços aconteciam eu e meus irmãos nos despedíamos do imenso tabuleiro coberto de alecrim, berço e cúmplice da nossa infância. Nele colhíamos guabirabas, cajuítas, azeitonas e araçás. Ali nos divertíamos, subindo nas árvores, brincando de esconde-esconde, observando os passarinhos. Nas ruas de barro, brincávamos de “roladeira” e Pipa. Essa mata foi o mais delicioso parque de diversão que tive junto ao mano caçula. 

Já extinto naquela época, o Clube dos Pescadores deixou uma quantidade infindável de chumbinhos esparramados na mata. Mamãe pedia que recolhêssemos para vender. Com um carrinho de mão, eu percorria toda Parnamirim com meus irmãos, recolhendo alumínio, vidro quebrado e osso.  Naquela época era comum a venda de todos esses materiais. Mamãe vendia para manter a casa. Também apanhávamos esterco de gado para a sua bela horta, onde ela plantava de tudo para venda e consumo nosso.

Parnamirim era calma e bucólica, mas isso não dirimia a vigilância de mamãe para conosco. Ela não permitia que nos demorássemos nos momentos que saíamos para brincar praticamente nos fundos do quintal. A simplicidade de quem nunca estudou não lhe furtou a sabedoria da vida. Sempre teve um dito popular ou jargão para as mais diversas situações, o que não deixa de ser um modo de filosofar. Vigilante, dizia “boa romaria faz quem em sua casa descansa em paz”, dentre tantos. Ela nunca permitiu que vivêssemos totalmente soltos e nas casas alheias. “Brincar na rua, só perto dos meus olhos”, dizia.

Retornando ao contexto de nossa morada no galpão, nessa época o advento da energia elétrica e o asfalto ainda não havia chegado a Parnamirim. A única fonte potável era o “cacimbão de Luís Rodrigues”. A água subia em latões amarrados em cordas, obtidas a 30 metros de profundidade. Em 1974 se tornou o chafariz público. Todo o material para a sua construção ficou guardado em casa, a pedido do poder público, pois era uma forma de mantê-los intactos.

Para melhorar o orçamento da casa, minha mãe lavava roupa para fora. Esse serviço era feito nos braços do rio Pitimbu, exatamente em Passagem de Areia. Mamãe fazia trouxas de diversos tamanhos e levávamos na cabeça. Ali, cada um tinha a sua pedra de apoio, onde se agachava e passava o dia ensaboando e enxaguando as peças. Depois de lavadas eram estendidas no arame farpado que divisava os sítios, outras, ficavam sobre arbustos e algumas quaravam na própria grama. A margem do rio ficava colorida de roupas, como um grande tapete, pois noutros pioneiros se somavam nesse ofício.

Como éramos crianças, transformávamos esse evento numa festa. Na hora do almoço comíamos peixe “avoador” com farinha; com direito a uma das mais deliciosas e notáveis frutas brasileiras, a manga, muito nutritiva e o grande alimento dos pobres. Que orgulho eu sinto pela oportunidade de contar tudo isso! É a nossa verdade, é dignidade. Sinto-me transparente!

Todo morador possuía em casa uma calha inclinada para um tambor ou reservatório de alvenaria, onde era guardada água de chuva durante um bom tempo. Ela coava essa água pluvial que servia para tudo. O filtro de barro se encarregava de torná-la potável.

Um detalhe interessante era a lagoa que se formava defronte ao atual Banco do Brasil no bairro COHABINAL. O fenômeno ocorria nas grandes invernadas, quando as águas se demoravam meses nas bacias moldadas pela própria natureza. Como as terras eram arenosas e esbranquiçadas, a “lagoa” era límpida e transparente. Ali mamãe lavava roupas enquanto nos banhávamos. Foi a melhor piscina da minha vida. Ela nos orientava a brincar no lado oposto para não “baldear” a água e sujá-la. A alegria não cabia em nós. 

Nessa ocasião o prefeito Augusto Nunes sugeriu a mamãe comprar um terreno no loteamento Santos Reis. Minha mãe falou da impossibilidade, pelo menos naquele momento, pois vivia de serviços informais e o pouco dinheiro obtido era apenas para as coisas básicas. Ademais, tinha que cuidar de papai. Era impossível manter o compromisso, principalmente a uma mulher tão correta e honesta. 

Creio que ao longo do tempo, observando as atitudes da minha mãe, o gestor percebeu a sua idoneidade, sem contar a sua pobreza material. Então propôs ser o avalista. Um dia ele mandou chamá-la e disse ao saudoso corretor Domingos Praxedes: “venda um lote para dona Regina; se ela não puder pagar eu pago”. 

Nesse dia mamãe, que sempre dizia “Deus provê, Deus proverá”, se prostrou ante a cama, orando em agradecimento. Ela escolheu o lote na esquina da rua Pedro Bezerra Filho com rua Senador Georgino Avelino, onde foi construída – lentamente – a sua casa própria. Com o seu olhar clínico, ela dizia que área de esquina era propícia para ponto comercial devido à visibilidade. Outro ponto interessante: o prefeito pagou a primeira prestação; as demais, cinquenta e nove, foram quitadas por mamãe, ajudada por parentes e amigos. O contrato foi cumprido! 

Confesso que quando assisti a demolição dessa casa, cinquenta e um anos depois, para dar lugar ao Yázigi, senti um incômodo, pois só eu sabia o sacrifício imensurável de sua construção. Só eu conhecia os esforços para se obter cada tijolo, cada viga, cada porta, cada saco de cimento. Cada elemento que sucumbia aos solavancos da máquina era uma página de minha história. Aquilo parecia rasgar o meu corpo, pois era parte de mim.

Vendo os tijolos sendo arrancados e as paredes desabando descerrou-se uma cortina e retornei no tempo. Durante bons minutos observei as metralhas sendo revolvidas, a poeira subindo, misturando-se às minhas lágrimas. Só eu sei as lembranças avivadas. Em meio dia vi o sacrifício de quase um ano de serviço desaparecer. Confesso que senti o cheiro do fogão a lenha, o fogo crepitante, a fuligem, a fumaça evolando pelos cômodos, o delicioso café, a bata-doce, a macaxeira, o peixe voador no coco preparado na panela de barro... um filme real projetou-se na minha mente. 

Lembro-me que o maior desafio da minha mãe foi construir a nossa casa. Como erguê-la sem recursos? Nessa época, minha irmã mais velha foi trabalhar de doméstica e meu irmão mais velho vendia pão e bolo na feira do centro da cidade, ao lado do Mercado Público. Minha mãe deixava meu pai e o meu irmão de três anos sob a minha responsabilidade. Meu irmão mais velho ia para o interior trabalhar para obter alimentos. 

Nesse período o sargento reformado da Polícia Militar, “João Cabelo Caque”, como era conhecido, visitou o galpão e fez uma proposta para minha mãe. Como era sanfoneiro, propôs fazer um baile nos finais de semana. A cota ficaria para o sanfoneiro e a renda do botequim para a minha mãe. A proposta soava de certo modo estranha para ela, a qual nunca lidara com comércio, mas a necessidade a empurrou novamente, e como não havia nada de ilícito no empreendimento, ela o assumiu, dizendo que “vergonha é roubar” e “Deus ajuda quem trabalha”. 

Seu sonho era garantir moradia digna à família. Por mais que existisse a boa vontade do prefeito Augusto Nunes, o galpão não era o lugar adequado. Para iniciar o projeto do Forró, minha irmã fez uma rifa de um colar para comprar as bebidas e os tira-gostos. Como não existia energia elétrica, iniciamos com candeeiros alimentados a querosene.  

Mas dizem que quando somos do bem, Deus usa anjos para realizar os nossos projetos. Eis que surgiu o Sr. Manuel do Rosário. Ele viu a necessidade e emprestou um lampião a gás. Outro anjo era conhecido como “João do depósito”, responsável pelo único depósito de bebidas da cidade. Chamavam o lugar de “Enchimento”. Mesmo sem conhecer minha mãe ele forneceu refrigerantes para o chamado botequim. Ela pagaria após o evento apenas o que fosse vendido. Foi uma benção! Outro anjo foi o Capitão Salatiel Rufino dos Santos, Delegado de Polícia, que a apoiou em termos de segurança. Ele vinha pessoalmente fazer cobertura junto com seus praças. 

Entendo que tanta gentileza e bondade nasce, além da Providência Divina, da respeitabilidade que minha mãe construía junto às pessoas. Ela teve a sorte de receber apoio de pessoas de bem, que viam os seus esforços e se sentiam animadas a ajudá-la.

Lembro-me com riqueza de detalhes dos bailes, das músicas saudáveis, das famílias presentes. Eu e meu irmão caçula ficávamos deitados numa rede num cantinho do salão, observando até o sono aparecer. Eu percebia que aquilo fazia bem para mamãe, pois sua fisionomia era outra. Só o trabalho traz dignidade. Aqueles bailes trariam algo melhor para a nossa família. Era assim que eu pensava, embalada na rede. Isso me deixava feliz. Que saudades do guaraná, da Crush, da Grapette...

Com o pequeno lucro obtido na realização de alguns bailes mamãe foi construindo uma casa de quatro cômodos. Mas após nove meses, uma vizinha sentiu-se incomodada com o barulho e denunciou ao padre Geraldo. Ele pediu que ela encerrasse a atividade, alegando que havia um material de construção naquele espaço, que seria usado numa futura igreja e não combinava um ambiente de música. Certamente entendiam que uma maldição acometeria as alvenarias... algo do tipo! 

Mamãe ficou triste, mas não externou o sentimento nem dirigiu qualquer palavra contra a denunciante. Ela iria perder toda a mercadoria perecível. Mas, para surpresa de todos, fez o baile daquela mesma noite. Para quê! O padre apareceu num rompante, vestido com sua tradicional batina e, em tom alto, disse: “A SENHORA NÃO ME OBEDECEU? FEZ O BAILE? POIS VOU DENUNCIÁ-LA AO CORONEL PAULO SALEMA GARÇÃO RIBEIRO, COMANDANTE DA BASE AÉREA. 

No mesmo instante, surpresa com a atitude do padre, e apavorada por correr o risco de perder as comidas anteriormente preparadas, olhou para o religioso firmemente e disse: “Reverendo, eu tenho muita mercadoria que será perdida, se tivesse recebido a orientação dias antes, não a teria desobedecido. Mas saiba de uma coisa, mais tem Deus para dar! Não se preocupe que esse foi o último baile de dona Regina. Na realidade o evento tinha começado às dezenove horas. Era quase nove da noite e o prejuízo não seria tanto. Seja como for, surpreendi-me com mamãe, pois ela poderia ter ficado sem palavras, chorado e recuado... mas, pelo contrário, ela defendeu-se muito bem. Restou-lhe agradecer a todas as pessoas que a ajudaram, e o baile foi extinto.

Seu maior desgosto era porque através daqueles bailes ela obtinha dinheiro para construir a nossa casa. Durante as grandes chuvas a água respingava forte no interior do galpão. Meu irmão consertava a todo instante a parte de palha, mas o material perecível se decompunha facilmente. Lembro-me com nitidez das noites de inverno leve, quando eu ia dormir sentindo os “farelinhos” de chuva respingando no meu rosto. É incrível como a gente sente saudade dessas coisas tristes, mas que mesmo assim tinham resquícios bons. Creio que essas fotografias infantis são eternas.

Até esse episódio, mamãe não queria se mudar porque a casa ainda não tinha portas e trazia o piso de terra batida. O término dependeria, a partir daí, dos bicos da própria família, principalmente dos meus dois irmãos. Enfim, após muito suor, trabalho e renúncia, nos mudamos em 1966, ou seja, há 51 anos. Por incrível que pareça, foi a primeira casa construída no loteamento Clube dos Caçadores de Natal. Fomos os pioneiros dali.

Em 1972, aos 15 anos, conheci Henrique, o qual se tornaria o meu eterno marido. Esse encontro ocorreu no famoso cinema da Base Aérea, herança deixada pelos norte-americanos. Iniciamos namoro alguns dias depois, pois mamãe dizia que precisamos conhecer as raízes das pessoas para saber da sua idoneidade. Alegava que o  “casamento era para sempre”. 

Nosso ponto de encontro para namoro era no “Solanche”, onde lanchávamos e tomávamos Crush. Na época da Festa do Boi íamos a pé. Era um acontecimento! A primeira vez que vi uma pastilha Garoto foi no “Fiteiro do Sargento Jorge”. Inesquecível! Essas fotografias plenas de simplicidade eram um céu para nós...

Naquela época participávamos das festas no “Potiguar Esporte Clube”. Eram lindas. Lembro-me das bandas “The Fevers”, “Impacto Cinco”... Época de vestidos reformados sucessivamente para ficarem novo de novo. E os sapatos eram usados durante o ano todo. Esse espaço, também puramente familiar, marcou a história de Parnamirim.

Em 1973, aos 16 anos, consegui o meu primeiro emprego na “Casas Cardoso”, em Natal. Foi o dia mais feliz da minha vida. Ia pela manhã no ônibus da “Autoviação Sena” e só retornava à noite, após as aulas, pois estudava no colégio Nossa Senhora de Fátima. Às 22h00 ia pra Ribeira a pé, de onde saia o último ônibus. Acabei me tornando parte do esteio da casa, pois o que eu recebia era administrado por minha mãe nas coisas do lar. Mesmo não podendo comprar os vestidos e os sapatos dos meus sonhos eu dava graças a Deus e era muito feliz.

No dia 28 de junho de 1975 experimentei pela primeira vez a experiência da morte de um familiar. Meu pai faleceu. Confesso que sou incapaz de traduzir em palavras o que essa perda significou para mim. Embora papai viu-se obrigado a ser um homem ocioso devido à cegueira, era conselheiro e de sua boca só saia o bem. 

Nessa ocasião Parnamirim, apesar de ser um município novo, conservava uma prática dos primórdios da história do Brasil. Havia no cemitério o chamado “Caixão das almas”. Servia para as pessoas pobres enterrarem os seus entes. A peça era levada para casa, onde se recolhia o defunto e o transportava para o campo santo, depositando-o na cova. Todo morto era velado nele. Eu não tinha reservas, mas não conseguia imaginar o meu pai sendo enterrado daquela forma. Para aumentar a angústia, era final de mês e chovia a cântaros. Parecia que o céu estava desabando. Quase tudo convertia para dificultar as providências que se faziam urgentes. 

Pensei em pedir um adiantamento de salário, mas recuei. Chegando à funerária constatei – por mais inacreditável que pareça – que o frete importava no valor da urna funerária. Voltei a Parnamirim ‘ensopada’, desci ao lado da prefeitura e procurei o prefeito Sr. Marceliano de Almeida Neto, expus o fato e ele autorizou que o único veículo da Prefeitura, uma Kombi verde, cujo motorista, Sr. Carlito, ficasse à disposição da nossa família. Mamãe precisou tomar dinheiro emprestado, reposto no meu pagamento. Nesses conformes fomos a Natal buscar o caixão de papai. Foi difícil, mas lhe permitimos essa última dignidade. Muitos ficaram impressionados, pois somente os ricos eram enterrados em caixão.

A ausência do velho Luiz Marcelino doía como ferida magoada. A casa ficou vazia, mas as coisas tinham que continuar. Permaneci morando ali com a minha mãe e José Francisco, irmão caçula. Nessa época meu irmão já havia se casado e morava em Vera Cruz. Minha irmã preferiu permanecer aqui. 

Cada vez mais se agigantava em mim a vontade de ampliar os meus conhecimentos, pois sentia que somente através da educação eu me salvaria daquelas experiências turbulentas e sofridas. Permaneci trabalhando nas Casas Cardoso, a qual me doei como nunca, mas sabia que aquilo não era o meu destino. Mesmo lidando diariamente com tecidos, vivia cercada de livros e revistas, lendo tudo o que aparecia pela frente. 

Todo o meu ensino fundamental foi feito em casa, de maneira autodidata. Tudo orientado por meu irmão, o qual me alfabetizou. Aos dez anos tinha perfeito domínio da escrita e fazia todas as operações; aos quinze, resolvia contas avançadas. O que me ajudaria muito na conquista do meu emprego quando adquiri mais idade. Só em 1977, aos dezesseis anos, passei a estudar em escola regular de Parnamirim, no famoso Colégio Cenecista Augusto Severo, referência naqueles tempos. Que saudade dos professores Zefinha Paisinho, Raimunda Basílio, Elienai, Nestor Lima, Carlos Andrade e outros... foram nove meses ali.

Enfim, em julho desse ano casei-me na Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima, sob as bênçãos do Padre Alcides. Parnamirim encontrava-se com oportunidades muito limitada, portanto decidimos morar em São Paulo. Foi dolorido deixar minha mãe, mas no ano seguinte ela foi morar comigo, realizando o seu grande sonho. Na famosa “terra da garoa” adquiri o hábito de visitar escolas, museus e instituições públicas. Era praticamente um vício. Bastava sobrar um tempo e lá estava eu dentro de um educandário, indagando tudo.

Em 1981 resolvemos retornar a Parnamirim, onde Henrique montou uma cantina, aplicando ali todo o dinheiro que havíamos conseguido no Sudeste. Quando o gerente da “Casas Cardoso” soube do meu retorno, convidou-me a retomar “o meu posto” de balconista. Naquela empresa eu tinha construído uma família. Então conclui o segundo grau na escola Winston Churchil. Devagarinho ampliamos a casa de mamãe, trazendo mais conforto.

Em 1982 experimentei a graça de ser mãe. Nasceu Paulo Henrique, meu primogênito. É indescritível a maternidade. Ela nos transforma, nos amadurece a olhos vistos. Creio que a predisposição natural de permitir a um ser humano vir ao mundo nos agiganta enquanto mulher e mãe. Foi a mais preciosa experiência da minha vida.

Iniciado o ano de 1983 comecei a lecionar na Escola Municipal Joana Alves, aqui em Santos Reis. Nesse tempo eu cursava o Logus II, projeto realizado em alguns estados do Brasil, com objetivo de formar professores leigos em regime emergencial, com habilitação em segundo grau para exercício do magistério. A experiência de ser um pilar na construção do conhecimento junto aos meus alunos foi uma das mais belas que já vivi.

Em 1984 a graça da maternidade me presenteou com a minha Heloisa Henrique, a qual foi batizada pelo Padre Alcides. Escolhi como padrinhos Ronaldo Souza e Maria Laide, pessoas muito estimadas por minha família. Neste mesmo ano concluí o Logus II. 

Em 1985 obtive aprovação no concurso da rede estadual de ensino, assumindo minhas funções na Escola Estadual Dr. Antônio de Souza. Nesse templo sagrado de educação ampliei meu rol de amizade entre alunos, funcionários e colegas de profissão, como exemplo Salete Vieira, Salete Maciel, Eva Lúcia, Alda Leda, dona “Tecinha”, Raimunda, Nilda, Ana Maia, Rildo, Ivanildo, Ricardo Wagner e tantas outras pessoas. São presentes que a profissão me ofertou. Quanto aos meus ex-alunos, todos são pais e boa parte avós. Nunca passam por mim sem um alô, um abraço... é aquela coisa que somente os educadores experimentam.

Mas, conforme expliquei anteriormente, cada vez mais se ampliava a minha vontade de estudar. Eu sempre tive uma sensação inexplicável de realizar algo grande, mas não sabia exatamente o que era. Engraçado! Creio que aquela garra de mamãe me foi transmitida por osmose, embora numa ótica diferente. Não parei por aí. 

Em 1986 fui ao INIEP do Prof Samuel Fernandes Pimenta e me matriculei na disciplina de Inglês e Português para prestar vestibular. Estudei como nunca. Muitas vezes atravessava a madrugada devido aos afazeres domésticos. Minha pequena Heloísa, bebê, era embalada por “canções de ninar” incomuns. Eu cantava os textos e os questionários de literatura para que ela dormisse. Era a fórmula que encontrei para ela dormir enquanto eu aprendia. Fui aprovada e iniciei o curso de Letras na UFRN em 1987. 

Quando ressalto certos detalhes da minha experiência de vida não os digo como pensasse que "descobri o Brasil". Nada disso! Sei que muitas pessoas também sofreram dores semelhantes em outras situações e lugares. Enalteço essa trajetória porque foram experiências completamente diferentes de hoje. Não existiam muitos incentivos. As dificuldades eram incomparavelmente maiores. Hoje os estudantes têm facilidades que quisera eu tê-las obtido na minha mocidade. Até mesmo a oferta de empregos é incomparável.

Enfim, conclui o curso de letras em 1991, cujo estágio foi no método Paulo Freire, experiência indescritível e que me marcou muito. Em seguida assumi a implantação da SEBE e SPG em Parnamirim. O primeiro formava o aluno no ensino fundamental, o segundo, no ensino médio (espécie de EJA). Muito bem preparada na UFRN eu trouxe esses projetos para a nossa terra. Percorria as escolas de todo o município, orientando os professores e formando-os. Muitas vezes fui de ambulância, devido à precariedade da época. As pessoas riam, como se estivesse chegando à escola uma pessoa doente. 

Hoje soa divertido! Tais experiências acabaram se tornando o laboratório  que me lapidou, revelando aquela coisa inexplicável que me empurrava para realizar algo grande em Parnamirim. Eu precisava começar. Quando me formei na UFRN, ganhei um diploma no meu estágio, justamente por minha doação e a experiência adquirida nos projetos acima mencionados. Fui a primeira divulgadora do grande educador Paulo Freire em terras parnamirinenses.

Como educadora entendi que o alicerce da nossa vida educacional deve ser feito nos anos iniciais, pois, bem construído é parâmetro para o sucesso de qualquer pessoa. Em 1991 fundei o Núcleo Educacional Arco-Íris que inauguramos em 1992 com 120 alunos. Como sempre fui expansiva e extrovertida, escolhi esse nome pela alegria que o arco-íris nos transmite, e pelo fato de Parnamirim ser um arco-íris de raças, cores e culturas, afinal para cá convergem pessoas de todos os rincões potiguares e até mesmo de outros estados e países. Onze anos depois, com o êxito da instituição mudei o nome para Ph3, homenagem aos meus dois filhos. Também costumo dizer “Potencial Humano ao Cubo” e “Paz e Harmonia”.

Em 1997, 33 anos após a nossa chegada a Parnamirim, experimentei novamente a sensação da morte, perdendo a minha mãe. Tive a sensação de que o chão sumiu. Eu não acreditava. Como perder um porto seguro? Como perder um guia? Já anciã, mas lúcida e cheia de autoridade, era um “paviozinho” aceso, alumiando minha vida, mas deu a queria ali. Como perder aquela luz! Meu Deus! É experiência mais amarga do mundo. Não consigo traduzir em palavras essa experiência experiência. 

Sua morte me obrigou a perceber lentamente uma grande e preciosa verdade. Ela, que fora uma fortaleza, tinha me feito forte. E daquele momento em diante cada filho estaria no comando de si. Como é difícil a experiência da morte de um ente amado. Mamãe foi uma fortaleza. Mulher decidida, de iniciativa e posições firmes. Minha experiência junto a ela fertilizou o meu espírito para que eu triunfasse. Seu nome, Regina, em latim, significa “Rainha”. Eu a chamava de “minha rainha”. Rainha por excelência, por ter sido parte fundamental de tudo o que eu e os meus irmãos somos, cada qual com suas peculiaridades. Sua coragem, sua audácia, seu dinamismo ficou conosco.

Atualmente, olhando o Yázige construído sobre as metralhas da casa de mamãe, construída com esforços descomunais em que sabia quanto custou cada item, construí um belíssimo prédio para abrigar o auditório do Ph3 e sede do Yazigi. Essa casa também foi minha durante anos. Meus filhos cresceram ali. Mesmo casada, mamãe quis que seu estivesse ao seu lado. Às vezes penso que ela supunha que eu fosse o seu porto seguro. Se o fui, ela que o fez.

A vida segue. Minha mãe estava no céu e isso me basta. Segui a minha vida. Associar a função de professora estadual e municipal com a minha escola tornou-se muito difícil. Nunca fui pessoa do “fazer por fazer”, ao modo laisse faire. Na realidade era possível conduzir as duas funções, mas associá-las ao meu colégio era complicado. Eu sentia que era um engodo. Estaria fazendo de conta que dava aulas. Nunca! Jamais! Foi exatamente nesse ano que pedi exoneração da função de professora da rede municipal, exercendo-a durante 20 anos. Então dediquei-me amplamente ao meu colégio, e com tempo para o ensino público. Hoje o Ph3 é uma escola de referência, de acordo com órgãos externos. A internet está aí para todos verem e conhecerem detalhes sobre essa instituição. Em 2003 me aposentei do município.

Em 2009 recebi o prêmio do MPE Brasil em termos de Gestão de Qualidade. Em 2012 recebi novamente o mesmo prêmio pelo Sebrae e cheguei a finalista a nível nacional. Fui a Brasília receber o troféu, ocasião em que estava presente um representante do Ministro da Educação, dentre renomadas autoridades da educação e de outras áreas. Nesse mesmo ano recebi o Prêmio de Responsabilidade Social, também pelo Sebrae. Desde 1999 recebo anualmente o prêmio melhores do ano. Recebi o prêmio Noilde Ramalho, ícone em Educação e recentemente a medalha Eva Lúcia, pelos serviços prestados à Parnamirim. Também recebi o título de cidadã parnamirinense, em 1998, justamente fruto desse histórico.

Muitas pessoas me perguntam qual é o segredo do PH3. Numa breve síntese, o Ph3 é uma escola de excelência pois dei a Parnamirim uma instituição que trabalha os conteúdos, aliados a eles a formação humana, educação Holística que vê o ser humano nas suas quatro dimensões: física, cognitiva, emocional e espiritual. Uma educação humanizada, na qual colaboradores e alunos são respeitados na sua individualidade.

Confesso que, embora esses prêmios e méritos notáveis - tão almejados por muitos - sejam preciosos na minha história de educadora, eles nunca me tornaram uma pessoa prepotente ou tentada a se projetar como superior ao que quer que seja. Tudo é fruto de muito trabalho, foco, muito estudo, investimento, luta e coragem. Hoje, tenho a graça de ter comigo a minha segunda rainha, minha Heloísa, bem como o meu filho querido. Assim a nossa história se perpetua.

Em 2017 assumi a SEMEC foi uma grande experiência, mas assuntos de outra ordem abortaram os planos. Lamentei muito não poder colocar um tijolinho na educação pública do meu amado município, terra que escolhi morar e empreender. Mas a vida continua. As obras continuam. Todos conhecem todos. As coisas se revelam necessariamente sem exigir palavras.

Hoje, quando relembro daquela menininha de oito anos, de vestidinho vermelho, na carroceria de um caminhão, cutucando tijolos e fantasiando mil coisas, compreendo que tudo foi o prenúncio da história que desencadearia a partir dali. Aqueles tijolos, aquelas metáforas já assinalavam muito, pois tijolo é construção. Eles foram o primeiro sinal. Minha mãe, cheia de honra, foi uma mulher que transformava tudo a partir do nada. E isso foi transmitido para mim.

Fui uma mulher igual a mamãe, mulher de obras. Valeu a pena! E como valeu a pena. Só tenho a agradecer a todas as pessoas que passaram pela minha vida, em destaque muito especial ao meu marido, meu grande aliado, amigo e parceiro eterno. Em destaque à minha genitora, meu porto seguro, meu amor maior. Aquela que me ensinou a ser um ser humano pleno, cuja imagem eu vejo por onde ando e constato trabalho, luta e a coragem de vencer. Mamãe foi uma mulher-coragem. Mulher com ‘M’ maiúsculo. Mulher que teve a oportunidade de vencer, ou tentar vencer por caminhos não convencionais, mas escolheu a estrada da dignidade, da decência e se fez exemplo até a morte.

Minha história não é mais nem menos bonita dentre as de tantos pioneiros. Mas eu sei o quanto me custou cada tijolo, cada página da minha vida. Só tenho a agradecer a Deus por tudo. Não tenho nada a pedir. Sinto orgulho da minha humilde casa de taipa, do “meu” galpão de palha, enfim do meu passado, pois esse baú fotográfico não me vergonha. 

Como educadora, tenho consciência de que o meu legado – e o de outros pioneiros – simples ou sofisticados – pode inspirar muitas crianças e jovens, os quais colocarão muitos tijolos em muitas obras, sejam físicas ou intelectuais. Parnamirim precisa de todos.

Francisca Henrique - 2018

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