Lendo Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), num dado momento ele diz: "(...) E aquele amigo poderoso, que te quer não como amigo, mas como parte do seu cortejo?". A citação – escrita antes de Cristo – traz à luz experiências que vivemos nos dias de hoje. Não diria que quem as vivencia, o faz com "amigo poderoso", como escreveu o famoso filósofo espanhol, mas com pessoas que imaginam-se poderosas, e acham que todos têm na face um outdoor de cortejo.
É muito atual a citação. Ela é curta, mas imensa em significação, afinal tais "poderosos" almejam a presença de outras pessoas apenas para cortejá-los, envaidecendo-os em seus engenhos e artifícios. O objetivo desses "poderosos" é unicamente usar pessoas para diversos intentos, inclusive para a sua projeção. As pessoas são importantes apenas para integrar o cortejo que ele criou para obter algum proveito. A pessoa, na realidade, é um objeto.
Normalmente esse cortejo consiste – em sua maior parte – de pessoas quase desprovidas de inteligência, afinal tais perfis são perfeitos para as funções que receberão. Mas não é só assim. Eles – os tais "poderosos" – costumam também criar estratégias para atrair pessoas altamente esclarecidas e com visão: elas servem como cérebro para eles. Funcionam como escudos. São pilares que sustentarão inicialmente a arquitetura dos seus "empreendimentos".
No bojo disso tudo, onde se incluem do débil ao sábio, muitos podem ser vítimas de táticas deploráveis de conquista de poder. Muitos podem ser parte de algum cortejo.
Logo que o "poderoso" atinge o seu objetivo reduz todos a um cortejo homogêneo (deixando os débeis livres e os ilustrados podados), pois ele não pode mais ter escudos. Ele é o próprio escudo, ou melhor, "o cabeça". É o primeiro da fila e deve ser cortejado. É a estrela. E não se sente satisfeito com o brilho de outras estrelas.
É assim que muitas pessoas agem com muitas pessoas. Certo que não são todas, mas muitas. E tais empreendimentos tornam-se mais prósperos onde existe menos massa cinzenta. Daí a razão de gostar de alguns estarem “acolonhados” com os débeis, pois estes bajulam.
Assim agem muitas autoridades, desde um simples diretor de escola a um reitor. Um simples secretário municipal a um embaixador. Da presidente da associação de bairro a uma ministra.
Na vida o que importa é o bem, é agirmos com justiça, é promovermos a civilidade e a cidadania, é procurarmos o bem. Mas não podemos ser ingênuos ou omissos quando os maus aparecerem para dar vazão ao que são, no intuito de apagar a nossa luz. No mundo também existem pessoas que tentarão nos prejudicar simplesmente porque fazemos algo bom, ou porque somos bons. O bom e o bem costumam incomodar tais seres. O homem mau sempre praticará o mal.
Na bondade de qualquer pessoa deve estar sempre atrelado o detector do mau, do contrário não seríamos bons nem para nós mesmos. E quando o mau aparecer, que demos as costas, que ajamos com indiferença, que deixemos passar. E se o mau insistir, existem os caminhos certos para o fulminarmos. Fulminar não cabe a nós. Cabe a nós detectar. Fulminar cabe à Justiça enquanto estado.
E você, faz parte de algum cortejo?
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