ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

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LENDA DA LAGOA PAPARY...

 


A lenda da lagoa Papary faz parte da cultura popular do município de Nísia Floresta, que se chamava Papary até 1948, quando mudaram o nome para Nísia Floresta.

Contava-se em Papary /A lenda de uma sereia/Era a história de Jacy/Jovem tapuia da aldeia/ Jaci formosa e catita/Filha do chefe Aribó/Era a índia mais bonita/Do Vale do Capió/Amava com amor ardente/Guaracy jovem guerreiro/Cujo peito igualmente/Nasceu um afeto primeiro/Sozinho na solidão/Guaracy vagava à toa/Ora ao redor da Caiçara/Ora ao redor da lagoa/Certa vez quando pescava/Tentando esquecer as mágoas/Ouviu que perto cantava/A voz de Jaci nas águas/A delirar, Guaracy/Na lagoa mergulhou/Seguiu a voz de Jaci/E à tona não mais voltou/Hoje essa lenda triste/Quem se dispõe a cantar/Vê quanto mistério existe/Entre a lagoa e o mar. “A lenda fala sobre Jaci, uma jovem tapuia, e Guaracy, um guerreiro, que se amam intensamente. Guaracy, consumido pela solidão, acaba mergulhando na lagoa atraído pela voz de Jaci, e nunca mais retorna à superfície. Essa trágica história simboliza o amor que ultrapassa barreiras, mas também as consequências do desejo e da busca pelo que é inalcançável. Temas Principais: 1) Amor e Desejo: O amor entre Jaci e Guaracy é forte e puro, mas também marcado por tragédias e desafios. 2) Solidão: Guaracy representa a solidão do ser humano em busca de conexão, algo que muitos podem sentir. 3) Misticismo: A presença da lagoa e da sereia insere um elemento mágico e misterioso, refletindo a relação das culturas indígenas com a natureza e o sobrenatural. 4) Cultura e Tradição: A lenda é uma forma de preservar a cultura e as histórias dos povos indígenas, ressaltando a importância de narrativas orais”.

Apresentada no Teatro Alberto Maranhão, em Natal, Rio Grande do Norte.

Maestros: Lúcia Tabita Marques de Lima e Lailson Toscano de Medeiros

Pesquisa: Luís Carlos Freire (1992)

ALZIRA SORIANO, CELINA GUIMARÃES E MARIA DO CÉU FERNANDES - "POLÍTICAS" -

 


RECORTE DO ESPETÁCULO "NÍSIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS" - 13 de dezembro de 2024. Texto,/Cenário e Direção Geral: Luís Carlos Freire - Direção Artística: Marx Bruno.

Este balé encena a poderosa jornada da emancipação feminina. Cada movimento traduz a transformação da mulher que, inspirada pelas pioneiras - Alzira Soriano, Celina Guimarães e Maria do Céu Fernandes - despertou de sua letargia e lançou-se à luta. No palco da vida, ela conquistou as ciências, desvendou horizontes e compreendeu que não havia barreiras entre ser dona de casa e ser presidente da república, médica, cientista, militar, senadora — ou o que mais sua vontade ousasse almejar. É a celebração da mulher que rompeu os grilhões invisíveis que a prendiam, que ergueu a voz e declarou com convicção: "Eu posso". Nesta dança, vibra a essência de sua liberdade e a força de sua determinação, iluminando o caminho para as gerações futuras.

LENDA DA LAGOA PAPARY - CORAL...

 


LENDA DA LAGOA PAPARY - AUTOR DESCONHECIDO - CORAL – RECORTE DO ESPETÁCULO "NÍSIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS - DIREÇÃO GERAL/TEXTO E CENÁRIO: LUÍS CARLOS FREIRE - DIREÇÃO ARTÍSTICO-COREOGRÁFICA: MARX BRUNO. Contava-se em Papary /A lenda de uma sereia/Era a história de Jacy/Jovem tapuia da aldeia/ Jaci formosa e catita/Filha do chefe Aribó/Era a índia mais bonita/Do Vale do Capió/Amava com amor ardente/Guaracy jovem guerreiro/Cujo peito igualmente/Nasceu um afeto primeiro/Sozinho na solidão/Guaracy vagava à toa/Ora ao redor da Caiçara/Ora ao redor da lagoa/Certa vez quando pescava/Tentando esquecer as mágoas/Ouviu que perto cantava/A voz de Jaci nas águas/A delirar, Guaracy/Na lagoa mergulhou/Seguiu a voz de Jaci/E à tona não mais voltou/Hoje essa lenda triste/Quem se dispõe a cantar/Vê quanto mistério existe/Entre a lagoa e o mar. “A lenda fala sobre Jaci, uma jovem tapuia, e Guaracy, um guerreiro, que se amam intensamente. Guaracy, consumido pela solidão, acaba mergulhando na lagoa atraído pela voz de Jaci, e nunca mais retorna à superfície. Essa trágica história simboliza o amor que ultrapassa barreiras, mas também as consequências do desejo e da busca pelo que é inalcançável. Temas Principais: 1) Amor e Desejo: O amor entre Jaci e Guaracy é forte e puro, mas também marcado por tragédias e desafios. 2) Solidão: Guaracy representa a solidão do ser humano em busca de conexão, algo que muitos podem sentir. 3) Misticismo: A presença da lagoa e da sereia insere um elemento mágico e misterioso, refletindo a relação das culturas indígenas com a natureza e o sobrenatural. 4) Cultura e Tradição: A lenda é uma forma de preservar a cultura e as histórias dos povos indígenas, ressaltando a importância de narrativas orais”. Maestros: Lúcia Tabita Marques de Lima e Lailson Toscano de Medeiros Pesquisa: Luís Carlos Freire (1992)


Hynno do Primeiro Centenário do Nascimento de Nísia Floresta

 


RECORTE DO ESPETÁCULO "NÍSIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS" - TEXTO/DIREÇÃO GERAL E CENÁRIO: LUÍS CARLOS FREIRE - DIREÇÃO ARTÍSTICO-COREOGRÁFICA: MARX BRUNO - APRESENTADO NO DIA 13 DE DEZEMBRO DE 2024.

Em 1909, o Congresso Literário, responsável pelas celebrações do centenário de nascimento de Nísia Floresta (e supondo que Nísia Floresta havia nascido em 1809), em parceria com o Grupo Escolar que leva seu nome, compôs um tributo singular: o “Hynno do Primeiro Centenário do Nascimento de Nísia Floresta” (na verdade, Nísia Floresta nasceu em 1810). A ocasião reuniu intelectuais vindos de diversas regiões em Papary — hoje chamada Nísia Floresta — para prestar homenagens à ilustre filha da terra. Esse hino, símbolo de reverência e reconhecimento, transcendeu o tempo. Embora criado há mais de um século, sua melodia e versos ainda ecoam, sendo finalmente gravados em estúdio, pela primeira vez, em 2000, sob os cuidados de Luís carlos Freire. A letra, repleta de lirismo e fervor, exalta a grandeza de Nísia Floresta, vejamos: “Salve filha imortal d’esta terra - Terra ardente de ríspidos soes - Que somente beleza encerra - Mãe fecunda de bravos, de heróis (Surge, ressurge, brilha - Oh! Nísia Sublimada - Oh! Sempiterna filha - Da terra bem amada) Tu que às plagas estranhas levaste - O seu nome, o seu nome eternal - O seu nome obscuro encerraste - No esplendor de uma glória imortal - E essa glória é a tua essa glória - Os vindouros melhor guardarão - Hoje emerge do fundo da história - Sob aurora de excelso clarão”. Com essas palavras, o “hynno” enaltece a trajetória de uma mulher que levou o nome de sua terra natal além-fronteiras, transformando sua história local em um legado universal. Maestros: Lúcia Tabita Marques de Lima e Lailson Toscano de Medeiros Arranjos: Maestro Lailson Toscano de Medeiros e Luís Carlos Freire Pesquisa: Luís Carlos Freire (1992)

DISCURSO DE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA...

 


A mensagem de Nísia Floresta é uma fala forte, uma aula de civilidade que toca o coração de mulheres e homens. Ela aborda a situação da mulher ontem e hoje, exalta as conquistas femininas, encoraja as mulheres a lutar por sua independência e quebrar grilões que impedem a sua cidadania plena. Nísia descortina a situação crítica da violência contra a mulher atualmente no Rio Grande do Norte, ressalvando que o desrespeito e a violência contra as mulheres seguem intactos em pleno século XXI. Ela reitera que somente de braços dados, homens e mulheres podem se dizer habitantes de um país civilizado, pois só assim serão capazes de colaborar na construção de uma sociedade boa para todos. Enfim, encerra lembrando da única fórmula para melhorar o mundo: RESPEITO!

ESPETÁCULO "NÍSIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS"
DIREÇÃO GERAL/TEXTO E CENÁRIO: LUÍS CARLOS FREIRE - DIREÇÃO ARTÍSTICO-VOREOGRÁFICA: MARX BRUNO

sábado, 22 de novembro de 2025

ESSA FOI A MINHA REDAÇÃO NO ENEM...

"Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira"

Quando adolescente, mesmo que não tenha sido intencional, mas algo da minha índole, somado ao que aprendi com os meus pais sem que os mesmos fossem pessoas religiosas - os quais respeitavam muito os idosos e os acolhiam sempre - fez com que eu aprendesse a enxergar o envelhecimento como uma dádiva. Enquanto outros meninos preferiam única e exclusivamente brincar na rua ou correr sem rumo, eu também era assim, mas não me privava de buscar as sombras tranquilas das varandas onde os mais velhos gostavam de se sentar.

Sempre enxerguei os velhos: seja no banco da praça, no banco de suas residências, andando nas ruas… onde estivessem, eu os enxergava. Sempre os vi como fontes inesgotáveis de sabedoria, conselheiros atentos, detentores de histórias que pareciam saídas de livros quando eu os interrogava, curioso, ávido por saber o que eles viveram no passado.

Passei horas - dias, meses até - conversando, ouvindo, rindo, admirando, anotando causos, lendas, ensinamentos e lembranças. Sempre gostei de História Oral, certamente influenciado pela mesma sensibilidade de Ecléa Bosi, que passou a vida escrevendo histórias de velhos, assim como também a grandiosa Hildegardes Vianna.

Nesses empreendimentos, eu visitava alguns idosos inúmeras vezes, retornando quantas fossem necessárias, porque alguns estavam mais esquecidos e iam se lembrando aos poucos; e cada visita era uma descoberta.

Esse respeito profundo pelos idosos moldou a minha vida. Aprendi, desde cedo, a enxergar as coisas de forma diferente. Eu os tratava com muito carinho e respeito, porque entendia que suas histórias sintetizavam décadas de existência, e tudo o que diziam era pautado em fatos, o que, para mim, servia de ensinamento. Eram histórias que eu não encontrava em nenhum livro.

Ontem, ao completar 58 anos e estar a dois anos da idade oficialmente considerada idosa, observo que o cenário atual envolvendo jovens e idosos não é o mesmo que eu via no passado. Pois, embora nem todos os meus amigos fossem iguais a mim, era mais comum ver pessoas parecidas comigo, se comparado ao presente. Não vejo mais jovens que se pareçam com o Luís Carlos que um dia fui. Não porque “os tempos são outros” ou porque “os interesses mudaram”, como muitos poderão querer justificar, mas porque a educação - salvas as exceções - tem moldado gerações mais indiferentes, apáticas e, por vezes, hostis.

Somado a essa realidade, temos o aparelho celular que, por mais que também seja um instrumento precioso de comunicação, transformou-se num equipamento que isola a todos. Os jovens vivem mergulhados na tela, incapazes de erguer os olhos para dar atenção a qualquer pessoa, e, quando essa pessoa é idosa, ela é invisível. Tornaram-se ensimesmados; o mundo real, as pessoas de carne e osso foram substituídas por pessoas que talvez nem existam. A inteligência artificial substitui o raciocínio, a emoção, o diálogo, o calor humano. E parece até mais atrativa, criando um mundo paralelo. E nesse mundo fútil não há espaço para idosos; portanto, resta-lhes a indiferença e a naturalização do abandono.

Hoje é muito comum vermos idosos deixados em abrigos, sem visita da família, esquecidos em quartos silenciosos, confinados nos fundos dos quintais, invisíveis ao cotidiano doméstico, como se fossem coisa. Mal os filhos e netos lhes dirigem palavras. Muitos são explorados financeiramente; suas aposentadorias se transformaram em cofres particulares de filhos e netos. A violência física e psicológica, a falta de alimentação adequada, a ausência de medicação e até o encarceramento dentro do próprio lar tornaram-se comuns. Esses fatos, muitas vezes silenciados por vergonha ou medo, revelam não apenas a vulnerabilidade extrema da velhice, mas a fragilidade moral de uma sociedade que deveria proteger seus anciãos.

Acredito que as instituições públicas e privadas devem desenvolver campanhas mais específicas e contínuas sobre o respeito à pessoa idosa. É urgente que as escolas trabalhem, desde cedo, a temática do envelhecimento. As crianças precisam aprender que os idosos não são estorvos, mas pilares; não são inúteis, mas referências; não são fardos, mas ancestrais que nos antecederam e nos sustentam através da memória coletiva. Desde cedo, as crianças precisam compreender que envelhecer é o destino comum a todos nós, e que a forma como tratamos os que chegaram lá antes de nós define o tipo de sociedade que estamos construindo.

Educar as crianças e jovens para o respeito aos idosos não é apenas uma questão ética: é um investimento no próprio futuro. Afinal, o que todos desejamos é que, ao envelhecermos, encontremos cuidado, dignidade e amor, e não um cenário marcado por violência e abandono, como o que está tão comum atualmente.

Hoje estou quase um idoso - segundo o que está disposto no sistema -, e já começo a perceber que não existem mais os Luís Carlos que fui, e fico imaginando o que está acontecendo com o mundo quando eu, que fui essa pessoa tão respeitosa com os idosos, que dei tanto sentido às suas vidas, hoje vejo pouquíssimo sinal desse respeito. Infelizmente.

OBS. Na verdade, eu não participei do ENEM. Apenas me chamou a atenção o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, pois veio a calhar. É um assunto que venho trabalhando há anos com as pessoas comuns no meu cotidiano. Então aproveitei para escrever essa redação e expressar o que penso. Se o tivesse feito, essa seria a minha redação...

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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

AS CARTAS QUE RECEBI DO PAPA JOÃO PAULO II...

  

Quando jovem, eu escrevia cartas com intensidade. Como colecionador de selos e moedas antigas, mantinha contato com uma infinidade de pessoas - também colecionadores - do Brasil e do exterior. À época, eu recebia gratuitamente dos Correios a revista COFI (Correio Filatélico), cuja última página trazia endereços de todo o planeta Terra. Eram filatelistas, cada qual com seu interesse: trocar selos, vender, comprar etc.

João Paulo II (18.5.1920 - 2.4.2005)

Minha mãe escrevia muitas cartas para seus familiares daqui do Rio Grande do Norte, em especial para sua única irmã – de São José de Mipibu - fato que certamente despertou em mim o espírito missivista, pois meu arquivo epistolar era gigantesco.

Sempre fui a pessoa que saltava do quadrado; dessa forma, escrevia para muitas outras pessoas e com outras finalidades, sempre movido por alguma curiosidade ou pela procura de informação. Àquela época não existia fax. A internet engatinhava naqueles recônditos, de maneira que não sabíamos exatamente o que era aquilo. Tudo era no papel, na caneta Bic, no lápis e na borracha. Tudo na base do punho.

Desde os 9 anos eu escrevia. É algo inexplicável, como se um espírito baixasse e despejasse palavras nos papéis que encontrava. Gastava noites incorporando palavras, de modo que, sem perceber, o dia amanhecia. Assim, eu aproveitava todos os papéis possíveis. Sobras dos cadernos escolares se tornaram matéria-prima para a escrita. Sempre gostei de escrever a lápis, costume preservado até hoje. Sempre fiz livrinhos de papel, onde guardava poemas, se assim posso defini-los.

Foi exatamente esse espírito inquieto que despertou em mim o interesse de me comunicar com o Papa e com outras figuras importantes do mundo, como, por exemplo, a rainha Elizabeth II, o presidente do Paraguai e o presidente de Portugal. Havia algo tão esdrúxulo nesse meu espírito missivista que até mesmo com a “Mãe Dinah” eu me comuniquei. Recebi resposta de todos. E vale lembrar que fiz amigos - com idades semelhantes à minha - em países como México, Honduras, Itália, Costa Rica, Paraguai, Alemanha, Canadá e outros. Nesses casos, a afinidade eram os selos, minha paixão. Eu ia ao inferno atrás de selos e moedas...

Hoje, escavacando papéis pessoais muito antigos à procura de um documento, dei-me com essas cartas que recebi do Vaticano. São respostas, obviamente. A primeira me foi enviada no dia 22 de janeiro de 1986. Eu tinha 19 anos. A segunda veio em 29 de agosto de 1986. A terceira, em janeiro de 1987. A quarta, em maio de 1988. E a última chegou no dia 8 de janeiro de 1998, eu já morava nas terras de Câmara Cascudo. Até carta da “Mãe Dinah” encontrei. As demais citadas devem estar em algum lugar da minha papelaria, até porque o meu arquivo epistolar se imiscui com tanta coisa velha que às vezes me pergunto se fui eu mesmo que escrevi para aquelas pessoas ou se foram os espíritos madrugadeiros que me entoavam.

Nossa casa era um endereço conhecidíssimo dos carteiros da cidade, pois havia ali um escritor de cartas que funcionava para onde desse na telha.

Ah! Mas devo contar um pouco sobre o que me instigava a escrever ao Papa, já que, em outra ocasião, mostrarei a resposta da rainha Elizabeth II (quando achar, já que não faço ideia de onde esteja; pode até estar guardada nos velhos baús do Mato Grosso do Sul). Sei que lá está tudo intacto, pois, quando estive de férias ali entre junho e julho, doei dezenas de livros da adolescência para um sobrinho. Doei o móvel e tudo.

Minhas cartas eram movidas por curiosidades sobre coisas da religião, da história do Cristianismo, dos dogmas da Igreja, dos rituais católicos, determinados fatos passados com alguns papas, felicitações por seu aniversário etc. Curiosidade: nunca recebi explicação sobre o que questionava. Eram respostas genéricas, sempre orientando que procurasse um padre próximo para dar tais explicações .... rsss. Também tenho alguns cartões que vinham juntos. Estão guardados em algum lugar.

Um detalhe interessante: eu nunca fiz escarcéu das cartas. Para mim, as cartas do Papa, da Elizabeth II ou do presidente do Paraguai eram tão iguais e importantes quanto as de um menino filatelista mexicano - que residia em Durango Lerdo, no México -, que conheci aos 12 anos. Tenho um monte de fotografias desse amigo e de seus familiares. Eles amavam o Brasil.


Também me recordo de uma curiosidade. Nem minha mãe, nem meu pai, nem meus irmãos faziam caso dessas cartas. E nem de todas eles tomavam conhecimento. Certamente porque nossa casa era uma espécie de extensão dos Correios...

E do mesmo modo como meus familiares não sabiam ou não faziam conta dessas cartas - e creio que nem eu mesmo -, creio que Fídias fará igual, pois, morando na Rússia - e com certeza - vindo ao Brasil apenas de férias e rapidamente - certamante sendo a terra de Stalin a sua segunda pátria -, não fará questão de guardar tantas bugigangas...

João Paulo II no "Papódromo", na Governadoria.


Uma curiosidade: quando cheguei em Natal, no dia 31 de dezembro de 1991, havia completado pouco mais de dois meses que João Paulo II havia estado em Natal, durante o Congresso Eucarístico Nacional, ocorrido no período de 12 e 13 de outubro de 1991. Em 1996 estive no local onde ele ficou hospedado, num imenso prédio pertencente à Arquidiocese de Natal, em Ponta Negra.

Pois bem... eis que hoje, atrás de um documento, dei-me com essas respostas que recebi do Vaticano...

João Paulo II chegando ao papódromo.



quarta-feira, 19 de novembro de 2025

NÃO CRIMINALIZE AS RELIGIÕES DE MATRIZES AFRICANAS, CRIMINALIZE QUEM AS CRIMINALIZA...

 


REPÚDIO...

É com profunda indignação e revolta que tomo este espaço para refletir - e gritar - sobre o episódio absurdo ocorrido na EMEI Antônio Bento (zona oeste de São Paulo), onde agentes da Polícia Militar do Estado de São Paulo entraram, armados - inclusive com metralhadora - em uma escola infantil após a queixa de um pai de que sua filha, de apenas quatro anos, havia desenhado uma figura da divindade Iansã durante uma aula integrada ao currículo escolar.

Esse tipo de atuação policial - truculenta, desproporcional, desumana - não pode ser visto como exceção ou uma fatalidade. É sintoma grave de uma lógica de opressão cultural, racial e religiosa que persiste no Brasil. E justamente agora, às vésperas do DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA que - coincidentemente é a data do meu aniversário - ele se torna redobrado em sua simbologia e urgência.



Desde a colonização, o que veio da África foi criminalizado, demonizado, apedrejado, literalmente. As religiões de matriz africana sofreram séculos de perseguição, estigmatização, invisibilização. O Brasil, inclusive, tem população majoritariamente negra, e ainda assim vemos o comportamento horroroso e - pasmem - tão comum - onde as práticas religiosas afro-brasileiras são tratadas como desvio, ameaça, imoralidade.

Ver uma criança desenhar Iansã (uma entidade sagrada em tais religiões) transformar-se em razão para a polícia invadir uma escola como entrasse num teatro de guerra é a evidência concreta de que, mais que preconceito, há ódio ao que vem dos povos pretos do Brasil.
A normalização desse tipo de violência é inadmissível. Que sociedade tolera que uma escola infantil, ambiente de proteção à infância, seja palco de intimidação armada por atividade pedagógica legítima?

Vale lembrar que as leis brasileiras já exigem: a Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira em todas as escolas, públicas e privadas. E a Lei 11.645/2008 ampliou este dever para incluir também a história e cultura dos povos indígenas. Em outras palavras: O ESTADO JÁ RECONHECE, LEGALMENTE, QUE O ENSINO SOBRE AS CULTURAS NEGRAS E INDÍGENAS TEM A MESMA IMPORTÂNCIA DO ENSINO DE QUALQUER TRADIÇÃO RELIGIOSA OU CULTURAL - INCLUSIVE CRISTÃ.

Então: por que, no cotidiano de uma escola, uma atividade lúdica de desenho acerca de uma entidade de religião afro-brasileira se transforma num momento de terror? O que explica que, nas escolas, o ensino do cristianismo ou de ícones como Nossa Senhora Aparecida jamais virasse motivo para polícia entrar aos trancos e barrancos, mas a representação de Iansã vira? Se fosse o desenho de Nossa Senhora Aparecida (que merece todo respeito) o pai teria chamado a polícia? A polícia teria invadido com metralhadora?


Imaginem o que se passou na cabecinha dessa criança de quatro anos ao ver quatro agentes armados entrando em sua escola por causa de um desenho que ela fez. Isso é bizarro. É de uma monstruosidade imperdoável. O impacto psicológico, emocional, coletivo - entre crianças, educadores, famílias - se transformou em memória afetiva, com toda certeza. E que memória afetiva!.

A mensagem que foi enviada, sem palavras, é a seguinte: “APRENDER SOBRE RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA É CRIME, PODE LEVAR À POLÍCIA. PODE LEVAR AO MEDO. PODE LEVAR À VIOLÊNCIA.” Foi esse o ensinamento.

Tudo isso gera um efeito duplo: ao mesmo tempo, criminaliza a própria cultura afro-brasileira (e seus símbolos), e transmite às crianças negras (e não só) que sua cultura, suas crenças, são ilegítimas, problemáticas e ameaçadoras. E isso não é um caso isolado: é a forma mais estúpida do reflexo da estrutura de racismo religioso e cultural do país.

As leis existem, mas não basta terem sido aprovadas. A implementação segue falha. Recentemente li que grande parte das secretarias municipais de educação do Brasil realizam pouca ou nenhuma ação para fazer valer a Lei 10.639/03. Ou seja: enquanto o arcabouço legal está lá, o ambiente social e institucional permanece hostil. Por quê? Ora! Por preconceito.

Recentemente, na Câmara de Vereadores de Parnamirim, um vereador agradeceu a Deus pelo fato de que não foi aprovado pela casa o "Dia do Preto Velho" Preto-velho – Wikipédia, a enciclopédia livre proposto por pessoas que seguem religiões de matrizes africanas. E o mais louco é que foi aprovado por eles a "Frente Parlamentar evangélica". O que é isso senão preconceito religioso?

Pois bem, a escola onde ocorreu a invasão armada informou que a atividade fazia parte do “currículo antirracista” da rede municipal de São Paulo. Isto reforça a indignação: se esse é o tipo de reação que se obtém mesmo quando se busca implementar a lei, quanto mais quando as temáticas são tratadas com negligência ou invisibilidade?

Não se trata apenas de “medo de religião” ou “diferença de crença”, trata-se de racismo religioso: o ódio ou menosprezo dirigido às religiões de matriz africana, associado corriqueiramente a processos de deslegitimação cultural. O fato de uma escola e uma família reagirem com esse nível de violência perante um desenho de Iansã revela que, sim, existe esse “asco” às religiões dos pretos. É estrutural.

Essa truculência jamais explica o que quer que seja. Não existe qualquer justificativa pedagógica ou de segurança que legitime a entrada de policiais armados em escola infantil por causa de um desenho. Nesse gesto horroroso encontra-se o símbolo maior de que 500 anos de apedrejamento simbólico e real ainda estão presentes com intensidade.

Estamos no século XXI, e ainda precisamos reafirmar que religiões de matriz africana não são "menos", não são “erradas”, não são “problemáticas”. Elas são tão diferentes quanto o budismo, o islamismo, o judaísmo, e merecem o mesmo respeito, a mesma legitimidade, o mesmo espaço nas escolas.

Que esse episódio seja um alerta: à comunidade escolar, ao poder público, à sociedade civil. O ensino antirracista não é opcional; a valorização da cultura negra não pode mais ser empurrada para “atividades complementares”; e cada vez que uma criança recebe a mensagem de que sua cultura pode levar polícia à escola, o dano é enorme.

Não devemos aceitar esse tipo de massacre cultural sob nenhuma circunstância. A vida e a dignidade das crianças - especialmente das crianças negras - exigem respeito, proteção, pluralidade. E o Brasil, país de maioria negra, exige isso agora. Lembrem: Isso não foi um acidente, foi o padrão do tratamento dado aos povos pretos do Brasil. E tudo piora quando sabemos que há poucos dias o Governo Federal transformou em feriado o Dia da Consciência Negra que – pasmem – é amanhã. Uma vergonha!