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| Reprodução do livro História de Nísia Floresta, 1941, de Adauto da Câmara, ed. Pongetti, RJ |
Entre os diversos objetos históricos associados à memória de Nísia Floresta Brasileira Augusta, poucos possuem valor simbólico tão expressivo quanto o chamado Medalhão de Nísia Floresta, também conhecido como Efígie de Nísia Floresta. Trata-se de uma peça artística em bronze que, ao longo do tempo, tornou-se um importante testemunho material da trajetória de uma das mais notáveis intelectuais brasileiras do século XIX. A história desse medalhão reúne episódios que atravessam continentes, monumentos públicos, desaparecimentos misteriosos e redescobertas inesperadas, compondo um capítulo singular da memória cultural do Rio Grande do Norte.
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| Medalhão que se encontra no IHGRN |
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| Nísia Floresta Brasileira Augusta |
Décadas depois de sua morte, ocorrida em 1885, o medalhão passaria a desempenhar papel central em uma homenagem pública erguida na cidade de Natal. No dia 19 de março de 1911, foi inaugurado um monumento dedicado à escritora na Praça Augusto Severo, no antigo bairro da Ribeira, um dos espaços urbanos mais importantes da capital potiguar. A estrutura monumental consistia em uma estela de granito ornamentada com elementos decorativos em bronze. No centro da composição estava fixado o medalhão com o retrato da escritora, funcionando como núcleo simbólico da homenagem.
O monumento trazia ainda elementos iconográficos associados à tradição clássica das homenagens públicas, como uma palma em bronze e as datas de nascimento e morte da escritora. A obra representava não apenas uma homenagem individual, mas também um gesto cultural de reconhecimento à contribuição intelectual de Nísia Floresta para a história brasileira. A iniciativa de erguer o monumento esteve ligada ao ambiente cultural potiguar do início do século XX, período em que intelectuais locais procuravam valorizar figuras históricas do estado.
Entre os nomes envolvidos nesse movimento de valorização cultural estava o educador e intelectual Henrique Castriciano, que se destacou como um dos grandes promotores da memória de Nísia Floresta. A concepção artística do monumento contou com a participação do escultor francês Edmond Badoche e do artista paraense Corbiniano da Silva Villaça, responsáveis pela realização da peça escultórica e pela composição visual da efígie. Ambos sempre trabalharam em sintonia, inclusive são autores da escultura de José Izídio Martins, ícone da advocacia pernambucana, localizada nos jardins da Faculdade de Direito de Recife. Corbiniano também é autor da escultura de Pedro Velho, exposta em 1929 na Praça Cívica, centro de Natal.
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| O artista paraense Corbiniano Vilaça, pintado por Portinari. em 1929. |
A presença de artistas estrangeiros e brasileiros no projeto demonstra o caráter cosmopolita da homenagem. Ao mesmo tempo em que o monumento celebrava uma escritora potiguar, ele dialogava com tradições artísticas europeias muito presentes nas esculturas públicas do início do século XX no Brasil.
Com o passar das décadas, entretanto, o monumento sofreu progressivo abandono e degradação. Como ocorreu com diversos elementos do patrimônio histórico brasileiro, a falta de manutenção e de políticas de preservação contribuiu para o desaparecimento gradual da estrutura original. Na madrugada do dia 25 de outubro de 1949, 38 anos após a sua inauguração, a estela de granito foi destruída, restando apenas o medalhão em bronze que havia sido fixado na parte central da obra.
A partir desse momento inicia-se um dos episódios mais curiosos da história do objeto. Durante anos o medalhão permaneceu desaparecido, e seu paradeiro tornou-se incerto. O fato gerou especulações e dúvidas sobre o destino da peça que outrora havia ocupado posição de destaque em um monumento público da cidade.
A história torna-se ainda mais intrigante quando surge um registro fotográfico datado de 1954, realizado no Rio de Janeiro, no qual aparece um medalhão idêntico ao da homenagem natalense. A fotografia foi produzida durante cerimônias relacionadas à chegada dos restos mortais de Nísia Floresta ao Brasil, evento que mobilizou instituições culturais e associações regionais na capital federal da época.
Nesse registro histórico, o medalhão aparece exposto sobre uma mesa durante solenidades realizadas no Centro Norte-Rio-Grandense. A presença da peça nesse contexto levanta uma questão que ainda desperta interesse entre pesquisadores: tratava-se do mesmo medalhão que havia sido instalado no monumento da Praça Augusto Severo ou existiria uma segunda efígie produzida para fins comemorativos?
A ausência de documentação definitiva sobre o assunto mantém aberta essa possibilidade histórica. A hipótese de duas peças semelhantes amplia o caráter enigmático da trajetória do objeto, transformando-o em tema recorrente entre estudiosos da memória de Nísia Floresta.
Após um longo período de desaparecimento, o medalhão foi encontrado de maneira inesperada em um ferro-velho. O episódio revela o grau de negligência que frequentemente atinge bens culturais quando não há mecanismos de proteção institucional adequados. Felizmente, a peça foi reconhecida e resgatada antes de sofrer danos irreversíveis.
Depois de recuperado, o medalhão foi encaminhado para o acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, instituição responsável pela preservação de documentos, objetos e registros relacionados à história potiguar. No instituto, durante a presidência do Dr. Ormuz Barbalho Simonetti - coincidentemente filho do deputado Arnaldo Barbalho Simonetti, autor da lei que mudou o nome de Papary para Nísia Floresta em 1948 - a peça passou por procedimentos de limpeza, foi polida, sendo posteriormente incorporada às coleções históricas da entidade. Vale registra que o IHGRN também possui um livro original escrito por Nísia Floresta: "Itinerário de Uma Viagem à Alemanha", de 1857. Vi essa obra em 1996, quando o dr. Enélio Petrovich me mostrou juto à funcionária Lúcia (Um verdadeiro tesouro).
Atualmente, o medalhão constitui uma das peças mais significativas do acervo dedicado à memória de Nísia Floresta. Sua preservação permite que visitantes e pesquisadores tenham contato direto com um objeto que atravessou diferentes momentos da história cultural brasileira. Mais do que uma simples peça artística, a efígie representa um símbolo da trajetória intelectual de uma mulher que se destacou como pioneira na defesa da educação feminina e na crítica às desigualdades sociais. Ao longo do século XIX, Nísia Floresta produziu obras que questionavam as estruturas sociais de seu tempo e defendiam a ampliação dos direitos das mulheres.
Seu livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens, publicado em 1832, tornou-se um marco na história das ideias no Brasil, sendo frequentemente considerado uma das primeiras manifestações do pensamento feminista no país. A presença de sua imagem em um medalhão comemorativo reforça o reconhecimento que sua obra passou a receber nas décadas posteriores à sua morte.
A história do medalhão também revela aspectos importantes da construção da memória pública. Monumentos, esculturas e efígies funcionam como instrumentos simbólicos por meio dos quais sociedades homenageiam personagens considerados representativos de determinados valores culturais e históricos.
Nesse sentido, o medalhão de Nísia Floresta constitui um elo entre diferentes gerações. Produzido no século XIX, incorporado a um monumento no início do século XX, perdido e reencontrado décadas depois, ele continua a representar a permanência do legado intelectual da escritora.
A trajetória dessa peça demonstra que a memória histórica não é estática. Ela depende de ações contínuas de preservação, pesquisa e divulgação. A recuperação do medalhão e sua guarda em instituição cultural garantem que esse testemunho material continue a integrar o patrimônio histórico do Rio Grande do Norte.
Há três anos, um norte-rio-grandense de Currais Novos, cujo nome não me recordo no momento, publicou um vídeo no Tik Tok exibindo um medalhão idêntico ao que foi instalado em 1911 na Praça Augusto Severo. A peça também era datada de 1851, assinada pelo escultor francês e também trazia a assinatura de Nísia Floresta. Ele alegou ter encontrado num antiquário no Rio de Janeiro. TENHO CERTEZA ABSOLUTA QUE ESSA PEÇA FOI ROUBADA DO CENTRO NORTE-RIO-GRANDENSE que tem uma sede no Rio de Janeiro. Foi o mesmo caso do ferro velho. A diferença é que o medalhão foi parar num antiquário. Imediatamente entrei em contato com a pessoa e expus a história da peça, propondo que ele a entregasse ao município de Nísia Floresta ou ao IHGRN, mas ele nunca me respondeu. A única certeza que tenho é que no Rio Grande do Norte existem duas peças dessa, ambas originais.
Assim, a efígie de Nísia Floresta - em meio a esse torvelinho histórico - permanece como um símbolo duradouro de reconhecimento à importância de uma mulher que dedicou sua vida à educação, à literatura e à defesa da justiça social. Mais do que um objeto artístico, o medalhão representa a materialização de uma memória que atravessa o tempo e reafirma o lugar de Nísia Floresta entre as grandes figuras da história intelectual brasileira.
Referências
Blog Nísia Floresta por Luís Carlos Freire – diversos textos e pesquisas sobre o medalhão e a memória histórica da escritora.
FREIRE, Luís Carlos. Estudos e artigos sobre a iconografia e a memória cultural de Nísia Floresta.
Acervo e registros do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Registros históricos sobre o monumento de Nísia Floresta inaugurado em 1911 na Praça Augusto Severo, Natal.
Documentação histórica referente às homenagens realizadas em 1954 durante a chegada dos restos mortais de Nísia Floresta ao Brasil.


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