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| Nísia Floresta Brasileira Augusta |
Henrique Castriciano
A contribuição desses intelectuais é tão valiosa que se torna difícil compreender a dimensão de Nísia Floresta sem o devido conhecimento do que escreveram. Durante décadas, suas pesquisas foram praticamente as únicas referências consistentes sobre a autora. Ambos - verdadeiros patrimônios culturais - deixaram uma trajetória marcada por atuações plurais, sobretudo no campo da educação, onde suas ações ecoam até os dias atuais.
Henrique Castriciano, por exemplo, destacou-se como educador visionário e reformador social. Sua criação da Escola Doméstica de Natal, em 1914, inspirada na experiência europeia, especialmente na École Ménagère de Friburgo, na Suíça, foi um marco na educação feminina no Brasil. Tal iniciativa dialogava diretamente com o pensamento de Nísia Floresta, que já no século XIX defendia a educação da mulher como instrumento de emancipação social.
Adauto da Câmara
Sócio-fundador da Academia Norte-Riograndense de Letras, Adauto da Câmara exerceu cargos de grande relevância, sendo constantemente convidado por governadores que reconheciam sua erudição e competência. Conforme destaca Cônego Jorge O’Grady de Paiva, Adauto foi “bacharel, professor, jornalista, deputado, acadêmico, historiador, genealogista, conferencista e ensaísta”, tendo prestado serviços de grande relevância ao seu estado (PAIVA, 1959).
Durante a década de 1930, em decorrência das instabilidades políticas da Revolução de 1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde adquiriu o Colégio Metropolitano, no Méier, então em estado de falência. Sob sua direção, a instituição foi reestruturada e tornou-se referência educacional, demonstrando sua habilidade não apenas intelectual, mas também administrativa.
O interesse de Adauto da Câmara por Nísia Floresta manifestou-se precocemente e perdurou por toda a sua vida. Um episódio curioso, relatado em conversa com Zélia Mariz, revela o grau de dedicação do pesquisador: sua esposa, Wânia Zaremba, dizia sentir ciúmes da própria Nísia Floresta, tamanha era a imersão do marido em seus estudos. Esse tipo de “paixão intelectual” não é raro entre pesquisadores profundamente envolvidos com seus objetos de estudo.
A transmissão do legado: de Lívia a Henrique, de Henrique a Adauto
Um dos episódios mais significativos dessa história envolve Lívia Augusta de Faria Rocha, filha da escritora. Já em idade avançada, L´via compreendeu o valor histórico do acervo de sua mãe e, temendo sua perda, decidiu confiá-lo a Henrique Castriciano. Esse gesto foi decisivo. Fotografias, documentos e relatos pessoais foram preservados graças a essa transferência.
Henrique, por sua vez, ao adoecer, repassou grande parte desse material a Adauto da Câmara. Assim se construiu uma cadeia de transmissão de memória: Lívia/Henrique/Adauto/pesquisadores contemporâneos. Trata-se de um dos mais belos exemplos de continuidade intelectual no Brasil.
Henrique também manteve correspondência com familiares de Nísia, incluindo Augusto Américo de Faria Rochaa, ampliando ainda mais o alcance de suas investigações.
A experiência europeia e suas lacunas
Em 1909, Henrique viajou à Suíça para conhecer a École Ménagère, experiência que inspiraria a criação da Escola Doméstica. Nesse contexto, teve acesso indireto ao universo europeu em que Nísia viveu seus últimos anos, especialmente em cidades como Paris e Cannes. É inevitável refletir sobre o quanto poderia ter sido preservado caso houvesse, à época, maior consciência patrimonial: móveis, manuscritos e objetos pessoais poderiam ter sido trasladados ao Brasil.
O contato epistolar entre Henrique e Lívia foi um divisor de águas. Mesmo com idade avançada, Lívia forneceu informações preciosas e inéditas. Parte desse material veio a público apenas em 1954, por ocasião do traslado dos restos mortais de Nísia Floresta - evento de grande relevância simbólica para o Rio Grande do Norte.
Os mistérios do acervo desaparecido
Apesar da riqueza documental reunida, muitos desses materiais permanecem desaparecidos. As cartas trocadas entre Henrique e os familiares de Nísia nunca foram integralmente publicadas. Esse silêncio documental constitui uma das maiores lacunas da historiografia potiguar. Outro episódio intrigante foi a oportunidade perdida pelo governo do estado de adquirir os bens de Nísia em Cannes após a morte de Lívia, em 1912. A ausência de ação nesse momento resultou na dispersão de um acervo de valor incalculável.
O testemunho de Raimundo Soares de Brito
O pesquisador Raimundo Soares de Brito sintetiza com precisão o papel de Henrique Castriciano: “Nísia foi a paixão intelectual de Castriciano” (1984, p.30). Essa paixão, no entanto, não resultou em uma biografia publicada por ele, mas sim na transferência do projeto a Adauto da Câmara.
A construção da obra clássica
O livro História de Nísia Floresta (1941), de Adauto da Câmara, permanece como um marco. Mesmo com algumas imprecisões posteriormente corrigidas por Constância Lima Duarte, trata-se de uma obra fundamental. Sua importância reside não apenas nos dados apresentados, mas na interpretação crítica e na profundidade analítica.
Adauto também revisou suas próprias opiniões ao longo do tempo, especialmente sobre A lágrima de um Caeté, reconhecendo posteriormente o valor da obra no contexto do romantismo brasileiro.
Correspondências e relações intelectuais
As cartas trocadas entre Adauto e Henrique revelam uma relação marcada por respeito, admiração e colaboração. Em uma dessas correspondências, Henrique reconhece o valor do trabalho de Adauto, ao mesmo tempo em que demonstra sua própria limitação física para continuar o projeto.
Essas trocas epistolares são documentos preciosos para compreender não apenas a construção da obra, mas o espírito de cooperação entre intelectuais da época.
O traslado dos restos mortais
Em 1954, dois anos após a morte de Adauto, ocorreu o traslado dos restos mortais de Nísia Floresta para o Brasil. A iniciativa contou com o apoio de figuras como João Café Filho e Luís Lopes Varela, além da atuação do Centro Norte-Riograndense do Rio de Janeiro, presidido por Marciano Freire. O cortejo em Natal foi grandioso, envolvendo autoridades, instituições e a população, simbolizando o reconhecimento tardio de uma das maiores intelectuais brasileiras.
Considerações finais
A história de Nísia Floresta é, em grande medida, a história de seus intérpretes. Sem Henrique Castriciano e Adauto da Câmara, muito do que hoje sabemos estaria perdido. Ainda assim, permanecem lacunas — inevitáveis em qualquer reconstrução histórica.
O encontro entre Henrique e Lívia Augusta foi decisivo, mas limitado pelo tempo. Como ocorre com muitos pesquisadores, nem tudo pôde ser registrado. E talvez seja essa incompletude que mantém viva a chama da pesquisa. A junção dos esforços de Henrique e Adauto constitui um legado inestimável. Cabe às gerações futuras continuar essa investigação, conscientes de que a memória é sempre uma construção coletiva e contínua.
LUÍS CARLOS FREIRE – 2012 (texto ampliado)
Referências
Notas de rodapé
- Orlando Dantas
- Joaquim Pinto Brasil: nascido em 1819, faleceu em 1874
- Augusto Américo faleceu aos 60 anos


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