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| Imagem criada por Inteligência Artificial. É apenas uma arte. Os autores - todos consagrados - são reais, mas as obras são de fantasia, cujo propósito é apenas enriquecer o texto. |
Nos últimos dias, fiquei surpreso ao ver diversas postagens nas redes sociais e em jornais digitais potiguares informando que o prefeito de Natal, Paulinho Freire, havia vetado o projeto de lei do vereador Daniel Valença que determinava a obrigatoriedade de as livrarias da capital reservarem espaço em suas vitrines para obras de autores potiguares. A notícia me chamou a atenção porque o projeto é importante, e independente disso, já havia sido aprovado pela Câmara Municipal. Ou seja, depois de passar pela discussão legislativa e receber o aval dos vereadores, a proposta acabou sendo barrada pelo Executivo. Mais do que discutir o mérito do veto, isso me levou a pensar sobre uma questão que, há muito tempo, considero central: por que conhecemos tão pouco os artistas da nossa própria terra?
Essa reflexão não nasceu agora. Há poucos meses, conversava com uma pessoa ligada às oficinas de música da Secretaria Municipal de Cultura de Parnamirim. O assunto era o desconhecimento que muitas crianças e adolescentes têm em relação aos músicos parnamirinenses. Ouvi atentamente e, ao final da conversa, expus uma opinião que continuo considerando a única saída possível para mudar esse cenário: criar estratégias inteligentes e sensatas para aproximar crianças e jovens dos artistas locais.
O que falta é pertencimento. É preciso que a criança cresça conhecendo quem produz arte na cidade onde ela vive. Crianças e jovens precisam saber quem escreve, quem pinta, quem canta, quem dança, quem pesquisa, quem faz teatro, quem promove a cultura popular na sua cidade. O interesse dificilmente surge pelo acaso. Primeiro vem o contato; depois, a familiaridade; por fim, o gosto. Ninguém aprende a admirar aquilo que nunca lhe foi apresentado. Sempre entendi que devemos valorizar os artistas locais: músicos, atores, pintores e dançarinos, da mesma forma que os escritores, os mestres e os brincantes das mais diversas manifestações da cultura popular. Porém, num país em que a arte ainda é tratada, muitas vezes, como um luxo - ou até como algo supérfluo, ressalvadas as exceções - não chega a ser estranho que o pr´prio povo desconheça muitas de suas pratas da casa.
Em 2017, escrevi o espetáculo Câmara Cascudo e o Tapete Mágico, apresentado no Cine-Teatro Municipal Vereador Paulo Barbosa da Silva. Durante os ensaios, vivi uma experiência que nunca esqueci: descobri que muitos alunos das oficinas de arte não tinham a menor ideia de quem havia sido Luís da Câmara Cascudo. Isso me impressionou. Estamos falando de um dos maiores intelectuais brasileiros, pesquisador do folclore, historiador, antropólogo, etnógrafo, jornalista eprofessor. Um homem que dedicou a vida a estudar a cultura popular e cuja obra continua sendo referência para quem deseja compreender a identidade cultural do Brasil.
Se isso acontece com Câmara Cascudo, imagine o que ocorre com músicos, escritores, atores, artistas plásticos e tantos outros fazedores de cultura que estão mimetizados entre nós. Esse episódio apenas reforçou uma convicção que já carregava: não basta produzir arte. É preciso criar oportunidades para que as pessoas a conheçam. O reconhecimento quase sempre nasce da convivência. E a convivência depende de aproximação.
Foi justamente por isso que as notícias sobre o veto despertaram minha atenção. Muito além da discussão jurídica ou política, elas reacenderam uma pergunta que considero essencial: o que estamos fazendo, de forma concreta, para que o povo potiguar conheça aqueles que constroem diariamente a cultura do Rio Grande do Norte?
Essa pergunta me acompanha há anos e, confesso, torna-se ainda mais inquietante toda vez que vejo alguém lendo um livro físico ou jornal impresso em um espaço público. Hoje isso é raro. Quase todos estão com os olhos voltados para a tela do celular, deslizando os dedos rapidamente. Mas, quando encontro alguém com um livro nas mãos, tenho o hábito - talvez um defeito, talvez uma curiosidade incurável - de tentar descobrir qual obra está sendo lida. Quando não consigo identificar a capa, pergunto ao leitor. A conversa quase sempre começa pelo livro e, naturalmente, envereda pelos autores.
Nessas ocasiões, costumo mencionar escritores de Parnamirim e de Natal. É um exercício simples, mas revelador. E a constatação, infelizmente, quase nunca muda: a maioria das pessoas desconhece os autores da própria terra. Conhecem J. K. Rowling, J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin, Dan Brown, Colleen Hoover, John Green. Entre os brasileiros, citam de Clarice Lispector, Carlos Drummond, Carolina Maria de Jesus e tantos outros, todos merecidamente reconhecidos. Mas, quando a conversa chega aos escritores potiguares contemporâneos, instala-se um silêncio que diz muito mais do que qualquer resposta. E eu sempre digo: "Você precisa ler Ana Cláudia Trigueiro, José Acaci, Angélica Vitalino, José de Castro, Gilvânia Machado, Flauzineide Moura, Francisco Martins, Gilvânia Machado,Jânia Souza... E em outros momentos, no devido contexto, questiono se a pessoa conhece Ismael Dumang, Caio Padilha, a Cia. Gira Dança, o bailarino Rodolfo Santos, bailarina Vitória Bal, a artista plástica e escritora Ana Catarina Fernandes, enfim...
Não vejo o desconhecimento sobre as pratas da casa como culpa do adulto. Como alguém poderá se interessar por um escritor que nunca lhe foi apresentado? O próprio habitat, por excelência, nos apresenta Clarice Lispector, Machado de Assis, J. K. Rowling e outros. No Instagran e Facebook topamos com eventos nacionais e internacionais sobre Guimarães Rosa, Machado de Assim, Mary del Priori, Clarice Lispector - frases, provérbios, pensamentos deles -, portanto nos familiarizamos por excelência. Mas e com os locais? Você já topou com Ana Cláudia Trigueiro, Ana Catarina, Francisco Martins, Ismael Dimang, Acaci, Rodolfo Santos???
É por isso que sigo acreditando que o caminho mais eficiente passa pela infância.
A criança da escola pública e privada precisa conviver com a cultura produzida no lugar onde vive. Precisa ouvir, na escola, a música dos compositores da sua cidade. Precisa encontrar, na biblioteca, os livros dos escritores que caminham pelas mesmas ruas que ela percorre. Precisa conhecer os artistas plásticos, os grupos de teatro, os mestres da cultura popular, os fotógrafos, os cordelistas, os escultores... Não para desprezar a produção de outros estados ou países, mas para compreender que a cultura também acontece perto dela. Começa ao lado dela. O gosto nasce do conhecimento. Antes de admirar, é preciso conhecer. Antes de valorizar, é preciso conviver.
É justamente por isso que acredito que as escolas têm um papel decisivo nesse processo. Refiro-me desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental. Não imagino uma disciplina específica para isso, mas uma política pública permanente. Defendo, inclusive, que os municípios criem leis orientando as redes de ensino a desenvolver ações contínuas de valorização dos artistas locais, para que escritores, músicos, atores, artistas plásticos, mestres da cultura popular e tantos outros passem a fazer parte do cotidiano escolar. Não se trata de criar uma obrigação burocrática, mas de estabelecer uma diretriz capaz de garantir que esse trabalho continue existindo, independentemente de quem esteja ocupando os cargos de gestão. A cultura não pode depender apenas da boa vontade de um diretor, de um professor ou de um secretário de educação; ela precisa estar amparada por políticas públicas permanentes.
Se cada professor trabalhar, ao longo do ano, algumas obras de escritores da cidade; se apresentar músicas compostas por artistas locais; se utilizar pinturas, poemas, fotografias e textos produzidos por quem vive na região; se transformar esse material em leitura, exposição, apresentação cultural, gincana, sarau ou festival, pouco a pouco esses nomes deixarão de ser estranhos. Eles passarão a fazer parte da memória afetiva dos alunos.
Depois desse primeiro contato, o passo seguinte acontece quase naturalmente: aproximar os artistas das escolas. Imagine um escritor visitando uma turma que já leu seus livros. Imagine um compositor sendo recebido por estudantes cantando suas músicas porque aprenderam suas canções durante as aulas. Imagine um artista plástico encontrando crianças que reproduziram releituras de suas obras em sala de aula. Não há homenagem maior para quem dedica a vida à arte do que perceber que ela encontrou abrigo na imaginação de uma nova geração. Esse encontro transforma todos os envolvidos.
O aluno percebe que o artista não é uma figura distante, inacessível, restrita aos livros didáticos ou aos documentários da televisão. Descobre que ele mora na mesma cidade, frequenta os mesmos espaços e enfrenta os mesmos desafios de qualquer cidadão. O artista, por sua vez, encontra o público que sempre desejou alcançar. É assim que se constrói pertencimento.
Foi exatamente por isso que a notícia sobre o veto me fez voltar a essa reflexão. Ainda que se discutam os aspectos jurídicos da proposta ou as razões que levaram o Executivo a rejeitá-la, continuo convencido de que a ideia que motivou o projeto merece ser debatida com serenidade. Dar visibilidade aos autores potiguares não significa retirar espaço de escritores consagrados nem interferir na liberdade de escolha dos leitores. Significa apenas reconhecer que uma livraria instalada em Natal ou em Parnamirim pode, legitimamente, apresentar ao público aqueles que escrevem sobre esta terra, preservam sua memória e ajudam a construir sua identidade. Afinal, aquilo que não é visto dificilmente será lembrado. E aquilo que não é lembrado corre sempre o risco de desaparecer do imaginário coletivo.
Quanto mais penso sobre isso, mais me convenço de que não existe solução isolada. Não será uma única lei, um único projeto ou uma única instituição que mudará esse cenário. A lei que propõe dar visibilidade aos autores potiguares nas vitrines das livrarias é importante, porque amplia o encontro entre o escritor e o leitor. Mas ela pode caminhar ao lado de outras iniciativas igualmente transformadoras, entre elas uma legislação que incentive as escolas a desenvolver, de forma permanente, ações voltadas ao conhecimento das pratas da casa. Uma lei aproxima os autores do público nas livrarias; a outra os aproxima das crianças, justamente na fase da vida em que o pertencimento começa a ser construído. Não vejo como problema, por exemplo, que as secretarias municipais e estaduais de educação comprem uma parte das obras dos autores regionais e encontre formas de disponibilizá-las aos públicos específicos. Isso pode perpassar por lei sem problema algum, pois é nobre.
A valorização da cultura local depende de um esforço conjunto, contínuo e, sobretudo, de uma mudança de mentalidade. As escolas têm um papel fundamental, mas não estão sozinhas. As bibliotecas, as universidades, os institutos federais, as fundações culturais, o Sistema S, as academias de letras, as secretarias de cultura, as câmaras municipais, os meios de comunicação e até a iniciativa privada podem contribuir para aproximar a população dos artistas da terra. Cada instituição pode fazer a sua parte. Não se trata de criar privilégios, mas de corrigir uma invisibilidade histórica.
Quando uma biblioteca organiza um espaço dedicado aos escritores locais, quando uma escola convida um músico da cidade para conversar e cantar com seus alunos, quando uma livraria destaca autores potiguares em sua vitrine, quando um festival reserva espaço para artistas da região, todos estão colaborando para a mesma causa: permitir que a população conheça aquilo que ela própria produz. É curioso perceber que admiramos com facilidade aquilo que vem de longe, mas, muitas vezes, ignoramos o talento que está ao nosso lado. Não há problema algum em ler autores estrangeiros ou prestigiar artistas de outros estados. Eu mesmo faço isso constantemente. A cultura não deve conhecer fronteiras. O problema surge quando essa abertura para o mundo não é acompanhada pelo conhecimento das nossas próprias raízes.
Ninguém precisa escolher entre um escritor potiguar e um escritor francês, entre um compositor natalense e um músico inglês. Uma coisa não exclui a outra. Pelo contrário: quanto maior for nosso repertório, mais rica será nossa experiência como leitores, ouvintes e espectadores. O que me parece injusto é que tantos artistas norte-rio-grandenses permaneçam desconhecidos justamente porque nunca lhes foi dada a oportunidade de serem vistos.Volto, então, à conversa que tive em Parnamirim. Naquele dia, saí convencido de que o pertencimento não nasce espontaneamente. Ele é construído. A criança aprende a gostar daquilo que lhe é apresentado com naturalidade. É assim com a leitura, com a música, com o teatro, com as artes visuais e com tantas outras manifestações culturais.
Se um aluno passa toda a sua vida escolar sem ouvir uma única música composta por um artista da sua cidade, sem ler um livro de um escritor potiguar, sem visitar uma exposição de um pintor norte-rio-grandense ou sem conhecer um mestre da cultura popular, dificilmente chegará à vida adulta valorizando aquilo que nunca fez parte da sua formação. Por outro lado, quando esse contato acontece desde cedo, tudo muda. Os nomes deixam de ser estranhos. As obras passam a ser familiares. A curiosidade aparece naturalmente. E o que antes parecia distante transforma-se em motivo de orgulho. É exatamente esse orgulho que chamo de pertencimento.
Talvez seja por isso que as notícias sobre o veto tenham provocado em mim muito mais reflexão do que indignação. Independentemente das posições políticas ou das interpretações jurídicas sobre o projeto, continuo acreditando que ele trouxe para o centro do debate uma questão que não pode ser ignorada: como fazer com que os potiguares conheçam melhor os seus próprios escritores? Essa pergunta continua sem uma resposta definitiva, mas uma certeza eu carrego comigo há muito tempo. O reconhecimento vem depois do conhecimento. Ninguém valoriza aquilo que desconhece.
Se desejamos uma sociedade que prestigie seus artistas, precisamos apresentá-los às crianças. Precisamos colocá-los nas escolas, nas bibliotecas, nos teatros, nas feiras literárias, nas galerias, nos festivais, nos meios de comunicação, na rua, e, por que não, também nas vitrines das livrarias. Porque uma vitrine não vende apenas livros. Ela desperta curiosidade. E, às vezes, basta um livro visto na hora certa para que um leitor descubra um autor que caminhava pela mesma cidade sem jamais ter sido percebido. No fim das contas, é disso que estamos falando. Não apenas de livros. Nem apenas de escritores. Estamos falando da forma como um povo escolhe cuidar da própria memória. E um povo que conhece seus artistas conhece melhor a si mesmo.

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