RARIDADES DA MÚSICA POTIGUAR NOS SULCOS DO VINIL E OS ARES DE AGOSTO
Agosto sempre chega ao Nordeste
com um sopro diferente. Minha mãe – atualmente com 95 anos – diz que é o mês
dos ventos fortes e o mês dos cachorros loucos (não me perguntem o porquê), sei
que é o período em que o Brasil se volta para as suas raízes mais profundas
para celebrar o Dia do Folclore. E eu, como folclorista de berço, não poderia
deixar de trazer as pérolas da cultura popular que guardo em meu acervo.
Creio que no bojo das celebrações do amplo universo do folclore do
Folclore, ele também acontece nos estalinhos sutis da agulha riscando
os discos de vinis: os quase esquecidos Long Player, chamados LP’s. Embora eu
conviva bem com as novas tecnologias, ainda me atrevo a ser do tempo da
radiola. Na contramão de um mundo que digitalizou os afetos e transformou a
música em arquivos invisíveis lá pelos dedentros da internet, preservo em minha
casa uma radiola antiga, perfeitamente regulada e em pleno funcionamento. Ao
redor dela, orbita um acervo de mais de 500 LPs, lapidados ao longo de anos de
garimpo e organizados segundo o meu gosto pessoal. Alguns deles me viram
adolescente. É um templo de acetato e papelão onde guardo as minhas maiores
relíquias afetivas. F., meu filho, cresceu enfronhado nesses LP’s já no
tempo do auge dos CD’s.
Enfim, aproveitando justamente o folcloricamento de agosto, decidi abrir as portas desse acervo para apresenta-lo àqueles que os desconhecem. Selecionei uma série de LPs lançados no Rio Grande do Norte entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, a maioria sob o selo do pioneiro “Projeto Memória” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Creio que essas peças não existiriam com essa qualidade, sensibilidade e visão sem que o poeta Diógenes da Cunha Lima não tivesse se sentado na cadeira de reitor da UFRN à época. Assim como os artistas fazem a diferença, os poetas também o fazem. Muitos desses discos são verdadeiras peças de colecionador, raridades absolutas que escaparam das grandes plataformas e que correm o risco de sumir da história fonográfica, portanto, cumpro também o papel de resgatar essas pérolas.
Minha proposta aqui é pedagógica
e afetiva: levar essas joias ao conhecimento de quem nunca teve a oportunidade
de ouvi-las ou pegá-las nas mãos. Pesquisei cada álbum individualmente,
esmiuçando os detalhes preciosos de suas capas, os textos históricos de suas
contracapas, as letras de seus encartes e os profissionais de destaque que
acercaram cada lançamento. E agora os ofereço ao leitor. Para mim, as capas – dos LP’s – falam. São obras de
arte por maisque carreguem simplicidade. Construí este estudo como uma espécie de catalogação e
farei reflexões que cruzam esses dados com a história, a culinária, a geografia
e as tradições orais do nosso estado. Ajustem o braço da radiola, aumentem o
volume e acompanhem-me nesta jornada pelos sulcos da cultura popular potiguar...
ÁLBUM 1: CANTOS DA TERRA DO MAR -
MADRIGAL DA UFRN (1981)
A
Contracapa e o Manifesto Institucional: No verso do LP, o texto institucional assinado pela
diretoria da Escola de Música e pela reitoria contextualiza a urgência da obra.
Fundado na década de 1960 e composto por 32 integrantes divididos no quarteto
clássico (sopranos, contraltos, tenores e baixos), o Madrigal da UFRN utilizou
sua técnica polifônica e seu estilo madrigalístico tradicional para “documentar
e valorizar compositores do Rio Grande do Norte”.
O disco foi gravado nos lendários
Estúdios da Transamérica, no Rio de Janeiro, sob a direção técnica de Edeltrudes
Marques da Silva e engenharia de som de Aníbal Félix – a mesma equipe de ponta que garantiu a alta
fidelidade de quase todo o Projeto Memória. A coordenação foi da Diretora da
Escola de Música, Deijair Henrique Borges, com regência do Padre Pedro Ferreira
da Costa. Curiosamente, o reitor da época, o intelectual Diógenes da Cunha
Lima, não assina o projeto apenas como burocrata, mas também como artista,
figurando como compositor de uma das faixas, pois também é poeta.
O
Repertório Comentado: O repertório deste Volume 1 é uma aula de geografia e etnografia
potiguar, dividindo-se entre temas do sertão e do litoral:
Lado A:
1. Aruanda (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis
Pereira)
2. Cantiga de Beira-Mara (Enoch Domingos/Arr. Clóvis
Pereira)
3. Minha Maria (Diógenes da Cunha Lima/Arr. Pe.
Pedro Ferreira)
4. Prece ao Vento (Gilvan Chaves - Alcyr Pires -
Fernando Luiz/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)
5. Vadiação de Vaqueiro (Celso da Silveira/Arr. Pe.
Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)
Lado B:
6. Duas Toadas (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis
Pereira – Solo: Pe. Pedro Ferreira)
7. Moinho d'Água (Francisco Elion/Arr. Pe. Pedro
Ferreira – Solo: Gláucio Teófilo Câmara de Sá)
8. Sonhador (Márcio Marinho/Arr. Pe. Pedro
Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)
9. Cavaco Chinês (Roberto Lima de Souza / Arr.
Pe. Pedro Ferreira)
Reflexões
do Colecionador: A grande
joia oculta deste LP reside nos arranjos de Clóvis Pereira nas faixas “Aruanda”,
“Cantiga de Beira-Mara” e “Duas Toadas”. Clóvis foi um dos pilares do Movimento
Armorial, fundado por Ariano Suassuna na década de 1970 em Recife. A
presença de suas orquestrações vocais no Madrigal da UFRN prova que a
inteligência musical potiguar estava perfeitamente sintonizada com a vanguarda
nordestina, que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes
populares (o romanceiro, o aboio e as bandas de pífano). Destaca-se
também a voz do jovem tenor Emmanuel de Melo e Silva, cujos solos em
“Prece ao Vento” e “Vadiação de Vaqueiro” antecipavam o nascimento de um dos
maiores intérpretes da música popular do nosso estado.
ÁLBUM 2: BAMBELÔ – EMMANUEL DE
MELO E SILVA (1982) – Esse LP e o que trataremos abaixo – Floração – são
duas pérolas incríveis para mim.
A Capa e a Estética do Litoral: A agulha avança e o próximo disco
a girar é o Projeto Memória - 7, lançado em 1982: o emblemático Bambelô,
de Emmanuel de Melo e Silva. A capa traz uma belíssima ilustração em nanquim
com traços de forte inspiração expressionista e puramente popular. O desenho retrata
dois músicos descalços – um tocando um pandeiro e o outro ao violão –
emoldurados por coqueiros e casas simples de taipa. É a tradução visual exata
da paisagem litorânea e suburbana de Natal. O título do álbum é um
monumento ao nosso folclore. O bambelô (ou coco de bambelô) é uma
manifestação folclórica tipicamente potiguar. Dança de roda e ritmo sincopado
de forte matriz afro-brasileira, o bambelô historicamente fincou suas raízes na
Praia da Redinha, animando as noites de pescadores e comunidades litorâneas,
assim como Nísia Floresta e São José de Mipibu. Ao batizar o disco com esse
nome, a UFRN assumia o compromisso direto com a etnografia musical do estado.
O Encarte e a Rede de Intelectuais (Lado A): Diferente das edições convencionais, este LP traz um encarte completo com as letras e fichas técnicas que revelam uma rede impressionante de parcerias entre músicos e os maiores intelectuais potiguares da época. No Lado A, a faixa de abertura é justamente “Bambelô”, cuja autoria pertence a Fernando Luís da Câmara Cascudo (filho do patrono do folclore brasileiro, Luís da Câmara Cascudo). A letra é um registro fidedigno das manifestações de terreiro, citando elementos estruturais das danças populares como o zabumba, o maracá, o coco catolé e as festas de congo (“Que a noite é bela, seu Mano/Pra nós congar, seu Mano”).
O encarte traz ainda duas
parcerias com Diógenes da Cunha Lima: “Teu Ventre” e o enigmático “Poema
dos Macunis”. Este último é um achado etnográfico fantástico. A letra abre
com fonemas indígenas originais (“Abaai, bita, popi/Amabá poaté poitecé”)
e faz referência direta aos povos nativos do estado, os Gês, Tapuias e Tupis,
que musicavam o entardecer. Fechando o Lado A, Emmanuel grava “Miragens”
(de Enoch Domingos), “Pouso” (de Roberto Lima de Souza, que evoca as
palmeiras e as dunas de areia) e “Navegante Sem Mar”, de autoria de Babal
– um dos grandes nomes da vanguarda da MPB produzida em Natal na virada dos
anos 1970 para os 1980.
O Encarte
e a Geografia Afetiva (Lado B): Se o Lado A do LP Bambelô (Projeto Memória -
7) fincou os pés na ancestralidade indígena e nos ritmos de terreiro, o Lado
B desenha um autêntico diário de bordo pelas praias, costumes e cidades do
Rio Grande do Norte. As letras deste lado do encarte funcionam como crônicas
folclóricas vivas. A faixa de abertura do Lado B é “Procissão dos
Navegantes”, uma composição primorosa de Roberto Lima de Souza. A letra é o
retrato mais perfeito da tradicional festa de Nossa Senhora dos Navegantes na
Praia da Redinha. Tico capta os elementos identitários de Natal: as barcaças no
rio Potengi, os cajus vermelhos, a lancha que trazia os moradores do bairro das
Rocas e o peixe com tapioca (“Mulatos bebem cachaça / Com peixes e
tapiocas...”).
Em seguida, o disco traz “As
Ancas de Maria” (Diógenes da Cunha Lima), uma canção que usa as dunas e o
vento litorâneo como metáforas poéticas, e “Xote na Ribanceira” (Fábio
Fernandes), que resgata os bailes de interior à beira dos ribeirões. O
cotidiano urbano de Natal ganha contornos em “O Ônibus” (Roberto Lima de
Souza), mostrando operários, lavadeiras, ambulantes e estudantes cruzando as
ladeiras da capital. A penúltima faixa viaja até o Litoral Norte com “Touros”,
escrita por Ivanildo. Trata-se de um inventário riquíssimo do vocabulário e
hábitos locais: cita o Farol do Calcanhar, a bebida “jurrubado”, o fruto nativo
“guajiru”, a pesca artesanal com “tresmalho” e a figura folclórica da
solteirona de província (“Em cada uma eu vejo Vitalina/Toda empoada
esperando seu amor”). Fechando o disco, a faixa “Pilão” (Diógenes da
Cunha Lima) resgata onomatopaicamente os antigos cantos de trabalho das
mulheres do sertão (Pilo, pilo, pilo no pilão/Na mão do pilão tem sangue e
suor”).
Reflexões:
O que
torna este LP do Emmanuel uma raridade absoluta de colecionador é a sua
capacidade de mimetizar os sons do trabalho e do sagrado popular sem perder o
viço da MPB moderna dos anos 1980. Ao colocar no prato da radiola a faixa
“Pilão”, o estalo do vinil parece se misturar à batida física da madeira moendo
o milho ou o café. A menção ao "peixe com tapioca" na Redinha em
"Procissão dos Navegantes" antecede em décadas o tombamento dessa
iguaria como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte. É a prova de
que o folclore não estava morto; estava pulsando nas praias e feiras.
ÁLBUM 3: FLORAÇÃO – LUCINHA LIRA
(1981)
A Capa e o Traço de Dorian Gray: O terceiro disco a girar na
radiola é o Projeto Memória - 3, lançado em 1981, trazendo o
protagonismo feminino de Lucinha Lira no álbum Floração. A identidade
visual da capa é uma obra de arte histórica: uma ilustração original em nanquim
assinada pelo mestre Dorian Gray Caldas. Ele desenha uma figura feminina cujos longos cabelos se
transformam em flores, e cujas vestes se misturam a texturas de folhas,
sementes, raízes e pequenos insetos (como uma joaninha). Ao fundo, árvores
estilizadas evocam a vegetação do tabuleiro litorâneo e da caatinga. O conceito
de “floração” dialoga diretamente com a ideia do desabrochar da cultura popular
a partir das suas raízes mais profundas.
A
Contracapa e o Manifesto Modernista: O verso do LP traz um texto institucional e crítico
formidável, que serve como um verdadeiro manifesto em defesa da produção
cultural nordestina descentralizada. O texto argumenta que a musica produzida
em Natal corre um risco histórico de “pura e simples desaparição” por estar
longe dos grandes centros e mercados consumidores do Sudeste, restringindo-se a
serestas e encontros informais.
Para justificar a necessidade do
registro fonográfico do Projeto Memória, a UFRN evoca o poeta potiguar Jorge
Fernandes (1887–1953). O texto lembra que Jorge Fernandes foi apontado por
ninguém menos que Mário de Andrade – o pai do Modernismo brasileiro –
como um precursor do movimento por ter introduzido a fala do povo e os temas
locais na poesia nacional. O disco Floração nasce, portanto, para evitar
que a nova safra de compositores sofra o esquecimento histórico. A ficha
técnica repete o padrão de alta fidelidade: gravado na Transamérica (Rio),
coordenado por Deijair Henrique Borges sob a reitoria de Diógenes da Cunha
Lima.
O
Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Floração traz as letras
completas, revelando composições de um lirismo impecável:
1 - Floração (Diogenes da Cunha Lima): Faixa-título
que abre o Lado A cantando a beleza da manhã e a efemeridade do tempo (“Antes
que o tempo tome de ti em sua mão/As flores da manhã nascem do teu corpo”).
2 - Cajueiro (Música: Oriano de Almeida/Versos:
Veríssimo de Melo): Uma das maiores preciosidades do disco. Unindo o piano
erudito de Oriano à sensibilidade do folclorista Veríssimo de Melo, a letra
canta as dunas e o caju à beira-mar, evocando a mítica figura da sereia (“Cajueiro
da beira do mar/Cadê a sereia que eu quero noivar”).
3 - Cidade de Dezembro (Nei Leandro de Castro/Rogério
Rossini): Uma composição belíssima que resgata as memórias e os autos
folclóricos do ciclo natalino em Natal, citando expressamente o Pastoril, a
Chegança, as figuras das mestras e contramestras e o Bumba-Meu-Boi.
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado B): O Lado
B do encarte aprofunda a imersão nas paisagens e nos sentimentos telúricos
do estado:
1 - Velhas Oiticicas (Letra: Pery Lamartine/Música:
Roberto Lima): Uma canção belíssima de resgate do imaginário sertanejo do
Seridó. Pery Lamartine canta a oiticica, árvore frondosa que serve de morada e
abrigo contra o sol, mas que no imaginário infantil também evoca o folclore das
assombrações noturnas (“Eram velhas oiticicas com seu cheiro penetrante/Tinham sombra repousante das moradas do sertão/Que me davam segurança e, à
noite, assombração”). E, para quem não sabe, há uma
célebre Oiticica plantada por ele – que inclusive traz uma história
impressionante, cuja síntese está numa placa ao lado. Fica na Avenida Campos
Sales, em Natal.
2 - Verde Mar (Diógenes da Cunha Lima): Uma
faixa melancólica que afasta o mar do clichê turístico e o aproxima da dura
realidade social do pescador de subsistência (“O cardume de albacoras busca
fome jangadeira/Sou homem oprimido, a tristeza me consome”).
3 - O Olhar da Amada é Como um
Barco a Vela Navegante (Roberto Lima de Souza): Canção de forte lirismo praieiro que compara
os sentimentos humanos aos movimentos das embarcações nos portos potiguares.
4 - Eterna Harmonia (Zezé Delgado): Uma ode à
natureza e à alvorada, comparando o sorriso humano ao canto livre das
andorinhas.
5 - Coisa Boa (Música: Hianto de Almeida/Versos:
Veríssimo de Melo): Uma das faixas mais célebres do disco, que condensa em sua
letra o espírito do lazer e da boemia litorânea tradicional do Rio Grande do
Norte (“Coisa boa é querer bem, ter alguém, namorar... Coisa boa é o mar, o
luar, e caju com pitu, cafuné, cochilar...”).
6 - Brinco de Amor (Diógenes da Cunha Lima/Veríssimo de Melo): Pequeno poema amoroso que fecha o álbum celebrando a noite e a paixão perfeita sob o clima do litoral.
Reflexões:
O álbum Floração
é um monumento por conseguir reunir em um único objeto de papelão e vinil as
maiores mentes do Rio Grande do Norte. Ver a assinatura visual de Dorian Gray
na capa, ler a evocação de Jorge Fernandes e Mário de Andrade na contracapa, e
escutar a voz de Lucinha Lira cantando versos de Veríssimo de Melo e Pery
Lamartine é o auge do que o Mês do Folclore representa. Quando escuto “Coisa
Boa” na minha radiola, a expressão “caju com pitu” (o fruto símbolo de Natal
harmonizado com a tradicional cachaça nordestina) salta dos sulcos como um
retrato fidedigno de um alpendre praieiro nas lindas praias
norte-rio-grandenses.
ÁLBUM 4: SAUDADES DA JUVENTUDE –
AMARO SIQUEIRA POR FIDJA SIQUEIRA (1983)
A Capa e a Iconografia do
Intérprete: O quarto
disco a repousar no prato da radiola é o Projeto Memória - 14, lançado
em 1983. A capa estampa uma linda ilustração em formato de caricatura de perfil
do compositor Amaro Siqueira, assinada pelo artista Nivaldo. O traço em
nankim e bico de pena revela um detalhe de refinada sensibilidade artística: a
linha de contorno da lapela do paletó de Amaro se funde, de maneira estilizada,
ao desenho de um violão integrado a uma clave de sol. É a iconografia exata de
um homem cuja existência confundiu-se inteiramente com o próprio instrumento.
A
Contracapa e a Linhagem do Violão Potiguar: O verso do LP funciona como um documento biográfico
e musicológico de valor inestimável para o Nordeste. O texto resgata a
trajetória de Amaro Carvalho de Siqueira (1908–1970), nascido nas
salinas de Areia Branca, cuja mãe foi sua primeira professora de violão. Em
1931, Amaro estudou em Recife com o renomado Isidoro Bacelar (SP), absorvendo
uma técnica refinada.
Ao lado do mestre Waldemar de
Almeida, ocupou a cadeira de violão do Instituto de Música do Rio Grande do
Norte e ajudou a fundar o lendário Clube de Violão de Natal, do qual foi o
primeiro presidente. Transitou entre a intelectualidade e os grandes mestres do
instrumento no mundo, mantendo contato com nomes do calibre de Maria Luísa
Anido (Argentina) e Isaías Sávio (Uruguai/SP). Convidado em 1966 por Waldemar
de Almeida para lecionar na Escola de Música da UFRN, Amaro exerceu a função
por apenas um mês devido a problemas de saúde, falecendo em 1970.
A gravação deste volume é um ato de amor familiar e acadêmico: as partituras manuscritas de Amaro são executadas por seu filho, Fidja Nicolai de Siqueira, professor de violão da UFRN que se formou na Escola de Belas Artes da UFPE e refinou sua técnica nos Seminários Internacionais de Violão com os monstros sagrados Abel Carlevaro e Jorge Martínez Zárate. O disco mantém a equipe técnica padrão: direção de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na Transamérica (Rio) e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.
O
Repertório Comentado: O disco é dividido inteiramente entre as criações originais de Amaro
Siqueira, resgatadas de seus cadernos de manuscritos:
Lado A:
1
- Prelúdio nº 5 (Composto em 1948)
2
- Dança Brasileira nº 2 (Composto em 1953)
3
- Estudo nº 11
(Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)
4
- Estudo nº 4
(Composto em 1948)
5
- Valsa de Esquina (Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)
Lado B:
1
- Devaneio nº 1 (Composto em 1960 - integrante da série “Saudades da Juventude”)
2 - Canção
Triste
(Composto em 1960)
3 - Reminiscências (Valsa – Composta em 1959)
4 - Confidências (Valsa – Composta em 1959)
Reflexões:
Este LP é
uma obra de arte por revelar a espinha dorsal do violão erudito potiguar, cuja
base melódica bebe diretamente da fonte popular. O texto crítico da contracapa
define com precisão: as composições de Amaro Siqueira possuem o “sabor do
seresteiro lírico e poético”. Ao escutar faixas como “Valsa de Esquina” ou “Reminiscências”
na radiola, percebe-se que Amaro transpôs para a sofisticação técnica do violão
solo a atmosfera das calçadas, das esquinas e das serenatas que embalavam as
noites do Rio Grande do Norte nas décadas de 1940 e 1950. É a erudição que não
nega a sua certidão de nascimento popular.
ÁLBUM 5: ORIANO INTERPRETA ORIANO
– PRELÚDIOS POTIGUARES (VOLUME II)
A Capa e a Sobriedade Tipográfica:
O quinto
álbum a girar na rotação dos afetos é o Projeto Memória - 19: Oriano
interpreta Oriano. Rompendo com o padrão visual de ilustrações em bico de
pena ou fotografias, esta capa aposta em uma estética puramente tipográfica de
corte clássico e sóbrio. Um fundo marrom profundo destaca as letras estilizadas
em tom creme, assinadas graficamente por Pedro Pavani. A sobriedade visual
antecipa a maturidade e a magnitude do mestre que assume o piano.
A
Contracapa e o Inventário da Alma Nordestina: O verso do LP traz um texto
crítico fundamental assinado por Mozart Romano. Ele resgata a formação de Oriano
de Almeida (1920–2004), potiguar que passou a infância em Natal,
diplomou-se no Instituto de Música na classe do professor Waldemar de Almeida e
aperfeiçoou seus estudos no Rio de Janeiro sob a lendária orientação de Magdalena
Tagliaferro.
Aclamado internacionalmente na
Europa, EUA e América do Sul como um legítimo intérprete romântico de Chopin,
Oriano definia-se humildemente como “um simples inventor de melodias, que
surgem da contemplação da paisagem, ou de uma vaga lembrança do passado...”.
O texto de Mozart Romano pontua
com precisão que, embora Oriano transitasse pelo cosmopolitismo europeu (com
valsas dedicadas a Paris e Roma), nos seus “Prelúdios Potiguares” sua
criatividade sonora identifica-se visceralmente com o colorido das praias, o
sussurro do vento e a nostalgia romântica da alma nordestina. A ficha técnica
repete a chancela de qualidade: produção de Deijair Henrique Borges, gravação
de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria
de Diógenes da Cunha Lima.
O
Repertório Comentado: Este álbum é um dos maiores inventários etnográficos da história da
música brasileira, onde cada faixa funciona como uma crônica de costumes,
folclore ou geografia do Rio Grande do Norte:
Lado A:
1 - No Caminho do Sertão: Evocação melódica da transição
da paisagem litorânea para o interior.
2 - Lenda
do Carreiro: Resgate
da tradicional figura do condutor de carro de boi do sertão.
3 - Toada
Ingênua: Peça
lírica inspirada nos cantos tradicionais de interior.
4 - À
Sombra da Velha Jaqueira: Crônica quintaleira e afetiva da infância.
5 - Flor de Cactus: Homenagem à resistência e à
beleza da vegetação da caatinga.
6 - Chorinho de Guarapes: Louvação ao histórico bairro e
região pesqueira de Natal.
7 - Sequilhos e Alfinins: Obra-prima gastronômica que
traduz para o piano a textura dos doces tradicionais das feiras nordestinas.
8 - Caiçara do Rio dos Ventos: Pintura sonora inspirada na
geografia do município potiguar.
9 - Sertanejo Cantador: Homenagem aos repentistas e
poetas da tradição oral.
10 Os Negros do Rosário: Resgate da ancestralidade e da
tradicional dança sincopada da Irmandade dos Negros do Rosário do Seridó.
Lado B:
1 - Polytheama: Homenagem ao pioneiro cinema e
teatro que animava a vida cultural de Natal no início do século XX.
3 - Saudade do Potengi: Peça lírica inspirada nas águas
e no pôr do sol do rio Potengi.
4 - O Galinho de Santo Antônio: Referência à mítica igreja,
marco histórico da capital.
5 - Xarias e Canguleiros: Transposição pianística da
célebre rivalidade política e social da Natal do século XIX (os aristocratas
“Xarias”, da Cidade Alta, contra os populares “Canguleiros”, do bairro da
Ribeira).
6 - O
Alvissareiro da Torre da Matriz: Lembrança poética dos sinos e mensageiros da
antiga Matriz.
7 - Sarau na Rua da Conceição: Resgate da atmosfera das velhas
reuniões musicais da Natal antiga.
8 - “Compraia Juá Jucá”: Obra-prima etnográfica baseada
inteiramente nos antigos pregões dos vendedores ambulantes que ecoavam pelas
calçadas coloniais.
9 - Lamento da Senzala: Lamento profundo que resgata a
memória e as dores da escravidão na formação cultural do estado.
10 -Natal: Homenagem lírica e definitiva à
capital potiguar.
11 - As Imburanas da Pedra Grande: Pintura telúrica inspirada no bioma e nas formações geológicas do interior do estado.
Reflexões:
Colocar
os Prelúdios Potiguares de Oriano de Almeida para rodar na radiola é
testemunhar um dos momentos mais geniais da música nacional. Oriano faz com o
piano o que Câmara Cascudo fez com a caneta: etnografia pura. Quando a agulha
toca os sulcos de faixas como “Os Negros do Rosário”, o piano deixa de ser um
instrumento europeu e aristocrático para incorporar o ritmo percussivo do congo
e dos tambores afro-potiguares do Seridó. Em “Sequilhos e Alfinins”, a música
mimetiza a leveza do açúcar dos doces de tabuleiro, e em “'Compraia Juá Jucá'’,
escuta-se perfeitamente o canto dos antigos vendedores de rua de Natal. É o
folclore potiguar elevado ao topo do piano de concerto universal.
AMÉRICA LATENTE – TICO DA COSTA
(1983)
A Capa e a Estética
Latino-Americana: O sexto
álbum a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 31,
lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações gráficas dos volumes
iniciais, esta capa aposta em uma fotografia colorida de Tico da Costa. O
artista aparece de cabelos longos e fisionomia serena, deitado de forma
descontraída em uma tradicional rede. A imagem da rede, longe de sugerir
mera indolência, estabelece um forte simbolismo: ela é um elemento ancestral e
cotidiano da cultura indígena e nordestina. Funciona como o berço para o
conceito do álbum, América Latente, que enxerga o Rio Grande do Norte
não como um território isolado, mas como parte pulsar de uma América Latina
profunda, unida pelas mesmas dores e heranças.
A
Contracapa e o Voo Cosmopolita de Areia Branca: O verso do LP apresenta uma síntese
biográfica extraordinária de Tico da Costa (Francisco das Chagas da Costa).
Nascido na cidade salinense de Areia Branca, sua grande escola foi a própria
família de dezesseis irmãos, onde aprendeu violão e começou a compor. Iniciou
os estudos formais na Escola de Música de Natal, continuou em Recife e, em
seguida, partiu para Roma. Tico viveu oito anos na Europa, realizando
turnês pela Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda e França. Gravou cinco
discos em solo italiano e assinou colunas sonoras para o cinema, trabalhando
com a lendária cineasta Lina Wertmüller. Nos Estados Unidos, realizou
espetáculos em um longo circuito universitário.
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado A): O
encarte interno de América Latente exibe as letras completas do Lado
A, revelando um jogo de palavras sofisticado e parcerias instrumentais de
peso, como a participação especial de Chiquinho do Acordeon e as flautas
de Sando:
1 - Carybé-Nancy (Tico da Costa): Canção que saúda as matrizes do candomblé baiano e os traços do pintor Carybé, marcada pelo balanço percussivo do agogô de João Leite e do acordeon de Chiquinho.
Ai ai que dor/Tá fazendo muito tempo/Que eu não vou a Salvador/Tá fazendo muito tempo/Que eu não vejo Carybé/Cadê cadê candomblé/A poeira da capoeira / Vou subir a ladeira da Sé...
2 - Paixão Atômica (Tico da Costa): Uma composição
ágil, urbana e irônica, que dialoga com as vanguardas estéticas e os movimentos
sociais da virada da década.
Você me
cheira selvática/Fulô amazônica/Uns ares de irônica/Olho de igarapé/Você me
caiu simpática... Vixe! Virgem das galáxias/Ondas telepáticas/Vieram informar/
Meu astral afrodisíaco...
3 - América Latente (Tico da Costa): A faixa-título
é um jogo de linguagem geopolítico brilhante, adornada pelas flautas de Sando,
unindo o Nordeste às fronteiras hispânicas.
Faz mil
anos faz/Que a gente quer/Ir ao Paraguai/Aí a gente erra/Esquece a guerra/E vai
pro Uruguai/Quais quais quais quais... Quem lá do Pará/Para o Paraná/Vai parar
no arrolo Chui/Não, não é aí Ypacaraí/Com essa cara aí/Caray!!
4 - Durango Tango (Tico da Costa): Uma incursão
performática e dramática pela sonoridade portenha, cantada em português e
espanhol, amparada unicamente pelo violão de Tico e o acordeon de Chiquinho.
É tango
argentino/Nossas vidas/É um tango argentino/Nosso amor/O drama de nós dois/É
fatal/Carinho de nós dois/É punhal...
5 - Menino Menina (Tico da Costa): Um acalanto poético de rara doçura, que traz a participação de Ely Oliveira no coro e evoca o riso luminoso de Elis Regina.
A vida
ensina/Muita coisa em surdina/E fala mansinha/Como a voz de Lurdinha... Como o
riso de Elis Regina/Bem-dita seja a vida/E a vida que da vida vinga...
6 - Ridinha (Tico da Costa): Uma das maiores
obras-primas do álbum, onde Tico reconecta a mítica praia natalense à clássica
estrutura rítmica da ciranda de roda e do folclore praieiro.
Eu sou
feliz na praia da Ridinha/Numa redinha balançando o mar/Adoro adorar lua
rainha/Que vem ralando feito arraia no céu/A lua arria na areia do rio/O rio se
areia/ E vai virando mar...
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado B): O Lado
B do encarte aprofunda a imersão na oralidade do interior nordestino, nas
festas de fogueira e no sentimento do exílio:
1 - Lagartixa (Tico da Costa): Um dos momentos
mais viscerais do disco. Tico utiliza termos da oralidade sertaneja (como
“brocoió”, "calango" e “zambeta”) para construir uma crônica social
crua sobre a lida e a escassez do homem do campo.
Ó, lagartixa,
brocoió calango longo/No telhado se espreguiça/Que o gato tá lhe cubando/A testa
larga a lagartixa... Olha “fartura”:/farta carne, farta o feijão/Farta verdura,
ó, vida dura, e sem condição... Filho de besta é besta filho/É filho da luta...
2 - Lua Pheia (Tico da Costa): Faixa sustentada pelo surdo de Mingo e o coro de Ely Oliveira, onde a lua é personificada como um agente enxerido do folclore amoroso, capaz de quebrar simpatias e desfazer cirandas.
Ai lua
vazia/Sua luz não alumia/Só danço essa ciranda/Se dançar com meu amor... O lua
sem-vergonha/Da cara de pamonha/La vem você metida/Ó lua enxerida/Vem cheia de
ilusão/Me enchendo de saudade / Botando mau-olhado/Na minha felicidade...
3 – Roma – Olinda (Tico da Costa): A canção que melhor resume o espírito do álbum. O compositor contrasta a amargura urbana e o inferno do exílio europeu com o desejo catártico de retornar às festas juninas do Nordeste.
Arruma as
malas/Vou voltar pra Pernambuco/Já tô virando maluco/Neste inferno infernal...
Quero acender fogueira/Pra São João/São João me disse/E São Pedro confirmou...
Ai o amor fumega em meu peito/Feito lenha/Feito tição... Eu sou que nem um
fogueeeeeeeeeeetão...
4 - Atonia (Tico da Costa): Um samba triste e confessional, adornado pela flauta melancólica de Sando, que canta a dor da ausência e a despedida amorosa em surdina.
Tem pena;Tem
dó;Do meu sofrer... No beijo frio/Que você deu/Havia um tom/De adeus; Que me
deixou/Pra lá de só... Meu violão desafogou/Minha dissonância / Em ré maior...
5 - Cabelos de Sol (Tico da Costa): Uma ode delicada à infância e à paternidade, embalada por uma atmosfera praieira de calmaria.
Menino dos cabelos de sol/Menino do cheirinho de mar/Que morde o papai/Que dança pra mamãe/Dá quatro, cinco passos e cai...
Reflexões:
Colocar América
Latente para rodar na radiola é compreender o “folclore em movimento”. Tico
da Costa prova que o artista popular não precisa ficar confinado
geograficamente para preservar sua autenticidade. O genial trocadilho poético
construído na faixa “Lagartixa” (“Olha 'fartura': farta carne, farta o
feijão...”), invertendo o sentido de abundância para denunciar a falta, é
de uma precisão literária assustadora. E a explosão vocal teatralizada no
encerramento de "Roma-Olinda" (“fogueeeeeeeeeeetão”) captura a
mais pura espontaneidade das manifestações populares de rua. É o Rio Grande do
Norte ganhando o mundo sem jamais romper o cordão umbilical com a terra.
ÁLBUM 7: CANÇÃO PARA NATAL –
VÁRIOS AUTORES (1983)
A Capa e a Pintura Ribeirinha: O sétimo álbum a girar na rotação
dos afetos é o Projeto Memória - 28, lançado em 1983. A identidade
visual deste volume é uma das mais deslumbrantes de todo o acervo. Trata-se de
uma aquarela e nanquim que retrata a Natal antiga, boêmia e portuária. Na
pintura, destaca-se em primeiro plano o leito dos trilhos e vagões de trem da
antiga Great Western, contornando o casario histórico do tradicional
bairro da Ribeira.
Logo adiante, as águas azuis do
rio Potengi servem de berço para jangadas e barcaças a vela, tendo ao fundo a
icônica silhueta da Fortaleza dos Reis Magos e o farol estilizado. A pintura
traz a assinatura clássica de Dorian Gray Caldas (“Mariano. 82”).
Curiosamente, o verso do LP credita a obra a outro gigante das artes plásticas
potiguares, Newton Navarro, sugerindo uma rica colaboração, alternância
de projetos gráficos ou uma homenagem cruzada entre os dois mestres na editoria
da universidade.
A
Contracapa e o Manifesto da Modernidade Popular: O verso do LP traz um texto
crítico fundamental assinado por Paulo
de Tarso C. Melo. Ele revela um dado estatístico formidável sobre a
magnitude da iniciativa universitária: até aquele ano de 1983, o Projeto
Memória da UFRN já havia garantido o resgate e a permanência de mais de
trezentas músicas de autores norte-rio-grandenses, que antes estavam
sujeitas à pura e simples desaparição devido ao isolamento em relação aos
grandes mercados do Sudeste.
Paulo de Tarso pontua que, após o
projeto documentar o canto classico do Madrigal, o piano de Oriano e conjuntos
tradicionais de choro (como o “Choro Brejeiro”), este volume assume uma visão “aberta
e despreconceituosa de documentação cultural”, recrutando um “conjunto
jovem” de instrumentistas de Natal. O grupo, composto por Etelvino (teclado),
Chagas (guitarra e viola), Prentice (violão), Jeferson (baixo), Ivanildo Bauru
(bateria) e Negão (percussão), além da flauta de Luizinho Braga, introduziu
arranjos modernos da MPB dos anos 1980 para vestir temas profundamente
tradicionais e telúricos. A produção manteve o selo de Deijair Henrique Borges
e a engenharia de som de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), sob a reitoria de
Diógenes da Cunha Lima.
O
Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Canção Para Natal traz
as letras completas, revelando parcerias primorosas entre intelectuais e
folcloristas:
1 - Saga do Carnaubal (Almir Padilha/Celso da
Silveira – Intérprete: Almir Padilha): Um dos maiores monumentos etnográficos
do disco. A letra descreve minuciosamente o ciclo socioeconômico e o
vocabulário técnico do corte da carnaúba (a árvore da providência do sertão).
Vareiro
que corta a palha/Tuleiro que apara espinho/Juntador que enfeixa a palha/Pra cambitar no burrinho... Tangerino carrega a palha/Para empilhar
estaleiro... Trinchador que trincha a palha/Em faca de sete pontas...
Tacheiro que coze a cera...
2 - Assunto Pessoal (Veríssimo de Melo/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Lucinha Lyra): Uma feliz e rara parceria musical entre o lendário folclorista Veríssimo de Melo e o reitor-poeta Diógenes, cantando o mistério e a invenção do amor.
Não me
perguntem/O que se passou/Na cama bonita do amor... Guardo o segredo de
amor sem fim... Segredo é a invenção do amor / Como Deus inventou a flor...
3 - Canção Para Natal (Nelson Hermógenes Freire/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Silvinha): A faixa-título funciona como um hino de exaltação geográfica e afetiva da capital potiguar.
Se você
passar por aqui/Não pode deixar de ver/A Ribeira, o sol, a lama/As águas
do Potengi/O Farol no alto morro/Dunas brancas que nem lençol... Os
cajueiros em Pirangi...
4 - Canção do Índio Triste (Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Zezé Delgado): Uma composição melancólica de resgate das matrizes indígenas, que utiliza em seus versos e refrãos a expressão em língua nativa “Zan Noyoliyo”.
Zan
Noyoliyo / Zan Noyoliyo / Eu de mim só tenho a vida / A vida que foi canção /
Venha apresentar-se aqui / Quem tem triste o coração...
5 - Naquele Tempo de Cadeiras nas Calçadas (Roberto Lima / Alberto Lima – Intérprete: Silvinha): Uma belíssima e nostálgica ode ao hábito folclórico e interiorano das tertúlias e conversas ao anoitecer, que resistia na Natal antiga.
Naquele
tempo de cadeiras nas calçadas / Brincadeiras inventadas / Eram mais do que
brincar... As nossas ruas eram todas conhecidas / Suas casas parecidas / Seus
viventes tão leais / Que a gente sempre conhecia o seu segredo...
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado B): O Lado
B estende o mapa musical do estado em direção aos grandes espelhos d'água e
ao cancioneiro do Seridó:
1 - Coisas Raras (Zezé Delgado/Diógenes da Cunha
Lima – Intérprete: Zezé Delgado): Canção de forte acento poético existencial
sobre a capacidade de reencantar o olhar sobre a vida.
A vida é
surpresas minha amiga/Coisas raras acontecem todo dia... É preciso ver o mundo
novamente/Com os olhos espantados de menino...
2 - Gargalheiras (Almir Padilha/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Almir Padilha): Uma obra-prima telúrica e de vocação universalista, cantada inteiramente em espanhol, homenageando o imponente Açude Gargalheiras, em Acari, símbolo hídrico do Seridó.
Partiendo
las sierras/Cortando los cerros/Una gran fonte/El Gargalheiras/Como si fuera un
mar... Hermano de cedro, del Pueblo/Lino blanco del Seridó... Madre y Padre, de
los hijos de Acari...
3 - A Moça em Flor (Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Silvinha): Uma composição bucólica e praieira que resgata o balanço e a mística do descanso na rede nordestina.
Rede
branca de varanda/Como as espumas do mar/É uma carícia pra o corpo/E uma canção
de ninar... Armador geme o amor...
4 - Pixanana (Roberto Lima/Pery Lamartine – Intérprete: Negão): Parceria com o pesquisador Pery Lamartine que exalta a beleza singela da pixanana, flor brava e nativa do chão duro do sertão potiguar.
Pixanana
flor do mato/Nasce no meio da rua/No sertão é flor de dama/Na cidade não atua/No
chão duro, pedregoso... Ai Pixanana que saudade você tem/É beleza, é singeleza,
é lembrança do meu bem...
5 - Pesca de Açude (Celso da Silveira – Intérprete: Lucinha Lyra): Uma crônica perfeita e festiva sobre a subsistência no semiárido quando as grandes barragens do interior sangram com as chuvas.
A chuva
chegou/Barragem sangrou/Peixinho que ficou/Menino pescou ó/Traíra, Coró, Cará/Menino
pescou com seu landuá... Menino só pesca em açude com seu landuá...
Reflexões: Este Volume 28 é um achado indispensável para qualquer colecionador por demonstrar que o folclore não é um fóssil congelado no passado, mas uma tradição em permanente mutação e diálogo com o seu tempo. Quando coloco a agulha da minha radiola para trilhar os sulcos de “Saga do Carnaubal”, escuto um vocabulário técnico de lida (o landuá, o tuleiro, o cambitar) que corre o risco de sumir dos dicionários modernos, mas que permanece vivo no vinil. E a audácia de Almir Padilha ao cantar o Gargalheiras em espanhol revela a sofisticação de uma província que sabia dialogar com o mundo inteiro a partir de suas próprias águas.
ÁLBUM 8: CANCIONEIRO POTIGUAR
(VALSAS E MODINHAS DE SERESTA) – VOLUME II (1983)
A Capa e o Relicário Fotográfico:
O oitavo
e último disco a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 18,
lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações em nanquim ou aquarela
dos volumes anteriores, esta capa aposta no registro puramente fotográfico,
capturado pelas lentes de Cândida Bezerra. A imagem colorida exibe cinco
figuras reunidas em um ambiente de jardim, com folhagens ao fundo. Duas
mulheres estão sentadas em um clássico banco de praça branco e três homens encontram-se
de pé logo atrás, com vestes sóbrias da época.
A Contracapa e a Memória das Serenatas: O verso do Cancioneiro Potiguar (Valsas e Modinhas de Seresta – Volume II) é um delicado exercício de preservação da memória afetiva. Logo no alto, a escolha do verso de Carlos Drummond de Andrade - “Mas as coisas findas / Muito mais que lindas / Essas ficarão” - funciona como a chave de leitura de todo o álbum. A frase sintetiza a proposta do Projeto Memória: demonstrar que as antigas serenatas, embora desaparecidas das ruas, permanecem vivas quando encontram abrigo na música e na lembrança coletiva.
A A fotografia central registra os intérpretes Fátima de Brito e Gerardo Parente durante a gravação, diante do piano, reforçando o caráter documental do disco. Não se trata de uma produção voltada ao espetáculo, mas do testemunho de um trabalho de pesquisa e reconstrução histórica. Ao lado da imagem, um breve texto esclarece que aquelas canções chegaram até o presente graças à memória de informantes como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito. A frase final -“Poetas e músicos mortos, poemas e melodias vivos” - resume com rara felicidade a missão do álbum: devolver voz a um repertório que sobrevivia apenas na tradição oral e nas recordações de antigas famílias natalenses.
A composição gráfica da contracapa também revela uma opção estética coerente com todo o projeto. A sobriedade da ficha técnica, a simples relação das faixas e a fotografia de estúdio dispensam qualquer exuberância visual para colocar em primeiro plano aquilo que realmente importa: a permanência da música. É um documento de enorme valor histórico, pois registra não apenas um repertório de valsas e modinhas, mas o esforço consciente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em transformar a memória sentimental de Natal em patrimônio fonográfico permanente.
Essa disposição visual emoldurada em amarelo remete imediatamente aos retratos de famílias tradicionais e antigos grupos de seresteiros do interior. O subtítulo do álbum, (valsas e modinhas de seresta), grafado em tom creme sobre o fundo marrom e alaranjado, amarra o projeto visual diretamente ao seu propósito sonoro: resgatar a trilha sonora sentimental do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX.
O Encarte e o Clima Passadista da Velha Natal: O encarte interno deste LP é um dos documentos memorialistas mais bonitos de todo o acervo da UFRN. O texto de abertura resgata com profunda melancolia a transição da sociabilidade urbana na capital potiguar, funcionando como um verdadeiro ensaio folclórico. Ele evoca a “Natal das primeiras décadas do novecentos... tempo de cadeiras nas calçadas...”, período em que os poemas mais queridos passavam de boca em boca através do aprendizado oral ou eram anotados em cadernos pessoais de rapazes e moças. O texto pontua a divisão social desse folclore urbano: enquanto o violão acompanhava as vozes nas serenatas de rua, o piano substituía o instrumento nas casas abastadas, de modo que “a modinha estava dentro e fora das casas”.
O manifesto encerra-se com um lamento
poético sobre o advento da modernidade: “Tempo passado. Foram-se as cadeiras
nas calçadas. Também se foi a luz da lua, apagada pela luz elétrica. Ficaram,
porém, os poemas musicados, memória linda deste tempo findo”. O disco
assume que sua missão foi recolher, junto a informantes sobreviventes e
familiares – como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto
Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito –, as
melodias e solfas (partituras) que o tempo e a tradição oral modificavam,
fixando a interpretação com o objetivo de “deixar fluir o clima passadista
que só a memória pode guardar”. A ficha técnica repete o padrão sob a
coordenação de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na
Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria de Diógenes da Cunha
Lima.
O
Repertório Comentado (Lado A): O Lado A do encarte traz as letras completas
defendidas pelo canto lírico de Fátima de Brito e o piano sofisticado de
Gerardo Parente, resgatando poetas e músicos históricos:
1 - Súplica (Poesia: Ferreira Itajubá/Música:
Olímpio Galvão): Obra-prima do lirismo potiguar. A poesia do mestre Ferreira
Itajubá ganha uma melodia dramática e romântica, perfeita para as antigas
serenatas de janela.
Ó minha
amada, dize que me queres/Tira da minha mente essa descrença/Que eu sou a
vítima de tantas dores... Abre a janela, vem ouvir as queixas/Deste infeliz que
vive a te adorar...
2 - Por Estes Teus Olhos Tão Bonitos (Autor: Manuel de Oliveira Costa): Modinha tradicional de corte romântico e confessional, marcada pelo jogo lírico da dor do amor sob o luar.
Por este
teus olhos tão bonitos/Que me trazem num doce encanto/Não permitas que eu viva
em prantos... A frouxa luz da lua / Que clareia a imensidão...
3 - Caminho do Sertão (Poesia: Anfilóquio Souza/Música: Abdon Praxedes): Transposição de um tema tradicional do interior (já explorado na música instrumental do projeto) para o formato de modinha cantada.
No
caminho do sertão/Eu vi uma linda flor/Que trazia no coração/A lembrança do meu
amor... Era uma linda rosa branca...
4 - Sereia (Autor: Luiz de França Moraes): Composição que resgata a mítica figura folclórica da sereia sob a perspectiva do lirismo litorâneo potiguar, sob o Cruzeiro do Sul.
Sereia,
que vives no mar/Vem ouvir o meu cantar/Que a noite está tão linda/E eu quero
te namorar...
5 - Primeiro Amor (Tradição Oral): Canção de autoria anônima, transmitida de geração em geração pelos cadernos de modinhas de Natal.
O primeiro
amor que tive na vida/Foi um sonho de rara beleza/Deixou minh'alma ferida/No
meio de tanta tristeza...
6 - Sozinho (Tradição Oral): Outro achado do cancioneiro anônimo das calçadas, que canta a solidão urbana e a recordação amorosa ao cair da noite.
Eu vivo
na terra sozinho/Sem ter quem me queira bem... A noite desce serena/Trazendo a
recordação...
O Repertório Comentado (Lado B): O Lado B do encarte coroa
o disco unindo grandes nomes da história literária e musical do estado,
incluindo peças do gênio Tonheca Dantas:
1 - Maria (Poesia: Lourival Açucena/Música:
Tonheca Dantas): Um dos encontros mais monumentos da cultura potiguar. Os
versos do poeta Lourival Açucena recebem a arquitetura melódica do gênio do
Seridó, Tonheca Dantas (autor da célebre valsa Royal Cinema).
Maria,
cujo nome evoca o céu/Cuja imagem me traz a doce luz/Se do meu peito cai o
negro véu/É o teu olhar que à vida me conduz... Vem, escuta a voz que te chama/Nesta
noite de calmaria e luar...
2 - Na Hora em que se Encobre de Neve as Serranias... (Tradição Oral): Modinha de acento nostálgico e passadista, que usa imagens climáticas dramáticas para cantar a ausência da amada.
Na hora
em que se encobre de neve as serranias/E o sol esconde a sua luz dourada /Eu
sinto voltar as velhas nostalgias...
3 - Um Sonho (Poesia: Nelson Hermógenes Freire/Música: João Rodrigues): Poema transformado em canção que contrasta a ilusão perfeita do sonho amoroso com a dura e escura realidade da solidão.
Eu tive
um sonho de encanto/No qual tu eras a minha rainha... Mas acordei e vi a
realidade/O quarto escuro e a solidão...
4 - Aurideia (Autor: Pedro Guimarães): Modinha romântica que personifica a amada como a estrela-d'alva, guia dos caminhos do seresteiro.
Aurideia,
estrela d'alva/Que brilha no céu azul/O teu olhar me salva/Do norte ao extremo
sul...
5 - Para os Teus Olhos (Autor: Antônio Justino de Caldas): Belíssima e melancólica peça de calçada sobre o desencontro de olhares e a dor do adeus gelado.
Para os teus
olhos voltei o meu olhar/Buscando neles a luz da esperança... Mas os teus olhos
fugiram dos meus...
6 - Recordação (Poesia: Ferreira Itajubá/Música: Luiz de França Moraes): O álbum se encerra de forma perfeitamente coerente, unindo novamente Ferreira Itajubá ao mestre Luiz de França Moraes para cantar a saudade das velhas serenatas e das coisas findas.
Volto ao
passado em pensamento/Buscando os dias que não voltam mais... A velha casa, a rua
deserta/Onde a seresta costumava passar... Mas as coisas findas, bem o sei/Ficarão
vivas no meu coração...
Reflexões: Colocar este segundo volume do Cancioneiro Potiguar para tocar na minha radiola, neste mês de agosto, é realizar um ato de comunhão com a história de Natal. Este disco é o retrato de um tempo em que a poesia andava pelas ruas e o amor era declarado ao rés do chão, nas calçadas coloniais da Ribeira ou da Cidade Alta. A constatação do encarte de que “a luz da lua foi apagada pela luz elétrica” resume com precisão cirúrgica o impacto do progresso sobre as manifestações folclóricas urbanas. Escutar a voz de Fátima de Brito dando vida às notas que o gênio Tonheca Dantas escreveu para os versos de Lourival Açucena em “Maria” é a prova cabal de que esses cadernos de poemas não morreram; eles encontraram abrigo eterno na fidelidade do vinil.
O Legado dos LP’s
Analisar detalhadamente este
conjunto de oito raridades do “Projeto Memória” da UFRN, retirados diretamente
do acervo de 500 LPs da minha radiola, é compreender que o folclore e a cultura
popular do Rio Grande do Norte não são fósseis estáticos destinados ao
esquecimento. Através do canto polifônico do Madrigal, das crônicas litorâneas
do coco e do bambelô, do manifesto modernista de Lucinha Lira, do violão de
Amaro Siqueira, do piano etnográfico de Oriano de Almeida, do voo latino de
Tico da Costa, das odes modernas de Canção para Natal e do lirismo
boêmio do Cancioneiro Potiguar, a nossa universidade operou um milagre
estético. Ela salvou uma herança inteira da desaparição, garantindo que a
identidade norte-rio-grandense permanecesse gravada, girando na rotação exata
da nossa história. Neste mês de agosto, celebrar o folclore é, acima de tudo,
manter viva essa agulha sobre o vinil.
Referências
Bibliográficas
ALMEIDA, Oriano de. Oriano
interpreta Oriano: prelúdios potiguares (Volume II). Natal: UFRN, Escola de
Música, [1982-1983]. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto
Memória, v. 19. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
CANTOS da Terra do Mar.
Intérprete: Madrigal da UFRN. Regência: Pe. Pedro Ferreira da Costa. Natal:
UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo.
Projeto Memória, v. 1. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
CANÇÃO para Natal. Intérpretes:
Almir Padilha, Lucinha Lyra, Silvinha, Zezé Delgado, Negão. Coordenação:
Deijair Henrique Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESC/RN, 1983. 1 disco
de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 28. Gravado nos
Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
COSTA, Tico da. América
Latente. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3
rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 31. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio
de Janeiro).
DORIAN Gray Caldas. In: WIKIPÉDIA:
a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dorian_Gray_Caldas. Acesso em: 6 fev. 2026.
LIRA, Lucinha. Floração.
Natal: UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm,
estéreo. Projeto Memória, v. 3. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de
Janeiro).
MELO E SILVA, Emmanuel de. Bambelô.
Natal: UFRN, Escola de Música, 1982. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm,
estéreo. Projeto Memória, v. 7. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de
Janeiro).
ORIANO de Almeida. In: MUSICABRASILIS.
Rio de Janeiro, [202-]. Disponível em: https://www.musicabrasilis.org.br/compositores/oriano-de-almeida.
Acesso em: 12 abr. 2026.
SIQUEIRA, Amaro. Saudades da
juventude. Intérprete: Fidja Siqueira. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983.
1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 14. Gravado nos
Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
VALSAS e modinhas de seresta.
Intérpretes: Fátima de Brito, Gerardo Parente. Coordenação: Deijair Henrique
Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESI/RN, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33
1/3 rpm, estéreo. Cancioneiro Potiguar, Volume II. Projeto Memória, v.
18. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).





















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