ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O PROJETO MEMÓRIA DA UFRN E A PRESERVAÇÃO DA CULTURA POPULAR POTIGUAR NOS LPs (1981–1983)

 

RARIDADES DA MÚSICA POTIGUAR NOS SULCOS DO VINIL E OS ARES DE AGOSTO

Agosto sempre chega ao Nordeste com um sopro diferente. Minha mãe – atualmente com 95 anos – diz que é o mês dos ventos fortes e o mês dos cachorros loucos (não me perguntem o porquê), sei que é o período em que o Brasil se volta para as suas raízes mais profundas para celebrar o Dia do Folclore. E eu, como folclorista de berço, não poderia deixar de trazer as pérolas da cultura popular que guardo em meu acervo.

Creio que no bojo das celebrações do amplo universo do folclore do Folclore, ele também acontece nos estalinhos sutis da agulha riscando os discos de vinis: os quase esquecidos Long Player, chamados LP’s. Embora eu conviva bem com as novas tecnologias, ainda me atrevo a ser do tempo da radiola. Na contramão de um mundo que digitalizou os afetos e transformou a música em arquivos invisíveis lá pelos dedentros da internet, preservo em minha casa uma radiola antiga, perfeitamente regulada e em pleno funcionamento. Ao redor dela, orbita um acervo de mais de 500 LPs, lapidados ao longo de anos de garimpo e organizados segundo o meu gosto pessoal. Alguns deles me viram adolescente. É um templo de acetato e papelão onde guardo as minhas maiores relíquias afetivas. F., meu filho, cresceu enfronhado nesses LP’s já no tempo do auge dos CD’s.

Enfim, aproveitando justamente o folcloricamento de agosto, decidi abrir as portas desse acervo para apresenta-lo àqueles que os desconhecem. Selecionei uma série de LPs lançados no Rio Grande do Norte entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, a maioria sob o selo do pioneiro “Projeto Memória” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Creio que essas peças não existiriam com essa qualidade, sensibilidade e visão sem que o poeta Diógenes da Cunha Lima não tivesse se sentado na cadeira de reitor da UFRN à época. Assim como os artistas fazem a diferença, os poetas também o fazem. Muitos desses discos são verdadeiras peças de colecionador, raridades absolutas que escaparam das grandes plataformas e que correm o risco de sumir da história fonográfica, portanto, cumpro também o papel de resgatar essas pérolas.

Minha proposta aqui é pedagógica e afetiva: levar essas joias ao conhecimento de quem nunca teve a oportunidade de ouvi-las ou pegá-las nas mãos. Pesquisei cada álbum individualmente, esmiuçando os detalhes preciosos de suas capas, os textos históricos de suas contracapas, as letras de seus encartes e os profissionais de destaque que acercaram cada lançamento. E agora os ofereço ao leitor. Para mim, as capas – dos LP’s – falam. São obras de arte por maisque carreguem simplicidade. Construí este estudo como uma espécie de catalogação e farei reflexões que cruzam esses dados com a história, a culinária, a geografia e as tradições orais do nosso estado. Ajustem o braço da radiola, aumentem o volume e acompanhem-me nesta jornada pelos sulcos da cultura popular potiguar...

ÁLBUM 1: CANTOS DA TERRA DO MAR - MADRIGAL DA UFRN (1981)


A Capa e o Simbolismo Armorial: O primeiro volume que repousa no prato da minha radiola é o pioneiro Projeto Memória – 1, lançado em 1981. A identidade visual do álbum é um manifesto estético por si só. Vemos uma ilustração em nankin, cujos traços rústicos em preto e branco remetem imediatamente à xilogravura e à literatura de cordel. A imagem exibe duas figuras de feições clássicas e populares perfeitamente integradas à vegetação nativa. Uma delas empunha um instrumento de cordas (uma viola popular ou bandolim) e a outra segura uma lira grega clássica. Esse arranjo visual traduz perfeitamente a proposta do disco: o encontro da tradição erudita do canto coral com a pureza e a riqueza do folclore norte-rio-grandense.

A Contracapa e o Manifesto Institucional: No verso do LP, o texto institucional assinado pela diretoria da Escola de Música e pela reitoria contextualiza a urgência da obra. Fundado na década de 1960 e composto por 32 integrantes divididos no quarteto clássico (sopranos, contraltos, tenores e baixos), o Madrigal da UFRN utilizou sua técnica polifônica e seu estilo madrigalístico tradicional para “documentar e valorizar compositores do Rio Grande do Norte”.

O disco foi gravado nos lendários Estúdios da Transamérica, no Rio de Janeiro, sob a direção técnica de Edeltrudes Marques da Silva e engenharia de som de Aníbal Félix a mesma equipe de ponta que garantiu a alta fidelidade de quase todo o Projeto Memória. A coordenação foi da Diretora da Escola de Música, Deijair Henrique Borges, com regência do Padre Pedro Ferreira da Costa. Curiosamente, o reitor da época, o intelectual Diógenes da Cunha Lima, não assina o projeto apenas como burocrata, mas também como artista, figurando como compositor de uma das faixas, pois também é poeta.

O Repertório Comentado: O repertório deste Volume 1 é uma aula de geografia e etnografia potiguar, dividindo-se entre temas do sertão e do litoral:

Lado A:

 

1.      Aruanda (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis Pereira)

2.      Cantiga de Beira-Mara (Enoch Domingos/Arr. Clóvis Pereira)

3.      Minha Maria (Diógenes da Cunha Lima/Arr. Pe. Pedro Ferreira)

4.      Prece ao Vento (Gilvan Chaves - Alcyr Pires - Fernando Luiz/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)

5.      Vadiação de Vaqueiro (Celso da Silveira/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)

 

Lado B:

 

6.      Duas Toadas (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis Pereira – Solo: Pe. Pedro Ferreira)

7.      Moinho d'Água (Francisco Elion/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Gláucio Teófilo Câmara de Sá)

8.      Sonhador (Márcio Marinho/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)

9.      Cavaco Chinês (Roberto Lima de Souza / Arr. Pe. Pedro Ferreira)

 

Reflexões do Colecionador: A grande joia oculta deste LP reside nos arranjos de Clóvis Pereira nas faixas “Aruanda”, “Cantiga de Beira-Mara” e “Duas Toadas”. Clóvis foi um dos pilares do Movimento Armorial, fundado por Ariano Suassuna na década de 1970 em Recife. A presença de suas orquestrações vocais no Madrigal da UFRN prova que a inteligência musical potiguar estava perfeitamente sintonizada com a vanguarda nordestina, que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares (o romanceiro, o aboio e as bandas de pífano). Destaca-se também a voz do jovem tenor Emmanuel de Melo e Silva, cujos solos em “Prece ao Vento” e “Vadiação de Vaqueiro” antecipavam o nascimento de um dos maiores intérpretes da música popular do nosso estado.

ÁLBUM 2: BAMBELÔ – EMMANUEL DE MELO E SILVA (1982) – Esse LP e o que trataremos abaixo – Floração – são duas pérolas incríveis para mim.

A Capa e a Estética do Litoral: A agulha avança e o próximo disco a girar é o Projeto Memória - 7, lançado em 1982: o emblemático Bambelô, de Emmanuel de Melo e Silva. A capa traz uma belíssima ilustração em nanquim com traços de forte inspiração expressionista e puramente popular. O desenho retrata dois músicos descalços – um tocando um pandeiro e o outro ao violão – emoldurados por coqueiros e casas simples de taipa. É a tradução visual exata da paisagem litorânea e suburbana de Natal. O título do álbum é um monumento ao nosso folclore. O bambelô (ou coco de bambelô) é uma manifestação folclórica tipicamente potiguar. Dança de roda e ritmo sincopado de forte matriz afro-brasileira, o bambelô historicamente fincou suas raízes na Praia da Redinha, animando as noites de pescadores e comunidades litorâneas, assim como Nísia Floresta e São José de Mipibu. Ao batizar o disco com esse nome, a UFRN assumia o compromisso direto com a etnografia musical do estado.

O Encarte e a Rede de Intelectuais (Lado A): Diferente das edições convencionais, este LP traz um encarte completo com as letras e fichas técnicas que revelam uma rede impressionante de parcerias entre músicos e os maiores intelectuais potiguares da época. No Lado A, a faixa de abertura é justamente “Bambelô”, cuja autoria pertence a Fernando Luís da Câmara Cascudo (filho do patrono do folclore brasileiro, Luís da Câmara Cascudo). A letra é um registro fidedigno das manifestações de terreiro, citando elementos estruturais das danças populares como o zabumba, o maracá, o coco catolé e as festas de congo (“Que a noite é bela, seu Mano/Pra nós congar, seu Mano”).

O encarte traz ainda duas parcerias com Diógenes da Cunha Lima: “Teu Ventre” e o enigmático “Poema dos Macunis”. Este último é um achado etnográfico fantástico. A letra abre com fonemas indígenas originais (“Abaai, bita, popi/Amabá poaté poitecé”) e faz referência direta aos povos nativos do estado, os Gês, Tapuias e Tupis, que musicavam o entardecer. Fechando o Lado A, Emmanuel grava “Miragens” (de Enoch Domingos), “Pouso” (de Roberto Lima de Souza, que evoca as palmeiras e as dunas de areia) e “Navegante Sem Mar”, de autoria de Babal – um dos grandes nomes da vanguarda da MPB produzida em Natal na virada dos anos 1970 para os 1980.

O Encarte e a Geografia Afetiva (Lado B): Se o Lado A do LP Bambelô (Projeto Memória - 7) fincou os pés na ancestralidade indígena e nos ritmos de terreiro, o Lado B desenha um autêntico diário de bordo pelas praias, costumes e cidades do Rio Grande do Norte. As letras deste lado do encarte funcionam como crônicas folclóricas vivas. A faixa de abertura do Lado B é “Procissão dos Navegantes”, uma composição primorosa de Roberto Lima de Souza. A letra é o retrato mais perfeito da tradicional festa de Nossa Senhora dos Navegantes na Praia da Redinha. Tico capta os elementos identitários de Natal: as barcaças no rio Potengi, os cajus vermelhos, a lancha que trazia os moradores do bairro das Rocas e o peixe com tapioca (“Mulatos bebem cachaça / Com peixes e tapiocas...”).

Em seguida, o disco traz “As Ancas de Maria” (Diógenes da Cunha Lima), uma canção que usa as dunas e o vento litorâneo como metáforas poéticas, e “Xote na Ribanceira” (Fábio Fernandes), que resgata os bailes de interior à beira dos ribeirões. O cotidiano urbano de Natal ganha contornos em “O Ônibus” (Roberto Lima de Souza), mostrando operários, lavadeiras, ambulantes e estudantes cruzando as ladeiras da capital. A penúltima faixa viaja até o Litoral Norte com “Touros”, escrita por Ivanildo. Trata-se de um inventário riquíssimo do vocabulário e hábitos locais: cita o Farol do Calcanhar, a bebida “jurrubado”, o fruto nativo “guajiru”, a pesca artesanal com “tresmalho” e a figura folclórica da solteirona de província (“Em cada uma eu vejo Vitalina/Toda empoada esperando seu amor”). Fechando o disco, a faixa “Pilão” (Diógenes da Cunha Lima) resgata onomatopaicamente os antigos cantos de trabalho das mulheres do sertão (Pilo, pilo, pilo no pilão/Na mão do pilão tem sangue e suor”).

Reflexões: O que torna este LP do Emmanuel uma raridade absoluta de colecionador é a sua capacidade de mimetizar os sons do trabalho e do sagrado popular sem perder o viço da MPB moderna dos anos 1980. Ao colocar no prato da radiola a faixa “Pilão”, o estalo do vinil parece se misturar à batida física da madeira moendo o milho ou o café. A menção ao "peixe com tapioca" na Redinha em "Procissão dos Navegantes" antecede em décadas o tombamento dessa iguaria como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte. É a prova de que o folclore não estava morto; estava pulsando nas praias e feiras.

ÁLBUM 3: FLORAÇÃO – LUCINHA LIRA (1981)

A Capa e o Traço de Dorian Gray: O terceiro disco a girar na radiola é o Projeto Memória - 3, lançado em 1981, trazendo o protagonismo feminino de Lucinha Lira no álbum Floração. A identidade visual da capa é uma obra de arte histórica: uma ilustração original em nanquim assinada pelo mestre Dorian Gray Caldas. Ele desenha uma figura feminina cujos longos cabelos se transformam em flores, e cujas vestes se misturam a texturas de folhas, sementes, raízes e pequenos insetos (como uma joaninha). Ao fundo, árvores estilizadas evocam a vegetação do tabuleiro litorâneo e da caatinga. O conceito de “floração” dialoga diretamente com a ideia do desabrochar da cultura popular a partir das suas raízes mais profundas.

A Contracapa e o Manifesto Modernista: O verso do LP traz um texto institucional e crítico formidável, que serve como um verdadeiro manifesto em defesa da produção cultural nordestina descentralizada. O texto argumenta que a musica produzida em Natal corre um risco histórico de “pura e simples desaparição” por estar longe dos grandes centros e mercados consumidores do Sudeste, restringindo-se a serestas e encontros informais.

Para justificar a necessidade do registro fonográfico do Projeto Memória, a UFRN evoca o poeta potiguar Jorge Fernandes (1887–1953). O texto lembra que Jorge Fernandes foi apontado por ninguém menos que Mário de Andrade – o pai do Modernismo brasileiro – como um precursor do movimento por ter introduzido a fala do povo e os temas locais na poesia nacional. O disco Floração nasce, portanto, para evitar que a nova safra de compositores sofra o esquecimento histórico. A ficha técnica repete o padrão de alta fidelidade: gravado na Transamérica (Rio), coordenado por Deijair Henrique Borges sob a reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Floração traz as letras completas, revelando composições de um lirismo impecável:

1 - Floração (Diogenes da Cunha Lima): Faixa-título que abre o Lado A cantando a beleza da manhã e a efemeridade do tempo (“Antes que o tempo tome de ti em sua mão/As flores da manhã nascem do teu corpo”).

2 - Cajueiro (Música: Oriano de Almeida/Versos: Veríssimo de Melo): Uma das maiores preciosidades do disco. Unindo o piano erudito de Oriano à sensibilidade do folclorista Veríssimo de Melo, a letra canta as dunas e o caju à beira-mar, evocando a mítica figura da sereia (“Cajueiro da beira do mar/Cadê a sereia que eu quero noivar”).

3 - Cidade de Dezembro (Nei Leandro de Castro/Rogério Rossini): Uma composição belíssima que resgata as memórias e os autos folclóricos do ciclo natalino em Natal, citando expressamente o Pastoril, a Chegança, as figuras das mestras e contramestras e o Bumba-Meu-Boi.


O Repertório Comentado (Encarte do Lado B): O Lado B do encarte aprofunda a imersão nas paisagens e nos sentimentos telúricos do estado:

1 - Velhas Oiticicas (Letra: Pery Lamartine/Música: Roberto Lima): Uma canção belíssima de resgate do imaginário sertanejo do Seridó. Pery Lamartine canta a oiticica, árvore frondosa que serve de morada e abrigo contra o sol, mas que no imaginário infantil também evoca o folclore das assombrações noturnas (“Eram velhas oiticicas com seu cheiro penetrante/Tinham sombra repousante das moradas do sertão/Que me davam segurança e, à noite, assombração”). E, para quem não sabe, há uma célebre Oiticica plantada por ele – que inclusive traz uma história impressionante, cuja síntese está numa placa ao lado. Fica na Avenida Campos Sales, em Natal.

2 - Verde Mar (Diógenes da Cunha Lima): Uma faixa melancólica que afasta o mar do clichê turístico e o aproxima da dura realidade social do pescador de subsistência (“O cardume de albacoras busca fome jangadeira/Sou homem oprimido, a tristeza me consome”).

3 - O Olhar da Amada é Como um Barco a Vela Navegante (Roberto Lima de Souza): Canção de forte lirismo praieiro que compara os sentimentos humanos aos movimentos das embarcações nos portos potiguares.

4 - Eterna Harmonia (Zezé Delgado): Uma ode à natureza e à alvorada, comparando o sorriso humano ao canto livre das andorinhas.

5 - Coisa Boa (Música: Hianto de Almeida/Versos: Veríssimo de Melo): Uma das faixas mais célebres do disco, que condensa em sua letra o espírito do lazer e da boemia litorânea tradicional do Rio Grande do Norte (“Coisa boa é querer bem, ter alguém, namorar... Coisa boa é o mar, o luar, e caju com pitu, cafuné, cochilar...”).

6 - Brinco de Amor (Diógenes da Cunha Lima/Veríssimo de Melo): Pequeno poema amoroso que fecha o álbum celebrando a noite e a paixão perfeita sob o clima do litoral.

Reflexões: O álbum Floração é um monumento por conseguir reunir em um único objeto de papelão e vinil as maiores mentes do Rio Grande do Norte. Ver a assinatura visual de Dorian Gray na capa, ler a evocação de Jorge Fernandes e Mário de Andrade na contracapa, e escutar a voz de Lucinha Lira cantando versos de Veríssimo de Melo e Pery Lamartine é o auge do que o Mês do Folclore representa. Quando escuto “Coisa Boa” na minha radiola, a expressão “caju com pitu” (o fruto símbolo de Natal harmonizado com a tradicional cachaça nordestina) salta dos sulcos como um retrato fidedigno de um alpendre praieiro nas lindas praias norte-rio-grandenses.

ÁLBUM 4: SAUDADES DA JUVENTUDE – AMARO SIQUEIRA POR FIDJA SIQUEIRA (1983)

A Capa e a Iconografia do Intérprete: O quarto disco a repousar no prato da radiola é o Projeto Memória - 14, lançado em 1983. A capa estampa uma linda ilustração em formato de caricatura de perfil do compositor Amaro Siqueira, assinada pelo artista Nivaldo. O traço em nankim e bico de pena revela um detalhe de refinada sensibilidade artística: a linha de contorno da lapela do paletó de Amaro se funde, de maneira estilizada, ao desenho de um violão integrado a uma clave de sol. É a iconografia exata de um homem cuja existência confundiu-se inteiramente com o próprio instrumento.

A Contracapa e a Linhagem do Violão Potiguar: O verso do LP funciona como um documento biográfico e musicológico de valor inestimável para o Nordeste. O texto resgata a trajetória de Amaro Carvalho de Siqueira (1908–1970), nascido nas salinas de Areia Branca, cuja mãe foi sua primeira professora de violão. Em 1931, Amaro estudou em Recife com o renomado Isidoro Bacelar (SP), absorvendo uma técnica refinada.

Ao lado do mestre Waldemar de Almeida, ocupou a cadeira de violão do Instituto de Música do Rio Grande do Norte e ajudou a fundar o lendário Clube de Violão de Natal, do qual foi o primeiro presidente. Transitou entre a intelectualidade e os grandes mestres do instrumento no mundo, mantendo contato com nomes do calibre de Maria Luísa Anido (Argentina) e Isaías Sávio (Uruguai/SP). Convidado em 1966 por Waldemar de Almeida para lecionar na Escola de Música da UFRN, Amaro exerceu a função por apenas um mês devido a problemas de saúde, falecendo em 1970.

A gravação deste volume é um ato de amor familiar e acadêmico: as partituras manuscritas de Amaro são executadas por seu filho, Fidja Nicolai de Siqueira, professor de violão da UFRN que se formou na Escola de Belas Artes da UFPE e refinou sua técnica nos Seminários Internacionais de Violão com os monstros sagrados Abel Carlevaro e Jorge Martínez Zárate. O disco mantém a equipe técnica padrão: direção de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na Transamérica (Rio) e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado: O disco é dividido inteiramente entre as criações originais de Amaro Siqueira, resgatadas de seus cadernos de manuscritos:

Lado A:

 

1        - Prelúdio nº 5 (Composto em 1948)

2        - Dança Brasileira nº 2 (Composto em 1953)

3        - Estudo nº 11 (Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)

4        - Estudo nº 4 (Composto em 1948)

5        - Valsa de Esquina (Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)

 

Lado B:

 

1        - Devaneio nº 1 (Composto em 1960 - integrante da série “Saudades da Juventude”)

2 - Canção Triste (Composto em 1960)

3 - Reminiscências (Valsa – Composta em 1959)

4 - Confidências (Valsa –  Composta em 1959)

Reflexões: Este LP é uma obra de arte por revelar a espinha dorsal do violão erudito potiguar, cuja base melódica bebe diretamente da fonte popular. O texto crítico da contracapa define com precisão: as composições de Amaro Siqueira possuem o “sabor do seresteiro lírico e poético”. Ao escutar faixas como “Valsa de Esquina” ou “Reminiscências” na radiola, percebe-se que Amaro transpôs para a sofisticação técnica do violão solo a atmosfera das calçadas, das esquinas e das serenatas que embalavam as noites do Rio Grande do Norte nas décadas de 1940 e 1950. É a erudição que não nega a sua certidão de nascimento popular.

ÁLBUM 5: ORIANO INTERPRETA ORIANO – PRELÚDIOS POTIGUARES (VOLUME II)

A Capa e a Sobriedade Tipográfica: O quinto álbum a girar na rotação dos afetos é o Projeto Memória - 19: Oriano interpreta Oriano. Rompendo com o padrão visual de ilustrações em bico de pena ou fotografias, esta capa aposta em uma estética puramente tipográfica de corte clássico e sóbrio. Um fundo marrom profundo destaca as letras estilizadas em tom creme, assinadas graficamente por Pedro Pavani. A sobriedade visual antecipa a maturidade e a magnitude do mestre que assume o piano.

A Contracapa e o Inventário da Alma Nordestina: O verso do LP traz um texto crítico fundamental assinado por Mozart Romano. Ele resgata a formação de Oriano de Almeida (1920–2004), potiguar que passou a infância em Natal, diplomou-se no Instituto de Música na classe do professor Waldemar de Almeida e aperfeiçoou seus estudos no Rio de Janeiro sob a lendária orientação de Magdalena Tagliaferro.

Aclamado internacionalmente na Europa, EUA e América do Sul como um legítimo intérprete romântico de Chopin, Oriano definia-se humildemente como “um simples inventor de melodias, que surgem da contemplação da paisagem, ou de uma vaga lembrança do passado...”.

O texto de Mozart Romano pontua com precisão que, embora Oriano transitasse pelo cosmopolitismo europeu (com valsas dedicadas a Paris e Roma), nos seus “Prelúdios Potiguares” sua criatividade sonora identifica-se visceralmente com o colorido das praias, o sussurro do vento e a nostalgia romântica da alma nordestina. A ficha técnica repete a chancela de qualidade: produção de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado: Este álbum é um dos maiores inventários etnográficos da história da música brasileira, onde cada faixa funciona como uma crônica de costumes, folclore ou geografia do Rio Grande do Norte:

Lado A:

 

1 - No Caminho do Sertão: Evocação melódica da transição da paisagem litorânea para o interior.

2 - Lenda do Carreiro: Resgate da tradicional figura do condutor de carro de boi do sertão.

3 - Toada Ingênua: Peça lírica inspirada nos cantos tradicionais de interior.

4 - À Sombra da Velha Jaqueira: Crônica quintaleira e afetiva da infância.

5 - Flor de Cactus: Homenagem à resistência e à beleza da vegetação da caatinga.

6 - Chorinho de Guarapes: Louvação ao histórico bairro e região pesqueira de Natal.

7 - Sequilhos e Alfinins: Obra-prima gastronômica que traduz para o piano a textura dos doces tradicionais das feiras nordestinas.

8 - Caiçara do Rio dos Ventos: Pintura sonora inspirada na geografia do município potiguar.

9 - Sertanejo Cantador: Homenagem aos repentistas e poetas da tradição oral.

10 Os Negros do Rosário: Resgate da ancestralidade e da tradicional dança sincopada da Irmandade dos Negros do Rosário do Seridó.

 

Lado B:

 

1 - Polytheama: Homenagem ao pioneiro cinema e teatro que animava a vida cultural de Natal no início do século XX.

3 - Saudade do Potengi: Peça lírica inspirada nas águas e no pôr do sol do rio Potengi.

4 - O Galinho de Santo Antônio: Referência à mítica igreja, marco histórico da capital.

5 - Xarias e Canguleiros: Transposição pianística da célebre rivalidade política e social da Natal do século XIX (os aristocratas “Xarias”, da Cidade Alta, contra os populares “Canguleiros”, do bairro da Ribeira).

6 - O Alvissareiro da Torre da Matriz: Lembrança poética dos sinos e mensageiros da antiga Matriz.

7 - Sarau na Rua da Conceição: Resgate da atmosfera das velhas reuniões musicais da Natal antiga.

8 - “Compraia Juá Jucá”: Obra-prima etnográfica baseada inteiramente nos antigos pregões dos vendedores ambulantes que ecoavam pelas calçadas coloniais.

9 - Lamento da Senzala: Lamento profundo que resgata a memória e as dores da escravidão na formação cultural do estado.

10 -Natal: Homenagem lírica e definitiva à capital potiguar.

11 - As Imburanas da Pedra Grande: Pintura telúrica inspirada no bioma e nas formações geológicas do interior do estado.

Reflexões: Colocar os Prelúdios Potiguares de Oriano de Almeida para rodar na radiola é testemunhar um dos momentos mais geniais da música nacional. Oriano faz com o piano o que Câmara Cascudo fez com a caneta: etnografia pura. Quando a agulha toca os sulcos de faixas como “Os Negros do Rosário”, o piano deixa de ser um instrumento europeu e aristocrático para incorporar o ritmo percussivo do congo e dos tambores afro-potiguares do Seridó. Em “Sequilhos e Alfinins”, a música mimetiza a leveza do açúcar dos doces de tabuleiro, e em “'Compraia Juá Jucá'’, escuta-se perfeitamente o canto dos antigos vendedores de rua de Natal. É o folclore potiguar elevado ao topo do piano de concerto universal.

AMÉRICA LATENTE – TICO DA COSTA (1983)

A Capa e a Estética Latino-Americana: O sexto álbum a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 31, lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações gráficas dos volumes iniciais, esta capa aposta em uma fotografia colorida de Tico da Costa. O artista aparece de cabelos longos e fisionomia serena, deitado de forma descontraída em uma tradicional rede. A imagem da rede, longe de sugerir mera indolência, estabelece um forte simbolismo: ela é um elemento ancestral e cotidiano da cultura indígena e nordestina. Funciona como o berço para o conceito do álbum, América Latente, que enxerga o Rio Grande do Norte não como um território isolado, mas como parte pulsar de uma América Latina profunda, unida pelas mesmas dores e heranças.

A Contracapa e o Voo Cosmopolita de Areia Branca: O verso do LP apresenta uma síntese biográfica extraordinária de Tico da Costa (Francisco das Chagas da Costa). Nascido na cidade salinense de Areia Branca, sua grande escola foi a própria família de dezesseis irmãos, onde aprendeu violão e começou a compor. Iniciou os estudos formais na Escola de Música de Natal, continuou em Recife e, em seguida, partiu para Roma. Tico viveu oito anos na Europa, realizando turnês pela Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda e França. Gravou cinco discos em solo italiano e assinou colunas sonoras para o cinema, trabalhando com a lendária cineasta Lina Wertmüller. Nos Estados Unidos, realizou espetáculos em um longo circuito universitário.


A ficha técnica documenta a gravação nos Estúdios da Transamérica (Rio), mantendo a engenharia de som de Aníbal Félix, montagem de Wilson Medeiros e a assistência da equipe de estúdio (Laci, Enock e Mauro). A coordenação permaneceu a cargo de Deijair Henrique Borges sob a reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de América Latente exibe as letras completas do Lado A, revelando um jogo de palavras sofisticado e parcerias instrumentais de peso, como a participação especial de Chiquinho do Acordeon e as flautas de Sando:

1 - Carybé-Nancy (Tico da Costa): Canção que saúda as matrizes do candomblé baiano e os traços do pintor Carybé, marcada pelo balanço percussivo do agogô de João Leite e do acordeon de Chiquinho. 


Ai ai que dor/Tá fazendo muito tempo/Que eu não vou a Salvador/Tá fazendo muito tempo/Que eu não vejo Carybé/Cadê cadê candomblé/A poeira da capoeira / Vou subir a ladeira da Sé...


2 - Paixão Atômica (Tico da Costa): Uma composição ágil, urbana e irônica, que dialoga com as vanguardas estéticas e os movimentos sociais da virada da década.

Você me cheira selvática/Fulô amazônica/Uns ares de irônica/Olho de igarapé/Você me caiu simpática... Vixe! Virgem das galáxias/Ondas telepáticas/Vieram informar/ Meu astral afrodisíaco...


3 - América Latente (Tico da Costa): A faixa-título é um jogo de linguagem geopolítico brilhante, adornada pelas flautas de Sando, unindo o Nordeste às fronteiras hispânicas.

Faz mil anos faz/Que a gente quer/Ir ao Paraguai/Aí a gente erra/Esquece a guerra/E vai pro Uruguai/Quais quais quais quais... Quem lá do Pará/Para o Paraná/Vai parar no arrolo Chui/Não, não é aí Ypacaraí/Com essa cara aí/Caray!!


4 - Durango Tango (Tico da Costa): Uma incursão performática e dramática pela sonoridade portenha, cantada em português e espanhol, amparada unicamente pelo violão de Tico e o acordeon de Chiquinho.

É tango argentino/Nossas vidas/É um tango argentino/Nosso amor/O drama de nós dois/É fatal/Carinho de nós dois/É punhal...

5 - Menino Menina (Tico da Costa): Um acalanto poético de rara doçura, que traz a participação de Ely Oliveira no coro e evoca o riso luminoso de Elis Regina.

A vida ensina/Muita coisa em surdina/E fala mansinha/Como a voz de Lurdinha... Como o riso de Elis Regina/Bem-dita seja a vida/E a vida que da vida vinga...


6 - Ridinha (Tico da Costa): Uma das maiores obras-primas do álbum, onde Tico reconecta a mítica praia natalense à clássica estrutura rítmica da ciranda de roda e do folclore praieiro.

Eu sou feliz na praia da Ridinha/Numa redinha balançando o mar/Adoro adorar lua rainha/Que vem ralando feito arraia no céu/A lua arria na areia do rio/O rio se areia/ E vai virando mar...

O Repertório Comentado (Encarte do Lado B): O Lado B do encarte aprofunda a imersão na oralidade do interior nordestino, nas festas de fogueira e no sentimento do exílio:

1 - Lagartixa (Tico da Costa): Um dos momentos mais viscerais do disco. Tico utiliza termos da oralidade sertaneja (como “brocoió”, "calango" e “zambeta”) para construir uma crônica social crua sobre a lida e a escassez do homem do campo.

Ó, lagartixa, brocoió calango longo/No telhado se espreguiça/Que o gato tá lhe cubando/A testa larga a lagartixa... Olha “fartura”:/farta carne, farta o feijão/Farta verdura, ó, vida dura, e sem condição... Filho de besta é besta filho/É filho da luta...

2 - Lua Pheia (Tico da Costa): Faixa sustentada pelo surdo de Mingo e o coro de Ely Oliveira, onde a lua é personificada como um agente enxerido do folclore amoroso, capaz de quebrar simpatias e desfazer cirandas.

Ai lua vazia/Sua luz não alumia/Só danço essa ciranda/Se dançar com meu amor... O lua sem-vergonha/Da cara de pamonha/La vem você metida/Ó lua enxerida/Vem cheia de ilusão/Me enchendo de saudade / Botando mau-olhado/Na minha felicidade...

3 – Roma – Olinda (Tico da Costa): A canção que melhor resume o espírito do álbum. O compositor contrasta a amargura urbana e o inferno do exílio europeu com o desejo catártico de retornar às festas juninas do Nordeste.

Arruma as malas/Vou voltar pra Pernambuco/Já tô virando maluco/Neste inferno infernal... Quero acender fogueira/Pra São João/São João me disse/E São Pedro confirmou... Ai o amor fumega em meu peito/Feito lenha/Feito tição... Eu sou que nem um fogueeeeeeeeeeetão...

4 - Atonia (Tico da Costa): Um samba triste e confessional, adornado pela flauta melancólica de Sando, que canta a dor da ausência e a despedida amorosa em surdina.

Tem pena;Tem dó;Do meu sofrer... No beijo frio/Que você deu/Havia um tom/De adeus; Que me deixou/Pra lá de só... Meu violão desafogou/Minha dissonância / Em ré maior...

5 - Cabelos de Sol (Tico da Costa): Uma ode delicada à infância e à paternidade, embalada por uma atmosfera praieira de calmaria.

Menino dos cabelos de sol/Menino do cheirinho de mar/Que morde o papai/Que dança pra mamãe/Dá quatro, cinco passos e cai...

Reflexões: Colocar América Latente para rodar na radiola é compreender o “folclore em movimento”. Tico da Costa prova que o artista popular não precisa ficar confinado geograficamente para preservar sua autenticidade. O genial trocadilho poético construído na faixa “Lagartixa” (“Olha 'fartura': farta carne, farta o feijão...”), invertendo o sentido de abundância para denunciar a falta, é de uma precisão literária assustadora. E a explosão vocal teatralizada no encerramento de "Roma-Olinda" (“fogueeeeeeeeeeetão”) captura a mais pura espontaneidade das manifestações populares de rua. É o Rio Grande do Norte ganhando o mundo sem jamais romper o cordão umbilical com a terra.

ÁLBUM 7: CANÇÃO PARA NATAL – VÁRIOS AUTORES (1983)

A Capa e a Pintura Ribeirinha: O sétimo álbum a girar na rotação dos afetos é o Projeto Memória - 28, lançado em 1983. A identidade visual deste volume é uma das mais deslumbrantes de todo o acervo. Trata-se de uma aquarela e nanquim que retrata a Natal antiga, boêmia e portuária. Na pintura, destaca-se em primeiro plano o leito dos trilhos e vagões de trem da antiga Great Western, contornando o casario histórico do tradicional bairro da Ribeira.

Logo adiante, as águas azuis do rio Potengi servem de berço para jangadas e barcaças a vela, tendo ao fundo a icônica silhueta da Fortaleza dos Reis Magos e o farol estilizado. A pintura traz a assinatura clássica de Dorian Gray Caldas (“Mariano. 82”). Curiosamente, o verso do LP credita a obra a outro gigante das artes plásticas potiguares, Newton Navarro, sugerindo uma rica colaboração, alternância de projetos gráficos ou uma homenagem cruzada entre os dois mestres na editoria da universidade.

A Contracapa e o Manifesto da Modernidade Popular: O verso do LP traz um texto crítico fundamental assinado por Paulo de Tarso C. Melo. Ele revela um dado estatístico formidável sobre a magnitude da iniciativa universitária: até aquele ano de 1983, o Projeto Memória da UFRN já havia garantido o resgate e a permanência de mais de trezentas músicas de autores norte-rio-grandenses, que antes estavam sujeitas à pura e simples desaparição devido ao isolamento em relação aos grandes mercados do Sudeste.


Paulo de Tarso pontua que, após o projeto documentar o canto classico do Madrigal, o piano de Oriano e conjuntos tradicionais de choro (como o “Choro Brejeiro”), este volume assume uma visão “aberta e despreconceituosa de documentação cultural”, recrutando um “conjunto jovem” de instrumentistas de Natal. O grupo, composto por Etelvino (teclado), Chagas (guitarra e viola), Prentice (violão), Jeferson (baixo), Ivanildo Bauru (bateria) e Negão (percussão), além da flauta de Luizinho Braga, introduziu arranjos modernos da MPB dos anos 1980 para vestir temas profundamente tradicionais e telúricos. A produção manteve o selo de Deijair Henrique Borges e a engenharia de som de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), sob a reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Canção Para Natal traz as letras completas, revelando parcerias primorosas entre intelectuais e folcloristas:

1 - Saga do Carnaubal (Almir Padilha/Celso da Silveira – Intérprete: Almir Padilha): Um dos maiores monumentos etnográficos do disco. A letra descreve minuciosamente o ciclo socioeconômico e o vocabulário técnico do corte da carnaúba (a árvore da providência do sertão).

Vareiro que corta a palha/Tuleiro que apara espinho/Juntador que enfeixa a palha/Pra cambitar no burrinho... Tangerino carrega a palha/Para empilhar estaleiro... Trinchador que trincha a palha/Em faca de sete pontas... Tacheiro que coze a cera...

2 - Assunto Pessoal (Veríssimo de Melo/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Lucinha Lyra): Uma feliz e rara parceria musical entre o lendário folclorista Veríssimo de Melo e o reitor-poeta Diógenes, cantando o mistério e a invenção do amor.

Não me perguntem/O que se passou/Na cama bonita do amor... Guardo o segredo de amor sem fim... Segredo é a invenção do amor / Como Deus inventou a flor...

3 - Canção Para Natal (Nelson Hermógenes Freire/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Silvinha): A faixa-título funciona como um hino de exaltação geográfica e afetiva da capital potiguar.

Se você passar por aqui/Não pode deixar de ver/A Ribeira, o sol, a lama/As águas do Potengi/O Farol no alto morro/Dunas brancas que nem lençol... Os cajueiros em Pirangi...

4 - Canção do Índio Triste (Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Zezé Delgado): Uma composição melancólica de resgate das matrizes indígenas, que utiliza em seus versos e refrãos a expressão em língua nativa “Zan Noyoliyo”.

Zan Noyoliyo / Zan Noyoliyo / Eu de mim só tenho a vida / A vida que foi canção / Venha apresentar-se aqui / Quem tem triste o coração...

5 - Naquele Tempo de Cadeiras nas Calçadas (Roberto Lima / Alberto Lima – Intérprete: Silvinha): Uma belíssima e nostálgica ode ao hábito folclórico e interiorano das tertúlias e conversas ao anoitecer, que resistia na Natal antiga.

Naquele tempo de cadeiras nas calçadas / Brincadeiras inventadas / Eram mais do que brincar... As nossas ruas eram todas conhecidas / Suas casas parecidas / Seus viventes tão leais / Que a gente sempre conhecia o seu segredo...

O Repertório Comentado (Encarte do Lado B): O Lado B estende o mapa musical do estado em direção aos grandes espelhos d'água e ao cancioneiro do Seridó:

1 - Coisas Raras (Zezé Delgado/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Zezé Delgado): Canção de forte acento poético existencial sobre a capacidade de reencantar o olhar sobre a vida.

A vida é surpresas minha amiga/Coisas raras acontecem todo dia... É preciso ver o mundo novamente/Com os olhos espantados de menino...

2 - Gargalheiras (Almir Padilha/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Almir Padilha): Uma obra-prima telúrica e de vocação universalista, cantada inteiramente em espanhol, homenageando o imponente Açude Gargalheiras, em Acari, símbolo hídrico do Seridó.

Partiendo las sierras/Cortando los cerros/Una gran fonte/El Gargalheiras/Como si fuera un mar... Hermano de cedro, del Pueblo/Lino blanco del Seridó... Madre y Padre, de los hijos de Acari...

3 - A Moça em Flor (Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Silvinha): Uma composição bucólica e praieira que resgata o balanço e a mística do descanso na rede nordestina.

Rede branca de varanda/Como as espumas do mar/É uma carícia pra o corpo/E uma canção de ninar... Armador geme o amor...

4 - Pixanana (Roberto Lima/Pery Lamartine – Intérprete: Negão): Parceria com o pesquisador Pery Lamartine que exalta a beleza singela da pixanana, flor brava e nativa do chão duro do sertão potiguar.

Pixanana flor do mato/Nasce no meio da rua/No sertão é flor de dama/Na cidade não atua/No chão duro, pedregoso... Ai Pixanana que saudade você tem/É beleza, é singeleza, é lembrança do meu bem...

5 - Pesca de Açude (Celso da Silveira – Intérprete: Lucinha Lyra): Uma crônica perfeita e festiva sobre a subsistência no semiárido quando as grandes barragens do interior sangram com as chuvas.

A chuva chegou/Barragem sangrou/Peixinho que ficou/Menino pescou ó/Traíra, Coró, Cará/Menino pescou com seu landuá... Menino só pesca em açude com seu landuá...

Reflexões: Este Volume 28 é um achado indispensável para qualquer colecionador por demonstrar que o folclore não é um fóssil congelado no passado, mas uma tradição em permanente mutação e diálogo com o seu tempo. Quando coloco a agulha da minha radiola para trilhar os sulcos de “Saga do Carnaubal”, escuto um vocabulário técnico de lida (o landuá, o tuleiro, o cambitar) que corre o risco de sumir dos dicionários modernos, mas que permanece vivo no vinil. E a audácia de Almir Padilha ao cantar o Gargalheiras em espanhol revela a sofisticação de uma província que sabia dialogar com o mundo inteiro a partir de suas próprias águas.

ÁLBUM 8: CANCIONEIRO POTIGUAR (VALSAS E MODINHAS DE SERESTA) – VOLUME II (1983)

A Capa e o Relicário Fotográfico: O oitavo e último disco a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 18, lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações em nanquim ou aquarela dos volumes anteriores, esta capa aposta no registro puramente fotográfico, capturado pelas lentes de Cândida Bezerra. A imagem colorida exibe cinco figuras reunidas em um ambiente de jardim, com folhagens ao fundo. Duas mulheres estão sentadas em um clássico banco de praça branco e três homens encontram-se de pé logo atrás, com vestes sóbrias da época.

A Contracapa e a Memória das Serenatas: O verso do Cancioneiro Potiguar (Valsas e Modinhas de Seresta – Volume II) é um delicado exercício de preservação da memória afetiva. Logo no alto, a escolha do verso de Carlos Drummond de Andrade - “Mas as coisas findas / Muito mais que lindas / Essas ficarão” - funciona como a chave de leitura de todo o álbum. A frase sintetiza a proposta do Projeto Memória: demonstrar que as antigas serenatas, embora desaparecidas das ruas, permanecem vivas quando encontram abrigo na música e na lembrança coletiva.

A A fotografia central registra os intérpretes Fátima de Brito e Gerardo Parente durante a gravação, diante do piano, reforçando o caráter documental do disco. Não se trata de uma produção voltada ao espetáculo, mas do testemunho de um trabalho de pesquisa e reconstrução histórica. Ao lado da imagem, um breve texto esclarece que aquelas canções chegaram até o presente graças à memória de informantes como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito. A frase final -“Poetas e músicos mortos, poemas e melodias vivos” - resume com rara felicidade a missão do álbum: devolver voz a um repertório que sobrevivia apenas na tradição oral e nas recordações de antigas famílias natalenses.

A composição gráfica da contracapa também revela uma opção estética coerente com todo o projeto. A sobriedade da ficha técnica, a simples relação das faixas e a fotografia de estúdio dispensam qualquer exuberância visual para colocar em primeiro plano aquilo que realmente importa: a permanência da música. É um documento de enorme valor histórico, pois registra não apenas um repertório de valsas e modinhas, mas o esforço consciente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em transformar a memória sentimental de Natal em patrimônio fonográfico permanente.

Essa disposição visual emoldurada em amarelo remete imediatamente aos retratos de famílias tradicionais e antigos grupos de seresteiros do interior. O subtítulo do álbum, (valsas e modinhas de seresta), grafado em tom creme sobre o fundo marrom e alaranjado, amarra o projeto visual diretamente ao seu propósito sonoro: resgatar a trilha sonora sentimental do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX.

O Encarte e o Clima Passadista da Velha Natal: O encarte interno deste LP é um dos documentos memorialistas mais bonitos de todo o acervo da UFRN. O texto de abertura resgata com profunda melancolia a transição da sociabilidade urbana na capital potiguar, funcionando como um verdadeiro ensaio folclórico. Ele evoca a “Natal das primeiras décadas do novecentos... tempo de cadeiras nas calçadas...”, período em que os poemas mais queridos passavam de boca em boca através do aprendizado oral ou eram anotados em cadernos pessoais de rapazes e moças. O texto pontua a divisão social desse folclore urbano: enquanto o violão acompanhava as vozes nas serenatas de rua, o piano substituía o instrumento nas casas abastadas, de modo que “a modinha estava dentro e fora das casas”.

O manifesto encerra-se com um lamento poético sobre o advento da modernidade: “Tempo passado. Foram-se as cadeiras nas calçadas. Também se foi a luz da lua, apagada pela luz elétrica. Ficaram, porém, os poemas musicados, memória linda deste tempo findo”. O disco assume que sua missão foi recolher, junto a informantes sobreviventes e familiares – como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito –, as melodias e solfas (partituras) que o tempo e a tradição oral modificavam, fixando a interpretação com o objetivo de “deixar fluir o clima passadista que só a memória pode guardar”. A ficha técnica repete o padrão sob a coordenação de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Lado A): O Lado A do encarte traz as letras completas defendidas pelo canto lírico de Fátima de Brito e o piano sofisticado de Gerardo Parente, resgatando poetas e músicos históricos:

1 - Súplica (Poesia: Ferreira Itajubá/Música: Olímpio Galvão): Obra-prima do lirismo potiguar. A poesia do mestre Ferreira Itajubá ganha uma melodia dramática e romântica, perfeita para as antigas serenatas de janela.

Ó minha amada, dize que me queres/Tira da minha mente essa descrença/Que eu sou a vítima de tantas dores... Abre a janela, vem ouvir as queixas/Deste infeliz que vive a te adorar...

2 - Por Estes Teus Olhos Tão Bonitos (Autor: Manuel de Oliveira Costa): Modinha tradicional de corte romântico e confessional, marcada pelo jogo lírico da dor do amor sob o luar.

Por este teus olhos tão bonitos/Que me trazem num doce encanto/Não permitas que eu viva em prantos... A frouxa luz da lua / Que clareia a imensidão...

3 - Caminho do Sertão (Poesia: Anfilóquio Souza/Música: Abdon Praxedes): Transposição de um tema tradicional do interior (já explorado na música instrumental do projeto) para o formato de modinha cantada.

No caminho do sertão/Eu vi uma linda flor/Que trazia no coração/A lembrança do meu amor... Era uma linda rosa branca...

4 - Sereia (Autor: Luiz de França Moraes): Composição que resgata a mítica figura folclórica da sereia sob a perspectiva do lirismo litorâneo potiguar, sob o Cruzeiro do Sul.

Sereia, que vives no mar/Vem ouvir o meu cantar/Que a noite está tão linda/E eu quero te namorar...

5 - Primeiro Amor (Tradição Oral): Canção de autoria anônima, transmitida de geração em geração pelos cadernos de modinhas de Natal.

O primeiro amor que tive na vida/Foi um sonho de rara beleza/Deixou minh'alma ferida/No meio de tanta tristeza...

6 - Sozinho (Tradição Oral): Outro achado do cancioneiro anônimo das calçadas, que canta a solidão urbana e a recordação amorosa ao cair da noite.

Eu vivo na terra sozinho/Sem ter quem me queira bem... A noite desce serena/Trazendo a recordação...

O Repertório Comentado (Lado B): O Lado B do encarte coroa o disco unindo grandes nomes da história literária e musical do estado, incluindo peças do gênio Tonheca Dantas:

1 - Maria (Poesia: Lourival Açucena/Música: Tonheca Dantas): Um dos encontros mais monumentos da cultura potiguar. Os versos do poeta Lourival Açucena recebem a arquitetura melódica do gênio do Seridó, Tonheca Dantas (autor da célebre valsa Royal Cinema).

Maria, cujo nome evoca o céu/Cuja imagem me traz a doce luz/Se do meu peito cai o negro véu/É o teu olhar que à vida me conduz... Vem, escuta a voz que te chama/Nesta noite de calmaria e luar...

2 - Na Hora em que se Encobre de Neve as Serranias... (Tradição Oral): Modinha de acento nostálgico e passadista, que usa imagens climáticas dramáticas para cantar a ausência da amada.

Na hora em que se encobre de neve as serranias/E o sol esconde a sua luz dourada /Eu sinto voltar as velhas nostalgias...

3 - Um Sonho (Poesia: Nelson Hermógenes Freire/Música: João Rodrigues): Poema transformado em canção que contrasta a ilusão perfeita do sonho amoroso com a dura e escura realidade da solidão.

Eu tive um sonho de encanto/No qual tu eras a minha rainha... Mas acordei e vi a realidade/O quarto escuro e a solidão...

4 - Aurideia (Autor: Pedro Guimarães): Modinha romântica que personifica a amada como a estrela-d'alva, guia dos caminhos do seresteiro.

Aurideia, estrela d'alva/Que brilha no céu azul/O teu olhar me salva/Do norte ao extremo sul...

5 - Para os Teus Olhos (Autor: Antônio Justino de Caldas): Belíssima e melancólica peça de calçada sobre o desencontro de olhares e a dor do adeus gelado.

Para os teus olhos voltei o meu olhar/Buscando neles a luz da esperança... Mas os teus olhos fugiram dos meus...

6 - Recordação (Poesia: Ferreira Itajubá/Música: Luiz de França Moraes): O álbum se encerra de forma perfeitamente coerente, unindo novamente Ferreira Itajubá ao mestre Luiz de França Moraes para cantar a saudade das velhas serenatas e das coisas findas.

Volto ao passado em pensamento/Buscando os dias que não voltam mais... A velha casa, a rua deserta/Onde a seresta costumava passar... Mas as coisas findas, bem o sei/Ficarão vivas no meu coração...

Reflexões: Colocar este segundo volume do Cancioneiro Potiguar para tocar na minha radiola, neste mês de agosto, é realizar um ato de comunhão com a história de Natal. Este disco é o retrato de um tempo em que a poesia andava pelas ruas e o amor era declarado ao rés do chão, nas calçadas coloniais da Ribeira ou da Cidade Alta. A constatação do encarte de que “a luz da lua foi apagada pela luz elétrica” resume com precisão cirúrgica o impacto do progresso sobre as manifestações folclóricas urbanas. Escutar a voz de Fátima de Brito dando vida às notas que o gênio Tonheca Dantas escreveu para os versos de Lourival Açucena em “Maria” é a prova cabal de que esses cadernos de poemas não morreram; eles encontraram abrigo eterno na fidelidade do vinil.



O Legado dos LP’s

Analisar detalhadamente este conjunto de oito raridades do “Projeto Memória” da UFRN, retirados diretamente do acervo de 500 LPs da minha radiola, é compreender que o folclore e a cultura popular do Rio Grande do Norte não são fósseis estáticos destinados ao esquecimento. Através do canto polifônico do Madrigal, das crônicas litorâneas do coco e do bambelô, do manifesto modernista de Lucinha Lira, do violão de Amaro Siqueira, do piano etnográfico de Oriano de Almeida, do voo latino de Tico da Costa, das odes modernas de Canção para Natal e do lirismo boêmio do Cancioneiro Potiguar, a nossa universidade operou um milagre estético. Ela salvou uma herança inteira da desaparição, garantindo que a identidade norte-rio-grandense permanecesse gravada, girando na rotação exata da nossa história. Neste mês de agosto, celebrar o folclore é, acima de tudo, manter viva essa agulha sobre o vinil.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Oriano de. Oriano interpreta Oriano: prelúdios potiguares (Volume II). Natal: UFRN, Escola de Música, [1982-1983]. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 19. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

CANTOS da Terra do Mar. Intérprete: Madrigal da UFRN. Regência: Pe. Pedro Ferreira da Costa. Natal: UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 1. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

CANÇÃO para Natal. Intérpretes: Almir Padilha, Lucinha Lyra, Silvinha, Zezé Delgado, Negão. Coordenação: Deijair Henrique Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESC/RN, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 28. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

COSTA, Tico da. América Latente. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 31. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

DORIAN Gray Caldas. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dorian_Gray_Caldas. Acesso em: 6 fev. 2026.

LIRA, Lucinha. Floração. Natal: UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 3. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

MELO E SILVA, Emmanuel de. Bambelô. Natal: UFRN, Escola de Música, 1982. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 7. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

ORIANO de Almeida. In: MUSICABRASILIS. Rio de Janeiro, [202-]. Disponível em: https://www.musicabrasilis.org.br/compositores/oriano-de-almeida. Acesso em: 12 abr. 2026.

SIQUEIRA, Amaro. Saudades da juventude. Intérprete: Fidja Siqueira. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 14. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

VALSAS e modinhas de seresta. Intérpretes: Fátima de Brito, Gerardo Parente. Coordenação: Deijair Henrique Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESI/RN, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Cancioneiro Potiguar, Volume II. Projeto Memória, v. 18. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

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