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| Rio Potengi cortando Natal, capital do Rio Grande do Norte. |
Uma questão aparentemente simples e um capítulo esquecido da história potiguar
Essa prática de questionar fatos histórico é antiga. De tempos em tempos, a história abre uma fresta para a dúvida: foi assim mesmo? Nestor Lima já questionava, em 1926, portanto há 1 século, qual seria, de fato, o “Rio Grande” que deu nome ao Rio Grande do Norte; hoje, outra questão provoca a historiografia potiguar e brasileira: teria o Brasil sido “descoberto” pelo Rio Grande do Norte, antes da chegada oficial de Cabral? Bem, isso é só outro detalhe. O assunto aqui é outro...
Há nomes que parecem tão naturais que deixamos de perguntar de onde vieram. “Rio Grande do Norte” é um deles. O nome – belo por sinal – é repetido desde a infância por quem nasce neste solo, nos livros escolares, nos mapas, nos documentos oficiais e nas conversas cotidianas, sem imaginar que por trás dessas três palavras existe uma questão histórica que, há exatamente um século, provocou uma interessante controvérsia entre estudiosos norte-rio-grandenses. Há 100 anos Nestor dos Santos Lima questionou que rio era esse. Em 1926 ele perguntou “Qual é o Rio ‘Grande’ do Norte?” e hoje, sabendo de outro rio caudaloso que serpenteia o solo potiguar a pergunta permanece surpreendentemente provocadora. Afinal, se o Estado recebeu seu nome de um rio chamado “Rio Grande”, qual rio era esse? O Potengi, como tradicionalmente aprendemos? Ou o Açu, como sustentou, com argumentos que merecem ser revisitados, o historiador, professor e intelectual assuense?
Antes de refletirmos sobre o assunto, julgo interessante uma explicação sobre o “Norte”, do Rio Grande do Norte. A denominação Rio Grande do Norte tem origem hist´rica. Inicialmente, a capitania era chamada simplesmente de Rio Grande, em referência ao rio que, segundo a interpretação tradicional, corresponde ao atual Potengi. Posteriormente, para diferenciá-la de outra região denominada Rio Grande, situada ao sul e que viria a formar o Rio Grande do Sul, acrescentou-se a expressão “do Norte”. Assim, embora o Estado pertença geograficamente à Região Nordeste, seu nome preserva uma distinção histórica entre dois antigos “Rios Grandes”: o do Norte e o do Sul.
Retomando a reflexão sobre qual o Rio Grande, se o Açu ou Potengi, a questão não é apenas uma curiosidade toponímica. Ela nos conduz a um problema maior: como os lugares recebem seus nomes, como esses nomes sobrevivem ao tempo e como determinadas interpretações históricas acabam transformando-se em verdades aparentemente incontestáveis. Nestor Lima escreveu seu artigo em 1926, quando a explicação corrente afirmava que o Rio Grande do Norte recebera esse nome por causa do rio Potengi, que banha Natal. A Revista Escolar, de Fortaleza, havia reafirmado essa interpretação. Lima, entretanto, considerava-a equivocada e se propôs a contestá-la. O artigo foi publicado na Revista Escolar, em maarço daquele ano, e posteriormente reproduzido em 1927 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
| Rio Açu, também chamado de Rio Piranha-Açu. |
O primeiro aspecto que chama a atenção é a segurança com que Lima apresenta sua discordância. Ele não trata o assunto como mera hipótese curiosa. Para ele, havia ocorrido um “equívoco” que atravessara anos e autores e que precisava ser corrigido. Sua investigação partia de uma pergunta aparentemente elementar, mas profundamente histórica: qual era, afinal, o rio chamado pelos portugueses de “Rio Grande”? O Potengi ou o Açu? A argumentação de Nestor Lima organiza-se em três frentes: a linguística, a geográfica e a histórica. Seu primeiro argumento está na própria palavra Açu. Segundo ele, a expressão indígena permitiria interpretar o nome como “rio grande”. Já Potengi possuiria outro significado, relacionado aos camarões ou ao fumo, e, portanto, não poderia ser compreendido como “rio grande”. Hoje, a discussão etimológica exige algumas cautelas. A tradição linguística associada a Potengi relaciona o termo ao universo tupi e ao significado de “rio dos camarões”; trabalhos sobre a história do rio confirmam que a denominação ind´gena sobreviveu em registros coloniais sob formas como “Potigi” ou “Potengi”.
Mas o que torna o texto de Lima particularmente interessante não é apenas saber se sua etimologia estava correta em todos os detalhes. É perceber que ele utilizava a linguagem como uma chave para reinterpretar a própria história territorial do Estado. Se Açu significava “rio grande”, e se esse era também o maior rio da região, parecia-lhe lógico concluir que aquele deveria ser o rio que dera nome à capitania. É justamente nesse ponto que surge uma segunda dimensão de sua argumentação: a geografia. Para Lima, não fazia sentido atribuir a um curso d'água de importância relativamente menor a designação que teria dado nome a todo um território . O Açu aparecia, em sua interpretação, como o grande eixo hidrográfico do Rio Grande do Norte. Sua bacia alcançaria extensas áreas do interior, receberia diversos afluentes e estaria associada a uma das regiões agrícolas mais importantes da antiga capitania. O Potengi, por sua vez, era apresentado por Lima de maneira deliberadamente provocativa: um rio de importância local, relacionado à área de Natal e, em sua interpretação geográfica de então, tributário do Jundiaí.
Essa oposição entre o rio da capital e o rio dos sertões talvez seja uma das dimensões mais sugestivas do texto. Nestor Lima nasceu em Assú e dedicou grande parte de sua produção intelectual à história, à geografia e às territorialidades do interior norte-rio-grandense. Estudos recentes sobre sua obra destacam precisamente seu interesse pelos sertões, pelo Seridó e pela região do Assú. Assim, não seria exagero enxergar no artigo também uma tentativa de deslocar o centro da narrativa histórica do Estado. A história do Rio Grande do Norte não deveria, para ele, ser pensada exclusivamente a partir de Natal e do litoral. O Açu, os sertões e suas ribeiras também constituíam elementos fundamentais da identidade potiguar.
O terceiro argumento é talvez o mais fascinante. Nestor Lima recorre à documentação e aos relatos dos primeiros navegadores europeus para tentar localizar o “Rio Grande” dos primeiros tempos da colonização. Ele menciona Alonso de Hojeda, Américo Vespúcio, Juan de la Cosa e Gabriel Soares, procurando demonstrar que a descrição de um grande rio que desembocava no oceano por vários braços corresponderia à foz do Açu. A hipótese ganha ainda mais força, em seu raciocínio, quando relacionada à distribuição das terras da capitania. Lima afirma que as cinquenta léguas concedidas por D. João III a João de Barros alcançariam justamente a região da foz do Açu. Aqui é importante destacar que a própria documentação colonial permite compreender que a delimitação das capitanias é mais complexa do que muitas narrativas escolares fazem parecer. A documentação relativa à doação de terras a João de Barros e à formação da Capitania do Rio Grande é objeto de estudos específicos. A carta de doação hoje conhecida indica uma divisão territorial que relaciona as terras de João de Barros à região entre a Baía da Traição e o Açu. Isso significa que o argumento de Nestor Lima não pode simplesmente ser descartado como uma excentricidade de um historiador local. Ele estava dialogando com problemas reais da cartografia, da documentação colonial e da definição dos limites territoriais. Entretanto, uma questão permanece: a localização de um rio descrito como “grande” pelos navegadores significa necessariamente que o nome da capitania tenha sido derivado daquele rio? É justamente aí que a interpretação tradicional apresenta sua força.
A historiografia que se consolidou posteriormente manteve o Potengi como o rio associado ao nome da Capitania do Rio Grande. A documentação e os estudos históricos registram que, no final do século XVI, a expedição portuguesa que empreendeu a conquista efetiva da região alcançou a barra do atual Potengi. Em 25 de dezembro de 1597, a expedição comandada por Manuel de Mascarenhas Homem chegou à foz do rio, e ali começou o processo que conduziria à construção da Fortaleza da Barra do Rio Grande, posteriormente conhecida como Fortaleza dos Reis Magos. É significativo que a fortificação tenha sido chamada Fortaleza da Barra do Rio Grande. O nome “Rio Grande” estava, portanto, associado àquele estuário, isto é, ao espaço onde posteriormente se desenvolveria Natal.
Estudos contemporâneos sobre o Rio Grande do Norte também registram a utilização da denominação “Rio Grande” para a capitania e observam que, somente posteriormente, a expressão “do Norte” se consolidou como forma de distingui-la do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, a explicação tradicional não depende exclusivamente da etimologia de “Potengi”. Ela se apoia sobretudo na documentação histórica do período colonial, na associação entre o estuário e a denominação “Rio Grande” e na permanência dessa designação para a capitania. O que aconteceu, então, com a tese de Nestor Lima? Ela não desapareceu completamente. Seu artigo permanece como um documento valioso da própria história da historiografia potiguar. Um trabalho acadêmico recente sobre Nestor Lima identifica expressamente “Qual é o Rio Grande do Norte?” como um texto em que o autor questiona se o “Rio Grande” correspondia ao Açu ou ao Potengi. E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância desse episódio.
Mais importante do que decidir é compreender a pergunta. Hoje, provavelmente, não precisamos escolher entre Nestor Lima e a historiografia consolidada como se estivéssemos diante de uma disputa que só pode produzir um vencedor. O mais produtivo é compreender por que essa pergunta surgiu e o que ela revela sobre a construção da memória histórica do Rio Grande do Norte. O nome de um Estado parece uma coisa objetiva. Mas nomes são construções históricas. Eles resultam de encontros entre povos, línguas, mapas, interesses políticos, interpretações geográficas e decisões administrativas. O caso potiguar é especialmente rico porque envolve dois rios com enorme importância histórica: o Potengi, profundamente associado a Natal e à conquista portuguesa do litoral; e o Açu, eixo fundamental da ocupação e da história dos sertões.
Talvez o grande mérito de Nestor Lima tenha sido justamente nos obrigar a olhar para esse segundo rio. Quando dizemos “Rio Grande do Norte”, quase automaticamente pensamos em Natal, no Forte dos Reis Magos e no Potengi. Raramente pensamos no vale do Açu, em suas várzeas, em sua bacia hidrográfica ou em seu papel na interiorização da ocupação colonial. A pergunta de Nestor Lima, portanto, continua viva não necessariamente porque sua conclusão tenha prevalecido – ela não prevaleceu na historiografia dominante –, mas porque nos ensina a desconfiar das respostas que parecem óbvias demais.
Enfim, qual é o Rio “Grande” do Norte? Historicamente, a interpretação hoje predominante associa o nome ao Rio Grande identificado com o Potengi. Mas a controvérsia levantada por Nestor Lima demonstra que a história da denominação não é tão simples quanto a fórmula encontrada nos livros escolares. E há uma ironia particularmente bonita nisso tudo: o rio que hoje chamamos Potengi carrega um nome indígena que sobreviveu à colonização, enquanto o nome português “Rio Grande” desapareceu do curso d'água, mas permaneceu vivo no nome de um Estado inteiro. Assim, talvez a pergunta de Nestor Lima deva ser lida menos como uma tentativa de substituir definitivamente um rio por outro e mais como um convite à reflexão sobre quem nomeia os lugares, quem escreve sua história e quais memórias acabam permanecendo enquanto outras são esquecidas. Um século depois, recuperar essa polêmica é também recuperar uma parte pouco conhecida da intelectualidade norte-rio-grandense. É devolver visibilidade a um debate que envolveu geografia, linguística, cartografia, memória e identidade regional. E talvez seja essa a verdadeira riqueza do texto de Nestor Lima: ele nos lembra que, por trás de um nome aparentemente banal – Rio Grande do Norte – existe uma história de disputas, interpretações e esquecimentos.
Observação Importante: a tese de Nestor Lima deve ser apresentada hoje como uma interpretação historiográfica de 1926, e não como consenso atual. A documentação histórica consolidada associa o “Rio Grande” da capitania ao rio que corresponde ao atual Potengi, especialmente no contexto da conquista portuguesa de 1597-1598. Isso, porém, não diminui o valor do texto de Lima: ao contr´rio, torna a polêmica ainda mais interessante, porque revela como a própria historiografia potiguar discutiu – e continua discutindo – a formação de sua identidade territorial.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVEAL, Carmen; FAGUNDES, José Evangelista; ROLIM, Leonardo; DIAS, Thiago Alves; TORRES, Thiago (org.). Rio Grande (do Norte): história e historiografia. Mossoró: EDUERN, 2021.
DUTRA, Adalgisa Maria Alencar. Viajando os sertões: Nestor Lima e a territorialização das cidades sertanejas na obra “Municípios do Rio Grande do Norte” (1938-1942). 2021. 93 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ensino Superior do Seridó, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Caicó, 2021.
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal: Typographia d'A República, 1927. v. 23-24.
LIMA, Nestor dos Santos. Municípios do Rio Grande do Norte. Natal: Tipografia Santo Antônio, 1942. 2 v.
LIMA, Nestor dos Santos. Qual é o Rio “Grande” do Norte? Revista Escolar, Fortaleza, n. 9, mar. 1926.
LIMA, Nestor dos Santos. Qual é o Rio “Grande” do Norte? Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Natal, v. 23-24, p. 163-167, 1927.
LOPES, Fátima Martins (org.). Catálogo de documentos manuscritos avulsos da Capitania do Rio Grande do Norte (1623-1823). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Projeto Resgate Barão do Rio Branco, 2024.
MEDEIROS, Tarcísio. Aspectos geopolíticos e antropológicos da história do Rio Grande do Norte. Natal: Imprensa Universitária, 1973.

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