ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

KOSTER EM PAPARY E A "AUSÊNCIA" DE NÍSIA FLORESTA...

Imagem gerada por IA, inspirada no texto, sem comprometimento com a fidelidade

UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada.

Há certas páginas antigas que, quando reencontradas, parecem sair do silêncio dos arquivos para nos devolver não apenas uma informação, mas uma maneira de olhar para o passado. Foi assim que me deparei com um texto publicado na revista A Semana, em março de 1942, assinado por Henrique Gonçalves e intitulado “Um Governador do Século XVIII” (Leia-o, no final deste texto, ipsis literis). O título, por si só, poderia levar o leitor a imaginar que se trata apenas de mais uma narrativa de personagens da história luso-brasileira. Ele inicia o texto percorrendo esse universo curioso, lembrando marinheiros, soldados, governadores, poetas, juízes e outros personagens que, em diferentes momentos, receberam nomes que acabaram se tornando mais conhecidos do que os próprios nomes de batismo. Mas, à medida que o texto avança, ele entra num terreno muito mais interessante: os costumes, a moralidade, as festas, o teatro, os papéis sociais e, sobretudo, a posição da mulher na sociedade de outros tempos – única parte do texto que me interessou – porque é exatamente nesse movimento que surge, quase de passagem, o nome de Nísia Floresta e, com ele, uma referência a Henry Koster que, passados quase oitenta anos, merece ser novamente examinada.

 

Ele fala inicialmente das antigas comemorações, das “lamúrias”, dos fogos, do Te-Deum Laudamus e do teatro, que, segundo sua compreensão, era visto como instrumento de moralização. Recorda as representações religiosas, os autos de Anchieta, a presença do anjo e do diabo como personificações do prêmio e do castigo e, mais adiante, a chegada da comédia francesa ao Brasil. Lembra ainda que, em determinados períodos, as mulheres não subiam aos palcos, sendo seus papéis desempenhados por homens. A partir daí, sua reflexão deixa o teatro e passa para o espaço doméstico. É então que afirma que “a preservação da mulher dos meios masculinos se estendia pelo interior” e convoca Henry Koster como exemplo. Escreve Henrique:

“A preservação da mulher dos meios masculinos se estendia pelo exterior. Koster, por exemplo, não viu Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, ao visitar o pai dela, advogado. Época solene, onde o patriarca era senhor absoluto e autoritário. Tinha dentro de casa um pequeno reino. Não somente o negro lhe prestava a mais humilde obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos incondicionais”.

É uma passagem forte, reveladora da mentalidade do autor e, justamente por isso, não deve ser simplesmente descartada. Ao contrário, ela precisa ser lida em seu contexto, porque nos mostra como, em 1942 (ano da publicação do texto), o autor interpretava a sociedade doméstica na qual nascera Nísia Floresta. O problema começa quando uma interpretação dessa natureza passa a ser tomada como se fosse uma constatação documental absoluta.

 

Há, nesse ponto, uma distinção que considero indispensável. O autor não escreveu que Nísia ainda não havia nascido. Escreveu que Koster “não viu N´sia Floresta”. São fatos completamente diferentes. A primeira seria uma afirmação cronológica; a segunda é uma afirmação sobre aquilo que o viajante teria ou não teria visto. A cronologia conhecida da vida de Nísia Floresta estabelece seu nascimento em 12 de outubro de 1810, no sítio Floresta, em Papary. O relato original de Henry Koster registra sua passagem por Papary durante sua viagem de 1810, quando esteve na propriedade de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, pai da futura escritora. O próprio Koster escreveu que Dionísio lhe apresentou sua esposa, descreveu a pequena propriedade no vale e registrou aspectos da hospitalidade que recebeu. A fonte primária, portanto, é muito mais rica do que a frase do referido autor. E é justamente aqui que a menção a Koster se torna, para mim, particularmente curiosa. Se o viajante inglês é chamado pelo autor do texto para servir de testemunha de um costume social, então é preciso ouvi-lo diretamente. Não basta ouvir aquilo que alguém escreveu sobre ele em 1942. É necessário voltar ao livro do próprio Koster, publicado originalmente em 1816. E quando fazemos isso encontramos uma cena doméstica bastante concreta. O viajante chega a Papary, conhece Dionísio, entra em sua casa, é apresentado à esposa do anfitrião, observa a propriedade, participa de uma refeição e permanece ali durante algum tempo. Koster escreveu, em seu inglês de viajante: “Senhor Dionisio introduced me to his lady; he is a native of Portugal, and she a Brazilian.” Em seguida, descreve a pequena propriedade no vale e registra inclusive os costumes da refeição que lhe foi oferecida.

 

Esse pequeno detalhe possui enorme significado. Não estou dizendo, evidentemente, que a casa de Dionísio fosse uma ilha de igualdade feminina num mundo dominado pelo patriarcado. Seria um absurdo interpretar assim um episódio isolado. O início do século XIX brasileiro estava profundamente marcado pela autoridade masculina, pela estrutura patriarcal da família e por inúmeras restrições impostas às mulheres. O que estou dizendo é outra coisa: quando se utiliza a visita de Koster para demonstrar que as mulheres estavam necessariamente afastadas dos homens estranhos, não se pode ignorar que o próprio viajante registra ter sido apresentado à esposa de seu anfitrião, ou seja, houve uma situação concreta que não corresponde integralmente à generalização posterior. Dona Antônia Clara Freire do Revoredo não ficou escondida na cozinha ou no quarto. E não foi uma quebra qualquer. O documento concreto, aquele que nasceu da experiência do viajante, é mais complexo do que a interpretação posterior.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA (DIONÍSIA GONÇALVES PINTO LISBOA). IMAGEM REAL DELA

Há, porém, um aspecto ainda mais revelador nessa passagem e que, a meu ver, precisa ser destacado. Tudo indica que Henrique Gonçalves desconhecia a idade de Nísia no momento da visita de Koster (pelo menos isso fica claro, mesmo que ele não o tenha dito com todas as letras). Ao construir seu argumento, ele dá a entender que Nísia poderia ser compreendida dentro da mesma lógica das moças e mulheres da casa que, segundo sua interpretação dos costumes da época, deveriam ser preservadas dos olhos masculinos e da presença de homens estranhos. Mas Nísia não era uma moça. Era uma criança de colo, que faria apenas um mês de vida. E essa diferença muda inteiramente o sentido da passagem. Se a preocupação de Gonçalves era demonstrar que mulheres e moças eram mantidas afastadas da vista masculina, a presença de um bebê no interior da casa não se enquadraria necessariamente nessa regra. Afinal, qual seria o problema de um homem adulto ver uma criança do sexo feminino de apenas um mês de idade? A questão, portanto, não é simplesmente saber se Koster viu ou não viu Nísia, mas perceber que o autor de 1942 parece ter construído sua interpretação sem conhecer – ou sem considerar – esse dado elementar da cronologia. Ao aproximar Nísia da condição de uma “moça” que precisaria ser escondida dos olhos de um estrangeiro adulto, ele acaba projetando sobre um bebê uma regra de comportamento que faria sentido para mulheres jovens, mas que não necessariamente se aplicaria a uma criança recém-nascida. Essa parece ser uma das fragilidades mais significativas de sua argumentação. O autor parece partir da ideia geral de que, naquele universo doméstico, as moças eram protegidas dos olhares masculinos e, ao encontrar a informação de que Koster não registrou Nísia, encaixa o episódio nessa explicação.. Entretanto, ao que tudo indica, ele não percebeu que a criança a que se referia ainda era um bebê. E, se não conhecia essa circunstância, sua interpretação torna-se ainda mais frágil, porque passa a explicar a ausência de Nísia a partir de uma condição social que não correspondia à sua idade naquele momento.

 

E aqui chegamos ao ponto que considero essencial na leitura do texto da revista de 1942. Ele não estava escrevendo uma biografia de Nísia Floresta. Seu objetivo era totalmente outro. Estava falando das alcunhas, das cerimônias, do teatro, da moralidade e dos costumes sociais. Nísia aparece como exemplo isolado dentro de uma argumentação muito mais ampla sobre a posição da mulher. Isso explica o tom categórico da passagem. Para o autor, Koster não ter registrado Nísia era uma ilustração conveniente de sua ideia de que a mulher permanecia preservada do contato masculino. Mas a História, muitas vezes, é menos obediente às interpretações do que gostaríamos. O documento primário não diz tudo aquilo que uma interpretação posterior gostaria que ele dissesse. Há, inclusive, algo de profundamente interessante na passagem do equivocado autor: ele descreve a casa patriarcal como um “pequeno reino”, no qual o patriarca seria “senhor absoluto e autoritário” e no qual mulher e filhas seriam “vassalos incondicionais”. A imagem é poderosa e literariamente expressiva, mas não deixa de ser uma construção interpretativa. Ela pode ajudar-nos a compreender a percepção de Gonçalves sobre a sociedade antiga, mas não deve ser automaticamente aplicada, em sua totalidade, à casa de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa. Para isso precisaríamos de mais documentos, mais testemunhos e mais elementos capazesde reconstruir o cotidiano daquela família. E, quando encontramos uma fonte primária como Koster registrando a apresentação da esposa de Dionísio ao visitante, somos obrigados a introduzir uma nuance que o autor do texto não introduziu.

 

É justamente essa nuance que considero necessária quando se escreve sobre Nísia Floresta. A pesquisa sobre sua infância não pode ser construída apenas sobre imagens posteriores da escritora adulta. Não podemos olhar para a mulher que, décadas depois, se tornaria uma das grandes vozes femininas do Brasil oitocentista e projetar retroativamente sobre sua infância todas as características de sua personalidade madura. Da mesma maneira, não podemos pegar uma interpretação de 1942 e tratá-la como fotografia fiel de uma casa existente em 1810. Há quase um século entre o acontecimento e o texto de 1942. Nesse intervalo, mudaram os costumes, mudaram as ideias, mudaram as maneiras de interpretar o papel da mulher e mudaram também as formas de escrever História. É justamente por isso que considero tão importante trazer à luz esse velho artigo publicado há 84 anos. Ele não deve ser destruído pela crítica; deve ser salvo por ela. É uma fonte interessante não apenas pelo que afirma sobre Nísia Floresta, mas pelo modo como um intelectual de 1942 enxergava a sociedade brasileira dos séculos anteriores. Seu texto revela uma determinada concepção de autoridade patriarcal, de moralidade, de teatro, de costumes e de comportamento feminino. Quando menciona Koster, ele está fazendo muito mais do que registrar uma passagem de viagem: está utilizando o viajante como testemunha para construir uma interpretação da sociedade. E é precisamente essa operação que devemos examinar.

 

Existe ainda outro aspecto que torna a passagem particularmente saborosa para quem pesquisa a história de Papary. Henry Koster não passou simplesmente por um lugar qualquer. Ele esteve diante de uma pequena comunidade que descreveu com interesse e simpatia. Viu a paisagem do vale, falou sobre a lagoa, observou os pescadores chegando, comparou aquela pequena movimentação ao mercado de peixes de Billingsgate, em Londres, e registrou a hospitalidade que encontrou na residência de Dionísio. Papary aparece em suas p´ginas como uma localidade viva, com suas águas, seus pescadores, seus habitantes dispersos e sua pequena economia. E, dentro desse cenário, estava a família de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, justamente a família na qual havia nascido Dionísia Gonçalves Pinto, aquela que o futuro conheceria pelo nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta. O que mais me chama a atenção, entretanto, é a facilidade com que uma frase como “Koster não viu Nísia Floresta” pode, ao longo do tempo, ser transformada em uma certeza muito maior do que a fonte permite. Não viu porque não a registrou? Não viu porque ela estava afastada? Não viu porque era uma criança de colo? Não viu porque não estava presente naquele momento? O documento não responde a essas perguntas. E é exatamente aqui que devemos parar. Não temos o direito o direito de preencher o silêncio documental com uma certeza inventada apenas porque ela parece combinar com uma teoria.

 

Há, portanto, uma diferença enorme entre aquilo que sabemos e aquilo que podemos imaginar. Sabemos que Nísia nasceu em 12 de outubro de 1810. Sabemos que Koster esteve em Papary durante sua viagem daquele ano. Sabemos que esteve na residência de Dionísio. Sabemos que Dionísio lhe apresentou sua esposa. Sabemos que o inglês registrou a hospitalidade daquela família. Sabemos também que Gonçalves, em 1942, escreveu que Koster não viu Nísia Floresta. O que não sabemos, com segurança documental, é se Koster efetivamente olhou para a criança, se a tomou nos braços, se ouviu seu nome ou se simplesmente não teve contato direto com ela. Essa parte pertence ao território do silêncio histórico. E talvez seja justamente esse silêncio que torne o episódio tão fascinante. Imagine-se a cena, mas sem inventá-la: uma pequena propriedade no vale de Papary, um viajante inglês chegando depois de atravessar caminhos difíceis, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa recebendo o estrangeiro, Antônia Clara presente naquela casa e, em algum ponto daquela mesma existência doméstica, uma criança recém-nascida chamada Dionísia. O visitante não poderia imaginar que aquela criança, ainda sem qualquer importância para os olhos do mundo, se transformaria em Nísia Floresta Brasileira Augusta. Koster estava registrando uma pequena passagem de sua viagem; a História, entretanto, acabaria transformando aquela visita numa das primeiras referências documentais à família da futura escritora.

 

Por isso, considero que a frase do autor equivocado deve ser preservada, mas também confrontada. Ela é preciosa como documento de 1942, porém insuficiente como prova absoluta sobre o que aconteceu naquela residência em 1810. O erro não está necessariamente na existência da frase; está naquilo que se pretenda fazer com ela. Se alguém disser que ele registrou que Koster não viu Nísia, estará reproduzindo a fonte. Se alguém disser que, por causa disso, Nísia ainda não havia nascido, estará indo muito além do que Gonçalves escreveu e, sobretudo, contrariando a cronologia biográfica estabelecida. Se alguém afirmar que Koster não teve qualquer contato com mulheres da casa, estará igualmente ignorando o testemunho do próprio viajante, que registra ter sido apresentado à esposa de Dionísio. E aqui está, talvez, a grande lição desse pequeno episódio: uma fonte não deve ser usada contra outra fonte; as fontes devem conversar entre si. O artigo nos oferece a interpretação de 1942. Koster nos oferece o testemunho da viagem. A cronologia biográfica nos informa quando Dionísia nasceu. Cabe ao pesquisador colocar essas peças sobre a mesa e deixar que elas revelem, juntas, aquilo que cada uma isoladamente não consegue mostrar. O artigo de 1942 é uma dessas pequenas peças que, encontradas quase por acaso em uma velha revista, ajudam a reconstruir a própria história da memória. O texto fala de governadores, de apelidos, de teatro, de costumes e de mulheres, mas, de repente, quase como quem abre uma janela por alguns segundos, deixa entrar o nome de Nísia Floresta. E é justamente essa janela que hoje podemos reabrir, desta vez com os documentos na mão.

 

A minha refutação, portanto, não é contra o valor histórico do artigo. É contra a aceitação automática de sua interpretação. O autor escreveu a partir dos valores, conhecimentos e referências disponíveis naquele momento. Nós, após 84 anos, temos a obrigação de voltar às fontes e verificar o que pode ou não ser sustentado. E quando fazemos isso percebemos que a frase sobre Koster é muito mais delicada do que parece. O viajante pode não ter registrado Nísia; isso é uma coisa. Transformar esse silêncio em prova de que ela não existia ou em explicação definitiva sobre sua ausência é outra, inteiramente diferente. Há ainda uma ironia que não posso deixar de registrar. Koster, convocado por Henrique para ilustrar o isolamento feminino, deixou justamente um testemunho que mostra uma mulher da casa sendo apresentada ao visitante. E a criança que não aparece nominalmente em suas páginas já estava, segundo a cronologia conhecida, no mundo quando o viajante esteve ali. Nísia faria um mês de vida. O futuro, como quase sempre acontece, estava escondido no detalhe. Naquele momento, ninguém poderia saber que aquela pequena Dionísia seria a mulher que atravessaria o Atlântico, publicaria livros, enfrentaria preconceitos, defenderia a educação feminina e ocuparia um lugar singular na história intelectual brasileira.

 

Pois bem, uma revista de 1942, uma página amarelada, uma frase sobre um viajante inglês, um nome grafado como “Nizia Floresta”, um diário publicado em Londres em 1816 e uma data de nascimento podem parecer elementos dispersos. Mas, quando colocados lado a lado, eles formam uma pequena constelação documental. E é nessa constelação, entre o que está escrito e o que permaneceu silencioso, que podemos reencontrar a verdadeira dimensão daquele episódio. Henrique merece, portanto, ser lido. Henry Koster merece ser relido. E Nísia Floresta merece que ambos sejam confrontados. Porque a História não se faz repetindo uma frase antiga como se ela fosse uma sentença definitiva. Faz-se perguntando de onde veio a frase, em que contexto foi escrita, o que a fonte original realmente diz e o que as datas permitem afirmar. No caso de Nísia Floresta, essa cautela é ainda mais necessária, porque sua própria vida foi marcada pela ruptura de muitos dos limites sociais que, posteriormente, tantos autores procuraram explicar. Talvez por isso a menina que nasceu no sítio Floresta seja ainda hoje tão resistente às interpretações fáceis.

 

E quanto à afirmação do texto de 1942, fica a necessária reparação: ele escreveu que Koster não viu Nísia Floresta; não escreveu que ela ainda não havia nascido. Essa diferença deve ser respeitada. Sabemos que, durante algum tempo, mesmo que já existissem referências datando o nascimento de Nísia em 12 de outubro de 1810, muitos ainda pensavam – equivocadamente –  que ela havia nascido em 1809, portanto poderia surgir a pergunta: “como Koster não viu uma criança que já contava com mais de um ano de idade?”. Mas isso não é dito no texto. A cronologia do nascimento de Dionísia em 12 de outubro de 1810 e a passagem de Koster por Papary naquele mesmo ano impedem que acrescentemos à fonte uma conclusão que ela não contém. Se Koster efetivamente viu ou não aquela criança, a documentação disponível não nos permite afirmar com absoluta segurança. E talvez seja justamente essa a resposta mais honesta que a História pode oferecer: não preencher a lacuna com imaginação, mas deixá-la aberta, como uma pequena janela para um passado que, felizmente, ainda podemos continuar investigando.

EIS O TEXTO ORIGINAL, IPSIS LITERIS:

UM GOVERNADOR DO SECULO XVIII

HENRIQUE GONZALVES

De onde vieram os apelidos ou as alcunhas em Portugal? Possivelmente dos marinheiros e soldados, gente de origem obscura, que a troco da liberdade se dispunham a enfrentar a cólera dos Oceanos. Já em fins do século XV havia um navegador afamado que tinha o apelido de Bofes de Bugaço. O médico da frota de Cabral, em carta a D. Manuel, se refere a outro, de antonomásia o Bicupudo. O próprio Camões não deixou de ter a sua alcunha: chamavam-no Trinca-Fortes. Por certo meteu os dentes nalgum criado del-rei. Os documentos do Santo Ofício em Pernambuco, em fins de 1500, já nos falam sobre a existência de indivíduos com alcunhas, como Alma de Baratuzza e Boas Noites, nomes por que eram mais conhecidos, segundo o depoimento dos que vieram à mesa da Inquisição.

Um caso interessante passado na Bahia, em 1593, nos mostra como nascia um apelido. Depôs certa pessoa junto ao delegado inquisitorial Heitor Furtado de Mendonça. Falou com gravidade. Disse que havia uma mulher que era bruxa; à noite transformava-se em marreca e saía pelas encruzilhadas assustando os transeuntes. Numa das ocasiões, o depoente estava à janela conversando com o vigário da Igreja de N. S. da Vitória quando ela passou. O padre, indicando-a com o dedo, disse muito convencido: - Lá vai Dona Patinha!

Alguns anos depois vem à mesa a testemunha, grave e memorativa, a contar a brincadeira do vigário, que talvez tenha crismado a pobre mulher de D. Patinha, agravando sem querer a situação dela. No século XVIII, na mesma Bahia, houve um governador que nos fins do seu governo saiu apelidado de "Braço de Prata". Ao governador de Minas Gerais, Luiz da Cunha Menezes, antes da Inconfidência, os poetas puseram a alcunha de "Fanfarrão Minésio". A um dos juízes do tribunal encarregado de julgar os Inconfidentes, Antonio Diniz da Cruz e Silva, cognominaram "Corvo do Mondego". Os apelidos portugueses transpuseram os mares. Vieram perpetuar-se neste lado do Atlântico com aquelas características que assinalavam e definiam os seus portadores: um nome ridículo que mais condizia com a personalidade do alcunhado…

As comemorações antigas, segundo costumes da época, eram constituídas pelas luminárias (o que hoje denominamos simplesmente fogos), do Te-Deum Laudamus e do drama. O teatro, no tempo, considerava-se um meio de pregar com exemplos os atos da mais nobre moralidade. Em Pernambuco, em 1585, em sinal de graça pela partida dos corsários Lancaster e Venner, era levado a efeito o drama "Quem tem farelo?" ou o "Lázaro Pobre", atribuído a Bento Teixeira. Anchieta tornava agradável a representação dos autos por ele compostos, imprimindo-lhes a graça de Gil Vicente. Eram leves, não fatigavam o indouto. As representações tinham um cunho moralizador: o prêmio do bom e o castigo do mau. Um anjo se encarregava do primeiro, e o diabo do segundo.

Mais tarde se instala a comédia francesa no Brasil, que encontra no espírito aprimorado e culto da época o melhor acolhimento. Não faltava a Casa da Ópera, tanto que eram dois os teatros na Corte do Segundo Império: o francês e o italiano. Uma moral severa presidia as coisas: mulheres não representavam no palco. O papel destas era desempenhado por homens. Tal costume verificava-se na Inglaterra no século XVIII e em Portugal de D. Maria I. Um humorista viu, em 1684, na corte de D. Pedro II, homens na ribalta substituindo artistas do sexo feminino. A presença da mulher em meios masculinos não se estendia pelo interior. Koster, por exemplo, quando visitou o Rio Grande do Norte, não viu Nísia Floresta, cujo pai recém-adquirira terras. Época solene quando o patriarca era senhor absoluto e autoritário. Tinha dentro de casa um pequeno reino. Não só exigia da mulher a mais humilde obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos incondicionais.

Neste ambiente, severo de um lado e ridículo de outro, em que figuravam tipos como Paulo da Gama, governador do Rio Grande do Sul, surgiam as mais curiosas histórias. Este vinha substituir José Marcelino de Figueiredo, que, em verdade, não era nem José, nem Marcelino, nem Figueiredo. Chamava-se Manoel Gomes de Sepúlveda. Era general do exército português. Segundo Augusto Porto Alegre em seu livro, ele refugiara-se no extremo sul do Brasil com um nome suposto. Os ingleses, que costumavam estar com frequência no Porto de S. Pedro do Sul nesse tempo, não encontrariam com facilidade José Marcelino, travestido de governador. Fundador de Porto Alegre, o governador José Marcelino maldira um oficial inglês na Europa... (Nota: O texto original terminava sugerindo o motivo de sua fuga e o apelido "O Lentilhas" que dá título à crônica).

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