ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 3 de outubro de 2026

NÍSIA FLORESTA SOB A LENTE DE PEGGY SHARPPE VALADARES...

Peggy Sharppe Valadares

Entre os pesquisadores que, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, lançaram novos olhares sobre a vida, a obra e o pensamento de Nísia Floresta Brasileira Augusta, Peggy Sharpe Valadares ocupa um lugar verdadeiramente significativo. Sua contribuição não deve ser compreendida como um ponto de partida absoluto dos estudos nisianos, pois antes dela já existia uma tradição de pesquisadores brasileiros que haviam se dedicado à recuperação da memória da escritora, entre os quais se destacam Henrique Castriciano e Adauto da Câmara. O que torna particularmente importante a atuação de Peggy Sharpe é o fato de ela ter contribuído para que Nísia deixasse de ser percebida apenas como uma personagem de interesse regional ou como uma pioneira isolada da história das mulheres brasileiras e passasse a ser estudada dentro de um campo intelectual mais amplo, envolvendo a literatura comparada, a história das mulheres, a educação feminina, o pensamento social e a cultura latino-americana. A pesquisadora norte-americana ajudou, assim, a estabelecer uma ponte entre aquilo que já vinha sendo preservado por pesquisadores brasileiros e uma nova geração de estudos acadêmicos que, principalmente a partir das décadas de 1980 e 1990, começou a reconsiderar a participação das mulheres na formação intelectual das sociedades modernas.


Acima, da esquerda para a direita: Elizabeth Lowe, UIUC; Peggy Sharpe, FSU; Domicio Coutinho, Brazilian Endowment for the Arts; Ana Maria Machado, escritora; Joyce Cavalcanti, REBRA; Renata Wasserman, Wayne State University; Jacinele Brataas, REBRA. Fonte: PN Fall 2009 Color ONLINE_2.indd


Para compreender a importância desse trabalho, é necessário voltar algumas décadas e observar a situação em que se encontravam os estudos sobre Nísia Floresta. A escritora havia morrido em Rouen, na França, em 24 de abril de 1885, aos 74 anos, depois de uma vida que, para os padrões de seu tempo, havia sido extraordinariamente movimentada. Nascida Dionísia Gonçalves Pinto, em 12 de outubro de 1810, no Sítio Floresta, em Papary, no Rio Grande do Norte, Nísia atravessou o Brasil imperial e viveu experiências em diferentes regiões do país e da Europa. Publicou livros, escreveu para jornais, dedicou-se à educação feminina, dirigiu uma escola para meninas no Rio de Janeiro, produziu literatura, ensaios, relatos de viagem e reflexões sobre a condição da mulher, a educação, a escravidão, os indígenas, a moral, a religião, a civilização e o próprio Brasil. Sua trajetória intelectual também a levou a estabelecer contato com importantes ambientes culturais europeus e a aproximar-se de personalidades como Auguste Comte, nascido em Montpellier em 19 de janeiro de 1798 e morto em Paris em 5 de setembro de 1857. A relação entre Nísia e Comte é conhecida e documentada, embora a influência do filósofo francês sobre o pensamento nisiano não deva ser transformada numa explicação totalizante de sua obra. Nísia possuía uma formação intelectual anterior e dialogava com diferentes correntes de pensamento, entre elas ideias oriundas do Iluminismo, do liberalismo, do romantismo e das discussões pedagógicas de seu século.

Quando Peggy Sharpe se aproximou da produção de Nísia, portanto, encontrou uma autora cuja importância histórica já havia sido percebida por alguns estudiosos, mas cuja obra permanecia em grande parte inacessível. Muitos dos livros publicados por Nísia durante o século XIX haviam se tornado raros, encontravam-se dispersos em bibliotecas e coleções particulares ou não haviam recebido novas edições brasileiras. Essa situação explica por que a memória de Nísia sobrevivera durante tanto tempo de maneira desigual: havia informações biográficas, homenagens, referências em jornais e estudos pioneiros, mas o acesso direto aos seus textos era extremamente limitado. No Rio Grande do Norte, essa dificuldade pode ser percebida de maneira concreta. Em 1994, durante minhas próprias pesquisas, tive a oportunidade de conhecer, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, um exemplar original de obra de Nísia Floresta, mostrado pelo dr. Enélio Petrovich, então presidente da instituição. A experiência é significativa porque demonstra como, ainda na década de 1990, o pesquisador interessado em Nísia dependia muitas vezes da localização física de exemplares raros e de acervos institucionais para ter acesso direto à produção da escritora.

Antes de Peggy Sharpe, entretanto, houve homens e mulheres que trabalharam para que essa memória não desaparecesse. Entre eles, Henrique Castriciano de Souza, nascido em Macaíba em 15 de março de 1874 e falecido em Natal em 26 de julho de 1947, ocupa lugar de grande importância. Escritor, jornalista, poeta, educador e intelectual de atuação marcante no Rio Grande do Norte, Henrique Castriciano dedicou atenção especial à memória de Nísia Floresta e reuniu informações e documentos que posteriormente seriam utilizados por outros pesquisadores. Seu trabalho deve ser visto dentro de uma época em que os mecanismos de preservação documental eram muito mais precários do que os atuais e em que grande parte da produção intelectual do século XIX permanecia dispersa. A importância de Castriciano não está apenas naquilo que escreveu, mas também no fato de ter percebido que a memória de Nísia precisava ser preservada antes que desaparecessem as fontes capazes de sustentá-la.

Esse trabalho seria posteriormente ampliado por Adauto da Câmara, autor de História de Nísia Floresta, publicado em 1941. A obra tornou-se durante décadas uma das principais referências para quem desejasse conhecer a vida da escritora. Adauto não partiu do vazio. Ao contrário, beneficiou-se do trabalho realizado anteriormente por Henrique Castriciano e incorporou informações que ajudaram a construir uma narrativa biográfica de maior amplitude. Por isso, é importante compreender a historiografia de Nísia como uma cadeia de transmissão e recuperação documental, e não como uma sucessão em que cada pesquisador posterior simplesmente substitui o anterior. Castriciano teve importância na coleta e preservação; Adauto da Câmara desempenhou papel fundamental na sistematização biográfica; pesquisadores posteriores voltaram aos documentos, localizaram novas fontes, fizeram novas perguntas e, em alguns casos, corrigiram interpretações anteriores. A história da recuperação de Nísia é, portanto, também a história de diferentes gerações de pesquisadores trabalhando sobre um patrimônio documental que não chegou inteiro até o presente.

Peggy Sharpe Valadares

Foi nesse terreno que Peggy Sharpe encontrou Nísia Floresta. Pesquisadora norte-americana ligada aos estudos de literatura e cultura luso-brasileira, Sharpe dedicou parte significativa de sua trajetória ao estudo e à divulgação de escritoras brasileiras. A própria edição de 1989 de Opúsculo humanitário deixa evidente que seu interesse não estava limitado a Nísia. Peggy Sharpe vinha pesquisando e divulgando escritoras brasileiras de diferentes períodos, contribuindo para ampliar, entre estudantes e pesquisadores norte-americanos, o conhecimento de uma literatura feminina brasileira que permanecia pouco representada nos programas acadêmicos. Nísia, nesse sentido, tornou-se uma das figuras mais importantes desse trabalho de recuperação, justamente porque sua obra reunia literatura, educação, reflexão social e uma discussão pioneira sobre a posição da mulher.

A publicação de Opúsculo humanitário em 1989 constituiu um dos momentos mais importantes desse processo. O livro havia sido originalmente publicado em 1853 e retornou ao público brasileiro 136 anos depois, em edição atualizada pela Cortez, em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, trazendo estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares e posfácio de Constância Lima Duarte. A Biblioteca Nacional registra a edição de 1989 como uma publicação de 164 páginas, pertencente à série Biblioteca da Educação - Mulher Tempo. A importância da iniciativa não estava simplesmente na reimpressão de um livro antigo, mas na possibilidade de oferecer ao leitor contemporâneo instrumentos para compreender o texto de Nísia dentro do contexto histórico e intelectual em que havia sido produzido. A edição permitiu que uma obra fundamental sobre educação feminina voltasse a circular num momento em que os estudos sobre mulheres estavam adquirindo nova dimensão acadêmica no Brasil e no exterior.

O significado dessa publicação torna-se ainda maior quando se considera o próprio conteúdo de Opúsculo humanitário. Nísia não escreveu apenas uma defesa genérica da educação das mulheres. Ela analisou historicamente a condição feminina, comparou sociedades, discutiu o papel da educação na formação moral e intelectual e criticou as limitações impostas às brasileiras de seu tempo. Os primeiros ensaios percorrem referências históricas que vão da Antiguidade a diferentes sociedades europeias e norte-americanas, antes de chegarem à situação da mulher brasileira no século XIX. Nísia utilizou a história como argumento para demonstrar que a condição feminina não era resultado de uma incapacidade natural, mas de processos culturais, sociais e educacionais. A educação, portanto, aparecia em seu pensamento não como simples ornamento para as mulheres das famílias abastadas, mas como elemento fundamental para o desenvolvimento individual e para o próprio progresso da sociedade. Essa concepção ajuda a explicar por que Peggy Sharpe considerou o Opúsculo um texto de importância tão significativa dentro da história intelectual brasileira.

É importante lembrar que Nísia já havia iniciado essa discussão duas décadas antes. Em 1832, publicou Direitos das mulheres e injustiça dos homens, obra que dialogava diretamente com a tradição inaugurada na Europa por Mary Wollstonecraft, autora de A Vindication of the Rights of Woman, publicado em Londres em 1792. Wollstonecraft havia nascido em 1759 e morreu em 1797, e seu livro tornou-se um dos textos fundamentais da tradição intelectual que reivindicava educação e autonomia para as mulheres. Nísia não realizou uma tradução literal da obra inglesa; produziu uma tradução livre e adaptação, apropriando-se de ideias que passaram por seu próprio entendimento e pelo contexto brasileiro. Essa diferença é importante porque demonstra que Nísia não deve ser vista simplesmente como uma repetidora de ideias europeias. Ela tomou referências estrangeiras e as reelaborou para discutir uma realidade social específica, a do Brasil imperial.

A experiência educacional de Nísia também confere uma dimensão prática ao seu pensamento. Em 1838, fundou no Rio de Janeiro o Colégio Augusto, instituição destinada à educação de meninas. O estabelecimento ficou conhecido por oferecer um programa de estudos mais amplo do que aquele tradicionalmente reservado às mulheres. Numa sociedade em que a educação feminina era frequentemente reduzida às chamadas prendas domésticas, a iniciativa representava uma mudança significativa. As críticas que Nísia recebeu demonstram, inclusive, que sua atuação não passou despercebida. A imprensa do período registrou ataques à diretora e àquilo que seus opositores consideravam uma excessiva ampliação da educação das meninas. A expressão “mulher metida a homem”, posteriormente recuperada nos estudos de Peggy Sharpe, sintetiza o tipo de reação que uma mulher intelectual podia provocar ao ocupar um espaço público tradicionalmente reservado aos homens. Nísia enfrentou esse ambiente não apenas como escritora, mas também como educadora responsável por uma instituição concreta.

A importância de Peggy Sharpe está justamente em ter compreendido essa multiplicidade. Nísia não era apenas “a primeira feminista brasileira”, fórmula que, embora tenha sido utilizada durante décadas e possua fundamento em determinados aspectos, é insuficiente para definir uma personalidade intelectual tão complexa. Nísia foi educadora, escritora, tradutora, cronista, autora de literatura de viagem, pensadora social e observadora crítica da sociedade brasileira. Sua produção também revela preocupações com a escravidão, a situação dos indígenas, a educação das crianças e a própria formação moral da sociedade. O pensamento nisiano precisa, portanto, ser estudado em suas várias dimensões e dentro das contradições do século XIX, sem transformá-lo nem numa antecipação perfeita das ideias do século XXI nem numa simples reprodução das correntes europeias.

Essa perspectiva é particularmente importante quando se analisa a relação de Nísia com Auguste Comte. A amizade e a aproximação intelectual entre ambos são fatos importantes da biografia da escritora, mas não autorizam a redução de todo o pensamento nisiano ao positivismo. Nísia já havia publicado Direitos das mulheres e injustiça dos homens em 1832 e fundado o Colégio Augusto em 1838, portanto antes de seu contato mais conhecido com Comte em Paris. Sua formação intelectual também revela a presença de outras matrizes, entre elas a tradição ilustrada, o pensamento pedagógico, o romantismo e as discussões sobre civilização. A leitura de Peggy Sharpe é importante justamente porque procura situar Nísia dentro de um universo intelectual mais amplo, no qual diferentes ideias eram recebidas, adaptadas e reinterpretadas.

A recuperação de N´sia também exigia enfrentar o problema da memória negativa que se construiu em torno de sua figura. Sua independência pessoal, seu casamento muito precoce, sua separação do primeiro marido, sua vida intelectual, suas viagens e sua exposição pública provocaram críticas ainda durante sua existência. No século XIX, uma mulher que publicava em jornais, dirigia uma escola, escrevia sobre política e educação e circulava em ambientes intelectuais podia facilmente ser considerada transgressora. A própria trajetória de Nísia mostra como a sociedade brasileira oitocentista estabelecia limites rigorosos para o comportamento feminino. Sua decisão de casar-se por espontaneidade, aos 13 anos, e romper com esse casamento em menos de um ano,, adquiriu posteriormente uma dimensão escandalosa dentro de determinadas memórias familiares e sociais, embora a historiografia contemporânea tenha condições de analisar o episódio de maneira muito mais cuidadosa do que fizeram seus críticos.

Nesse contexto aparece também Isabel Gondim, nascida em Papary em 5 de julho de 1839 e falecida em Natal em 10 de junho de 1933. Professora, escritora e historiadora, Isabel pertenceu a uma geração posterior à de Nísia e jamais conviveu pessoalmente com ela, pois nasceu 29 anos depois do nascimento de Nísia. Foi a primeira mulher a integrar o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte como sócia efetiva, em 1928, e desenvolveu uma produção própria dedicada à educação e à história. Justamente por possuir essa autoridade intelectual, a carta que escreveu em 1884 sobre Nísia Floresta adquiriu posteriormente peso considerável na formação da memória da escritora.

II MOVIMENTO PRÓ-MEMÓRIA NÍSIA FLORESTA: IAPERI SOARES DE ARAÚJO, PRIMEIRO À DIREITA - À ESQUERDA VEMOS: GRAÇA LUCENA DE MEDEIROS, ZÉLIA MARIZ, ? E PEGGY SHARPE VALADARES. CONJUNTO HISTÓRICO DE NÍSIA FLORESTA, 1989.

A carta de Isabel Gondim, entretanto, precisa ser tratada pelo historiador com o devido cuidado. Ela é uma fonte histórica importante, mas não deve ser confundida automaticamente com uma descrição objetiva da vida de Nísia. O documento revela, antes de tudo, a maneira como Isabel Gondim interpretava sua conterrânea e como determinados valores morais do século XIX influenciavam a avaliação da conduta de uma mulher. As afirmações depreciativas existentes na carta precisam ser confrontadas com outros documentos, com os próprios escritos de Nísia, com jornais, correspondências e testemunhos disponíveis. O problema historiográfico não está em esconder a existência da carta, mas em compreender o lugar que ela ocupa na construção posterior da memória nisiana. A carta de Isabel é considerada por todos os críticos como fruto de ferenha inveja.

É justamente nesse ponto que a recuperação crítica promovida por pesquisadores como Peggy Sharpe adquire especial relevância. Em vez de tomar a biografia de Nísia apenas a partir das opiniões de seus contemporâneos ou de seus críticos posteriores, o estudo moderno procura devolver centralidade aos próprios textos da autora. Essa mudança metodológica é fundamental. Quando o pesquisador lê Direitos das mulheres e injustiça dos homens, Opúsculo humanitário, A lágrima de um Caeté, Itinerário de uma viagem à Alemanha, Três anos na Itália seguidos de uma viagem à Grécia e outras obras, encontra uma mulher muito mais complexa do que aquela produzida pelas anedotas biográficas ou pelas acusações morais. É a própria Nísia que passa a falar, e não apenas aqueles que escreveram sobre ela.

A dimensão internacional da obra também merece atenção. Nísia não foi uma escritora confinada ao Brasil. Publicou em francês e teve parte de sua produção editada na Europa, onde escreveu sobre suas experiências de viagem e sobre o Brasil. Itinéraire d’un voyage en Allemagne foi publicado em Paris em 1857; Trois ans en Italie suivis d’un voyage en Grèce, par une Brésilienne apareceu em Paris na década de 1860; Le Brésil, par Mme Brasileira Augusta foi publicado em 1871; e Fragments d’un ouvrage inédit: notes biographiques apareceu em 1878. Portanto, quando Peggy Sharpe promoveu a recuperação de Nísia para o público acadêmico internacional no final do século XX, estava, em certo sentido, reabrindo um diálogo que a própria escritora já havia estabelecido no século XIX.

O problema é que a projeção internacional de Nísia em vida não garantiu a permanência de sua memória. Com o passar das décadas, suas obras deixaram de circular amplamente no Brasil e muitos de seus textos tornaram-se raridades bibliográficas. Essa circunstância ajuda a explicar o caráter quase paradoxal da trajetória nisiana: uma mulher que havia publicado em Paris e dialogado com intelectuais europeus acabou, posteriormente, sendo conhecida de maneira muito mais restrita em seu próprio país. A recuperação editorial do final do século XX começou a modificar essa situação. A publicação de Opúsculo humanitário em 1989 foi particularmente importante porque permitiu que a obra retornasse ao debate educacional e feminista brasileiro. Estudos posteriores confirmam que essa edição representou um marco na retomada dos textos de Nísia e que novas edições de outras obras viriam nos anos seguintes.

O ano de 1989 possui ainda uma importância especial no Rio Grande do Norte por causa do I Movimento Pró-Memória Nísia Floresta, realizado no município que hoje leva o nome da escritora. A participação de Peggy Sharpe nesse movimento estabeleceu uma ligação particularmente significativa entre a pesquisadora estrangeira e a terra natal de Nísia. Naquele momento, a recuperação da memória nisiana mobilizou intelectuais, escritores, professores e agentes culturais do Estado. Entre os nomes relacionados àquele movimento estavam Iaperi Araújo, Maria das Graças Lucena de Medeiros e Zélia Mariz, entre outros. O evento contou também com o apoio da administração municipal, então sob a gestão do prefeito Almir da Silva Leite, por meio do professor Jorge Januário de Carvalho, cuja participação na defesa da memória de Nísia foi importante naquele processo e em diverso outros. Mais do que um acontecimento isolado, aquele movimento fazia parte de uma tentativa de devolver à escritora um lugar mais visível na memória cultural do Rio Grande do Norte.

É nesse mesmo ambiente de renovação dos estudos que aparece com força o trabalho de Constância Lima Duarte. Sua trajetória seria decisiva para a consolidação acadêmica dos estudos nisianos, sobretudo a partir da década de 1990. A aproximação entre Peggy Sharpe e Constância é particularmente significativa porque ambas contribuíram, por caminhos diferentes, para a recuperação da produção intelectual de Nísia. A edição de Opúsculo humanitário de 1989 já reunia o estudo introdutório e as notas de Peggy Sharpe com um posfácio de Constância Lima Duarte, demonstrando que naquele momento começava a se formar uma rede de pesquisadores interessada em devolver à escritora seus próprios textos e em interpretá-los à luz de novas perspectivas.

A partir de então, outras obras de Nísia começaram a receber novas edições, estudos críticos e traduções. Direitos das mulheres e injustiça dos homens voltou a circular em edição crítica; Itinerário de uma viagem à Alemanha ganhou edição brasileira com tradução e estudo; Três anos na Itália, seguidos de uma viagem à Grécia foi publicado pela EDUFRN; e outras obras que durante muito tempo permaneceram pouco acessíveis passaram a integrar o repertório de pesquisadores e estudantes. Essa retomada editorial é importante porque modifica profundamente a relação entre o pesquisador e a fonte. Em vez de depender exclusivamente de biografias ou de citações fragmentárias, o leitor passa a ter condições de entrar em contato diretamente com a escrita de Nísia e acompanhar a evolução de seu pensamento.

Nesse processo, a contribuição de Peggy Sharpe não deve ser superestimada a ponto de apagar os pesquisadores brasileiros anteriores, mas também não deve ser diminuída. Seu mérito está justamente em ter percebido o potencial de uma escritora que permanecia praticamente desconhecida fora de determinados círculos especializados e em ter trabalhado para colocá-la novamente em circulação. O fato de uma pesquisadora norte-americana dedicar-se a uma autora brasileira do século XIX é significativo porque revela que a questão ultrapassava a memória regional. Nísia poderia ser lida dentro da história internacional das mulheres, da literatura brasileira, dos estudos latino-americanos e da história da educação.

Essa mudança de perspectiva também ajudou a retirar Nísia de uma espécie de folclorização biográfica. Durante muito tempo, sua figura foi apresentada sobretudo por epis´dios considerados curiosos ou escandalosos: o casamento precoce, a separação, as viagens, o contato com Auguste Comte e as críticas que recebeu. Embora esses elementos façam parte de sua trajetória e não devam ser ocultados, concentrar toda a narrativa neles significa transformar uma intelectual em personagem. A leitura crítica de seus textos permite outro caminho: compreender as razões pelas quais ela escreveu, o contexto em que suas ideias surgiram, os autores com os quais dialogou, os problemas que enfrentou e as limitações próprias de uma intelectual pertencente às elites letradas do Brasil oitocentista.

Também é necessário evitar o anacronismo. Nísia Floresta não pode ser simplesmente transformada numa pensadora do século XXI transportada para o século XIX. Ela escreveu dentro dos valores, das linguagens e das categorias disponíveis em sua época. Seu pensamento sobre as mulheres, por exemplo, estava fortemente relacionado à educação, à moral, à maternidade, à família e à ideia de progresso da sociedade. Sua crítica à escravidão e sua defesa da dignidade humana devemser consideradas dentro de sua trajetória e de seu tempo, assim como suas limitações. O interesse histórico está precisamente em compreender o que ela conseguiu formular dentro das possibilidades de seu período e como algumas de suas ideias ultrapassaram as expectativas sociais existentes para uma mulher brasileira nascida em 1810.

Quando se observa a trajetória de Nísia a partir dessa perspectiva, sua importância torna-se ainda mais evidente. Ela nasceu no Brasil colonial apenas nove anos antes da Independência, viveu durante o Primeiro Reinado, o período regencial e praticamente todo o Segundo Reinado, e morreu três anos antes da Abolição da escravidão. Seu primeiro livro importante sobre os direitos das mulheres apareceu em 1832, quando o Brasil ainda estava sob o impacto da abdicação de D. Pedro I e vivia as turbulências da Regência. Seu Colégio Augusto surgiu em 1838, durante a Regência, e seu Opúsculo humanitário foi publicado em 1853, durante o reinado de D. Pedro II. Sua experiência europeia levou-a a observar diretamente sociedades que ela comparava constantemente com o Brasil. Nísia, portanto, não foi uma observadora distante do século XIX: ela esteve profundamente inserida nas grandes transformações intelectuais, sociais e culturais daquele período.

É exatamente essa dimensão que Peggy Sharpe ajudou a revelar para novas gerações de leitores. Ao recuperar Opúsculo humanitário, ao estudá-lo e ao situá-lo dentro da história da educação feminina, Sharpe contribuiu para que Nísia fosse novamente lida como uma intelectual e não apenas como uma personagem biográfica. A obra passou a interessar a pesquisadores de literatura, educação, história das mulheres e pensamento brasileiro. A recuperação editorial também permitiu que novas pesquisas surgissem, que outros textos fossem procurados e que pesquisadores brasileiros, entre eles Constância Lima Duarte, ampliassem o campo dos estudos nisianos.

Por isso, quando se fala na contribuição de Peggy Sharpe Valadares, talvez seja mais correto falar em uma retomada do diálogo internacional do que numa simples “descoberta” de Nísia Floresta. A escritora já havia estabelecido esse diálogo no século XIX, quando publicou em Paris, escreveu em francês, viajou pela Europa e apresentou aos leitores estrangeiros suas observações sobre o Brasil. O que aconteceu no final do século XX foi uma espécie de reabertura desse diálogo depois de décadas de circulação limitada de seus livros. Peggy Sharpe participou decisivamente desse processo, ao lado de outros pesquisadores que, em diferentes momentos, contribuíram para reconstruir a trajetória intelectual da escritora.

A história da recuperação de Nísia Floresta, portanto, não pertence a uma única pessoa. Henrique Castriciano preservou e valorizou uma memória que poderia ter desaparecido; Adauto da Câmara organizou uma das primeiras grandes sínteses biográficas; pesquisadores posteriores voltaram às fontes e questionaram interpretações antigas; Peggy Sharpe devolveu parte importante da obra ao circuito editorial e acadêmico; Constância Lima Duarte aprofundou a pesquisa, organizou novas edições e contribuiu decisivamente para a consolidação dos estudos nisianos. Outros pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, continuaram esse trabalho e ainda continuam. A própria pesquisa histórica sobre Nísia permanece aberta, pois novos documentos, exemplares, cartas, registros e testemunhos podem modificar detalhes de uma trajetória que, apesar de bastante estudada atualmente, ainda possui zonas pouco conhecidas.

Há, por fim, uma circunstância que confere particular significado a todo esse processo. Nísia Floresta nasceu em Papary, numa época em que a localidade estava muito distante dos grandes centros intelectuais do Império, mas terminou sua vida em Rouen, na França, depois de ter construído uma trajetória intelectual que ultrapassou as fronteiras brasileiras. Durante décadas, sua memória voltou a ser sobretudo regional, enquanto seus livros se tornavam cada vez mais raros. O trabalho de pesquisadores como Henrique Castriciano, Adauto da Câmara, Peggy Sharpe Valadares e Constância Lima Duarte permitiu que essa trajetória fosse novamente reconstruída e colocada diante de novos leitores. É nesse sentido que Peggy Sharpe ocupa lugar especial na história dos estudos nisianos: ela não criou a importância de Nísia Floresta, não foi a primeira a pesquisá-la e tampouco trabalhou isoladamente, mas contribuiu decisivamente para que a obra de uma intelectual brasileira do século XIX voltasse a ultrapassar as fronteiras que o esquecimento editorial e historiográfico havia imposto.

Hoje, quando se lê Nísia Floresta a partir de suas próprias obras, torna-se possível compreender melhor a dimensão de uma mulher que começou a escrever ainda muito jovem, enfrentou as limitações impostas às mulheres de seu tempo, dedicou-se à educação feminina, publicou em jornais e livros, percorreu diferentes países, escreveu sobre a sociedade brasileira e estabeleceu relações intelectuais com homens e mulheres de seu tempo. A recuperação dessa obra não é apenas um cap´tulo da história literária brasileira. É também parte da história da educação, da história das mulheres, da história intelectual e da própria maneira como o Brasil passou a olhar para suas escritoras. Nesse percurso, Peggy Sharpe Valadares teve um papel que merece ser reconhecido com a devida proporção histórica: o de uma pesquisadora que, ao estudar uma autora brasileira pouco conhecida fora de círculos especializados, contribuiu para devolver a Nísia Floresta uma dimensão internacional que, em vida, ela própria havia conquistado.

Referências

Obras e estudos diretamente relacionados a Nísia Floresta e Peggy Sharpe-Valadares

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Tradução livre e adaptação de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft. Recife: Typographia Fidedigna, 1832.

FLORESTA, Nísia. Opúsculo humanitário. Edição atualizada, com estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares; posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989. A edição é confirmada pelo catálogo da Biblioteca Nacional.

SHARPE-VALADARES, Peggy. Nísia Floresta: Brazilian Feminist Pioneer. Washington: University Press of America, 1994.

SHARPE-VALADARES, Peggy. Opúsculo humanitário. Estudo introdutório e notas. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989.

SHARPE-VALADARES, Peggy. A Woman's Thoughts on Brazil. Tradução, organização e introdução. Austin: University of Texas Press, 1997.

SHARPE-VALADARES, Peggy. “Nísia Floresta e o feminismo no Brasil oitocentista”. In: DUARTE, Constância Lima (org.). Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.

SHARPE-VALADARES, Peggy. “Travel Writing and Female Education in Nineteenth-Century Brazil: The Thought of Nísia Floresta”. Luso-Brazilian Review, Madison, v. 31, n. 2, p. 45-67, 1994.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.

CÂMARA, Adauto da. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1941.

PORTUGUESE Newsletter: PN. [S. l.]: AATSP, Fall 2009. Disponível em:https://cdn.ymaws.com/www.aatsp.org/resource/resmgr/pn/PN_Fall2009web.pdf. Acesso em: 12. mai. 2026.


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