Não é a primeira vez que um presidenciável veste um chapéu e sai pelo Brasil à cata de votos, certamente pensando que vestir um chapéu é o mesmo que vestir a causa de quem estaria vestindo aquele chapéu. Na realidade, todos fizeram isso. Uns com mais autoridade – e legitimade – outros, não. Uns, sem autoridade alguma.
O chapéu, por mais que devesse consistir numa prioridade - principalmente aqui no Nordeste -, não tem mais a tradição do passado. As pinturas e, principalmente, fotografias estão aí para comprovar que desde o século XVIII quase todos os habitantes do Brasil usavam chapéu. Homens e mulheres. As pessoas do passado tinham no chapéu um vestuário que protegia a sua saúde, livrando-as de queimaduras do sol. Mas, hoje, seu uso se resumiu ao homem rural, perdendo espaço para o boné. Não é regra, mas é mais visível nesse público.
Homem urbano atual com chapéu comum, ou é um velhinho, ou uma pessoa exótica, quase sempre um artista e por aí vai. Para nós, brasileiros urbanos atuais – homens ou mulheres -, o chapéu não é nem tanto um vestuário usado para evitar o sol direto sobre a cabeça, tampouco para proteger a incidência dos raios solares sobre os olhos e até mesmo queimaduras na careca, mas uma peça para ocasiões específicas: uma baile de fantasia, uma peça teatral e algo do tipo. As mulheres milionárias paulistas, ainda arriscam aqueles chapéus a la festa no Buckinghan, mas nas hípicas paulistas.
Em todo o Brasil de hoje, o chapéu e seus derivados, se resumem mais ao espaço rural, cidadezinhas interioranas ou mesmo naqueles municípios com histórico de rodeios, como Barretos/SP. Desse modo, no interior de São Paulo, predominam os chapéus de palha e massa. Aqui no Nordeste, especificamente, é muito divulgada a imagem de um tipo de chapéu típico daqui, que não é daqui, mas ficou conhecido como sendo daqui. Entendeu ou deu um nó na cabeça? Refiro-me a esse chapéu na cabeça de Sérgio Moro, tão falso quanto quem o veste, se formos analisar a fundo.
Esse chapéu é uma cópia do chapéu de Napoleão Bonaparte, cujo cangaceiro Lampião – que muito admirava o estrategista francês - o tomou de empréstimo, adequando-o à sua imagem, bordando-lhe diversos riquefifes. Mas o chapéu é o mesmo. Para quem não sabe, antes de Lampião conhecer a história de Napoleão Bonaparte, ele usava um chapéu ao estilo dos escoteiros (vejam na fotografia aqui postada, tanto ele quanto Maria Bonita com o modelo anterior).
Você pode andar o Nordeste inteiro e não verá em lugar algum um homem usando esse chapéu que Sergio Moro traz em sua cabeça, todo animado, de olho no voto dos nordestinos. Esse chapéu de Napoleão Bonaperte, e depois de Lampião, e depois de Luiz Gonzaga, é um ornamento folclórico, em que Luiz Gonzaga, “Rei do Baião” deu um gás em sua divulgação nos anos 40/50, pois era muito famoso e ajudou a divulgá-lo como sendo uma coisa típica do povo Nordestino. Nesse caso, o músico copiou Lampião que havia copiado Napoleão Bonaparte.
Resido aqui no Nordeste há trinta anos, e as raras vezes que vi homens com esse chapéu de Napoleão foi durante apresentações folclóricas da dança Xaxado, (ritmo criado por Lampião), e praticada por alguns grupos folclóricos aqui do Nordeste. Mas é bom esclarecer que não é em todo o Nordeste que se verá esse chapéu. Nem mesmo em grupos folcóricos.
Sergio Moro, ao querer usar um chapéu que lembrasse o povo Nordestino, certamente para se tornar mais simpático, deveria ter usado um chapéu de palha, que é usado em todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Aí, então, ele não somente ficaria “parecido” com o povo nordestino, mas com todo o povo brasileiro.
Mas se Moro realmente quisesse um chapéu que os nordestinos de fato usam, deveria ter vestido aquele chapeuzinho de couro, típico do Sertão e Seridó nordestinos (vejam exemplo nessa última foto aqui postada). Não é um chapéu que você verá homens usando-os no Shopping Midway, ou na UFRN. Mas é incomparavelmente mais comum que o modelo bonapartista. Pelo menos é o que mais vejo nas cidades do Rio Grande do Norte. Repito: é uma peça mais do campo e menos da cidade. Mas ainda vemos muitos velhinhos usando tal chapéu na cidade. Esse, sim, representa o Nordeste. E um detalhe: esse chapeuzinho de couro é anterior à releitura que Lampião fez do chapéu de Napoleão Bonaparte. Esse é o original.
Enfim, para finalizar. Quem é uma farsa, quem é especialista em farsa, quem quer chegar ao seu objetivo com farsas, embustes, táticas diabólicas de mentiras – como é o caso de Moro –, esse chapéu cai como uma luva, pois simboliza toda uma mitologia, e nada do Nordeste.
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