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Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino. |
Câmara Cascudo, disse que “Natal não consagra nem desconsagra ninguém”. Pauto-me dessa frase clássica do nosso insigne potiguar, para comentar sobre o último Edital de Credenciamento para Instrutores de Dança da EDTAM - Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão), do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, encerrado no último dia 1º de março/24. É notória a desconsagração ao próprio balé de Natal.
No artigo 1º, DAS DEFINIÇÕES E EXIGÊNCIAS, parágrafo 1.3 está escrito: “1.3. No que se refere ao estilo BALLET CLÁSSICO, o (a)s CANDITADO(A)S devem ter, obrigatoriamente, experiência comprovada na METODOLOGIA RUSSA/VAGANOVA, por meio de certificação comprovada.
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Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino. |
Nada contra o método - tão importante quanto qualquer outro desde que combinado a seu habitat -, mas tudo contra a engenharia dos bastidores. O que é isso, se não a desconsagração de inúmeros professores de Balé Clássico, qualificados e experientes em outros métodos, e que ficarão de fora por causa da desnecessária exigência obrigatória de experiência comprovada na METODOLOGIA RUSSA/VAGANOVA, por meio de certificação. E a coisa é tão séria, para não deixar dúvida, que está em caixa alta. Estranhíssimo. Sugiro, inclusive, a quem elaborou o Edital, que assistam a série "O Preço da Perfeição", na Netflix. Acaso não favoreçam minha reflexão.
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Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino. |
Por que somente esse método para o Balé Clássico? O que tem esse método que sobrepuja os demais? Nem todos os corpos se encaixam nesse método. Até mesmo os professores de Balé Clássico que trabalham, por exemplo, Vaganova Cubano, o fazem levando em consideração o biótipo brasileiro (corpos com maior massa muscular, portanto mais alto, pulo, muito pliê etc). Ou seja, fazem uma miscelânea, tendo em vista a incompatibilidade desse método com o corpo potiguar. Diferente das russas, com técnicas ao pé da letra, magérrimas, mais dançante, mais braço, mas linhas etc.
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Espetáculo "Câmara Cascudo e o Tapete Mágico" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. |
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Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino. |
Seria compreensível - embora esquisito - se a EDTAM pretendesse criar um ambiente específico para o método russo Vaganova, mas à parte, sem comprometer nem excluir os outros métodos, já que demonstra querer jogar holofotes no Vaganova. Não se trata de sugerir a criação de uma escola especializada em Vaganova, mas que houvesse um espaço físico específico para o mesmo, justificando esse estranho e inesplicável destaque a tal método. Para sermos honestos, o Vaganova puro nem combina com o físico das brasileiras, em especial, as potiguares. É só comparar os corpos. Longe de sugerir preconceito, mas é questão de corpo, de anatomia.. Portanto, para que essa seletividade?
A outra desconsagração observada no edital diz respeito ao universo da Cultura Popular. Estamos assistindo a uma decadência da Cultura Popular. É grave. Essa decadência ocorre com a conivência das autoridades dos municípios do Rio Grande do Norte, com raras exceções. Todas as instituições natalenses que trabalham com Cultura no aspecto de patrocínio, incentivo, revitalização, promoção etc, estão inertes quanto a salvar o Folclore Potiguar. Não se trata de engessar, por exemplo, grupos folclóricos, mas criar condições para que cada cidade potiguar, que têm suas expressões folclóricas, torne-as vivas, mesmo que sejam releituras ou, no mínimo, uma pegada parafolclórica.
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Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino. |
Em se tratando do edital da EDTAM, não se viu um olhar diferenciado para a cultura popular de Natal. Vê-se a disponibilidade para Jazz, Danças Urbanas, Heels dance Balé Clássico, Dança Contemporânea, Sapateado, e dança de salão. Aplausos para todas essas danças, pois são lindas, necessárias e salvam. Mas a Cultura Popular, em termos do genuíno brasileiro, ou até mesmo do parafolclórico, ficou no escuro (em sucessivos editais). Isso é um perigo para a nossa brasilidade, e o pecado é superiormente maior quando as próprias instituições que trabalham com cultura não se sensibilizam a reverter o quadro.
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Espetáculo "Dom Quixote em Parnamoscou" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. |
É necessário jogar holofotes, também, nos grupos folclóricos locais, trabalhar continuamente com oficinas voltadas para essa riqueza brasileira, revitalizando-as, dinamizando-as, enaltecendo-as, promovendo-as, exibindo-as. São muitos entraves que colaboram para que o Folclore não tenha a repercussão que se deve. Entra governo e sai governo e não se vê diferença. O poder público não pode se somar aos entraves.
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Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino. |
Finalizando. Admiro a cultura como um todo. Escrevi vários espetáculos de dança, inclusive musicais. Sou cenógrafo. Trabalho com Arte. Minha fala não é isolada. Meu olhar é holístico. Por coincidência, meu filho, após esperar quase nove meses para conseguir um ingresso para o Bolshoi, em Moscou, Rússia, descreveu, radiante um espetáculo que ali contemplou. Meu filho, assim como eu, respira arte, embora, diferente de mim, sua área profissional seja outra. Digo isso para que não seja interpretado como se falando do que não se entende. Respiro arte.
Como disse no início: Sugiro, inclusive, a quem elaborou o Edital, que assistam a série "O Preço da Perfeição", na Netflix. Acaso não favoreçam minha reflexão.
Enfim, Não existe dança linda. Não existe dança superior. Existem danças lindas, seja Clássica ou Folclórica, e nenhuma é superior a outra. Por isso não entendi essa prioridade ao método Vaganova em Natal. Que me perdoe o mestre Cascudo, mas vejo como desconsagração e grande estranheza esse edital.
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