SOBRE O LIVRO "O AVESSO DA PELE"
Todo escritor escreve para ser lido. O escritor por excelência não aguarda que a sua obra cause polêmica para vender mais ou explodir nas livrarias. Se assim fosse, escrever perderia o sentido, principalmente quando o mote da polêmica fosse o que falta na literatura: uma ideia extraordinária, visionária, impactante, algo novo. E se agravaria se a polêmica decorresse de breves passagens do livro.
Recebi um vídeo em que uma mulher, creio se tratar de uma vereadora ou deputada (não me lembro agora). Ela se mostra indignada com o livro que trabalha identidade complexa das relações raciais e racismo, destinado para professores e estudantes de escolas públicas de todo o país. Depois, vi outro vídeo de uma diretora da região Sul, também indignada. Sua escola recebeu mais de 200 exemplares da obra e a mesma pede a sua censura.
A diretora disse “...Lamentável o Governo Federal através do MEC adquirir esta obra literária e enviar para as escolas com vocabulários de tão baixo nível para serem trabalhados com estudantes do ensino médio...”, escreveu ela na legenda do vídeo. OBSERVAÇÃO: O MEC não escolhe livros. Esse livro foi enviado pelo Governo Federal, por intermédio do Ministério da Educação – MEC/ Programa Nacional do Livro e do Material Didático – PNLD, após passar pela escola de uma equipe. Inclusive achei estranho a diretora não se contentar em meramente mostrar o trecho que recrimina (no vídeo), mas ela lê em voz alta. Se são palavras ‘de baixo calão”, por que lê-las em voz alta? Deixasse os internautas lerem. Como dizem os jovens: aí tem um pouco de lacração.
Intitulado “O Avesso da Pele”, escrito por Jeferson Tenório, o livro é vencedor do Prêmio Jabuti 2021 e vem se tornando um dos livros mais vendidos no Brasil, quebrando recordes de vendas na Amazon, dentre outras postagens indignantes.
Na verdade “O Avesso da Pele” é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos. O que está em jogo é a vida de um homem abalado pelas inevitáveis fraturas existenciais da sua condição de negro em um país racista, um processo de dor, de acerto de contas, mas também de redenção, superação e liberdade. O personagem principal é Pedro e sua namorada, que é branca.
Pois bem, voltando sobre a indignação das mulheres. A mulher (política) desce o pau no Governo Federal, bem ao estilo daquela história inventada das cartilhas gay e da mamadeira de piroca (que só existiu na cabeça de pessoas com problemas cognitivos). Acredito que, na cabeça dela, pensou-se assim: "Lula e Alckmin mandaram esse livro para os alunos do Brasil só pra sacanear". Ela se mostra indignada porque o dito livro está sendo distribuído para alunos do ensino médio das escolas do Sul. Ela mostra a capa do livro, abre, lê algumas partes que revelam uma conversa íntima entre adolescentes amigas.
Uma delas, branca, está namorando o dito rapaz preto. O trecho lido é a parte em que uma das amigas pergunta “... o pau dele? É grande? É verdade que eles são insaciáveis?...” (numa alusão às características dos pretos, segundo o imaginário). A diretora vai para outra página e lê certamente uma cena íntima entre o casal de jovens. Está escrito “...Vem minha branquinha. Vem meu negão. Chupa a tua branquinha. Chupa o teu nego. Adoro a tua pele branquinha. Adoro a tua pele...”
O vereador Rodrigo Rabuske, de Santa Cruz do Sul, também botou a boca no trombone, caracterizando o fato como “absurdo” o uso de O Avesso da Pele em escolas.
Todas as obras paradidáticas passam por rigorosa análise técnica, física e pedagógica feita por especialistas, e mesmo assim é obrigatória a análise dos professores. O registro das obras escolhidas – pelos professores – é feito pelo diretor da escola, ou seja, cumpre a ele, como gestor, apenas lançar os títulos e as quantidades no site do MEC.
A editora Companhia das Letras, que lançou o referido livro, divulgou a seguinte nota: “A retirada de exemplares de um livro, baseada em uma interpretação distorcida e descontextualizada de trechos isolados, é um ato que viola os princípios fundamentais da educação e da democracia, empobrece o debate cultural e mina a capacidade dos estudantes de desenvolverem pensamento crítico e reflexivo”.
Embora o livro diz respeito a todas as escolas e municípios brasileiros, dei uma pesquisada sobre Santa Cruz do Sul, município do Rio Grande do Sul, e encontrei informações que pelo visto, essa diretora, essa política e esse vereador (de Santa Cruz do Sul) desconhecem, fazem vistas grossas ou só enxergam aquilo que lhes convém. São seletivos quanto ao que causa-lhes indignação. Houve nessa cidade um projeto municipal intitulado “Pacto Santa Cruz pela Paz”. A pesquisa, feita pelo “Instituto Cidade Segura”, apontou os terrenos baldios e perturbação de sossego como principais problemas nos bairros do município.
Aparecem como pontos negativos apontados pela população a questão de embriaguez nas ruas, pontos de vendas de drogas, ruas sem iluminação e prédios abandonados. Outro ponto apontado na pesquisa diz respeito ao consumo de bebida alcóolica por menores - 43,4% - e ainda violência contra mulheres. VEJAM QUE LOUCO: 43,4% DOS MENOTRES CONSOMEM ÁLCOOL. Esse último, aponta que 29,2% das mulheres, considerando a idade acima dos 16 anos, foram importunadas sexualmente em transporte público (VEJAM QUE ABSURDO), sendo 60% nos ônibus, 30% nos aplicativos e 9% nos táxis. Seguido desse, estão os comentários desrespeitosos no sentido sexual, com 24,8%, assédio com 19,6% e violência doméstica, com 15,6% dos relatos. Essa diretora poderia fazer um projeto na escola trabalhando essas barbaridades pertinentes às mulheres).
Sobre o consumo de drogas nas ruas, 43,4% dos santa-cruzenses responderam que já viram usuários e que, 60% deles, utilizavam a maconha. VEJAM QUE DADO: 60% DESSES UTILIZAM A MACONHA. Na sequência aparece o crack, com 12,4% e a cocaína, com 8.5%. Houve questionamentos sobre crimes e ameaças contra vida, como brigas e agressões, onde o alto número trouxe o alerta.
Não quero desmerecer essas pessoas simplesmente porque criticam a citada obra. Também não desmereço o município de Santa Cruz do Sul – até porque há outros municípios pelo Brasil afora em situação igual ou pior –, mas critico a indignação seletiva deles – a falta de prioridade deles no momento em que possuem preocupações assustadoramente maiores em seu município e acham de cismar justamente com a liberdade de expressão de um escritor. É um cerceamento da arte literária. O que seria muito mais digno de um alarde e pedido de socorro? Não seriam os números acima? E vejam que os afetados – pasmem – são adolescentes.
E se o protagonista da história fosse branco? Teria rejeição mesmo com os trechos picantes? Que tal pensar.
Se atitudes assim tornarem-se normais, logo teremos um “Index Librorun Proihibitorun” a serviço dos representantes da sociedade puritana que faz sexo só para parir. Condenar um livro de grande qualidade literária, detentor de um enredo atualíssimo, por causa de trechos picantes, é questionável e sem propósito.
A partir dos meus 13 anos – ao mesmo tempo em que a escola pedia que lêssemos José Mauro de Vasconcelos, Hélio Serejo, José de Alencar, Raquel de Queiroz, dentre outros autores clássicos, eu, por livre arbítrio, simultaneamente, lia Adelaide Carraro, Cassandra Rios e uma diversidade de autores com narrativas inapropriadas para a minha idade e isso não afetou em nada a minha vida. Pelo contrário. Sempre li, de São Cipriano a Hare Krishna e o caudal disso legou-me um ser humano apaixonado pela palavra, pela escrita, por histórias, invenções e tudo o que vem da escrita.
Até compreendo a crítica dessas pessoas quanto ao livro – aliás, trechos do livro. A questão de pudor, religiosidade, tradições, culturas são diferentes em algumas pessoas. Pesa, também, um dado interessante: nem todo professor é leitor. Nem todo professor gosta de Literatura. E esse turbilhão de posturas implica em sentimentos diferenciados. Mas nenhum sentimento deve sobrepujar a liberdade de expressão. Até onde sei, a escolha de todo livro, inclusive “O Avesso da Pele” perpassa por rigorosa análise. Chego a SUPOR que “julgaram esse livro pela capa” ou pela orelha durante o seu processo de escolha. Deve ter ocorrido algo parecido com “Que maravilha, um livro que trabalha o racismo! Vamos escolhê-lo?!”. E bastou. Não leram o livro.
Mas, se minha suposição estiver errada e, de fato, o referido livro tiver sido lido em sua totalidade, analisado e, de fato, ESCOLHIDO/DELIBERADO? Não estou analisando os fatos sob as lentes do meu exemplo pessoal. O meu pai sempre dizia “esse tempo não me pertence”, referindo-se ao passado querer congelar o presente. Hoje entendo o porquê. Faz 44 anos que eu li os autores citados acima, cuja narrativa era “inadequada” para mim, e que não foram orientados pela escola, ou seja, tem quase meio século. Estou falando do período da Ditadura Militar. E hoje, por causa de alguns trechos picantes e isolados, vai se censurar uma obra inteira? Que absurdo! O que esse povo diria de “O Bom Crioulo”? Com certeza que foi obra do Comunismo ou de Satan.
Aqui mesmo, no Rio Grande do Norte, a escritora Socorro Trindade, embora que num contexto, diz “A boceta da minha mãe é uma flor”, numa esplêndida explosão de poeticidade e filosofia quando visualiza a intimidade de sua mãe como uma flor que traz vida e perfume (s) para o mundo. Como entender isso se o leitor só leu esse trecho porque polemizou, e nunca pegou noutro livro para ler sequer a capa?
O que dizer de “Um balde de bucetas” no “ingênuo” Manoel de Barros, tão lido em todas as escolas do Brasil? Meu filho o leu aos 9 anos. E Carlos Drummond de Andrade em suas diversas colocações “pornográficas”? São tantos escritores e tantas “palavras de baixo calão” que é bom revisitar o passado e crucificar quem já morreu, pertenceu ou pertence à própria Academia Brasileira de Letras.
Enfim, se há escolas que não aceitam o livro, que o façam. Mas deve ser dito que o livro foi DELIBERADO, e se há erro em ter sido escolhido, não é obrigado entregar aos alunos. Esse alarde, essa essa “Santa Inquisição”, acaba sendo ótima, principalmente para o autor, pois todos os alunos irão ler e conhecer o autor. Tenho certeza disso. O melhor de tudo é que esse é o caso cuja obra não é um lixo, que não polemizou por ser lixo. Pelo contrário, polemizou por determinados trechos. Então temos uma obra de qualidade e que não precisou do marketing tradicional. O grande marketing foi esse vavavu que essa minoria provocou e findou explodindo a obra em todo o Brasil, até fora das escolas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário