É com perplexidade - e já não pela primeira vez - que me vejo compelido a manifestar publicamente minha indignação diante da ausência de peças do acervo sacro da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta/RN, reconhecida como um dos patrimônios religiosos mais antigos, ricos e preciosos do Rio Grande do Norte. Peças essas que, por sua antiguidade e valor, jamais devem deixar as dependências do templo.
Em visita à referida Matriz, como sempre faço, percorri atentamente seus espaços, examinando com cuidado o patrimônio ali guardado ao longo de séculos. Foi nesse exame minucioso que percebi, com preocupação crescente, a ausência de peças de extrema relevância histórica, artística e devocional, que tradicionalmente permaneciam sob guarda da igreja. Não é a primeira vez que constato a ausência de objetos raros na Matriz. Ao longo de 1992, quando a conheci, até a atualidade, houve um verdadeiro saque. Mas hoje quero falar da ausência de peças nos últimos meses.
Entre as peças não localizadas, destaco inicialmente:
O OSTENSÓRIO DE PRATA PURA, abaixo, com um cordeiro em sua base, peça de beleza singular, que permanecia guardada na sacristia.
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Diante dessa constatação, surgem questionamentos que não podem permanecer sem resposta:
Como explicar que peças sacras, guardadas há séculos dentro da Igreja, estejam hoje ausentes?
- Para onde foram levadas?
- Quem as retirou?
- Houve autorização formal?
- Que autoridade - quem quer que seja - possui legitimidade para retirar bens históricos e sacros de seu local de origem?
- O que justifica um bem pertencente ao Patrimônio Sacro de Nísia Floresta ser trasladado para outro lugar? (Se porventura seja isso o que está acontecendo) sem que todo o povo nisiaflorestense saiba?
Essas perguntas tornam-se ainda mais graves quando se considera que a Igreja Matriz não dispõe de sistema adequado de segurança, apesar de abrigar verdadeiros tesouros do patrimônio religioso potiguar. Justamente por isso, tais peças deveriam permanecer à vista e sob vigilância da comunidade, garantindo sua preservação.
Essas perguntas tornam-se ainda mais graves quando conhecemos histórias reais - como a passada com o Monsenhor Antônio Barros (in memorian), em São José de Mipibu/RN -, quando o sacerdote cedeu para a Fundação José Augusto - FJA, - como empréstimo - três imagens pertencentes à Igreja Matriz de Sant'Ana e São Joaquim, de São José de Mipibu e, infelizmente, elas nunca mais voltaram.
Ouvi da boca dele essa informação. Ele emprestou um São Francisco de Assis, uma Nossa Senhora da Conceição e um São Sebastião para uma exposição que, à época, aconteceu na Capitania das Artes. O evento passou e não acontecia a devolução. O monsenhor, ocupado com suas funções sacerdotais, foi reivindicar a devolução muito tempo depois e foi tarde demais. Esse empréstimo se deu sob consignação. Houve um contrato de empréstimo, mas ele perdeu o documento na casa paroquial. O São Francisco se encontra atualmente no Museu de Arte Sacra. Ele me contou esse episódio na calçada da Igreja Matriz de Sant'Ana e São Joaquim, quando conversei com ele sobre um furto que houve naquela matriz na década de 70.
Diante disso, faço um apelo direto ao povo católico de Nísia Floresta, para que esclareça publicamente onde se encontram essas peças. Caso tenham sido retiradas, é imprescindível saber:
- quando isso ocorreu;
- por quem;
- com qual finalidade;
- e sob que tipo de registro ou responsabilidade.
Se, porventura, essas relíquias não estiverem mais no único lugar onde lhes é de direito, ou seja, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, e não houver clareza quanto ao seu paradeiro, estaremos diante de uma situação que exige providências imediatas. Na hipótese de desaparecimento ou de ausência sem documentação formal, torna-se urgente:
- registrar ocorrência na Delegacia de Polícia local;
- comunicar a Polícia Federal;
- acionar o Ministério Público de Nísia Floresta;
- informar oficialmente a Arquidiocese.
Como sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, estenderei a denúncia ao IHGRN, por se tratar de patrimônio histórico e cultural.
Solicito, ainda, que a comunidade católica de Nísia Floresta verifique todas as informações pertinentes e me dê retorno pelo WhatsApp (84) 99903-6081. Não havendo esclarecimentos, a denúncia será formalizada o mais breve possível.
Isso precisa ser apurado.
Essa são as identificações técnicas das peças:
- CÁLICE (séc. XIX)
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Material: do tipo prata “P-Coroa”, relíquia de origem portuguesa.
- CASTIÇAL
Material: madeira com policromia e aplicação de folhas de ouro
Altura aproximada: 50 cm
Características: presença de coloração avermelhada na camada de preparação, possivelmente o bole, tradicional base para douramento, ou elemento estético original da obra. O castiçal é um objeto essencial da liturgia católica, utilizado em celebrações solenes, procissões e momentos de grande simbolismo.
- OSTENSÓRIO
Material: ouro e prata maciços, ornamentado com simbologias eucarísticas, como "espigas de trigo", "cachos de uva", o "cordeiro no tabernáculo" e "quatro querubins". Há um óculo no centro da cruz, cujos raios excelsos são todos em ouro. A peça é assentada sobre um retângulo cujos pés são quatro garras.
Altura aproximada: cerca de 40 cm ou mais
Se porventura tais peças foram retiradas para possíveis restaurações, faz-se necessário saber se houve o registro formal da autorização canônica e definição clara de responsabilidade.

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