No início, o que chegou até mim foi a notícia seca: um cachorro morto, adolescentes envolvidos, imagens que circulavam. A brutalidade em si já seria suficiente para revoltar qualquer consciência minimamente humana. Mas, à medida que os fatos vêm se desenrolando, algo ainda mais grave começa a emergir: a sensação de que a verdade está sendo cuidadosamente manipulada para não ferir sobrenomes, endereços e padrões de vida, pois as famílias dos adolescentes torturadores e assassinos são da elite de Santa Catarina.
Primeiro vieram as imagens chocantes, depois, os relatos. O porteiro do condomínio, figura central naquele momento inicial, afirmou ter visto, ouvido, presenciado. Suas palavras apontavam para os adolescentes. Havia coerência entre o que ele dizia e o que as câmeras mostravam. Mas então algo mudou. O mesmo porteiro passou a dizer que não viu, que não ouviu, que não deu declarações comprometedoras. Logo ele aparece com “férias compulsórias”.
É nesse ponto que minha indignação aumenta. Porque não estamos falando apenas de um crime contra um animal indefeso, o xodó de todos os que o conheciam. Estamos falando de como o alto padrão social de certas famílias parece interferir, direta ou indiretamente, no curso da justiça e no tratamento dado pela imprensa. Sinto desconfiança até mesmo nos depoimentos das delegadas e do delegado que, me desculpe se o analiso mal, quis se comportar como estrela e usou o cachorrinho caramelo (que é outro episódio horroroso) como capital político-partidário, pois será candidato a deputado estadual.
Basta observar o contraste entre as abordagens midiáticas. O Fantástico, da Rede Globo, tratou o caso com uma cautela quase cirúrgica, escolhendo palavras, evitando confrontos mais diretos, pisando em ovos. Já na TV Record, o tom foi outro: mais incisivo, mais questionador, menos preocupado em preservar imagens e mais interessado em expor contradições. Essa diferença não é mero estilo editorial; ela revela o quanto certos temas ainda são blindados quando tocam a elite. A forma como o assunto é abordado, as palavras pescadas, as entrelinhas, as mensagens sublimares são requisitos que sempre priorizo, pois é onde reside a verdade. Suspeito que as autoridades estão favorecendo a elite catarinense. É POR ISSO QUE DEFENDO A FEDERALIZAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO DO CASO “ORELHA”. Até porque Santa Catarina tem dado espetáculo em coisas escusas.
Há famílias que, por força do dinheiro, do status e de uma educação profundamente distorcida, passam a acreditar que as leis são flexíveis, ou opcionais. Subestimam a Justiça como quem subestima um obstáculo pequeno demais para o próprio sobrenome. Sentem-se acima das normas, acima das consequências, acima da própria finitude. Sentem-se, em última instância, imortais. Isso me lembra os bilionários que entraram no submergível Titã para ver os destroços do Titanic. Convencidos de que dinheiro e arrogância eram suficientes, eles desafiaram o mar e as leis da Física. O oceano, indiferente a contas bancárias, respondeu com a única linguagem que conhece. A realidade, cedo ou tarde, sempre cobra a conta.
O problema é que, diferente do mar, na sociedade, essa cobrança nem sempre acontece. O caso de Orelha escancara um modelo de formação familiar que vem produzindo monstros sociais. Jovens que crescem acreditando estar revestidos de imunidade: à dor alheia, à violência, ao crime. Jovens educados para pensar que o dinheiro dos pais compra advogados, narrativas, silêncios e, se necessário, a própria Justiça. Jovens grosseiros, mal educados, que chutam animais, são indiferentes aos mendigos, aos idosos, aos indígenas, aos pretos, aos pobres e tudo mais. E isso não é novo.
Lembro-me do indígena Galdino, queimado vivo em Brasília enquanto dormia. Juro que chorei, pois esse que vos escreve tem veneração a esses povos que cercaram a sua infância e adolescência no Mato Grosso do Sul. Os assassinos alegaram que “foi uma brincadeira”. Uma brincadeira?! A Justiça foi leniente, o país seguiu em frente, e hoje muitos daqueles envolvidos vivem confortavelmente, empregados, bem remunerados, integrados à mesma elite que sempre se protege. Aquela página aterradora da nossa história foi varrida para debaixo do tapete nacional.
O assassinato de Orelha ecoa esse passado. A mesma lógica. A mesma tentativa de minimizar, confundir, relativizar. A mesma engrenagem que transforma violência em “excesso”, crueldade em “erro”, crime em “mal-entendido”. Tudo fica confuso, desconcatenado, propositalmente turvo. Versões se contradizem. Testemunhas recuam. Declarações desaparecem. A realidade, que parecia tão nítida no início, passa a ser disputada como se fosse apenas uma questão de opinião, mesmo diante de imagens que não mentem.
Isso me revolta. Não é só a morte de um cachorro ou de um ser humano se o fosse. É a morte simbólica da ideia de igualdade perante a lei. É a confirmação dolorosa de que, para alguns, a Justiça ainda tem preço, a verdade ainda é negociável, e a impunidade ainda é herdada junto com o sobrenome.
Nos meus 58 anos, a minha capacidade de indignação segue tão intacta quanto na minha adolescência, pois não sou um monstro. Aqueles monstros praticaram o exercício de matar, e para eles, homens e cachorros são iguais, principalmente se o cachorro for de rua e o homem for pobre. Não podemos esquecer esse episódio bárbaro, assim como não podemos esquecer o caso Galdino e tantos outros, pois quando homens e mulheres de bem recuam, esses criminosos avançam.
Enquanto aceitarmos isso em silêncio, Orelha, Galdino e tantos outros continuarão sendo apenas nomes esquecidos, sacrificados no altar de uma elite que se julga eterna, superior, até que a realidade, como o mar profundo, resolva lembrar que ninguém está acima dela. É isso o que mais espero. E LEMBREM: ORELHA PODE SER VOCÊ, AMANHÃ...
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