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Em 1953, Manoel Rodrigues de Melo (1907-1996) publicou Cavalo
de Pau, uma obra evocativa e sentimental que preserva um universo
etnográfico e sociológico hoje praticamente desaparecido. Em suas páginas
sobrevive um modo de viver que já não se encontra com a mesma intensidade,
permanecendo apenas na memória dos mais antigos. O livro ainda guarda duas
verdadeiras joias: os textos de apresentação assinados por Lu´s da Câmara
Cascudo (1897-1986) e pelo antropólogo francês Roger Bastide (1898-1974), que reconhecem e consagram o
valor da obra do escritor norte-rio-grandense.
O volume reúne pequenos ensaios sobre aspectos da
vida do homem nordestino, abordando temas como Infidelidade Conjugal dos
Maridos, Apelidos e Alcunhas, Catar Piolho, O
Patriarcalismo, O Matriarcalismo, Doenças e Malefícios, Benzeduras,
Preconceito de Cor, Instrumentos de Castigo, entre muitos
outros costumes e tradições do antigo Rio Grande do Norte. Ao final, o autor
acrescenta extensas notas explicativas, um vocabulário em ordem alfabética e
uma coletânea de opiniões críticas sobre sua obra, onde figuram Cascudo e Roger
Bastide.
Como fazia o saudoso Olavo de Medeiros Filho (1934-2005) –
historiador inato, que reunia documentos, notícias e curiosidades para depois
lhes dar vida em pequenos opúsculos –, eis-me aqui, modestamente,
"olavisando" Cavalo de Pau. Não pretendo abarcar a
imponência do conjunto da obra, mas apenas destacar um pequeno fragmento que,
justamente por sua aparente singeleza, merece ser retirado do anonimato. Talvez
desperte a curiosidade dos leitores, especialmente dos filhos de Nísia
Floresta, antiga Papary, e de São José de Mipibu, incentivando novas pesquisas
sobre um episódio praticamente esquecido de nossa história regional.
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Pois bem. Manoel Rodrigues de Melo registra que fenômeno
semelhante ocorria entre Papary e São José de Mipibu. Os moradores de Papary
eram conhecidos como Cafundós; os de São José de Mipibu, como Cabanos. O registro supostamente foi feito na década de 40, tendo em vista que a obra foi publicada em 1953, entretanto o fato, perdido no tempo, deve ser muito remoto. Tão remoto que nunca ouvi nem li, exceto nessa obra. Escreve o autor:
"Cafundós:
apelido com que os antigos caboclos de São José de Mipibu designavam os
moradores de Papari. À semelhança do que se dava em várias cidades do Brasil,
vez por outra os 'Cafundós' se encontravam com os 'Cabanos', havendo lutas
enormes."
E prossegue:
"Cabanos:
apelido pelo qual respondiam os moradores de São José de Mipibu. Não está ainda
bem esclarecida a gênese dessas lutas. Se a política serviu muitas vezes para
acirrá-las, não quer dizer, porém, que fosse a causa principal. Nos comuns
encontros entre 'Cafundós' e 'Cabanos' havia grandes lutas de cacete. Estas
informações me foram prestadas por Américo de Carvalho. Era sempre na Festa de
Setembro, início das pescarias, em Papari."
Há, entretanto, uma diferença importante entre essa antiga rivalidade e a dos Xarias e Canguleiros de Natal. No caso da capital, Luís da Câmara Cascudo explica satisfatoriamente a origem dos apelidos. Sabe-se que ambos derivavam de dois peixes bastante conhecidos - o xaréu e o cangulo -, cujos significados extrapolaram a simples referência alimentar para representar diferenças sociais, econômicas e territoriais entre os moradores da Cidade Alta e da Ribeira. Já em relação aos Cafundós e aos Cabanos, Manoel Rodrigues de Melo limita-se a registrar os apelidos e os conflitos, sem oferecer qualquer explicação para sua origem. A lacuna é significativa e desperta inevitavelmente a curiosidade do pesquisador. Afinal, por que os moradores de Papary eram chamados de Cafundós e os de São José de Mipibu de Cabanos?
Naturalmente, qualquer tentativa de interpretação deve permanecer no terreno das hipóteses. A ausência de documentação impede conclusões definitivas, mas isso não significa que algumas possibilidades não mereçam reflexão.
Na linguagem popular brasileira, cafundó designa um lugar distante, escondido, de difícil acesso, quase um "fim de mundo". Não seria difícil imaginar que os antigos moradores de São José de Mipibu empregassem esse apelido de maneira depreciativa para se referirem a Papary, então uma pequena povoação cercada por lagoas, matas e caminhos precários. Durante boa parte de sua história, Papary permaneceu subordinada administrativa, comercial e politicamente a São José de Mipibu, possuindo menor população e menor importância econômica. Nesse contexto, o apelido poderia representar a visão, talvez preconceituosa, de quem enxergava a localidade vizinha como um lugar remoto, periférico e de reduzido prestígio.
Quanto ao termo cabano, sua interpretação parece ainda mais desafiadora. A associação mais imediata remete à Cabanagem, uma das mais importantes revoltas populares do Período Regencial, ocorrida na Província do Pará entre 1835 e 1840, cujos participantes ficaram conhecidos como cabanos. Não existe, contudo, qualquer elemento documental que permita estabelecer uma ligação direta entre aquele movimento histórico e os moradores de São José de Mipibu. Ainda assim, a palavra permaneceu incorporada ao vocabulário brasileiro, muitas vezes associada à ideia de gente simples, aguerrida, de origem popular e habituada às dificuldades. É possível que, em algum momento, o apelido tenha sido atribuído pelos paparienses aos mipibuenses - ou até apropriado pelos próprios moradores de São José de Mipibu - , sem que hoje seja possível determinar sua motivação original.
Outra hipótese, talvez ainda mais plausível sob o aspecto linguístico, é que cabano derive simplesmente de cabana, numa referência às moradias modestas, geralmente construídas de taipa, madeira ou palha, bastante comuns entre a população rural nordestina do século XIX. Se assim ocorreu, o termo poderia ter nascido como um simples apelido popular e, com o passar do tempo, adquirido novas conotações históricas e simbólicas, enquanto sua origem primitiva acabava esquecida.
Talvez jamais se descubra a verdadeira gênese desses dois apelidos. Contudo, sua permanência na memória popular demonstra que dificilmente nasceram por acaso. Apelidos coletivos costumam refletir circunstâncias históricas concretas, características geográficas, diferenças econômicas, costumes locais ou a forma como comunidades vizinhas percebiam umas às outras. Mesmo quando sua origem se perde no tempo, continuam sendo valiosos testemunhos da construção das identidades coletivas e da maneira como um povo enxergava o outro - e, muitas vezes, como enxergava a si próprio.
Manoel Rodrigues de Melo é igualmente prudente ao reconhecer que não apenas a origem da rivalidade permanece obscura, mas também a dos próprios apelidos, sobre a qual nada esclarece. A política partidária, segundo ele, muitas vezes agravava os conflitos, mas dificilmente lhes deu origem. Essa observação merece atenção. Divergências políticas costumam aprofundar animosidades já existentes, mas raramente explicam, por si sós, rivalidades que atravessam gerações. Na verdade, episódios semelhantes podem ser encontrados em diversas partes do Brasil. Distritos prestes a se emanciparem frequentemente desenvolvem tensões com a sede do município; cidades vizinhas disputam prestígio; populações criam apelidos umas para as outras; diferenças econômicas, sociais e culturais acabam transformadas em símbolos de superioridade ou inferioridade. Não se trata de regra, mas tampouco de fato isolado. É um comportamento recorrente na formação histórica das comunidades brasileiras.
Talvez algum documento ainda desconhecido, alguma tradição oral preservada pelas famílias mais antigas ou mesmo um manuscrito esquecido em arquivos públicos ou particulares venha, um dia, esclarecer definitivamente a origem dos Cafundós e dos Cabanos. Até lá, essas hipóteses permanecem como simples possibilidades interpretativas. Mas, justamente por isso, transformam uma pequena nota registrada por Veríssimo de Melo em um estimulante convite à pesquisa histórica, lembrando-nos de que, muitas vezes, os maiores mistérios da história local encontram-se escondidos nas menores referências documentais.
No caso de Papary e São José de Mipibu, essa
hipótese parece bastante plausível. Durante muito tempo, Papary dependeu
administrativamente, comercialmente e até intelectualmente de São José de
Mipibu. Sua emancipação política, em 1853, não eliminou de imediato essa
dependência. Pelo contrário, os primeiros anos de autonomia costumam exigir um
período de adaptação institucional, econômica e administrativa. Em antigos
manuscritos que li, relativos à emancipação de Papary encontrei, inclusive,
registros de conflitos entre autoridades dos dois municípios, alguns deles
solucionados pela intervenção da própria Justiça.
Essa relação de proximidade permaneceu por muitas décadas. Até os anos 1990, inúmeros professores mipibuenses lecionavam em Nísia Floresta. Fato de que sou testemunha. A primeira diretora da principal escola municipal do município, professora Lúcia Amaral, era natural de São José de Mipibu. O mesmo ocorreu com profissionais vindos de Parnamirim. Evidentemente, isso não significa que Nísia Floresta não possuísse pessoas capacitadas. Claro que existia, inclusive conheci algumas, mas apenas revela que sua estrutura educacional ainda se encontrava em processo de consolidação, recorrendo naturalmente aos centros vizinhos.
Talvez essa convivência tão estreita explique parte da antiga rivalidade. Afinal, emancipar-se politicamente não significa romper, de um dia para o outro, os vínculos econômicos, sociais e culturais construídos ao longo de décadas. Em circunstâncias semelhantes, é comum que surjam suscetibilidades, disputas de prestígio e hostilidades alimentadas tanto pelo orgulho quanto pelo preconceito. O grau de civilidade – ou, por vezes, a ausência dele – faz o restante. Há ainda um detalhe que desperta especial curiosidade. Manoel Rodrigues de Melo informa que recebeu esses relatos de Américo de Carvalho, inclusive. A tradicional fam´lia Carvalho possui profundas raízes em Nísia Floresta – embora nem todo Carvalho dali seja parente –, mas, até o momento, não consegui identificar com segurança quem seria esse informante. Lembrei-me do ex-prefeito Américo de Oliveira (gestor no período de 1945 a 1949), cujo retrato integra a Galeria dos Prefeitos do município, e também de outras figuras da família Carvalho. Entretanto, o texto do livro é claro ao mencionar "Américo de Carvalho", razão pela qual qualquer identificação diversa seria mera especulação.
E é justamente aí que reside o verdadeiro valor
dessas pequenas descobertas. Muitas vezes, um simples verbete esquecido em um
livro antigo guarda a chave para compreender aspectos inteiros da história de
uma comunidade. Os Cafundós e os Cabanos talvez tenham desaparecido, assim como
os Xarias e os Canguleiros de Natal. Permaneceram, contudo, as perguntas que
ainda aguardam resposta. E, para quem aprecia a história, poucas coisas são tão
estimulantes quanto um documento capaz de transformar uma velha curiosidade em
uma nova linha de pesquisa.
Sob esse aspecto, o registro feito por Manoel Rodrigues de Melo ultrapassa o valor de uma simples curiosidade folclórica. Ele constitui
um precioso documento para a compreensão da formação social e cultural de nossa
região. Apelidos, rivalidades, festas, encontros e até mesmo as antigas lutas
de cacete revelam muito mais do que episódios pitorescos: revelam a maneira
como comunidades vizinhas construíam suas identidades, afirmavam sentimentos de
pertencimento e reproduziam valores, preconceitos e relações de poder
característicos de seu tempo. É justamente por isso que obras como Cavalo
de Pau permanecem indispensáveis. Elas preservam fragmentos da memória
coletiva que, sem esse registro, estariam definitivamente perdidos.
Felizmente, o tempo tratou de apagar essas antigas animosidades. As hostilidades que um dia marcaram o relacionamento entre Cafundós e Cabanos pertencem a uma época em que o grau de instrução, os costumes e até mesmo a compreensão da convivência social eram muito diferentes dos atuais. Hoje, Nísia Floresta e São José de Mipibu mantêm uma relação de respeito, cooperação e amizade entre suas autoridades e suas populações. Mais do que municípios vizinhos, são cidades irmãs, unidas por uma história comum, por laços familiares que atravessam gerações e por uma identidade cultural compartilhada. Conhecer essas antigas rivalidades não significa cultivá-las, mas compreender o caminho percorrido até que o respeito mútuo prevalecesse sobre as diferenças...


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