Falar de Luís da Câmara Cascudo é sempre correr o
risco de deixar algo importante de fora. Sua obra é tão vasta, tão
múltipla e tão generosa em relação aos campos do conhecimento que qualquer
tentativa de defini-lo parece, de algum modo, uma redução. Cascudo foi
historiador, folclorista, etnógrafo, pesquisador da cultura popular, estudioso da
música, do Direito, da alimentação, da religião, da linguagem, da literatura,
dos costumes e de tantos outros assuntos que fizeram dele uma das inteligências
mais fecundas que o Rio Grande do Norte ofereceu ao Brasil. Escreveu sobre a
História do Rio Grande do Norte com a autoridade de quem conhecia documentos,
personagens e acontecimentos; escreveu sobre música, sobre o cotidiano, sobre a
vida social, sobre o Brasil e sobre aquilo que muitas vezes passava
despercebido aos olhos dos homens que se julgavam mais cultos. Sua curiosidade
parecia não conhecer fronteiras. Podia mergulhar num documento hist´rico,
examinar uma lei, estudar uma palavra, investigar uma cantiga ou recolher uma
história contada pela boca de um homem simples. E talvez seja justamente essa
capacidade de transitar entre universos tão diferentes que explique parte de
sua grandeza.
Mas há um Cascudo que, especialmente neste mês de
agosto, merece ser lembrado com particular atenção: o Cascudo dedicado ao
Folclore. Agosto, tradicionalmente associado às celebrações e
reflexões em torno do folclore, oferece uma oportunidade para voltarmos os
olhos para esse aspecto fundamental de sua obra. É extraordinariamente
admirável que um homem capaz de escrever com tanta notoriedade sobre História,
Direito, música, literatura e tantos outros campos do conhecimento tenha
dedicado uma parcela tão expressiva de sua inteligência a uma área que, durante
muito tempo, foi tratada com certo desprezo pelos setores mais eruditos da
sociedade. Cascudo não enxergou o folclore como uma coleção de curiosidades ou
como passatempo de gente simples. Compreendeu que, por trás de uma dança, de
uma cantiga, de uma superstição, de um mito, de uma lenda ou de uma
brincadeira, havia séculos de memória humana. Havia povos, encontros, crenças,
medos, alegrias, sofrimentos, resistências e formas de compreender o mundo. E
foi justamente essa percepção que fez dele um gigante dos estudos do folclore
brasileiro.
O mais extraordinário é que Cascudo conseguiu
mergulhar profundamente no universo dos mitos, das lendas, das histórias
fantásticas, das assombrações e dos seres sobrenaturais sem permitir que o
encantamento do folclore contaminasse o rigor com que tratava outros campos do
conhecimento. O homem que estudava o mito sabia que mito era mito; o homem que
recolhia uma lenda sabia que lenda era lenda; aquele que registrava uma
história de assombração não precisava acreditar literalmente nela para
compreender seu extraordinário valor cultural. Cascudo podia entrar no mundo do
fantástico sem perder o caminho de volta à realidade. Se a fantasia tivesse
invadido sua maneira de escrever História, se as lendas fossem tratadas como
fatos documentais, seu legado certamente teria sido prejudicado. Mas não foi
isso que aconteceu. Ele soube distinguir os territórios sem jamais isolá-los.
Compreendeu que o fantástico, mesmo quando não corresponde à realidade factual,
pode ser absolutamente verdadeiro enquanto expressão da imaginação, da memória
e da experiência coletiva de um povo. Essa talvez seja uma das maiores lições
de sua obra: não
é preciso acreditar literalmente em uma lenda para reconhecer a verdade
cultural que existe dentro dela.
Essa compreensão de Cascudo se torna ainda mais
bonita quando lembramos não apenas o escritor, mas o homem que existia por trás
dos livros. Há uma passagem que guardo com especial carinho, porque tive a
oportunidade de ouvi-la de Ana Maria Cascudo Barreto, durante uma conferência no Ludovicus - Instituto
Câmara Cascudo. Naquela ocasião, Ana Maria nos aproximou de um
Cascudo que não aparece apenas nas bibliografias, nas fotografias ou nas
lombadas dos livros, mas no cotidiano de sua relação com o povo. Ela contou
que, em determinado período, manifestações da cultura popular realizadas por
pessoas simples nas ruas, nas praças e nos quintais eram, muitas vezes, vistas
por algumas pessoas e até por determinadas autoridades como arruaças.
Brincadeiras como o bambelô, o zambê e outras manifestações marcadas pela
percussão, pelo canto, pelo corpo e pela celebração eram incompreendidas por
aqueles que não conseguiam enxergar ali uma expressão cultural. Para quem não
conhecia aquela tradição, o som dos tambores podia parecer apenas barulho; a
reunião de pessoas podia parecer desordem; a dança podia parecer perturbação da
ordem pública. Para os brincantes, entretanto, aquilo não era arruaça. Era
vida, tradição, memória. Era algo que traziam dentro da alma e que haviam
recebido de seus antepassados.
E então acontecia uma situação que revela muito
da grandeza humana de Cascudo. Em determinadas noites, quando essas pessoas
eram levadas para a delegacia porque estavam brincando, alguém corria até sua
casa. Às vezes era a esposa; às vezes uma filha, um avô, um parente ou alguém
da comunidade. Chegavam aflitos, procurando socorro. Não procuravam apenas um
intelectual famoso. Procuravam alguém que compreendesse - de forma muito especial - o que estava
acontecendo. E Cascudo, segundo a narrativa que ouvi de Ana Maria, não fazia
questão de esperar o dia seguinte. Se fosse noite ou madrugada, levantava-se e
ia à delegacia. Muitos daqueles delegados eram seus amigos ou conhecidos. E
então, diante da autoridade policial, dizia mais ou menos assim: “Meu amigo, solte essas
criaturas. Elas não fazem mal a ninguém. Não são criminosos, apenas estão se
divertindo. Isso é a cultura popular.” E o delegado, diante
daquele pedido, mandava abrir a cela. Talvez com a cara fechada, talvez sem
querer demonstrar muito entusiasmo para não “dar cabimento” aos brincantes, mas
soltava. Aquela soltura, narrada por Ana Maria, me parece uma das imagens mais
bonitas para compreender a verdadeira dimensão de Câmara Cascudo.
Ali estava o professor defendendo o
folclore não como conceito abstrato, mas como direito de existir. O
bambelô, o zambê, o batuque, a dança, a reunião de pessoas simples e a música
produzida pelos tambores eram, para Cascudo, parte de uma herança cultural que
precisava ser respeitada. Ele sabia que aquelas manifestações não tinham
surgido do nada. Eram frutos de uma longa história brasileira, de encontros e
permanências, de heranças africanas, indígenas e europeias, de adaptações
feitas por homens e mulheres que transformaram suas experiências em canto,
dança, ritmo, celebração e memória. O que alguns enxergavam como arruaça,
Cascudo enxergava como documento vivo. O povo não precisava conhecer
academicamente a palavra “folclore” para ser portador do folclore. E Cascudo
compreendeu isso de maneira extraordinária.
É por isso que sua obra folclórica permanece tão
grandiosa. Ele não ficou apenas sentado em sua biblioteca, recolhendo histórias
para transformá-las em livros. Sabia que o folclore estava nas ruas, nos
quintais, nas festas, nas vozes dos velhos, nos gestos das crianças, no corpo
dos brincantes e no som dos tambores. O povo não era, para ele, apenas objeto
de curiosidade. Era depositário de uma memória que os livros, muitas vezes, não
conseguiam guardar. Sua biblioteca era enorme, mas sua fonte também era a rua.
Seu arquivo estava nos livros, mas também estava na memória dos homens. É por isso que aquelas pessoas aflitas, que viam a sua cultura sendo interpretada como atentado à ordem pública, e por isso eram presas, corriam para se socorrer dele e, melhor, ele conhecia essas pessoas que para muitos eram invisíveis.
Neste mês dedicado ao folclore, falar de Câmara Cascudo é, portanto, muito mais do que lembrar o autor de Dicionário do Folclore Brasileiro. É lembrar o homem que percebeu que o folclore não era assunto menor. É lembrar aquele que levou para dentro das bibliotecas e dos círculos intelectuais aquilo que muitos consideravam apenas diversão de gente simples. É lembrar o intelectual que escreveu sobre mitos e lendas sem se tornar um fabulista; que estudou assombrações sem abandonar o rigor histórico; que registrou crenças sem transformar crença em documento factual; que entrou no território do fantástico sem permitir que o fantástico destruísse a fronteira entre imaginação e História. Talvez seja por isso que a imagem daquele Cascudo que ia à delegacia durante a noite seja tão poderosa. Ela resume uma vida inteira. O professor que defendia os brincantes não estava apenas pedindo um favor a um amigo delegado. Estava defendendo uma ideia. Estava dizendo que o povo tinha direito à sua própria cultura. Estava afirmando que aquelas pessoas não eram criminosas porque estavam tocando seus tambores e dançando suas tradições. Estava educando pessoas que ignoravam aquilo como cultura. E, quando o delegado abria a cela, alguma coisa maior também acontecia: a cultura popular saía da prisão.
Gosto de imaginar aquela cena como uma espécie de tribunal às avessas. De um lado, a autoridade formal da lei, representada pelo delegado. Do outro, a autoridade da cultura, representada por Câmara Cascudo. E, naquela noite, não era a força que vencia a força. Era o conhecimento que convencia o poder. Cascudo não precisava gritar. Bastava dizer, com a autoridade de quem havia dedicado a vida àquilo: “Meu amigo, solte essas criaturas.” E elas eram soltas. Talvez por isso aquela cena narrada por Ana Maria me pareça tão simbólica. O homem dos livros saía de sua biblioteca para defender aqueles que dificilmente teriam espaço nos livros. O intelectual consagrado colocava sua autoridade a serviço dos que não tinham autoridade alguma. Por isso, ao pensar em Câmara Cascudo neste mês de agosto, gosto de acrescentar à sua imensa bibliografia uma imagem que nenhum catálogo de livros consegue registrar: Cascudo diante de uma delegacia, à noite, pedindo a liberdade de brincantes do povo. Talvez essa seja uma das mais bonitas páginas de sua obra, justamente porque não foi escrita com tinta. Foi escrita com uma atitude. Foi escrita com humanidade. Foi escrita com a compreensão de que o folclore não vive apenas nos livros que falam dele, mas nas pessoas que o carregam. E então compreendemos que aquelas não eram apenas leis comuns. Eram outras leis. As leis da memória, da tradição, da cultura, daquilo que um povo recebe de seus antepassados e transmite aos que vêm depois. Leis do Folclore, isso sim. E, naquela pequena delegacia, diante de homens simples que apenas queriam continuar brincando, Câmara Cascudo parecia dizer que também havia uma autoridade acima da autoridade passageira dos homens: a autoridade da cultura que sobrevive ao tempo.
Foi esse Cascudo que Ana Maria Cascudo Barreto me
fez enxergar naquela conferência no Ludovicus. Não apenas o homem dos livros e das escrivaninhas, mas o homem que abria espaço para aqueles que
chegavam aflitos, vindos da rua, trazendo a notícia de que algum brincante
havia sido preso. O homem que sabia reconhecer, por trás do som do tambor,
aquilo que outros não conseguiam ouvir. E talvez seja justamente por isso que,
tantos anos depois de sua morte, Câmara Cascudo continue tão vivo entre nós.
Porque ele não estudou apenas o folclore. Ele compreendeu que, dentro do folclore,
havia gente.
E quando um homem consegue enxergar gente onde
outros enxergam apenas barulho, memória onde outros enxergam apenas brincadeira
e cultura onde outros enxergam arruaça, então já não estamos diante apenas de
um pesquisador. Estamos diante de alguém que compreendeu profundamente o seu
povo. Esse foi Câmara Cascudo. E talvez essa seja uma das razões mais bonitas
para que, neste mês de agosto, quando o Brasil volta os olhos para o folclore,
nós também voltemos os nossos olhos para ele...
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