Essa fotografia mostra uma perspectiva muito interessante do Baldo e da Cidade Alta. O elemento metálico em formato de torre ao centro é uma das estruturas da antiga Empresa d’Água Natal, de Bigois & Leinhardt, exatamente o marco histórico citado por Nestor Lima no texto anterior para explicar quando a Cruz foi movida de sua posição original de descida para o pedestal definitivo.
O QUE NESTOR LIMA DIRIA HOJE?
Há um clássico que sempre gosto de assentá-lo ao presente estilo de texto. É uma frase do grande mestre Câmara Cascudo "Natal não consagra nem desconsagra ninguém". Genial como era, com certeza essa frase retratava bem a realidade de sua época, mas não combina mais com a atualidade, pois esse marco de excepcional significado hist´rico é um dos monumentos desconsagrados da velha Natal. O local não tem recebido o devido olhar urbanístico, nem turístico nem histórico e eventualmente é vandalizado. A outra Santa Cruz - que demarcada o perímetro da Urbes da época -, nas proximidades da Assembleia Legislativa foi derrubada sabe-se lá quando e nem mesmo um minúsculo registro existe no local. E assim, esquecidos, invisíveis, desconsagrados seguem alguns elementos históricos de Natal. Exemplo recente, dentre tantos, é casa que pertenceu a Romualdo Galvão, posta abaixo pelo - pasmem - SESC. E isso não é novidade.
Vez por outra, a história abre uma fresta para a dúvida: foi assim mesmo? Nestor Lima já fazia esse movimento em 1926, ao questionar qual seria, de fato, o “Rio Grande” que deu nome ao nosso Estado. Um ano depois, voltaria seu olhar para outro vestígio quase esquecido da fundação de Natal: a Santa Cruz da Bica, que ele considerava uma das mais preciosas relíquias do passado colonial potiguar. Sempre que passo pelos limites da Cidade Alta e olho para a encosta sul, nas proximidades do Baldo, não consigo deixar de pensar no quanto de nossa história permanece diante dos nossos olhos sem que a reconheçamos.
A Santa Cruz da Bica, muitas vezes encoberta pela paisagem urbana e pela pressa cotidiana, resiste como uma espécie de testemunha silenciosa dos primeiros tempos de Natal. O mais inquietante, porém, é perceber que há quase um século Nestor Lima já advertia que a razão de ser daquele monumento estava praticamente perdida na memória dos natalenses. Se isso já o preocupava em 1927, o que dizer de nós, quase cem anos depois?
Para compreender sua importância, é preciso voltar aos primeiros anos da ocupação portuguesa. Depois da construção do Forte dos Reis Magos, em 1598, e das lutas que marcaram a conquista do território, a paz com os potiguaras abriu caminho para a formação da povoação.
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| Atual estado da Santa Cruz da Bica |
Frei Vicente do Salvador registrou que, feitas as pazes, “se começou a fazer uma povoação no Rio Grande, uma légua do forte”. Outros historiadores, entre eles Vicente de Lemos e Rocha Pombo, referem-se à existência de um “sítio da cidade”, cujo perímetro teria sido demarcado por Jerônimo de Albuquerque. É justamente aí que começa a hipótese de Nestor Lima. Se a povoação havia sido oficialmente planejada e seu sítio delimitado, seria razoável supor que a demarcação tivesse deixado algum vestígio material. O problema é que, segundo ele, a tradição e os documentos não conservavam notícia clara desses marcos. Entretanto, havia dois antigos cruzeiros posicionados nas extremidades da área elevada onde Natal começava a se constituir: um ao norte, a antiga Cruz do Norte, desaparecida posteriormente, e outro ao sul, a Santa Cruz da Bica, que sobreviveu, embora profundamente modificada.
Para Lima, essa localização não seria uma simples coincidência. Os dois cruzeiros formariam uma espécie de eixo norte-sul, correspondendo ao antigo alinhamento do terreno em que se estabeleceu a cidade. A Cruz do Norte teria existido aproximadamente onde hoje se encontra a Assembleia Legislativa, enquanto a Santa Cruz da Bica permanecia na encosta sul, nas proximidades do antigo rio da Passagem, ou Baldo. A hipótese é que esses dois sinais religiosos fossem, na realidade, marcos da delimitação primitiva do “sítio da cidade” de Natal.
| Eventualmente a Cruz da Bica sofre vandalismo. |
Há, nessa interpretação, algo especialmente fascinante: a possibilidade de que um objeto aparentemente religioso e popular tenha desempenhado também uma função territorial. A cruz não seria apenas símbolo da fé dos colonizadores. Poderia representar posse, domínio, conquista e demarcação. Nestor Lima lembrava que era prática dos portugueses e castelhanos assinalar, com cruzes, territórios conquistados e acontecimentos considerados memoráveis. A Santa Cruz da Bica, portanto, poderia ser muito mais antiga e significativa do que a tradição popular deixou registrado.
O próprio nome “Bica” acrescenta outra camada à memória do lugar. A cruz esteve associada à área de águas e ao antigo curso do rio da Passagem, posteriormente afetado pelas intervenções urbanas e pelos serviços de abastecimento de água.
Segundo Lima, a cruz teria sido deslocada para o pedestal atual quando da construção das instalações da antiga Empresa d’Água Natal, de Bigois & Leinhardt. Assim, até mesmo sua localização atual seria resultado de transformações posteriores. É preciso, naturalmente, tratar a interpretação de Nestor Lima como hipótese histórica, e não como uma certeza documental definitivamente comprovada. Ele próprio reconhecia isso ao afirmar que esperava que os estudiosos das velhas crônicas pudessem oferecer outra explicação. Mas terminava com uma frase de enorme força: enquanto não lhe provassem o contrário, considerava a Santa Cruz da Bica “a mais preciosa relíquia do nosso passado colonial”.
Talvez seja essa a maior atualidade de seu texto. Independentemente de conseguirmos provar integralmente que a cruz foi um dos marcos utilizados por Jerônimo de Albuquerque, ela permanece como um testemunho material de uma Natal que já não existe. E é justamente por isso que deveria ser vista não apenas como objeto de devoção, mas como patrimônio histórico, urbano e afetivo da cidade. O que restou do nosso início? Restou uma cruz. Restou uma encosta. Restaram nomes de ruas, rios, ladeiras e lugares que atravessaram quatro séculos. Restaram, sobretudo, fragmentos de uma história que corremos o risco de perder não porque tenha desaparecido, mas porque deixamos de enxergá-la. Talvez a Santa Cruz da Bica nos faça uma pergunta incômoda: quantos outros marcos da fundação de Natal ainda estão diante de nós, esperando apenas que alguém volte a perguntar o que significam?
REFERENCIA BIBLIGRÁFICA:
LIMA, Nestor. Preciosa relíquia colonial. A Santa Cruz da Bica é um dos Marcos da Fundação de Natal. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Natal, v. XXIII-XXIV, p. 105-111, 1926-1927.
FOTOGRAFIA ANTIGA, ACIMA: Manoel Dantas, extraída do blog Tok de História.


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