ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Professora Andressa Carla organiza ensaio fotográfico com suas alunas

Professora Andressa Carla durante a sua aula especial
No último dia 18 de agosto a professora Andressa Carla organizou uma aula diferente com suas alunas. "Precisamos criar sempre algo novo e sair da mesmice para renovar nos alunos o gosto pelo que fazem. Eles amam a dança e se empolgam mais quando programamos. É uma forma de incentivo". Explicou a professora Andressa Carla, a qual ministra aulas de balé há seis anos. À ocasião eles trouxeram um fotógrafo e posteriormente cada qual ficará com o seu book. "Foi a primeira fiz que me vi num book", disse muito alegremente a aluna Ranimusa Santos. "Foi a primeira fiz que me vi num book. é legal, diferente a gente se olhar depois", disse muito alegremente a aluna Ranimusa Santos. 
     "A proposta é justamente essa", explicou a professora Andressa Carla, "eles se olham e a gente vai construindo o conhecimento, comentando a postura ideal, as limitações, a necessidades de avanços, enfim o que necessita de correção. E tudo acontece de maneira natural. Costumo levá-los a perceberem suas limitações sem que eu diga primeiro. Eles  próprios notam e posteriormente vão trabalhando para superar. Assim vão avançando naturalmente", finalizou a professora.
    As aulas de Balé Clássico acontecem na Fundação Parnamirim de Cultura, em Parnamirim, Rio Grande do Norte, onde Andressa Carla é titular e primeira bailarina.



  




















































segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

CANTORA MARIA DA SOLEDADE PARTICIPA DA FESTA DA PADROEIRA NOSSA SENHORA DO Ó
A cantora nisiaflorestense Maria da Soledade, em férias na sua terra natal, deu uma palhinha durante a Festa da Padroeira Nossa Senhora do Ó.
Convidada pelo padre José Lenilson a cantora encerrou a novena do dia 15 de dezembro com um cântico católico e emocionou toda a igreja com sua voz agradável. Para os nativos foi um verdadeiro presente a participação de Soledade, pois todos apreciam os CD's da cantora e torcem pelo seu sucesso.


"Para mim foi um prazer o convite recebido. Penso em voltar em dezembro de 2011 e se for do interesse posso me preparar até mesmo para me apresentar durante o momento cultural da Festa da Padroeira Nossa Senhora do Ó", disse a cantora.
Além de fazer shows no Rio de Janeiro, Maria da Soledade também faz parte do Coral da Igreja Matriz de Copacabana, inclusive canta em latim diversos cantos gregorianos (Fídias Augusto)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

BREVE ESTUDO SOBRE VERDADES E LENDAS DO BAOBÁ DE NÍSIA FLORESTA

A África é o berço dos baobás, árvore diferente por seu aspecto singular. Uns acham-na feia e esquisita, outros vêem-na como exótica, bela e atraente. Mas algo é certo, um baobá não passa despercebido .
Nativo das regiões tropicais da África, o baobá pode viver até dois mil anos. Também é conhecido por outros nomes. no Guiné-Bissau é fruta-pão-de-macaco, cabaceira, calabaceira; no Cabo Verde é embondeiro, imputeiro; em Moçambique é licondo; na Angola é melambeira e micondó; em São Tomé e Príncipe é molambeira; em Moçambique é molambo e na Angola é nebondo.
Etimologicamente falando, o “baobá” é vocábulo de origem latina: “baobab”, em francês e “bu-ibab”, em árabe.
O Rio Grande do Norte possui dezenas de baobás espalhados em pontos distintos, como Apodi, Macaíba, Natal e outros municípios, testemunhando um passado remotíssimo, quando as placas tectônicas do Continente Americano ainda não tinham se separado do Continente Africano, onde os baobás são tão abundantes como são para nós tantas espécies brasileiras comuns.
Poucas pessoas sabem, mas o município de Nísia Floresta possui dois baobás adultos, e até na década de 1970 possuia três exemplares. O maior está no centro da cidade, outro na Fazenda Mãe-Ia, no Sítio Floresta, exatamente na divisa com a estrada, na altura do distrito de Golandi. O terceiro baobá – extinto – ficava próximo a entrada do município, nas imediações do engenho São Roque, num declive íngreme. Com o advento da terraplanagem e urbanização, a terra da sua base foi deslizando, facilitando seu tombamento, após uma forte chuva do meado de 1970. Se naquela época existisse um nível de consciência mais cidadão por parte das autoridades, teria-se feito um trabalho de recolocação da espécime, às custas de tratores e guindastes, pois boa parte de suas raízes permaneceram fincadas no solo. A preciosidade de tal exemplar permitiria tais esforços. Faltou apenas visão.
O baobá pertence à família das bombacáceas, cujo nome científico é Adansonia digitata. Possui tronco extremamente grosso, galhos curtos, folhas comestíveis e flores branco-róseas, cujo branco se sobressai. Na África sua madeira, mole e porosa, é usada para confecção de embarcações e na produção de fibras, cordas, papel e tecido. A árvore do centro de Nísia Floresta costuma florescer de janeiro a março. Segundo se percebeu em 2010, sua floração superou todas as anteriores, conforme observaram os mais idosos. Supostamente isso aconteceu em decorrência da forte temperatura desse ano, fenômeno este também nunca visto.
Não apenas o visual do baobá é diferente. Suas flores são singulares. Elas despencam de um talo de aproximadamente 20 cm e se abrem como se estivessem de cabeça para baixo.
O mesmo fenômeno da multiplicação das flores ocorreu com os frutos, pois nunca se viu tantos como em 2010. Os frutos têm o formato de cápsulas oblongas (parecida com o corpo de um pinguim) e pubescentes (semelhantes ao veludo). Dentro se formam uma espécie de fibra que produz bagas secas, comestíveis. Em Nísia Floresta ouvi depoimento de pessoas que fazem suco do pó que sai dessas fibras e, segundo dizem, é delicioso, adquirindo uma consistência leitosa com facilidade. O sabor, exótico, lembra o gosto do tamarindo.
O baobá de Nísia Floresta é tombado pela lei federal nº 4.771/65 e pela lei municipal nº 169/79. Consta em sua lateral uma placa informando que o exemplar foi plantado por um cidadão chamado Manoel de Moura Júnior, no ano de 1877. Acredito que isso seja pura pretensão, tendo em vista que a árvore é muito mais antiga do que informa a ingênua placa, conforme podemos constatar lendo mais aprofundadamente sobre tal espécie, a qual necessita de mais tempo de vida para ter o diâmetro e a altura atuais. O próprio Câmara Cascudo levantou essa questão, a qual acho muito pertinente. O conteúdo da placa soa mais como uma lenda, dentre tantas que povoam o imaginário popular.

FANTASIAS CONTADAS POR NATALENSES QUE SONHAM DEMAIS

Diógenes, em sua Natal Biografia de Uma Cidade, p. 278 a 279 diz que Antoine de Saint-Exupéry esteve na América do Sul, entre outubro de 1929 a janeiro de 1931, trabalhando para a Lattécoère como diretor da subsidiária Cia. Aeroposta Argentina. E diz que Pery Lamartine registrou a sua presença:
“Como diretor e também aviador profissional, ele tinha um avião à sua dsiposição para fazer visitas a todas as bases de linha. Natal era uma das principais, pois aqui se faziam a baldeação das malas postais entre os navios (avisos) e os aviões e vice-versa. Assim sendo, Natal hospedava constantemente tripulações completas para substituir os pilotos da escala de voo. Essas tripulações conviviam cordialmente com a sociedade natalense, a exemplo de Jean Mermoz, que deixou aqui uma lembrança.”
Segundo o autor, Rocco Rosso, encarregado do setor de rádio e comunicação da Lattécoère, bateu fotos do escritor herói em Natal. Diga-se de passagem, tais fotos são desconhecidas pelos os historiadores. D. Amelinha Machado (viúva Machado), dona Nati Cortez e dona Nair Tinoco confirmam a importância da presença. Dona Nair lembra, em Outras recordações, as suas subidas à torre da matriz para apreciar o por-do-sol. Nilo Pereira foi-lhe apresentado por Jean Mermoz.
Diz ainda, o autor, que o escritor José Rafael de Menezes, em seu Amizades Bibliográficas, que não havendo tempestades nas costas nacionais, beber água de coco não seria tema de grandes manifestações literárias para o piloto, que se alternava entre duas paisagens: o deserto e as montanhas. Rafael fala da “poética valorização do ser humano” e destaca: “O maior deles na década de 40, Antoine de Saint-Exupéry”. José Rafael registra ainda que “somente os colegas oriundos de Natal exibiam um autógrafo com o retrato do homem”. Alguém já viu uma cópia desse retrato em algum livro?
As mentes férteis comentam que foi em Natal que Exupéry fez os desenhos de O pequeno príncipe, seu livro mais famoso, lançado em Nova Iorque, em 1943. Diz-se que o francês viu com estranheza o baobá da rua São José, em Natal. Haja imaginação! Exupéry já se fartara de ver baobás na África tão conhecida por ele, inclusive era rota de voo.
Há até quem pontue tópicos para reforçar a lenda. Leiamos os mesmos, na visão de Diógenes:
- O aviador hospedou-se na casa de dona Amelinha Machado, proprietária do terreno onde está o baobá;
- Há depoimentos que Exupéry teria declarado que o por do sol do Potengi é o mais lindo do mundo.
- O elefante, um dos desenhos do livro, é o símbolo do Rio Grande do Norte (a semelhança com o mapa do estado é sempre estilizado).
- Há desenhos de falésias, de dunas e de estrelas, que é o símbolo da cidade de Natal;
- No livro póstumo Cartas à sua mãe, há um trecho onde Exupéry diz que “Dacar é bem feia, mas o resto da linha, uma maravilha”. O resto da linha começava em Natal.
É prudente analisarmos uma série de detalhes, tanto dos tópicos acima quanto do contexto da época.
Fernando Hipólyto da Costa, um historiador respeitado, fez um levantamento de época, de todos os vôos Paris/Brasil e Argentina/Natal, tendo em vista a relação profissional de Exupéry com as plagas pampas, e sequer foi encontrado um registro de voo do citado francês para Natal.
Como Exupéry estranharia uma árvore a qual estava acostumado a ver em abundância e em todas as nuanças na África?
Por que Exupéry baseou seu elefante num mero mapa do Rio Grande do Norte – com diferenças gritantes do desenho real de um elefante – se ele estava habituado a ver elefantes ao vivo e em cores, na África?
Atribuir os desenhos de falésias, dunas e estrelas existentes no livro a Natal é muita imaginação, considerando que Exupéry era acostumado a ver tal cenário por quilômetros a fio quando sobrevoava a África. De dia e de noite. Por outro ângulo, devemos entender – sem precisar se esforçar – que as estrelas do livro são óbvias ao contexto do desenho, pois ele retratou o planeta Terra com direito a céu. Por que tais estrelas, que existem no mundo inteiro, haveriam de ter sido inspiradas justamente nas de Natal/RN? O argumento “símbolo da cidade” é muito ingênuo. Ainda sobre céus e estrelas, o primeiro livro escrito por Exupéry, Correio Sul, é repleto de referências poéticas aos céus da África.
Sobre as palavras escritas pelo autor, no livro Cartas à sua mãe, “o resto da linha, uma maravilha”, Exupéry poderia ter feito a peripécia de, em voo para a Argentina, ter passado sobre Natal, pois é caminho. Mas isto não significa dizer que as linhas divisórias imaginárias retratassem um elefante passível de ser visto lá de cima.
Sobre o francês ter se hospedado na casa da dona Amelinha Machado – justamente encostada ao baobá – segundo o citado autor, e sobre todas essas suposições, fica uma lacuna incompreensível. Por que Luís da Câmara Cascudo, que registrou em livros sobre inúmeros viajantes brasileiros e estrangeiros ilustres que passaram em Natal, se esqueceu justamente de Exupéry?

TROCANDO SUPOSIÇÕES POR DOCUMENTOS

Fernando Hipólyto da Costa, Coronel-aviador, historiador e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, escreveu que certa vez um cidadão lhe perguntou se tinha sido Exupéry quem plantara o baobá da rua São José, em Lagoa Seca, Natal. Ele riu, pois não podia ser diferente.
Segundo ele, Exupéry nunca foi partícipe dessa fase dourada da aviação comercial francesa, no que se refere às travessias Dakar-Natal-Dakar (3.200 km em cada trecho), ocasiões em que os tripulantes enfrentavam condições meteorológica diversas, o capricho dos ventos alíseos, os frios das Madrugadas e a imensidão de céu e água em viagens que consumiam 15 a 20 horas de voo.
O historiador recomenda a leitura detalhada da publicação francesa “Répertoire des Traversés Aériennes De L’Atlantique Sud Par L’Aéropostale Et Air France (1930-1940)”, escrita por Perre Labrousse em Paris em 1974. O livro lista todas as travessias, as quais, acaso Exupéry tivesse feito, estariam ali evidenciadas. Hipólyto, chamando esse contexto mítico de “absurdidades”, diz: “Se tudo passa na vida, a História fica e ela não perdoa os que não lhe entendem a lição”.
No livro citado, é possível constatar 512 travessias (256 em cada sentido: Dakar-Natal ou Natal-Dakar), onde somente 4 não foram cumpridas, veja:
- Viagem 001-regresso, de 8 para 9 de julho de 1939. Motivo: amerrissagem forçada a 700 km de Dakar, em conseqüência de um vazamento de óleo de motor. Tripulantes e malotes do correio recolhidos pelo navio Phocée (“Aviso”). Foram voadas 14 horas a partir de Natal.
- Viagem 035-regresso, em 10 de fevereiro de 1936. Perdido no oceano depois de 7 horas de voo, na etapa Natal-Dakar. Perda total da aeronave e dos tripulantes, além de 1 passageiro.
- Viagem 074-ida, em 7 de dezembro de 1936. Motivo: Perdido no oceano depois de 3 horas e 57 minutos de voo. Perda total da aeronave e dos 5 tripulantes.
- Viagem 074-regresso. Não foi cumprida devido ao acidente constante na travessia anterior (074-ida). Seria a etapa Natal-Dakar.
A primeira travessia foi efetuada de 12 para 13 de maio de 1939, com o monomotor Late 28, matrícula F-AJNQ, sendo o primeiro voo realizado para o Brasil com malas postais. Apenas 3 tripulantes: Mermoz (piloto), Darby (navegador) e Gimié (radiotelegrafista).
A última (512, ou 256-refresso) ocorreu em 2 de julho de 1940, voando o F-AQCX de Natal para Dakar, com cinco tripulantes e tempo de voo de 15 horas e 51 minutos. A Air France suspendeu as atividades por se encontrar a Europa imersa na 2ª. Guerra Mundial.
O nome de Exupéry não consta nas relações de viagens. A empresa, que contava com treze aeronaves, destinava-se unicamente ao transporte de malas postais; em apenas dezenove travessias foram incluídos vinte e dois passageiros e esses somente viajaram com autorização expressa do presidente da companhia. E Exupéry não consta nessa relação.
O quadro de pessoal “aeronavegante”, na época pesquisada (1930-1940), compunha-se de dezessete comandantes, quarenta e um copilotos, 12 navegadores, dez radiotelegrafistas e 15 mecânicos; desse grupo de noventa e cinco tripulantes que operavam no Atlântico Sul, não é encontrado o nome de Exupéry.
O historiador Hipólyto pesquisou toda a documentação antiga referente a vôos de chegada e saída de Natal para outros países. E o nome de Exupéry não está entre os demais. Pesquisou também nos anais da Air France e informaram que ele nunca fez tal voo.
Interessante é o fato de Exupéry, enquanto escritor portador de uma verve literária de extrema sensibilidade, não ter registrado nada sobre Natal, acaso aqui tivesse colocado os pés. Concordam?
Diante desse quiprocó, por que insistem tanto se existem provas que ele nunca veio ao Rio Grande do Norte. Segundo o autor, a explicação é simples. Exupéry foi convidado pela Argentina a ocupar a gerência da Companhia Latécoère em Bueno Aires. Exupéry deixou a França viajando em navio de grande porte, chegando a capital portenha em outubro de 1929. Na ida o navio fez escala no Rio de Janeiro e Santos. No Rio ele teve algumas horas para conhecer a cidade, prosseguindo a viagem rumo a Argentina.
Regressando à França, após pouco mais de um ano, novamente por via marítima, Exupéry passou pelas mesmas localidades da ida. Tanto na vinda da Europa como no regresso para a França. Tanto na vinda de Europa como no regresso para a França, não ocorreu atracação no porto de Natal.
No livro “O caminho do avião”, de autoria de Luís da Câmara Cascudo, ele apresenta uma série de reportagens escritas de 1922 a 1933, acerca de 33 reides famosos com passagem para Natal. Por que o mestre da história do Rio Grande do Norte haveria de ter esquecido justamente de nome tão famoso e representativo? É lógico, ele não esqueceu, afinal Exupéry não esteve por aqui.
Os aviadores franceses também participaram das travessias aéreas do Atlântico Norte, existindo registros de 12 viagens de longa duração, consideradas “experimentais” e decorridas nos anos de 1938 e 1939.
As informações constam da publicação “La Ronde S’Arrête”, de autoria de George Bouchard, o qual tomou parte de todas as viagens.
Um registro importante na viagem n. 7 transcorrida de 7 a 10 de julho de 1939, Saint-Exupéry viajou como passageiro em aeronave de matrícula F-NORD, sob comando de Guillaumet, umas das “estrelas” da aviação francesa.
Regressou à França (viagem n. 8) deixando os Estados Unidos em 14 de julho de 1939, com a mesma tripulação e novamente na condição de passageiros.

E, AFINAL, QUEM FOI EXUPÉRY?

Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, seu nome de batismo, tinha a aviação como fonte de ação heróica e novo tema literário: exalta a aventura com riscos de vida como suprema realização humana. Sua obra é o testemunho singular de um piloto de guerra com a alma de poeta.
Nasceu em Lyon, na França, em 29 de junho de 1900, oriundo de família aristocrática empobrecida. Obteve licença de piloto em 1922, no serviço, e quatro anos depois ingressou na aviação pela Latécoère. Ajudou a implantar rotas de correio aéreo na África, América do Sul e Atlântico Sul, além de ter sido pioneiro nos vôos Paris-Saigon e Nova York-Terra do Fogo. Nessa época, publicou seu primeiro livro Courrier-Sud (1929 – Correio Sul).
Exupéry soube aliar – e daí talvez a razão do seu permanente sucesso – a sensibilidade do artista a uma visão de mundo caracterizada pela autenticidade de quem só escreveu sobre o que de fato viveu. Permanentemente preocupado com os acontecimentos que o circundaram, seus livros refletem os problemas da sociedade e dos indivíduos de sua época. O despojamento do estilo, a narrativa direta, a linguagem depurada de tudo que não contribui para a expressão concreta e imediata do que o escritor deseja contar, estão a serviço de um objetivo presente na obra inteira de Exupéry: o de dignificar a condição humana, o de reivindicar a sua essencial liberdade, sem abrir mão da complexidade – não raro feita das mais dramáticas contradições – que a define.
Na década de 1930, trabalhou como piloto de provas, adido de publicidade para a Companhia Aérea Air-France e repórter do Paris-Soir. Nomeado diretor da Cia. Aeroposta Argentina, exerceu o cargo até 1931. Em seu segundo romance, Vol de nuit (1931 – Voo noturno), exaltou os primeiros pilotos comerciais, que enfrentavam a morte no cumprimento do dever. Registrou suas próprias aventuras em Terre dês hombres (1939 – Terra dos homens).
Em 1939, apesar das dificuldades físicas causadas por acidentes aéreos, serviu na aviação aliada. Com a queda da França em poder dos Nazistas, fugiu para os Estados Unidos. Ali, escreveu Lettre à um otage (1943 – Carta a um refém), exortação a unidade dos franceses, e Le petit prince (1943 – O pequeno príncipe), fábula infantil para adultos , traduzida no mundo inteiro. Seu pessimismo aparece em Citadelle (1948 – Cidadela), volume póstumo de reflexões, no qual expressa a convicção de que o homem deve ser repositório dos valores da civilização. Em 1943, voltou à força aérea no norte da África e morreu em missão, 31 de julho de 1944, participando de uma esquadrilha de bombardeiros da libertação da Sicília. Tendo ultrapassado o limite de idade para continuar pilotando, recebe a permissão para realizar mais cinco missões de reconhecimento. Numa delas desapareceu para sempre no mar.
Exupéry nunca se sujeitou à classificação de escritor profissional. De personalidade irriquieta, nada em sua formação (foi péssimo aluno) fazia crer que viesse a se tornar autor dos excepcionais livros que escreveu. Herói da segunda guerra mundial, dedicou todo o seu trabalho literário à defesa daquilo que o levou a morrer: a liberdade do homem.

CONCLUSÃO

Ficam aqui as provas de que Antoine de Saint-Exupéry esteve em Natal, sim, mas na imaginação fértil de tantos que preferem acreditar na “história da carochinha”, se pautando pelo hábito de dizer “foi fulano quem falou”, “ouvi dizer”, “dizem que” ou “o povo é quem diz”. Tal comportamento me recorda o depoimento de Rita Ribeiro, uma professora da UFMA, a qual, durante o lançamento do seu polêmico livro “Ana Jansen” – ocasião em que estive presente – informou à platéia que sofreu muitas críticas e até ameaças por ter revelado em seu livro a verdade sobre a referida personagem.
Nas suas pesquisas aprofundadas ela descobriu (com provas documentais) que figurões da história do Maranhão, com os seus nomes dados à diversas instituições, com direito a placas de bronze e enormes letreiros, foram verdadeiros crápulas. Nesse caso não me refiro a Exupéry, mas ao fato de existirem pessoas que, mesmo descobrindo a verdade, provada por documentos, preferem contar e recontar mentiras em livros e em palestras, prestando desserviço à história. Isso se agrava quando quem o faz muitas vezes atende ao adjetivo de “historiador ou “escritor”.
Ao apresentar as provas documentais, Hipólyto finalizou dizendo “E o tempo se encarrega de transmitir às novas gerações disparatados epílogos que não traduzem a realidade. De minha parte, posso afirmar à luz da História e com o apoio da documentação em meu poder, e ainda sem qualquer vacilação, que Antoine de Saint-Exupéry nunca esteve em Natal”.
Um fato bem curioso ocorreu em Natal, recentemente, quando o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, muito sensato e prudente, cancelou o projeto de colocar uma estátua do aviador francês na “Praça-do-pôr-do-sol” – que atendia sugestão justamente das pessoas que prestam desserviço à história -, as quais afirmavam que naquele lugar Exupéry costumava “assistir o crepúsculo vespertino sobre o rio Potengi”. Carlos Eduardo, com certeza constatou que, de todas as informações que dizem do Francês, ditas como passadas em Natal, nenhuma foi comprovada – nem com fotos – nem com escritos.



Bibl. Barsa, 2000, vol. 13; p.39/ Correio Sul, EXUPÉRY, Antoine de Saint, 198113ª ed. N. Fronteira/ Diário de Natal, 20.4.08 “Exupéry aqui? Impossível”/ FREIRE, L. Carlos, “Os baobás de Nísia Floresta”. 1999, 40 p. fl. dig./ Folhas avulsas de anos avariados.




BAOBÁS DE NÍSIA FLORESTA

A África é o berço dos baobás, árvore diferente por seu aspecto singular. Uns acham-na feia e esquisita, outros vêem-na como exótica, bela e atraente. Mas algo é certo, um baobá não passa despercebido .
Nativo das regiões tropicais da África, o baobá pode viver até dois mil anos. Também é conhecido por outros nomes. no Guiné-Bissau é fruta-pão-de-macaco, cabaceira, calabaceira; no Cabo Verde é embondeiro, imputeiro; em Moçambique é licondo; na Angola é melambeira e micondó; em São Tomé e Príncipe é molambeira; em Moçambique é molambo e na Angola é nebondo.
Etimologicamente falando, o “baobá” é vocábulo de origem latina: “baobab”, em francês e “bu-ibab”, em árabe.
O Rio Grande do Norte possui dezenas de baobás espalhados em pontos distintos, como Apodi, Macaíba, Natal e outros municípios, testemunhando um passado remotíssimo, quando as placas tectônicas do Continente Americano ainda não tinham se separado do Continente Africano, onde os baobás são tão abundantes como são para nós tantas espécies brasileiras comuns.
Poucas pessoas sabem, mas o município de Nísia Floresta possui dois baobás adultos, e até na década de 1970 possuia três exemplares. O maior está no centro da cidade, outro na Fazenda Mãe-Ia, no Sítio Floresta, exatamente na divisa com a estrada, na altura do distrito de Golandi. O terceiro baobá – extinto – ficava na entrada do município, no Conjunto Jessé Freire, num declive íngreme. Com o advento da terraplanagem e urbanização, a terra da sua base foi deslizando, facilitando seu tombamento, após uma forte chuva do meado de 1970. Se naquela época existisse um nível de consciência mais cidadão por parte das autoridades, teria-se feito um trabalho de recolocação da espécime, às custas de tratores e guindastes, pois boa parte de suas raízes permaneceram fincadas no solo. A preciosidade de tal exemplar permitiria tais esforços. Faltou apenas visão.
O baobá pertence à família das bombacáceas, cujo nome científico é Adansonia digitata. Possui tronco extremamente grosso, galhos curtos, folhas comestíveis e flores branco-róseas, cujo branco se sobressai. Na África sua madeira, mole e porosa, é usada para confecção de embarcações e na produção de fibras, cordas, papel e tecido. A árvore do centro de Nísia Floresta costuma florescer de janeiro a março. Segundo se percebeu em 2010, sua floração superou todas as anteriores, conforme observaram os mais idosos. Supostamente isso aconteceu em decorrência da forte temperatura desse ano, fenômeno este também nunca visto.
Não apenas o visual do baobá é diferente. Suas flores são singulares. Elas despencam de um talo de aproximadamente 20 cm e se abrem como se estivessem de cabeça para baixo.
O mesmo fenômeno da multiplicação das flores ocorreu com os frutos, pois nunca se viu tantos como em 2010. Os frutos têm o formato de cápsulas oblongas (parecida com o corpo de um pinguim) e pubescentes (semelhantes ao veludo). Dentro se formam uma espécie de fibra que produz bagas secas, comestíveis. Em Nísia Floresta ouvi depoimento de pessoas que fazem suco do pó que sai dessas fibras e, segundo dizem, é delicioso, adquirindo uma consistência leitosa com facilidade. O sabor, exótico, lembra o gosto do tamarindo.
O baobá de Nísia Floresta é tombado pela lei federal nº 4.771/65 e pela lei municipal nº 169/79. Consta em sua lateral uma placa informando que o exemplar foi plantado por um cidadão chamado Manoel de Moura Júnior, no ano de 1877. Acredito que isso seja pura pretensão, tendo em vista que a árvore é muito mais antiga do que informa a ingênua placa, conforme podemos constatar lendo mais aprofundadamente sobre tal espécie, a qual necessita de mais tempo de vida para ter o diâmetro e a altura atuais. O próprio Câmara Cascudo levantou essa questão, a qual acho muito pertinente. O conteúdo da placa soa mais como uma lenda, dentre tantas que povoam o imaginário popular.

FANTASIAS CONTADAS POR NATALENSES QUE SONHAM DEMAIS

Diógenes, em sua Natal Biografia de Uma Cidade, p. 278 a 279 diz que Antoine de Saint-Exupéry esteve na América do Sul, entre outubro de 1929 a janeiro de 1931, trabalhando para a Lattécoère como diretor da subsidiária Cia. Aeroposta Argentina. E diz que Pery Lamartine registrou a sua presença:
“Como diretor e também aviador profissional, ele tinha um avião à sua dsiposição para fazer visitas a todas as bases de linha. Natal era uma das principais, pois aqui se faziam a baldeação das malas postais entre os navios (avisos) e os aviões e vice-versa. Assim sendo, Natal hospedava constantemente tripulações completas para substituir os pilotos da escala de voo. Essas tripulações conviviam cordialmente com a sociedade natalense, a exemplo de Jean Mermoz, que deixou aqui uma lembrança.”
Segundo o autor, Rocco Rosso, encarregado do setor de rádio e comunicação da Lattécoère, bateu fotos do escritor herói em Natal. Diga-se de passagem, tais fotos são desconhecidas pelos os historiadores. D. Amelinha Machado (viúva Machado), dona Nati Cortez e dona Nair Tinoco confirmam a importância da presença. Dona Nair lembra, em Outras recordações, as suas subidas à torre da matriz para apreciar o por-do-sol. Nilo Pereira foi-lhe apresentado por Jean Mermoz.
Diz ainda, o autor, que o escritor José Rafael de Menezes, em seu Amizades Bibliográficas, que não havendo tempestades nas costas nacionais, beber água de coco não seria tema de grandes manifestações literárias para o piloto, que se alternava entre duas paisagens: o deserto e as montanhas. Rafael fala da “poética valorização do ser humano” e destaca: “O maior deles na década de 40, Antoine de Saint-Exupéry”. José Rafael registra ainda que “somente os colegas oriundos de Natal exibiam um autógrafo com o retrato do homem”. Alguém já viu uma cópia desse retrato em algum livro?
As mentes férteis comentam que foi em Natal que Exupéry fez os desenhos de O pequeno príncipe, seu livro mais famoso, lançado em Nova Iorque, em 1943. Diz-se que o francês viu com estranheza o baobá da rua São José, em Natal. Haja imaginação! Exupéry já se fartara de ver baobás na África tão conhecida por ele, inclusive era rota de voo.
Há até quem pontue tópicos para reforçar a lenda. Leiamos os mesmos, na visão de Diógenes:
- O aviador hospedou-se na casa de dona Amelinha Machado, proprietária do terreno onde está o baobá;
- Há depoimentos que Exupéry teria declarado que o por do sol do Potengi é o mais lindo do mundo.
- O elefante, um dos desenhos do livro, é o símbolo do Rio Grande do Norte (a semelhança com o mapa do estado é sempre estilizado).
- Há desenhos de falésias, de dunas e de estrelas, que é o símbolo da cidade de Natal;
- No livro póstumo Cartas à sua mãe, há um trecho onde Exupéry diz que “Dacar é bem feia, mas o resto da linha, uma maravilha”. O resto da linha começava em Natal.
É prudente analisarmos uma série de detalhes, tanto dos tópicos acima quanto do contexto da época.
Fernando Hipólyto da Costa, um historiador respeitado, fez um levantamento de época, de todos os vôos Paris/Brasil e Argentina/Natal, tendo em vista a relação profissional de Exupéry com as plagas pampas, e sequer foi encontrado um registro de voo do citado francês para Natal.
Como Exupéry estranharia uma árvore a qual estava acostumado a ver em abundância e em todas as nuanças na África?
Por que Exupéry baseou seu elefante num mero mapa do Rio Grande do Norte – com diferenças gritantes do desenho real de um elefante – se ele estava habituado a ver elefantes ao vivo e em cores, na África?
Atribuir os desenhos de falésias, dunas e estrelas existentes no livro a Natal é muita imaginação, considerando que Exupéry era acostumado a ver tal cenário por quilômetros a fio quando sobrevoava a África. De dia e de noite. Por outro ângulo, devemos entender – sem precisar se esforçar – que as estrelas do livro são óbvias ao contexto do desenho, pois ele retratou o planeta Terra com direito a céu. Por que tais estrelas, que existem no mundo inteiro, haveriam de ter sido inspiradas justamente nas de Natal/RN? O argumento “símbolo da cidade” é muito ingênuo. Ainda sobre céus e estrelas, o primeiro livro escrito por Exupéry, Correio Sul, é repleto de referências poéticas aos céus da África.
Sobre as palavras escritas pelo autor, no livro Cartas à sua mãe, “o resto da linha, uma maravilha”, Exupéry poderia ter feito a peripécia de, em voo para a Argentina, ter passado sobre Natal, pois é caminho. Mas isto não significa dizer que as linhas divisórias imaginárias retratassem um elefante passível de ser visto lá de cima.
Sobre o francês ter se hospedado na casa da dona Amelinha Machado – justamente encostada ao baobá – segundo o citado autor, e sobre todas essas suposições, fica uma lacuna incompreensível. Por que Luís da Câmara Cascudo, que registrou em livros sobre inúmeros viajantes brasileiros e estrangeiros ilustres que passaram em Natal, se esqueceu justamente de Exupéry?

TROCANDO SUPOSIÇÕES POR DOCUMENTOS

Fernando Hipólyto da Costa, Coronel-aviador, historiador e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, escreveu que certa vez um cidadão lhe perguntou se tinha sido Exupéry quem plantara o baobá da rua São José, em Lagoa Seca, Natal. Ele riu, pois não podia ser diferente.
Segundo ele, Exupéry nunca foi partícipe dessa fase dourada da aviação comercial francesa, no que se refere às travessias Dakar-Natal-Dakar (3.200 km em cada trecho), ocasiões em que os tripulantes enfrentavam condições meteorológica diversas, o capricho dos ventos alíseos, os frios das Madrugadas e a imensidão de céu e água em viagens que consumiam 15 a 20 horas de voo.
O historiador recomenda a leitura detalhada da publicação francesa “Répertoire des Traversés Aériennes De L’Atlantique Sud Par L’Aéropostale Et Air France (1930-1940)”, escrita por Perre Labrousse em Paris em 1974. O livro lista todas as travessias, as quais, acaso Exupéry tivesse feito, estariam ali evidenciadas. Hipólyto, chamando esse contexto mítico de “absurdidades”, diz: “Se tudo passa na vida, a História fica e ela não perdoa os que não lhe entendem a lição”.
No livro citado, é possível constatar 512 travessias (256 em cada sentido: Dakar-Natal ou Natal-Dakar), onde somente 4 não foram cumpridas, veja:
- Viagem 001-regresso, de 8 para 9 de julho de 1939. Motivo: amerrissagem forçada a 700 km de Dakar, em conseqüência de um vazamento de óleo de motor. Tripulantes e malotes do correio recolhidos pelo navio Phocée (“Aviso”). Foram voadas 14 horas a partir de Natal.
- Viagem 035-regresso, em 10 de fevereiro de 1936. Perdido no oceano depois de 7 horas de voo, na etapa Natal-Dakar. Perda total da aeronave e dos tripulantes, além de 1 passageiro.
- Viagem 074-ida, em 7 de dezembro de 1936. Motivo: Perdido no oceano depois de 3 horas e 57 minutos de voo. Perda total da aeronave e dos 5 tripulantes.
- Viagem 074-regresso. Não foi cumprida devido ao acidente constante na travessia anterior (074-ida). Seria a etapa Natal-Dakar.
A primeira travessia foi efetuada de 12 para 13 de maio de 1939, com o monomotor Late 28, matrícula F-AJNQ, sendo o primeiro voo realizado para o Brasil com malas postais. Apenas 3 tripulantes: Mermoz (piloto), Darby (navegador) e Gimié (radiotelegrafista).
A última (512, ou 256-refresso) ocorreu em 2 de julho de 1940, voando o F-AQCX de Natal para Dakar, com cinco tripulantes e tempo de voo de 15 horas e 51 minutos. A Air France suspendeu as atividades por se encontrar a Europa imersa na 2ª. Guerra Mundial.
O nome de Exupéry não consta nas relações de viagens. A empresa, que contava com treze aeronaves, destinava-se unicamente ao transporte de malas postais; em apenas dezenove travessias foram incluídos vinte e dois passageiros e esses somente viajaram com autorização expressa do presidente da companhia. E Exupéry não consta nessa relação.
O quadro de pessoal “aeronavegante”, na época pesquisada (1930-1940), compunha-se de dezessete comandantes, quarenta e um copilotos, 12 navegadores, dez radiotelegrafistas e 15 mecânicos; desse grupo de noventa e cinco tripulantes que operavam no Atlântico Sul, não é encontrado o nome de Exupéry.
O historiador Hipólyto pesquisou toda a documentação antiga referente a vôos de chegada e saída de Natal para outros países. E o nome de Exupéry não está entre os demais. Pesquisou também nos anais da Air France e informaram que ele nunca fez tal voo.
Interessante é o fato de Exupéry, enquanto escritor portador de uma verve literária de extrema sensibilidade, não ter registrado nada sobre Natal, acaso aqui tivesse colocado os pés. Concordam?
Diante desse quiprocó, por que insistem tanto se existem provas que ele nunca veio ao Rio Grande do Norte. Segundo o autor, a explicação é simples. Exupéry foi convidado pela Argentina a ocupar a gerência da Companhia Latécoère em Bueno Aires. Exupéry deixou a França viajando em navio de grande porte, chegando a capital portenha em outubro de 1929. Na ida o navio fez escala no Rio de Janeiro e Santos. No Rio ele teve algumas horas para conhecer a cidade, prosseguindo a viagem rumo a Argentina.
Regressando à França, após pouco mais de um ano, novamente por via marítima, Exupéry passou pelas mesmas localidades da ida. Tanto na vinda da Europa como no regresso para a França. Tanto na vinda de Europa como no regresso para a França, não ocorreu atracação no porto de Natal.
No livro “O caminho do avião”, de autoria de Luís da Câmara Cascudo, ele apresenta uma série de reportagens escritas de 1922 a 1933, acerca de 33 reides famosos com passagem para Natal. Por que o mestre da história do Rio Grande do Norte haveria de ter esquecido justamente de nome tão famoso e representativo? É lógico, ele não esqueceu, afinal Exupéry não esteve por aqui.
Os aviadores franceses também participaram das travessias aéreas do Atlântico Norte, existindo registros de 12 viagens de longa duração, consideradas “experimentais” e decorridas nos anos de 1938 e 1939.
As informações constam da publicação “La Ronde S’Arrête”, de autoria de George Bouchard, o qual tomou parte de todas as viagens.
Um registro importante na viagem n. 7 transcorrida de 7 a 10 de julho de 1939, Saint-Exupéry viajou como passageiro em aeronave de matrícula F-NORD, sob comando de Guillaumet, umas das “estrelas” da aviação francesa.
Regressou à França (viagem n. 8) deixando os Estados Unidos em 14 de julho de 1939, com a mesma tripulação e novamente na condição de passageiros.

E, AFINAL, QUEM FOI EXUPÉRY?

Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, seu nome de batismo, tinha a aviação como fonte de ação heróica e novo tema literário: exalta a aventura com riscos de vida como suprema realização humana. Sua obra é o testemunho singular de um piloto de guerra com a alma de poeta.
Nasceu em Lyon, na França, em 29 de junho de 1900, oriundo de família aristocrática empobrecida. Obteve licença de piloto em 1922, no serviço, e quatro anos depois ingressou na aviação pela Latécoère. Ajudou a implantar rotas de correio aéreo na África, América do Sul e Atlântico Sul, além de ter sido pioneiro nos vôos Paris-Saigon e Nova York-Terra do Fogo. Nessa época, publicou seu primeiro livro Courrier-Sud (1929 – Correio Sul).
Exupéry soube aliar – e daí talvez a razão do seu permanente sucesso – a sensibilidade do artista a uma visão de mundo caracterizada pela autenticidade de quem só escreveu sobre o que de fato viveu. Permanentemente preocupado com os acontecimentos que o circundaram, seus livros refletem os problemas da sociedade e dos indivíduos de sua época. O despojamento do estilo, a narrativa direta, a linguagem depurada de tudo que não contribui para a expressão concreta e imediata do que o escritor deseja contar, estão a serviço de um objetivo presente na obra inteira de Exupéry: o de dignificar a condição humana, o de reivindicar a sua essencial liberdade, sem abrir mão da complexidade – não raro feita das mais dramáticas contradições – que a define.
Na década de 1930, trabalhou como piloto de provas, adido de publicidade para a Companhia Aérea Air-France e repórter do Paris-Soir. Nomeado diretor da Cia. Aeroposta Argentina, exerceu o cargo até 1931. Em seu segundo romance, Vol de nuit (1931 – Voo noturno), exaltou os primeiros pilotos comerciais, que enfrentavam a morte no cumprimento do dever. Registrou suas próprias aventuras em Terre dês hombres (1939 – Terra dos homens).
Em 1939, apesar das dificuldades físicas causadas por acidentes aéreos, serviu na aviação aliada. Com a queda da França em poder dos Nazistas, fugiu para os Estados Unidos. Ali, escreveu Lettre à um otage (1943 – Carta a um refém), exortação a unidade dos franceses, e Le petit prince (1943 – O pequeno príncipe), fábula infantil para adultos , traduzida no mundo inteiro. Seu pessimismo aparece em Citadelle (1948 – Cidadela), volume póstumo de reflexões, no qual expressa a convicção de que o homem deve ser repositório dos valores da civilização. Em 1943, voltou à força aérea no norte da África e morreu em missão, 31 de julho de 1944, participando de uma esquadrilha de bombardeiros da libertação da Sicília. Tendo ultrapassado o limite de idade para continuar pilotando, recebe a permissão para realizar mais cinco missões de reconhecimento. Numa delas desapareceu para sempre no mar.
Exupéry nunca se sujeitou à classificação de escritor profissional. De personalidade irriquieta, nada em sua formação (foi péssimo aluno) fazia crer que viesse a se tornar autor dos excepcionais livros que escreveu. Herói da segunda guerra mundial, dedicou todo o seu trabalho literário à defesa daquilo que o levou a morrer: a liberdade do homem.

CONCLUSÃO

Ficam aqui as provas de que Antoine de Saint-Exupéry esteve em Natal, sim, mas na imaginação fértil de tantos que preferem acreditar na “história da carochinha”, se pautando pelo hábito de dizer “foi fulano quem falou”, “ouvi dizer”, “dizem que” ou “o povo é quem diz”. Tal comportamento me recorda o depoimento de Rita Ribeiro, uma professora da UFMA, a qual, durante o lançamento do seu polêmico livro “Ana Jansen” – ocasião em que estive presente – informou à platéia que sofreu muitas críticas e até ameaças por ter revelado em seu livro a verdade sobre a referida personagem.
Nas suas pesquisas aprofundadas ela descobriu (com provas documentais) que figurões da história do Maranhão, com os seus nomes dados à diversas instituições, com direito a placas de bronze e enormes letreiros, foram verdadeiros crápulas. Nesse caso não me refiro a Exupéry, mas ao fato de existirem pessoas que, mesmo descobrindo a verdade, provada por documentos, preferem contar e recontar mentiras em livros e em palestras, prestando desserviço à história. Isso se agrava quando quem o faz muitas vezes atende ao adjetivo de “historiador ou “escritor”.
Ao apresentar as provas documentais, Hipólyto finalizou dizendo “E o tempo se encarrega de transmitir às novas gerações disparatados epílogos que não traduzem a realidade. De minha parte, posso afirmar à luz da História e com o apoio da documentação em meu poder, e ainda sem qualquer vacilação, que Antoine de Saint-Exupéry nunca esteve em Natal”.
Um fato bem curioso ocorreu em Natal, recentemente, quando o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, muito sensato e prudente, cancelou o projeto de colocar uma estátua do aviador francês na “Praça-do-pôr-do-sol” – que atendia sugestão justamente das pessoas que prestam desserviço à história -, as quais afirmavam que naquele lugar Exupéry costumava “assistir o crepúsculo vespertino sobre o rio Potengi”. Carlos Eduardo, com certeza constatou que, de todas as informações que dizem do Francês, ditas como passadas em Natal, nenhuma foi comprovada – nem com fotos – nem com escritos.

Referências:

- BARSA, Enciclopédia 2000, vol. 13; p.3

- EXUPÉRY, Antoine de Saint. Correio Sul, 1981, 13ª ed. N. Fronteira
- Diário de Natal, 20.4.2008 “Exupéry aqui? Impossível
- FREIRE, L. Carlos, “Os baobás de Nísia Floresta”. 1999, 40 p. fl. dig./ Folhas avulsas de anos avariados.












terça-feira, 16 de novembro de 2010

CASA DE PEDRA DE PIRANGI – UM REGISTRO SOBRE AS PRIMEIRAS CONSTRUÇÕES SÓLIDAS DO BRASIL

As primeiras construções erguidas em nosso país foram de taipa e pilão e cobertas de palha, as quais tiveram existência efêmera. As paliçadas foram substituídas por muralhas mais eficazes de pedra e cal, e posteriormente as pequenas capelas foram reconstruídas em alvenaria e depois substituídas por igrejas. Dessa forma o conceito de construção foi adquirindo uma conotação mais densa, sempre evoluindo para materiais mais duráveis e resistentes.

A Casa de Pedra de Pirangi do Sul, no município de Nísia Floresta, antiga Papary, apesar de não ter relevância arquitetônica, representa um marco das construções sólidas em solo brasileiro nas primeiras décadas do seu descobrimento.

Em fevereiro de 1992, disfarçado de turista, conheci a Casa de Pedra de Piranji do Sul, localizada à margem direita do rio também denominado Piranji, próximo à sua barra, a cerca de 1 km da rodovia de acesso a Piranji do Norte, em Parnamirim, e fiquei impressionado por estar diante de ruínas que aparentavam ter alguns séculos. Senti-me um Fawcet. Reforcei a ideia antiga e que precisa ser alardeada que “o Brasil começou realmente pelo Nordeste”, mas não imaginava que aquele conjunto arquitetônico fosse datado de 1570, ou seja, da época em que o Brasil tinha apenas 70 anos.

Um mês depois o destino me levou às salas de aula para construir o conhecimento com alunos habitantes das terras onde se encontrava aquele monumento fascinante. Não perdi tempo. Organizei uma programação de conteúdos que culminou com aulas de campo em diversos pontos históricos do município de Nísia Floresta, no qual se incluía – logicamente – a Casa de Pedra de Piranji: a menina dos meus olhos. Foi muito proveitosa aquela visita.

Antes da visita, fui ao Instituto Histórico e Geográfico para conhecer Olavo de Medeiros Filho, um historiador, autor de diversos livros, os quais li alguns e fiquei apaixonado pela região e pelas informações que aquele mestre garimpara ao longo de suas pesquisas. Depois, na condição de Bolsista de Iniciação Científica na UFRN, acabei acompanhando-o em pesquisas durante quatro anos.

O professor Olavo, muito gentil, atendeu-me por sucessivas tardes e sentia prazer em ser perguntado. Vendo aquilo, explorei-o até o máximo, não apenas sobre as ruínas da velha casa, mas sobre assuntos inúmeros. Mesmo após a visita à Casa de Pedra de Piranji do Sul, com os alunos, continuei visitando-o no IHGRN, inclusive qualquer dúvida que eu tinha ligava imediatamente para ele, o qual a sanava ou orientava-me onde buscar a informações. Isso deu-se de 1992 a 2003, ano em que ele faleceu.

Não existe muito material primário sobre o assunto, apenas breves registros de época, garimpados pelo professor Olavo no IHGRN, os quais fazem referência á referida Casa de Pedra, construída pelos franceses para guardar madeira e outros produtos retirados da costa de Nísia Floresta, os quais eram levados para a França. Atualmente a propriedade pertence ao dr. Silvino Lamartine de Faria.

A referida Casa Forte teria sido construída por volta de 1570, por iniciativa dos franceses, em pleno ciclo econômico do pau-brasil. A edificação teria sido feita para servir de aquartelamento e armazenamento de mercadoria (penas de avestruz, âmbar, algodão, peles, pimenta, aves, essências, pedras preciosas etc). O pau-brasil ficava armazenado em galpões, no pátio externo daquela casa de pedra.

Os estudiosos chegam a essa suposição a partir de uma correspondência dirigida pelos filhos do donatário João de Barros, ao rei de Portugal, reclamando providências contra a presença francesa na capitania que lhes coubera por herança paterna. Informavam ainda que os franceses “todos os anos vão a ela carregar pau-brasil por ser melhor de toda a costa. E fazem já casas de pedra em que entram em terra fazendo comércio com o gentio”
 
Esse documento, sob a guarda do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, integra um acervo raro e manuseado somente por especialistas. Logicamente que a elucidação de detalhes sobre esse patrimônio poderá ser feita a partir de uma pesquisa arqueológica no local, mas isso ainda não aconteceu.

Considerando-se os fatores econômicos que determinariam a construção dessa casa de pedra, é claramente provável que se trate do único vestígio concreto de traficantes franceses no litoral potiguar. Sabe-se que no início do século XVI os franceses viviam fincados na costa potiguar, principalmente nessa área que viria a se tornar o município de Nísia Floresta. Na época o local era chamado de “Porto de Búzios”, mas que na verdade era a barra do rio Piranji. 
 
A julgar tela intensidade da movimentação, é natural que aquele freqüente movimento de escambo exigisse a construção do armazém com a finalidade de ali serem guardadas as mercadorias. Sobre isso Luís da Câmara Cascudo (1954) escreveu: “Em 1597, Mascarenhas Homem, capitão-mor de Pernambuco, flagrou no Porto de Búzios, sete caravelas recebendo carregamento de pau-brasil por traficantes franceses, prática esta iniciada décadas antes”. Esse número elevado de embarcações dá ideia da quantidade surpreendente de árvores retiradas da costa potiguar e permite-se deduzir que fazia-se necessário realmente um lugar para armazenamento antes do embarque. Em 1587, o Porto de Búzios era o mais importante entreposto comercial da Capitania do Rio Grande.
 
A Casa de Pedra de Piranji do Sul, segundo Nesi, é uma construção de alvenaria de pedra e cal. Apresenta um partido de planta retangular, com 23 m de cumprimento e 14,69 de largura. Apesar de encontrar-se em estado de ruínas, ainda apresenta trechos inteiriços de paredes que mantém uma altura constante com um pé-direito de três metros. Supõe-se que sua cobertura tenha sido de quatro águas.

A distribuição interna da casa é constituída de três amplos cômodos: salão dianteiro com 13,37 m de frente por 5,13 m de fundos, um salão intermediário com a mesma largura do primeiro por 10,15 m de fundos. No salão intermediário, há vestígios de alicerces de outras paredes que dividiam o cômodo ao meio, por uma circulação central.

Esta curiosa construção, que não possui mais esquadrias nem coberturas, e nunca foi revestida de reboco, apresenta peculiaridades que merecem estudos mais profundos. É o caso de um determinado espaço, o qual os arquitetos denominam “seteiras”, os quais se afunilam da face externa das paredes até o interior, recurso bastante utilizado nas edificações antigas, principalmente na arquitetura militar, cujo objetivo era a defesa do prédio.
 
A distribuição daquelas seteiras não segue nenhuma relação de ordem. As portas também apresentam larguras variadas (entre 1m a 1,10 m). A casa é vazada por muitas janelas e possui um nicho na parede dos fundos.
 
Verifica-se nessas seteiras a presença de arcos abatidos em todas as envazaduras, cujo emprego no Brasil somente verifica-se a partir do século XVIII. Todavia, tem-se conhecimento da utilização desse tipo de arco em construções do século XIV, como é o caso da torre medieval de Alcofra, em Beira Alta, em Portugal.

Nota-se que a construção está situada em local estratégico, e foi erigida de forma a se permitir a quem estivesse do lado de dentro da casa ter ampla visão de possíveis invasores que se aproximassem externamente. As seteiras, nesse caso teriam fundamental utilidade, pois serviriam de ponto estratégico de ataque aos intrusos – que deveriam ser muitos.

Em meados do século passado grande parte das pedras que formavam as paredes do prédio foi retirada para as obras da construção de uma capela, na localidade Alcaçuz, conforme me contou o vereador Pedro Mesquita, morador de Alcaçuz. O proprietário do Sítio dos Coqueiros, dr. Silvino, proibiu tal prática, evitando, assim, a destruição da primitiva casa de pedra.

Apesar de abandonada e exposta às intempéries, a casa de pedra continua resistindo, podendo significar o registro da primeira obra arquitetônica do Rio Grande do Norte. OBS. A casa de pedra de Piranji do Sul não pode ser confundida com o engenho onde houve um massacre após o massacre de Cunhaú. Esse se deu em Barra de Tabatinga, conforme farta documentação que menciona esse topônimo como o engenho onde se deu o fato.