ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

ESTRADA COLONIAL DE PAPARI – POVOADO DE CURURU – TOPONÍMIA: UM CONTEXTO PARA A COMPREENSÃO DA HISTÓRIA DO MUNICÍPIO DE NÍSIA FLORESTA E SÃO JOSÉ DE MIPIBU NOS SÉCULOS XVI A XIX.



 Por Luís Carlos Freire – Outubro/2000.

A história das estradas é tão antiga quanto à história do homem. Elas antecedem a era cristã, pois desde os primórdios a humanidade necessitou caminhar de uma região para outra em busca de interesses diversos. Quando Abraão (c.2000 a. C.) guiou o seu povo para a Terra Prometida, deixou a Caldéia e empreendeu viagem a Canaã para dar origem ao povo de Deus. Para realizar tal façanha Abraão abriu um novo caminho, até chegar à região desconhecida.
O surgimento de uma estrada ocorre a partir de um objetivo, no qual estão implícitos a necessidade de sobrevivência, o espírito aventureiro e a curiosidade natural do homem de buscar o desconhecido. Os povos nômades tinham como tradição permanecer um período em determinada região, e quando entendiam que esta estivesse estagnada pela exploração, deixavam-na em busca de novas terras. Dessa forma, abriam picadas no interior das matas aparentemente inacessíveis, vencendo animais selvagens, peçonhentos e os acidentes geográficos, sem imaginar que os resquícios de alguns desses caminhos transformar-se-iam, no futuro, em estradas, e que muitas delas seriam aproveitadas por colonizadores que um dia chegariam naquela localidade.
Isso aconteceu também em nosso país, pois muitas comunidades indígenas eram nômades e acabavam construindo uma verdadeira malha viária no Brasil pré-cabraliano. Com o “descobrimento” do Brasil e a participação jesuíta, esses religiosos idealizaram os aldeamentos justamente para conseguir restringir as comunidades indígenas a um local específico, quebrando-lhes o hábito do nomadismo que tanta dificuldade trazia para a catequese católica. Com tal estratégia foram “aldeados” em São José de Mipibu os indígenas do próprio local, os de Papari e de outros locais. Nessa região, tal prática deu-se através dos padres Capuchinhos, pois só assim conseguiriam incutir-lhes a doutrina católica.
Para melhor compreensão sobre o surgimento das primitivas estradas, pode ser analisada a informação de MEDEIROS (1985, p. 90): “[...] Donos do litoral, os potiguares da nação Tupi alongaram os seus domínio desde os limites da Paraíba (Guaju), até o Ceará, na direção sul-norte. De Natal para o sul, no vale do Capió, pontificaram nos limites da praia dos marcos de Baía Formosa, os nomes de Pau Seco, Sorobobé e Ilha Grande, chefe que foram dos Paiaguás, que tiveram seus campos nos atuais municípios de Vila Flor, Canguaretama, Pedro Velho, Várzea e Espírito Santo; dos Jundiás, que ocuparam Lagoa Salgada, Vera Cruz e Bom Jesus; e os Guaraíras, que habitavam Arês, Nísia Floresta, São José de Mipibu, Macaíba, Parnamirim, até Januário Cicco.”Analisando essa geografia indígena, supõe-se a existência de caminhos primitivos no litoral. Nesse caso, o autor refere-se aos domínios dos Potiguares numa extensão entre o Ceará e a Paraíba. Esse mesmo raciocínio pode ser considerado para refletir-se sobre a região litorânea do Brasil e, obviamente, das três Américas, cada uma com suas nações indígenas, tendo em vista que esses continentes já eram habitados há milhares de anos.
Diante disso, faz-se necessária uma análise aprofundada sobre o primitivismo humano em terras brasileiras, e em especial, nesse caso, na região entre Natal e as proximidades com a Paraíba. Abre-se um leque de hipóteses sobre a origem das comunidades indígenas, inclusive os caminhos construídos pelas mesmas. No caudal dessas discussões surgem até mesmo lendas – ou o que, até então é entendido dessa forma –, pois há quem defenda a ideia de que povos fenícios, já estiveram por aqui muito antes de Cristo, inclusive alguns deles no Rio Grande do Norte.
Existem teses, inclusive, que defendem a possibilidade de Pedro Álvares Cabral, ter chegado ao Brasil de posse de informações escritas antes de Cristo, conforme diz BRANCO (1971, p. 55) “[...] Foi Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil em 1500 (d.C.) ou navegadores Fenícios em 1100 (a. C.)? Cabral o terá descoberto por acaso, como narram os compêndios de histórias, ou ele já conhecia, detalhadamente, a descrição feita pelo historiador grego Diodoro, ao século I antes de Cristo, na sua História Universal?”. De acordo com alguns estudiosos, muito antes de Cristo algumas civilizações primitivas dominavam talentosamente a arte da navegação.
Fazem-se necessárias discussões sobre o assunto, inclusive sobre as intrigantes inscrições tidas como fenícias da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, datadas de 2800 anos a. C.
Robert Marx (Folha de São Paulo, 23.09.1982), norte-americano, mergulhador profissional e arqueólogo, considera o Brasil “o país mais rico do mundo em pesquisa arqueológica marinha”. O pesquisador fez questão de ir ao Rio de Janeiro para analisar ânforas encontradas em 1977 na Baia da Guanabara, RJ, atribuídas aos fenícios. PESQU. Mas esse assunto foge da proposta desse texto.
A inexistência de material historiográfico no município de Nísia Floresta, São José de Mipibu e região – fruto da falta de educação de muitas autoridades que tem passado pelo poder – somada à falta de pesquisas e investigações sistemáticas por parte de órgãos competentes, levam a população ao desconhecimento de episódios importantes do seu passado enquanto cenário de desbravamento durante as primeiras décadas do descobrimento do Brasil. Os resquícios da estrada colonial entremeada com o centro de Papari (Nísia Floresta) e o litoral, passando por Cururu, a qual interligava-se com diversos pontos do país, é um exemplo digno de estudos aprofundados, e pode ter sua origem no contexto do nomadismo tratado anteriormente, podendo ter sido aproveitada pelos portugueses quando aqui chegaram.
Após o descobrimento do Brasil, houve um arrastão encampado pelos portugueses à procura de ouro e outras riquezas, inclusive no Rio Grande do Norte. O país passou por trezentos anos de isolamento por parte de outras nações, embora alguns países conseguiram furar o cerco e chegar ao Mundo Novo e explorar pau-brasil. Sabe-se que em 1501, Gaspar de Lemos veio ao Rio Grande do Norte, a mando do Rei de Portugal para oficializar – ou pelo menos tentar – o domínio português. Foi chantado no solo de Touros, região situada no litoral norte de Natal, na chamada Região do Mato Grande, o primeiro marco português no Brasil. Logo em seguida teve início a abertura das primeiras picadas, aproveitando os primitivos caminhos para dar vazão ao enxame de portugueses esganados que faziam dessas veredas, verdadeiras quinta avenida, ávidos por interesses diversos.
As informações sobre o Brasil eram guardadas sob sete chaves pela maioria dos portugueses, os quais visavam impedir que outras nações tomassem conhecimento das riquezas aqui existentes, pois grande era a curiosidade do Velho Continente. Mas como nem todos possuíam os avanços náuticos dos lusitanos – sofisticados para a época – poucos arriscavam-se a navegar pelos perigosos e lendários mares. Em 1504, franceses PESQ. fizeram incursões pelo litoral brasileiro e passaram a explorar pau-brasil durante décadas, escondidos ou sob a cumplicidade de muitos portugueses corruptos.
Para atingir os seus objetivos, os lusitanos cuidaram de preparar terreno, conquistando as comunidades indígenas com quinquilharias trazidas do Velho Mundo e trocadas por madeiras nobres, essências vegetais, especiarias, minérios baratos, objetos indígenas, animais e outros. A mesma surpresa que a civilização de Pindorama (País das Palmeiras) sentiu com os souvenires portugueses foi sentida em Portugal, ao receber esses exóticos produtos e as notícias de que por aqui existiam milhares de pessoas nuas pelas matas, vivendo de forma selvagem.
Logo após o descobrimento, os portugueses começaram a desenhar os primeiros mapas e cartas náuticas com o intuito de facilitar a movimentação dos empreendimentos que sucederiam-se. Inicialmente pelo litoral, e depois, pelo interior do país.
Caravelas portuguesas e francesas atracavam na região a qual está situada o município de Nísia Floresta, no porto de Búzios, e retornavam para a Europa, abarrotadas de pau-brasil. Milhares de búzios (cypraea moneta, linneu) foram levados para a África, onde serviam de moeda. Era uma festa. Os portugueses queriam apenas vantagens, relegando as comunidades indígenas a meros selvagens sem discernimento. Em 1564, Antonio Pinheiro, procurador de João de Barros, arrendou trechos de terras para corte de pau-brasil e colheita de búzios na praia homônima.
O Rio Grande do Norte viu seus mares tornarem-se pequenos para as esquadras provenientes do Velho Mundo. As comunidades indígenas surpreendiam-se com os objetos estranhos chamados de “caravelas” e “naus”, navegando mansa e silenciosamente pela costa potiguar, atracando também em Touros, Ponta Negra, “Pirangypepe” e Barra de Tabatinga, numa precursora ação de tráfico de madeira em terras brasileiras.
Num alvará datado de 1561, assinado pelo rei de Portugal, o porto de Búzios até então era denominado “Pirangypepe”, depois “Pyrangipe”, em língua tupi aportuguesada. Não se tratava da atual praia de Pirangi. Somente mais tarde houve a diferenciação, na qual a praia vizinha passou a ter esse nome.
Em 1570 os holandeses construíram em Pirangi uma imensa casa de pedra para guardar madeira e outros produtos, cujas ruínas ainda resistem. A estrada colonial contempla a primitiva construção. Entre 1571 a 1580, os cartógrafos Fernão Vaz Dourado e Jaime Cortesão organizaram vários mapas, nos quais aparecem nomes conservados até hoje, salvo pequenas diferenças de grafia, como Piranji, Tabatinga, “Camarapim”, lagoa Papary e rio Pirangi, onde era explorado o pau-brasil.
Em 1587 Gabriel Soares de Sousa, descrevendo a seção de terra entre o Cabo de São Roque e o Porto de Búzios, em seu “Tratado Descritivo do Brasil”, cita diversos pontos onde os franceses retiravam pau-brasil, dentre eles, Búzios e Tabatinga, em Nísia Floresta.
Há registros de que, em 1597, Mascarenhas Homem, capitão-mor de Pernambuco, flagrou no Porto de Búzios, sete caravelas recebendo carregamento de pau-brasil por traficantes franceses, prática esta iniciada décadas antes. Esse número elevado de embarcações dá ideia da quantidade surpreendente de árvores retiradas da costa potiguar.
Pouco depois, a Holanda lançou o seu olhar de cobiça ao Brasil, precisamente em 1621, quando comerciantes desse país, com a cumplicidade temporária de alguns portugueses – diga-se de passagem – passaram a dominar a navegação para o Brasil, graças a um intenso contrabando estabelecido por testas de ferro com origem no Porto e em Viana do Castelo, em Portugal. À época, quinze mil toneladas de açúcar chegavam aos países baixos, provenientes do Nordeste brasileiro.
Em 1624, com a intenção de tomar o domínio português, os holandeses invadiram a Bahia, mas fracassaram. Em 1630, invadiram Pernambuco e Paraíba, permanecendo ali em constantes conflitos. Nesse mesmo ano mandaram o holandês Adrien Verdonck espionar o Rio Grande do Norte, invadindo-o, quatro anos depois, quando dominaram a Fortaleza dos Reis Magos e mudaram o seu nome para Forte Keulen, e Natal para Nova Amsterdam (1633 a 1654).
Em 1637 chegou ao Brasil o militar e administrador holandês Johan Mauritz van Nassau-Siegen (1604-1679), o famoso “Maurício de Nassau”. Homem culto e visionário, o qual trouxe Georg Marcgrav (1610-1644) que tornaria-se autor dos primeiros mapas do Brasil, Willen Piso (ambos cientistas naturais), e Frans Post, Albert Eckhout e Zacharias Wagener, pintores retratistas. É iniciado um período de reconstrução em Recife e Olinda com inovações na arquitetura e no urbanismo. Durante esse período Marcgrav empreendeu várias expedições pelo Nordeste, em caráter cartográfico, inclusive esteve na Fortaleza dos Reis Magos e obviamente percorreu toda a costa do Rio Grande do Norte, pois a representou em mapas com a mesma característica atual. Os holandeses, diferentemente das relevantes contribuições dadas a Recife, nada fizeram de interessante entre Natal e Arês, áreas estas vasculhadas por eles, exceto elaborar importantes registros e mapas.
Num documento datado de 1607, provavelmente escrito pelo jesuíta Gaspar de Samperes, a região de Nísia Floresta é mencionada como “Uparari” e “Ipapari”, embora não refira-se exatamente ao povoado, mas a lagoa (ou rio) Papary. Diante disso é possível supor que o nome da localidade Papary (hoje Nísia Floresta) veio depois, numa alusão a sua paradisíaca lagoa.
Em 1640, o padre Manoel de Moraes registrou a lagoa Papary com o nome de “Para-Wassu”. Em 1643, Marcgrav a registrou como “Paraguaçu”. A cartografia de Marcgrav nomina várias localidades que hoje encontram-se em área nisiaflorestense, como “Piranhi” (Pirangi), Barra de Tabatinga, Camurupim, “Búsios” (Búzios) e “Upari” (Papary). Observando esse mapa, constata-se uma estrada que ligava Pirangy ao engenho de João Lostau Navarro, em Barra de Tabatinga; a partir daí seguia rumo ao sudoeste. Entre as lagoas “Ipuxi” ou “ipu-xim”, depois “Puxi” (atual lagoa do Bom Fim). Logo a seguir chegava-se á margem esquerda do rio Trairi.
Atravessando-a contornava-se a atual lagoa Papary, pelo lado oriental, procedendo-se da mesma maneira com relação à lagoa de “Guiraraira” (Guaraira) em Arês, até chegar ao Engenho Cunhaú. Marcgrav aponta também o local “Cururu-açu”. Será o antigo povoado de Cururu, localizado em Campo de Santana? É possível, pois pesquisando antigos mapas e topônimos indígenas do Rio Grande do Norte, não encontra-se outro Cururu nessas proximidades. Câmara Cascudo informa que em 1676 havia a lagoa “Paraguaçu” e o rio “Papari”, elementos naturais distintos.
Sobre o vocábulo “Papary”, na realidade, é uma criação do homem branco, o qual fez uma mistura (a seu modo) com os vocábulos de língua tupi: “pari”, “ipa” ou “upa”. Não existe o vocábulo “Papary” em língua indígena, assim como não existe o vocábulo “mipibu”. Ademais, boa parte dessas palavras indígenas, registradas por europeus em velhos documentos, eram escritas “de ouvido”, ou seja, conforme escutavam os índios ou os próprios portugueses pronunciá-las. É por isso que existem tantas formas parecidas e com acepções confusas.A propósito, o nome Papari aparece tanto com “i” quanto com “y” ao longo de históricas referências documentais.
Retomando o contexto das estradas, CASCUDO (1954, p. 88), referindo-se aos municípios dominados pelos holandeses (Canguaretama, Goianinha, Arês, São José de Mipibu, Papary, Natal Macaíba, o antigo São Gonçalo e o vale do baixo Ceará-Mirim), escreveu:
“O mapa de Marcgrav, que é mais informativo, dando até os itinerários desde Sergipe, registra a B. de Paba, que é a Baia de Genipabu, de Domingos Martins ou Martins Thyssen [...] Pelo interior dos municípios possuídos pelo holandês, ia-se até Piquiri, Pedro Velho, toda a redondeza das lagos de Guaraíras, Papeba e Paraguaçu (Papari) e São José, várzeas de Jacu, Baldum, Sapé, Capió, tabuleiros para Cajupiranga, Pitimbu e Natal, incluindo os vales úmidos de Maxaranguape”.Vê-se nessa descrição o início do itinerário informando Sergipe, assinalando a existência da estrada aqui tratada. Mais adiante complementou “A região mais povoada e trabalhada pelo flamengo foi o agreste, Natal até Canguaretama, perto dos rios torrenciais, população mais ou menos garantida pela proximidade das guarnições holandesas, comboiadoras dos produtos para Recife, embarcando-se para Natal e nos portos da embocadura dos rios (Pirangi, Camurupim, Barra de Cunhaú) para a cidade maurícia. Todo o sertão constituiu mistério, rasgado durante a guerra dos cariris, na década final do século XVII” (op. cit. p. 89).Refletindo sobre tais mapas e referências é possível imaginar que por aqui existia um complexo de caminhos que interligava-se com a estrada colonial do litoral, tendo em vista a exploração de produtos embarcados nos portos localizados em pontos distintos da costa potiguar. Tais vias logicamente não eram oficiais, consistindo em veredas que seguiam um curso definido, mas desconforme devido aos acidentes geográficos. Ademais, a Coroa Portuguesa proibia a construção de estradas. Sua autorização oficial viria trezentos anos após o “descobrimento”. Sobre isso, GOMES (2010, p. 193/4), referindo-se a um período da história do Brasil, informa que “[...] Sua construção estava oficialmente proibida por lei desde 1733, com a desculpa de combater o contrabando de ouro e pedras preciosas”. Se foi necessária uma lei específica para proibir a abertura de estradas no Brasil, certamente as mesmas estavam em clandestina proliferação. A abertura oficial foi autorizada em 1808, por D. João VI, ainda em sua escala em Salvador. Somente a partir daí rompeu-se o isolamento que vigorava entre as províncias. Em 1809 foi aberta uma estrada de 800 quilômetros entre Goiás e a região Norte do país e aberto novos caminhos entre Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo e o norte do atual estado do Rio de Janeiro.
Sobre a região de Papary, a cartografia de Marcgrav mostra uma curiosa ramificação de caminhos ligando Cururu a Malembá (em Georgino Avelino), rumo à Paraíba, pelo litoral. Esse último trecho, diferente dos demais, encontra-se muito evidente. Porém, alguns trechos, inclusive um adquirido recentemente por europeus, exatamente a fazenda que pertenceu a Domício Andrade (entre Camurupim e Barreta), encontra-se com o trânsito interrompido por porteiras com cadeados, valas e troncos de coqueiro, numa clara manifestação de impedimento intencional. Como pode-se constatar, trata-se de uma das mais antigas estradas do Brasil.
Quando Marcgrav elaborou tais mapas, logicamente documentou o que viu. Isso permite-se acreditar que tal estrada era trilhada por europeus nas primeiras décadas do século XVI e pode ter sido caminho dos nativos.
Em 1974, o antigo povoado de Cururu ficou submerso durante inverno intenso e rigoroso, forçando os nativos a procurarem terras mais altas. Após a famosa “cheia de 74”, a qual trouxe conseqüências sentidas até hoje, o local foi abandonado, mas ainda conserva resquícios de um conjunto secular, destacando uma capela colonial, um cemitério em ruínas, e túmulos com características interessantes. O ponto de apoio dos que deserdaram o velho Cururu deu origem ao atual distrito de Campo de Santana, um dos mais povoados de Nísia Floresta.
Cururu resiste, inexplicavelmente ignorado – ou desconhecido – pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Fundação José Augusto (FJA). O local pode ser celeiro de importantes descobertas, tendo em vista provavelmente consistir num sítio arqueológico. A resistência das ruínas de Cururu em não desaparecer de vez, talvez sinalize o grito silencioso da história, cujas investigações pertinentes poderão explicar as origens do município de Nísia Floresta. Faltam apenas olhos de especialistas e ações institucionais.
A julgar pela cartografia e a óbvia movimentação ocorrida nessa estrada entre os séculos XVI a meado de XX, não seria peripécia supor a possibilidade de o povoado de Cururu ser muito mais antigo que o próprio centro da cidade de Nísia Floresta, considerando que seu monumento mais antigo – a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó – “Já aparece nos assentamentos eclesiásticos remanescentes, em 1727” (FILHO, 1991, p. 42) –, ou seja, 16 anos após o mapa de Marcgrav.
Cururu originalmente teria surgido como estalagem? De quem? Portugueses, franceses, holandeses ou dos próprios nativos? Por situar-se às margens da referida estrada colonial, pode ter funcionado inicialmente como ponto de descanso de viajantes, dando origem à povoação, conforme surgiram tantas cidades brasileiras. Ademais, não é difícil supor que tal estrada fosse apenas um trecho que serpenteava todo o litoral brasileiro, unindo o Amapá ao Rio Grande do Sul pela costa brasileira. A origem dessa estrada seria uma picada aberta pelos índios que habitavam Pindorama? Cururu teria surgido de uma aldeia indígena?
O presente estudo, além de trazer à tona esse assunto pouco conhecido, deve chamar a atenção de todos os potiguares, principalmente autoridades do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, e da Fundação José Augusto, de Natal, e os próprios nisiaflorestenses, os quais, por ignorarem aspectos importantes da sua história, deixam de imporem-se como responsáveis por esse cenário histórico, digno de preservação, revitalização, divulgação e decente exploração turística.
A Estrada Colonial de Papary, se recebedora do estudo necessário e políticas públicas voltadas para o turismo histórico, cultural e natural, poderá ter representatividade similar às famosas Estradas Coloniais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, e dessa forma terá autoridade para legitimar-se como uma das mais antigas estradas do Brasil. Isso atrairá o turismo e possibilitará projetos educacionais junto a diversas instituições, inclusive educacionais. E, mais importante, explicará as raízes desse lugar, até porque um povo que não identifica o seu passado não tem identidade. Um povo que não preserva a sua história não tem valores. O patrimônio, seja material ou imaterial, é o retrato do tempo e mostra quem somos.
Este estudo é apenas uma camada sutil, retirada de sobre um profundo poço de curiosidades históricas de nossa região. Esse poço – região – precisa ser cavoucado.
Segue, abaixo, os significados dos topônimos indígenas, exceto Baldum, empregadas neste texto:
- Baldum: Não é vocábulo indígena.
- Cajupiranga: (“acaiú-piranga”): o caju vermelho.
- Camurupim: “acamoro-pim”: ter a cabeça dura, rija (nome de uma das praias de Nísia Floresta);
- Canguaretama: caá-guá-retama”: no vale das matas, onde há muitas árvores. Obs. caá: mata; guá: vale; retama: sufixo exprimindo abundância.
- Capió (“caa-pió”): A goma da planta, goma da árvore. GRILO (1998, p. 177), sem apresentar a referência, diz “cai-pió”, e apresenta a mesma interpretação acima.
- Cunhaú (“cunhã-u”): bebedouro, aguada das mulheres.
- Cururu-açu: (sapo grande).
- Guaraíras:- Ipuxi: “ipu-xim”: a fonte, o manadouro brilhante, faiscante, pelo aspecto das águas transparentes. Até 1863 chamavam-na apenas lagoa “Puxi”, até que nesse ano Frei Serafim de Catania mudou o nome para lagoa do Bom Fim.
- “Ipa” ou “upa”: lagoa;
- Jacu: (“iacu”): esperto, cuidadoso, desconfiado (é uma ave do gênero Penélope).
- Jundiás: (“iu-ndi-á”): a cabeça armada de barbatanas (é um peixe de água doce (“Playstoma Spatula).
-Macaíba: (“macá-iba”): árvore da macaba (Palmeira: acrocomia sclerocarpa, Conhecida também por “coco de catarro” pela viscosidade da polpa comestível).
- Maxaranguape (“mboi-cinung-gua-pe”): no vale ou na baixa da cascavel. (Maxaranguape era originalmente “boixununguape”). Câmara Cascudo também apresenta este vocábulo como “mboi-xinun-gua-pé).
- Mipibu: (“mpi-pu”): o que surge, emerge, inopinado, súbito (alusão à fonte do rio, brotando do seio de um bosque (É o rio da bica). Obs. Câmara Cascudo traz também a seguinte interpretação feita por Teodoro Sampaio: “o saco de couro para conduzir água, a borracha dos nossos comboiemos”. O historiador potiguar faz críticas a essa tradução de Teodoro Sampaio, alegando que “nossos indígenas não conduziam água em odres. Foi processo trazido pelos portugueses”. E reforça a primeira interpretação acima, dizendo que sua tradução vem “talvez de ‘mbi-mbu’, o que surge, emerge, inopinado, súbito (alusão à fonte do rio, brotando do seio de um bosque)”. Antigos documentos trazem as grafias “Mopobu” e “Mepebu”. Em 1630, Adriano Verdonck registrou o local (aldeia) como “Moppobu”. Em 1639, Adriano van der Dussen, referiu-se ao local como “Mompabu”. Em 1640, o padre Manoel de Moraes o registrou como “Mopebi”. Em 1643, Marcgrave o registrou como “Mopebi”. Em 1645 realizou-se uma assembléia de índios em Goiana, PE, estando presentes representantes dessa região, o local foi referido como “Monpebú”. Uma relação de 1756, elaborada pelo Senado da Câmara de Natal informa o local como “Mopebú”. Em 1689, o mesmo Senado da Câmara de Natal referia-se ao local como “Mepebu”. Existem outras versões sempre parecidas. Fica a reflexão do texto, tendo em vista que esses topônimos foram primitivamente registrados por europeus, e não os donos da língua indígena. Cada um escrevia o que entendia. E essas variantes foram se avolumando segundo a criatividade de cada um.
- Paba:
- Paiaguás:- Papari: (papã-ry”): rio encachoeirado, rio de contas, na versão de (GRILLO, op. cit). Tal versão é apontada pela autora sem menção de fonte, portanto não é possível saber para comparar, pois, como já foi dito, não existe o topônimo específico “papary” ou “papari”.
- Papeba (“ipá-peba”): lagoa rasa.
-Paraguaçu: rio grande; “pára-guá-açu”: grande enseada, baía dilatada, ampla. (nome original da atual lagoa Papari).
- Parnamirim (“Paraná-mirim”): o rio pequeno.
- Pindorama: país das palmeiras (nome que os indígenas chamavam as terras descobertas por Cabral).
- Piranji (“pirã-gi-pe”: rio das piranhas)
-“Pari”: armadilha de pesca. (É uma espécie de covo feito até hoje pelos pescadores).
- Piquiri (“piqui-r-i”): rio dos peixinhos.
- Pitimbu: (“potim-bu”): nascente, rio, manadouro do camarão).
- Tabatinga (“tauá-tinga”): barro branco.
- Trairi (“tarayr-y”): rio das traíras.
- Sapé (“eça-pé”): ver caminho, iluminar
- Sorobobé:
- Upapari/Ipapari: a lagoa do pari, cerca para prender peixes.
- “y”: água.
Luís Carlos Freire – Estudioso da história e da cultura do município de Nísia Floresta e região.Bibliografia: Mapa de Marcgrav. Cartografia Os Holandeses no Rio Grande do Norte – O Rio Grande do Norte na Cartografia do século XVI-XVII – História do Rio Grande do Norte, Manuel Ferreira Nobre (1877) – História do Rio Grande do Norte, Câmara Cascudo, 1955 - História do Rio Grande do Norte, Tavares de Lyra, (1982) – Os Holandeses no Rio Grande do Norte, Alfredo de Cravalho, 1906-1907 – Ludovico Schwennagen, As estações das antigas estradas que atravessam o Rio Grande do Norte e Paraíba (1901) – descrição das Capitanias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, Adrien Verdonck – Câmara Cascudo: Onde ficava o Engenho de João Lostau Navarro – Traslado de Auto de repartição das terras da Capitania do Rio Grande do Norte, no dia 21 do mês de fevereiro de 1614 – Minas de Ouro Preto no Rio Grande do Norte – Explorações Holandesas no século XVII, 1905 – Aires Casal: Corografia Brasílica ou Relação Hitórico Geográfica do Reino do Brasil – José M. B. Castelo Branco – O Rio Grande do Norte na Cartografia do Século XVI – Nomes da Terra, Luís da Câmara Cascudo, FJA, 1968. Goianinha no contexto histórico da província, 1998, Maria Simonetti Gadelha Grillo. FILHO, Olavo de Medeiros, Terra Natalense, 1991, FJA.

2 comentários:

  1. Esta no AR a Rádio web da Câmara Municipal De São José de Mipibu, Com o Intuito de Divulgar Os Trabalhos realizados pela câmara e Vereadores.
    A Rádio, Obterá Uma Programação Normal com Músicas e cada vereador Terá o seu Programa.
    E Todas as Sessões Autorizadas pelo Presidente, Kerinho, Serão Transmitidas AO VIVO pela Rádio web Câmara. Você poderá Ouvir somente Via Internet, pelo site da câmara: http://www.camaradesaojosedemipibu.com.br
    no Link Rádio.
    OBS: PORENQUANTO A RÁDIO WEB, SÓ FUNCIONARÁ NO TURNO DA MANHÃ, NO HÓRARIO DAS 08h00min AS 12h00min.
    DEVIDO AINDA ESTARMOS EM FASE DE TESTES.
    OBG.
    Acessória.

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  2. Parabéns pelo texto. Deveria haver um investimento no resgate dessa cultura, para divulgar a importância dessas cidades no período colonial. Fiquei curioso de conhecer o porto de Pirangi, de Búzius, a Casa de Pedra... Acho muito pouco falar apenas do tamanho do cajueiro que é mera coincidência, e decorrência da alporquia.

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