ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A TRANSFIGURAÇÃO DAS FESTAS JUNINAS E ELEMENTOS DO FOLCLORE BRASILEIRO SOB O CRIVO DO PODER PÚBLICO E ALGUMAS DOUTRINAS EVANGÉLICAS - UM ESTUDO DE CASO



Eventualmente ouvimos pesquisadores, estudiosos e até mesmo pessoas comuns lastimando o desaparecimento ou a diluição de alguns elementos da cultura popular. Esses insights ocorrem quando é observada a ausência ou o desaparecimento de certas manifestações folclóricas, como por exemplo, uma dança, a festa que deixou de acontecer em certo bairro, os hábitos de determinada comunidade, aquelas palavras faladas pelos mais velhos, alguns ditos populares, o vendedor de beiju, a mulher que fazia cestos, a ‘louceira’, a benzedeira...
Essa constatação não parece ser exclusiva desse público, mas também das instituições governamentais de incentivo à cultura, as quais vem fazendo o possível para a sua preservação.
Parte considerável da juventude vê os elementos folclóricos com certo desprezo, principalmente quando conservam intactas a sua originalidade. Casos desse tipo podem ser constatados dentro das próprias famílias onde pais ou avós participam de grupos folclóricos. 
Nota-se maior aceitação quando se trata de grupos parafolcloricos, certamente pela diluição de muitas de suas características originais, as quais parecem não exercer o mesmo encantamento do passado. A impressão que se dá é que a juventude está mais atraída pela plasticidade moderna aplicada aos folguedos, além de não demonstrar receptividade aos atores originais, os quais, normalmente são pessoas humildes, desprovidas de vaidades de modo geral.
Normalmente os grupos parafolcloricos são oriundos de instituições culturais organizadas, universidades e escolas, cuja maioria dos atores não descendem de brincantes originais de algum folguedo. Esses grupos, quase sempre, recriam essa plasticidade com materiais modernos, que soam “agradáveis” aos olhos da juventude, em detrimento da rusticidade dos elementos usados por grupos originais. Essas constatações servem de termômetro, pois também revelam facetas de preconceito.
Acabamos de sintetizar uma observação sobre o modo como boa parte da juventude brasileira vem entendo a cultura popular, mas existe um fenômeno muito mais forte e que leva grupos folclóricos e elementos afins à extinção, como veremos adiante.
Muitos descendentes de brincantes de alguma manifestação folclórica sequer admitem ouvir falar da prática folclórica dos próprios parentes pelo fato de ter nascido num lar evangélico, ou ter aderido posteriormente alguma religião não católica, outros, por entenderem-na como “coisa de 12”, ou seja, antiquada, portanto ultrapassada.
As pessoas comuns - “povão” - que gostam de folclore - normalmente se comportam com certa nostalgia, buscando explicações para essa realidade, mas aqueles que lidam diretamente com alguma atividade folclórica, sabem que nas últimas décadas algumas religiões evangélicas vem causando a sua decadência gradual. Isso se torna mais sério quando a coordenação de grupos folclóricos ou os próprios brincantes são aqueles que deixam a sua antiga religião – ou a sua não-religião – para abraçar doutrinas evangélicas. Por mais que se perceba a abnegação dos responsáveis por tais grupos, as dificuldades para a continuidade são muitas.
É importante ressalvar que ao se fazer essa constatação não se quer condenar as religiões evangélicas que não toleram o folclore, mas registrar um fenômeno concreto promovido por elas. A propósito sequer serão mencionadas as denominações religiosas mais fundamentalistas nesse sentido.
Sabe-se também que existe desprezo ou interferência equivocada por parte do poder público no trato com a cultura popular, embora há exceções, mas a questão religiosa sobrepuja, pois é irreversível.
O poder público, ao ignorar as manifestações folclóricas pode até dispersar os brincantes e silenciá-los, mas não expurgará neles o talento nem a possibilidade de uma revitalização a qualquer momento, mas quando isso cai na alçada de algumas religiões evangélicas, ocorre realmente a extinção.
Para entender essa constatação é necessário ir a fundo e analisar quem são os cidadãos que protagonizam - ou protagonizavam - as festividades populares e qual o seu perfil. Seriam evangélicos, católicos, ateus, ricos, pobres, brancos, negros, índios, estrangeiros? ... Estariam os brincantes concentrados em áreas periféricas, nobres, no litoral, no interior do Brasil, nas capitais? ... Quem são os atores das manifestações mais significativas do folclore brasileiro? 
BRINCANTE DO "BUMBA-MEU-BOI" DE SÃO LUIZ - MA
Constata-se, facilmente, que não é possível encontrar evangélicos integrando ou coordenando grupos folclóricos, como o Boi-de-Reis, o Pastoril, a Lapinha, o Coco de Roda, o Bambelô etc. A maioria - se não toda - entende que a partir do momento que um cidadão adere alguma religião evangélica, “torna-se uma nova pessoa”, deixando de lado o que passa a chamar de “coisas mundanas”. Alguns são fundamentalistas e vão mais adiante, interpretando o folclore como “coisa do demônio”, haja vista o seu universo fantástico, lendário e mítico, no qual desfilam seres inumanos, capetas, bruxas, lobisomens... portanto “merecedores de desprezo” e dignos de serem combatidos.
Observe que esse fenômeno protagonizado pelos avangélicos interfere negativamente na cultura popular. Nesse aspecto, diante de exemplos de grupos folclóricos que recebem esse tratamento, destaca-se o drama “O Pirão-Bem-Mole”, da Comunidade do Porto, e um grupo de Pastoril, do distrito de Campo de Santana, os quais integram o universo folclórico do município de Nísia Floresta, Região Metropolitana de Natal, distando 36 Km, no estado do Rio Grande do Norte.
 O referido município, detentor de um patrimônio material e imaterial admiráveis, é exemplo clássico a engrossar o caldo da depredação.
O Drama “Pirão Bem Mole” é encenado por uma dupla: dona Raimunda, atualmente com 97 anos, que apresentava o folguedo até dois anos passados, e Salete, de 63 anos. O drama exibido de forma cantada e dançada, conta a história de uma senhora de 200 anos (é isso mesmo: duzentos anos!), a qual, ignorando a avançada idade, diz ao filho que deseja se casar. O rapaz a reprova, considerando errada a sua atitude. A discussão entre mãe e filho perpassa toda a canção com enredo hilário, levando o público a gargalhadas.
O autor do presente estudo incentivou longamente a exibição do referido drama – que já esteve quase extinto no meado de 1992 – tentando sensibilizar alguns filhos e netos a continuar a tradição, mas não logrou êxito, pois os seus descendentes de convívio diário tornaram-se evangélicos.
O AUTOR DO TEXTO E O GRUPO "PIRÃO-BEM-MOLE" (RAIMUNDA E SALETE)
A outra situação refere-se ao grupo de Pastoril, do distrito de Campo de Santana, que era coordenado pelo professor Gisaldo do Nascimento. A referida manifestação folclórica, formada por moças da localidade, alegrou durante vários anos as festividades locais, sofrendo lenta decadência que culminou com a sua dispersão.
O referido professor alegou que vários fatores colaboraram com o fim do grupo, sobressaindo-se o fato de algumas jovens terem se tornado evangélicas, outras, por proibição dos pais que se tornaram evangélicos e, por último, o desencantamento em virtude do encantamento promovido pelos modismos atuais, novos estilos musicais, enfim a mudança de pensamento da juventude sobre vários assuntos etc. O professor Gisaldo alegou que se esforçou para reunir o grupo por diversas vezes, mas os fatores negativos sobrepujaram a causa.

ESSE É UM "PASTORIL" DE OUTRO MUNICÍPIO, POIS NÃO ACHEI IMAGENS DO ACIMA CITADO - MAS ERA ALGO MUITO SEMELHANTE, PROTAGONIZADO POR MOÇAS E ADOLESCENTES
Após os dois exemplos acima, motivados por razão religiosa, analisa-se o segundo fenômeno. Pode parecer equívoco, mas o mesmo é motivado pelo Poder Público Municipal. O fenômeno é nada mais que a mudança de uma data comemorativa, cujo evento principal é arrancado do seu contexto original e jogado num contexto absolutamente sem nexo.
Essa prática recebe o nome de “fora de época”, por exemplo, “Carnaval fora de época”, “São João fora de época” etc. Mas nesse caso nos ateremos ao contexto junino, especificamente em Nísia Floresta onde tal “modismo” foi adotado há pouco tempo.  O evento, no caso, é um dos mais originais do Nordeste brasileiro, com forte carga de tradição: as festas juninas.
A cidade citada - Nísia Floresta - como não bastasse, mais uma vez protagoniza esse fenômeno. Nesse caso o advento do “fora de época” não é um grupo folclórico, mas um evento público tradicional, denominado originalmente de “São João do Interior”.
Criado em 1997, pelo poder público desse município, a referida festa se desencadeava justamente no mês nacionalmente junino. Iniciava-se no dia 12, data de Santo Antonio (o santo casamenteiro), e encerrava-se no dia 24 do mesmo mês, data de São João (batizador de Jesus), cuja deferência popular é ainda mais forte.
Nota-se que as festividades ocorriam no auge tradicional dos folguedos, considerando que mesmo depois de encerrada a festa promovida pela prefeitura, o clima junino continuava até o dia 29, data de São Pedro (o dono da chave do Céu), haja vista que as festas juninas, na realidade, compreendem o mês de junho apenas.
Em 2005 a Prefeitura Municipal, desse município, sob outra administração, mudou o nome do evento para “Festa do Balão” e o transferiu para o mês de setembro, período em que instituições públicas, pela lógica, deveriam comemorar o aniversário da Independência do Brasil, e não as festas juninas. No ano passado a “Festa do Balão”, sob terceira administração, ocorreu nos dias 1, 2 e 3 de setembro.
CARTAZ DA "FESTA DO BALÃO" DE 2013
A referida festa - quando da sua origem - primava pela valorização de elementos puramente juninos, desde a decoração com as tradicionais bandeirinhas, à animação motivada por quadrilhas e grupos de forró “pé de serra”. Nas primeiras horas da noite apresentavam-se os grupos musicais do próprio município e cidades vizinhas.
Uma das atrações eventuais dessa festa era a cantora nisiaflorestense Maria da Soledade, a qual fez fama no Rio de Janeiro cantando forró. A artista chegou a se apresentar durante duas vezes no Programa do Faustão, na Rede Globo e até hoje anima grandes eventos na “cidade maravilhosa”, sendo presença constante nos palcos da famosa Feira de São Cristóvão.
No auge da festa “São João no Interior” exibiam-se bandas atuais de forró para equilibrar os gostos, sem que a originalidade e os artistas da terra fossem relegados.
Curioso era o fato de a referida festa primar pelo que atualmente a sociedade denomina de “politicamente correto”, dissociando a imagem do ‘balão’ com o objetivo de não fazer apologia ao “brinquedo” causador de incêndios e danos a aviões. A festa “São João no Interior”, que passou a se chamar “Festa do Balão” não mudou apenas o nome original, mas a sua plástica, dando ênfase justamente aos balões, cuja ornamentação predomina o referido brinquedo desde a entrada do município ao centro do evento.
PREDOMINÂNCIA DO BALÃO
A propósito, os meios de comunicação, com destaque para a televisão, fazem campanhas contra o ato de soltar balão, justamente para dissociar a sua imagem das festas juninas. É interessante ressalvar que o citado evento não promove o ato de soltar balões, mas a sua imagem não deixa de ser incentivo.
Observa-se que o segundo fenômeno causador da degradação da cultura popular não é mais o público evangélico, mas uma instituição organizada, ou seja, a Prefeitura Municipal.  Curiosas são as nuanças de ironia que pincelam o cenário desse evento, pois justamente um órgão que deveria promover e incentivar uma festa popular – no período original – muda a data – e furta-lhe as suas características originais.
Curiosamente, a referida festa, que pela lógica “mundana” não deveria contar com o público evangélico, pelo fato de os mesmos não enxergar o evento com bons olhos, tem boa parte deles como fiéis apreciadores. Nota-se nesse caso um fenômeno esdrúxulo, ou seja, os evangélicos não podes promover as “coisas profanas”, mas ironicamente podem prestigiá-las e admirá-las. Em outras palavras não é correto praticar o pecado, mas é correto assisti-lo.
Se toda pessoa pudesse assistir as festividades juninas em cada região do Brasil, constataria serem incomparáveis às do Nordeste. Enquanto nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, as festividades juninas nada lembram a beleza, originalidade e criatividade existentes unicamente no Nordeste - em plena Nísia Floresta, município nordestino bicentenário e repleto de riquezas folclóricas - o poder público local adere a um modelo equivocado de comemorar o São João.
Como não há nexo nessa transferência de data, resta-nos questionar o que motiva os governantes a fazê-la. Há uma explicação, obviamente, mas não parece justa, pois não é ocasionada por fenômeno histórico ou algo convincente, mas, infelizmente, pelo lado destrutivo da política partidária.
O fenômeno de mudar as comemorações juninas de junho para setembro, mês da Independência, no qual ocorrem desfiles cívicos e eventos afins, impinge ao povo a prática desapercebida de se matar a tradição original. Nota-se claramente o antagonismo dessas duas datas comemorativas e a notória incapacidade de fundi-las, até porque não há encantamento nem graça em associá-las. O advento do “fora de época”, ao atender a interesses políticos e econômicos equivocados, acaba significando uma prática inconsequente, cujos causadores não se importam em prejudicar as tradições folclóricas.
A mudança pode até parecer algo insignificante por consistir apenas numa transferência de data, mas tal barganha traz fortes prejuízos para a cultura popular, haja vista que se transfere uma festa, mas não se transfere as suas simbologias. Move-se uma data mas não segue junto a magia das suas significações. O sentimento popular original, cheio de riquezas vai se definhando paulatinamente por não receber a deferência tradicional.
Isso pode passar despercebido aos que não têm olhos para a cultura popular ou não a valorizam, mas consiste num dano sem precedentes. Tal mudança deseduca as novas gerações e lhes tira a oportunidade de vivenciar o encantamento promovido pelo seu contexto original.
Lembremos alguns detalhes, antes de nos aprofundar nas reflexões. Entendamos que o município de Nísia Floresta, assim como outros municípios do Nordeste, traz as festas juninas “no sangue”. Sabe-se, obviamente, que o povo não precisa de uma instituição pública para se sentir motivado a comemorar as Festas Juninas. Mas a partir do momento que um órgão público transfere um evento típico de determinado momento para outro, inicia-se um processo gradual de descaracterização, o qual pode levar à sua extinção.
Isso ocorre porque a nova geração absorve a nova proposta sem questionamentos, pois desconhece as suas características originais. Para a maioria da nova geração não é interessante contemplar o que ficou para trás, pois soa ultrapassado. No caso da festa junina, mesmo que seja transferida para julho, agosto ou setembro, a perda de sua essência é a mesma.
As crianças e os jovens se moldam naturalmente ao ambiente onde se desenvolvem e fortalecem os seus laços sociais e culturais. A partir do momento que estão nesse contínuo e equivocado processo, passam a entendê-lo como normal e obviamente irão perpetuá-lo aos seus filhos.
Diante dessa transfiguração, percebe-se a perca sofrida pela cultura popular, pois não se compara o mês de junho – com toda a sua carga folclórica – com setembro – propenso ao contexto de civismo. Ademais, cada mês têm as suas evocações e características. Como dizem: “Cada mês têm o seu romantismo”.
O mês de junho possui uma riqueza de elementos folclóricos, os quais formam um cenário mágico: as comidas típicas de milho, as fogueiras, as ruas enfumaçadas, as bombinhas, os cordões de bandeirolas, as promessas, as canções, as lamparinas penduradas nas janelas, as simpatias, as quadrilhas matutas e estilizadas, e outras atrações que afloram naturalmente nas casas e ruas.
ASPECTO DE UMA FOGUEIRA NUM CLIMA PURAMENTE TRADICIONAL

Essas manifestações espontâneas normalmente têm outros fatores que ampliam a alegria e a beleza do momento: as chuvas ligeiras, os milharais espalhados pela zona rural, as montanhas de milho transportadas em carroças e caminhões, despejadas nos comércios ou nas ruas, onde o as famosas “mão de milho” são vendidas incontinentes. Há quem diga que aguarda com ansiedade dois momentos imperdíveis do ano. O Natal, por seu mistério, e o mês de junho, por sua magia.
Diante do fenômeno de mudança de data, surge o questionamento: qual o motivo de se transferir uma festa junina para um período totalmente fora do seu contexto original?
É exatamente nesse momento que detalharemos o aspecto da política partidária e seus vícios, citado anteriormente. A mudança de data visa única e exclusivamente atender os interesses políticos/partidários dos governantes, haja vista a proximidade com o mês das eleições que se dá em outubro. A festa, portanto, se transforma numa espécie de palanque eleitoral.
Observa-se que essa mudança visa tirar proveito na conquista dos eleitores, haja vista que uma parcela considerável entende a sua cidadania como “pão e circo”. É justamente nessa festa que desfila a representação do poder executivo, os vereadores, senadores, deputados e governador (a) - todos visando a reeleição. A festa sai do campo do folclore para o campo da politicagem, atingindo assim o seu tendencioso objetivo.
A festa, nesse caso, é usada como instrumento de promoção de candidatos a cargos políticos. É até compreensível tal encenação – à luz da ausência de uma educação crítica – não fosse a injustiça cometida contra um momento tão significativo da cultura popular.
Nota-se nesse equívoco a total falta de criatividade da maioria dos governantes. Nesse caso, já que boa parte não valoriza ou apenas dilapida a cultura popular, deveria usar uma data comemorativa em seu contexto original.  Se tais governantes fossem criativos, deixariam a festa junina nos seus conformes originais - fazendo ou não politicagem - e criariam um evento específico para o seu desfile político/partidário, inclusive numa data ainda mais próxima da eleição.
O dia 7 de setembro calharia muito bem, justamente por consistir numa prática formal, com solenidade, palanque etc, na qual os candidatos estariam expostos a massa popular. Ao invés de promover uma distorção cultural, eles estariam promovendo uma data significativa e, como são oportunistas, teriam nesse evento o momento certo do seu exibicionismo político/partidário.
DESFILE COMEMORATIVO AO DIA DA INDEPENDÊNCIA - CLIMA CONTRADITÓRIO COM FESTA JUNINA

A “Festa do Balão” versão 2014 ocorreu nos dias 29, 30 e 31 de agosto, ou seja, não se deu no mês dos desfiles da independência. Estaria resolvido o problema? Não! Sabe-se que a partir de meados de agosto as instituições educacionais e militares estão direcionando esforços para os projetos da semana da pátria, os quais culminam obviamente com o desfile cívico. Agosto é mês alusivo aos pais, ao estudantes e ao folclore. O espírito junino pertence ao mês de junho, portanto, seja qual for o mês do “fora de época”, a descaracterização é a mesma.
Sabemos que a cultura popular, de certo modo é flexível, pois a necessidade obriga. Mas há exceções. Alguns grupos folclóricos deixam de lado pequenos detalhes de suas manifestações folclóricas por motivo justo, mas resistem quase que intactos. O folguedo “Pau-Furado”, por exemplo, não usa mais o tronco de madeira, nem o couro de raposa para a percussão por razões de preservação do meio ambiente. Seu lugar foi ocupado pelo atabaque, que é um instrumento industrializado, mas o efeito do som é o mesmo.
O referido folguedo originalmente usava lenha cortada nas matas para fazer uma fogueira que esquentava o ‘pau-furado’, tornando o som mais audível. Não havia preocupação com a preservação da natureza. Desse modo colaboravam com o desmatamento, inclusive de madeiras nobres. Hoje, o grupo se serve de madeira de árvores frutíferas que apresentam problemas - como cupins ou velhice - e exigem o corte.  
Existem manifestações que resistem há séculos intactas, outras, como o exemplo do “Pau-Furado”, necessitaram de pequenas mudanças feitas com racionalidade. Pesquisadores e folcloristas reconhecem a necessidade de interferências do tipo acima, desde que não cause danos e não descaracterize a essência.
FLAGRANTE DE UM GRUPO DE PAU FURADO

Essa linha de pensamento não apregoa que não devam ser valorizados os grupos totalmente descaracterizados, os grupos parafolcloricos ou as releituras, mas clama sobre a necessidade do devido cuidado com a originalidade daquilo que se quer promover como folclore tradicional.
Muitos podem alegar que outros fatores também devem ser responsabilizados com a descaracterização ou extinção de elementos da cultura popular, mas nenhum é mais forte que os dois acima analisados, pois são fatos.
Sabe-se que a mídia exerce um poder indescritível sobre a juventude, e não há como reverter isso, pois tal fenômeno não é inteiramente negativo. Informações de todo tipo chegam instantaneamente aos jovens. As músicas exercem um poder viral em todas as demais formas de comunicação. Junta-se a elas a questão da dança e da roupa (a moda).
É exatamente a música, a dança e a roupa o ponto chave da questão. Os grupos folclóricos trabalham com música, dança e figurinos diversos, os quais destoam anos-luz do que se vê na mídia.
Tal modernidade encanta a juventude de forma admirável. É mais fácil ver meninas e meninos cantando, imitando e se propondo a dublar nas escolas e em ambientes promotores da cultura as artistas Beyonce, Lady Gaga, Shakira, Madonna etc, que usando a mesma energia para apresentar um “Pastoril”, uma “Lapinha”, um “Congo de Carçola”, nos quais as canções, as roupas e as danças soariam “bizarras” diante da sua formação educacional e cultural. E elas não podem ser apedrejadas por isso, pois são fruto do meio.
Pode-se afirmar, nesse caso, que o próprio povo acaba sendo promotor dessa descaracterização, até porque é maioria. Mas quando se constata que esse povo reflete a educação que recebe, e que nas escolas e nos ambientes culturais não se enaltece com ênfase as raízes populares, não se pode atribuir responsabilidade tão somente ao povo.
Faz-se necessária, portanto, a reeducação na juventude. Urge aos governantes assumir concretamente a responsabilidade de preservar o seu patrimônio material e imaterial, construindo com a juventude o devido zelo, respeito e identificação. E esses governantes nunca devem abrir mão de comemorar as festividades folclóricas no seu período tradicional.   
 Quando as pessoas são educadas a conhecer e se identificar com as suas raízes, com certeza terão prazer em promovê-la. A salvação do Brasil está em sua cultura popular. LUÍS CARLOS FREIRE



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