Em 2014, conheci
com meu filho F. a chamada “Casa nazista de Natal”, construída por Guglielmo Lettieri
em 1910, inclusive já escrevi um texto sobre ela no meu blog. À ocasião, fiquei
curioso para saber mais sobre a história desse italiano, que é avô de Iris
Littieri.
Algum tempo depois, após sucessivas
tentativas, cheguei até Iris Lettieri, a qual se mostrou muito receptiva. Creio
que o fato de eu estar aqui no Rio Grande do Norte, onde seu avô passou a maior
parte da vida, inclusive faleceu em Natal, despertou nela memórias afetivas do
avô, e passamos a conversar muito sobre
a família, como quem se conhece há anos. Falávamos sobre assuntos afins, afinal precisei me apresentar também,
enviava fotografias daqui de Natal etc. Inclusive ela lia minhas postagens. Conversávamos sobre as publicações. Foi uma experiência muito amigável e respeitosa.
Guglielmo era
italiano, chegou a Natal ainda rapaz e construiu um dos mais imponentes palacetes
da Ribeira. Era um homem muito rico, inclusive cônsul da Itália em Natal. Sua
casa recepcionava as mais importantes figuras norte-rio-grandenses, inclusive
homens notáveis que vinham da Europa. Mas se sabe pouco sobre ele. É uma
história ainda a ser contada. E foi exatamente isso que me fez localizar Iris
Lititieri, tendo me surpreendido ao saber que ela era a mulher da “Voz do
Aeroporto”.
Conversamos até o
ano passado, pois, inexplicavelmente, ela desapareceu de cena. Não respondia
mensagens nem atendia telefone. Eu não sabia, mas isso se dava em virtude de
ela estar muito doente, a ponto de ter se desligado do mundo digital.
Nas nossas últimas conversas – já balizados pela familiaridade – e sem que eu tivesse pedido, ela disse: “Vou separar algumas fotografias, bottons e alguns documentos do meu avô e enviar para você, pois tenho certeza absoluta que você guardará bem esse acervo, dando-lhe uma finalidade justa”. Ela dizia que guardava aquele material como fosse o próprio avô dela, o qual ela o amou intensamente, inclusive falava dele com muito carinho. Fiquei muito feliz ao saber que herdaria esse material tão precioso para ela, afinal, e, com certeza, de posse dele, eu escreveria uma bela matéria no meu blog, reproduziria o acervo recebido, faria fotografias desses bottons e, depois, doaria ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN. Não teria sentido algum esse material tão significativo ficar comigo, pois é de interesse do Rio Grande do Norte.
No curso dessa
amizade, ela falava sobre o avô, sempre uma lembrança, sempre uma
novidade, mandava fotografias, inclusive contou – achando graça – que Guglielmo escondeu o
governador Gurjão na caixa d’água da casa dele quando houve o levante comunista
(Imagine essa cena!). Ela Falava sobre a mãe, dona Júlia Amazonas, com muita
saudade e admiração. Tinha ojeriza da família do avô Guglielmo, pois ela era neta da
segunda esposa dele, quando, viúvo, se casou com dona Júlia (Futuramente,
separada, ela se casaria com o locutor da Rádio Cruzeiro do Sul, José Avelino
Costa, pai de Iris Luttieri Costa).
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Íris com os pais |
O cenário político da época era conturbado.
Rafael Fernandes Gurjão governava o Rio Grande do Norte e, em 1935, a chamada “Intentona
Comunista” transformara Natal na primeira capital latino-americana sob domínio
revolucionário de orientação comunista, ainda que por poucos dias. A
insurreição coincidiu com a solenidade de formatura do Colégio Marista,
realizada no antigo Teatro Carlos Gomes — hoje Teatro Alberto Maranhão. Houve
tiroteios, quebra pau, tumultos, obrigando o governador e o secretário-geral do
Estado, Aldo Fernandes Gurjão, se refugiaram na residência Xavier Miranda e, em
seguida, buscaram proteção no Consulado da Itália, sediado justamente na casa
de Guglielmo Lettieri (foi então que o governador mergulhou na caixa d’água)
Esses anos de contato com Íris Lettieri
percebi sua personalidade vigorosa, marcada por opiniões firmes e postura
decidida. Ainda muito jovem, ela chamou atenção no carnaval carioca, sendo
homenageada por uma escola de samba. Na ocasião, causou furor ao anunciar a
entrada da agremiação como se estivesse comandando o embarque de passageiros em
um avião - voz que era a trilha sonora das partidas e chegadas nos maiores
aeroportos do país.
Embora tenha sonhado inicialmente em ser
médica, o gosto pela boa dicção levaram-na a estudar técnicas de voz. Aos 16
anos, conciliava o trabalho de recepcionista com os estudos noturnos, quando
acompanhou a mãe - pianista - a uma apresentação na Rádio MEC. Curiosa, pediu
para testar um gravador e registrou sua voz. Pouco tempo depois, recebeu
convite para atuar como locutora na Rádio Metropolitana. Era o início de uma
trajetória notável.
Com apenas alguns meses de experiência, foi
incentivada a ingressar na recém-criada TV Continental. Em 1959, assinou
contrato e logo conquistou o Troféu Garota Propaganda, destacando-se não apenas
como locutora, mas também como atriz em peças de teleteatro. Nessa fase, viveu
um casamento breve com um engenheiro eletrônico ligado à televisão, que a levou
a Porto Alegre. Lá atuou em rádio e televisão, mas, após a separação, regressou
ao Rio de Janeiro. Ela contava com 26 anos e foi trocada por uma mulher
desquitada de 38 anos e três filhos.
Em 1963, a TV Excelsior abriu-lhe novas
portas. Tornou-se a primeira mulher a atuar como locutora de telejornal no
Brasil, dividindo bancada com nomes lendários como Luiz Jatobá e Sérgio Porto.
Um ano depois, já participava de programas esportivos ao lado de João Saldanha,
Nelson Rodrigues e Luís Mendes, transitando com naturalidade entre jornalismo,
esporte e entretenimento. Frequentou também os palcos do Beco das Garrafas,
epicentro da Bossa Nova, onde chegou a dividir espaço com Elis Regina.
Em 1965, escreveu seu nome definitivamente
na história da televisão brasileira ao ser convidada para inaugurar a TV Globo
como locutora de telejornais, ao lado de Hilton Gomes. Pouco depois, integrou a
equipe da TV Tupi, onde permaneceu por mais de uma década e conquistou, ano após
ano, o reconhecimento da crítica como a melhor voz do jornalismo televisivo.
Sua carreira foi marcada por convites
singulares. O estilista Pierre Cardin chegou a convidá-la para ser manequim em
Paris, mas ela recusou, alegando que a rotina de trabalho não lhe permitia
aceitar a proposta. Sobre isso, ela me disse que, no calor daquela vida superativa,
requisitada para tudo, não percebeu o quanto aquele convite tinha relação com
ela. Mesmo assim, consolidou-se como uma profissional pioneira numa área
singular, abrindo caminho para inúmeras mulheres na locução e no jornalismo
televisivo.
Ainda em idade avançada, Íris renovou
contrato com a Infraero, garantindo que sua voz inconfundível seguisse presente
nos aeroportos do Brasil. Passageiros de Santos Dumont, Congonhas, Foz do
Iguaçu, Galeão, Guarulhos, Manaus e, entre outros, ainda hoje podem ouvir suas
gravações ecoando nas salas de embarque e desembarque. Paralelamente, mantinha
um pequeno estúdio em casa, onde gravava comerciais e locuções para eventos,
sempre fiel à profissão que a consagrou.
Entretanto, o brilho público nem sempre
correspondia à realidade íntima. Nas nossas conversas, ficava claro que a
aposentadoria modesta, os custos crescentes da vida e os gastos com saúde
traziam dificuldades financeiras. A mulher que fora referência nacional,
premiada e aplaudida, que ganhou muito dinheiro e gastava na proporção que
ganhava, enfrentava na velhice as limitações de quem já não tinha o mesmo
padrão de outrora. Isso me fez pensar sobre o quanto não sabemos sobre o nosso futuro e a que poderemos estar sujeitos...
Mesmo agora, tendo partido, Íris Lettieri
permanece como um ícone da comunicação brasileira. Sua trajetória não se limita
à história da televisão ou da aviação civil, mas se entrelaça também com a
memória de sua família, especialmente de Guglielmo Lettieri - figura ligada aos
eventos políticos que marcaram Natal em meados do século XX, tendo recebido em
seu palacete, na Ribeira, notáveis figuras europeias. A história desse avô,
pouco lembrada, corre o risco de se perder, assim como o acervo que Íris
desejou me repassar.
Hoje, resta a esperança de que sua memória,
tanto pessoal quanto familiar, não seja relegada ao esquecimento. Afinal, Íris
foi mais que uma voz nos alto-falantes: foi pioneira, atriz, locutora, presença
cativante nos lares brasileiros e testemunha de uma época de grandes
transformações no país.
Hoje, entrei em contato com algumas pessoas no Rio
de Janeiro, pois, conseguindo o contato do viúvo de Íris, eu diria sobre a
intenção dela de me doar o acervo de Guglielmo - que, inclusive, não tem relação
familiar nem afetiva com o viúvo de Iris – e também não acredito que alguém
mais íntimo da família – que nesse momento deve estar dando-lhe apoio, saberia
que Guglielmo teve uma história muito interessa a Natal (inclusive morreu aqui
há muitos anos). Também penso que talvez tudo isso vá parar em algum lixão no
Rio de Janeiro. Não sei, mas seguirei tentando obter esse precioso material
que, por legitimidade, pertence ao Rio Grande do Norte.
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