Na manhã desta sexta-feira, 24 de abril de 2026, o dia amanheceu sob o peso das águas. A chuva, insistente e desmedida, parecia querer impor silêncio àquilo que, por natureza, nasceu para ser voz: a memória de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Foi nesse cenário que recebi a ligação do secretário municipal de Cultura de Nísia Floresta, o professor Jorge Januário de Carvalho. Do outro lado da linha, a frase veio carregada de desalento: “Nísia Floresta está debaixo d’água”.
Respondi-lhe, numa tentativa de dividir o peso daquele instante: “Natal também está debaixo d’água”.
Para quem, há três meses, vinha se dedicando à construção de um grande evento - estruturado em quatro momentos distintos, cuidadosamente pensados e com tudo primorosamente pronto -, aquela constatação foi como água lançada sobre o fogo da expectativa. Restava-nos, então, o exercício difícil da lucidez: conversar, ponderar, buscar saídas. Mas não havia muitas. Ou se adiava - esvaziando o sentido simbólico da data -, ou se cancelava. E, privados nós de qualquer poder sobre as forças da natureza, restou-nos reconhecer a limitação humana diante do tempo e do céu.
Ainda assim, uma decisão aflorou, simples e firme: dentre os quatro momentos idealizados, ao menos um deveria resistir. “Vamos todos de guarda-chuva. Vá quem puder.” Era pouco, diante do projeto original, mas era tudo, diante das circunstâncias. Pessoas "loucas" são assim...
Após essa conversa, liguei para o dr. Iaperi Araújo - um dos intelectuais mais entusiasmados com esse evento, autor de mais de 70 livros, membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e profundo conhecedor da história potiguar. Disse-lhe, com franqueza: “Dr. Iaperi, mesmo com essas intempéries, cumpro convidá-lo a se arriscar conosco - eu, Jorge Januário, o prefeito e mais meia dúzia de teimosos ou loucos, de guarda-chuva, pisando em lama, rumo ao Conjunto Histórico no Sítio Floresta, pois, para onde se olha há sinais de chuva. Em Natal os postes estão acesos.”.
A resposta veio com a dignidade de quem deseja, mas conhece seus limites: a vontade era imensa, mas a idade não lhe permitia tal aventura. Compreendi, agradeci - e segui. Saí de Natal ainda sob chuva torrencial. Nísia merece esse presente. No trajeto, ao me aproximar de São José de Mipibu, a chuva cessou, mas o céu permanecia num azul escuro, carregado, como se a qualquer momento o céu despencasse. Era um intervalo, não uma trégua.
Ao chegar à Secretaria de Cultura, encontrei Jorge Januário sentado num ambiente de penumbra, na varanda, sozinho. Ouvi quando ele disse com sua voz potente, aparentemente feliz, mas não escondia um tom diferente. Sua fisionomia era a mesma de Lívia Augusta quando velou o corpo da mãe em Rouen, praticamente solitária. Havia tristeza, cansaço e, sobretudo, frustração. Jorge se aproxima dos 80 anos de idade. Soube que ele havia atravessado a madrugada ao lado de sua pequena equipe, cuidando de cada detalhe da ornamentação, ajustando os últimos elementos de uma programação impecável, primorosa que, horas depois, se desfazia diante da chuva. Jorge é desses raros homens cujo toque transforma - há nele um zelo de ourives, um compromisso com a beleza e com o rigor que poucos conseguem sustentar. Mas isso é Jorge...
Confesso: eu também estava profundamente abatido. Engoli um tijolo, emocionado.
Pouco depois, chegou o chefe de gabinete dele - um jovem, visivelmente emocionado, que dedicou três meses àquele evento que a chuva levou. Seus olhos denunciavam o que a voz tentou conter. Ao me cumprimentar, as lágrimas vieram. Evitei prolongar o momento e sugeri, com suavidade, que nos dirigíssemos ao Sítio Floresta. Ainda era cedo, por volta das 15h40. O tempo avançou lentamente até as proximidades das 18h00, quando, já de volta à Secretaria, recebemos uma ligação inesperada: membros do gabinete da governadora haviam chegado, e Fátima Bezerra estava a caminho. A surpresa foi geral, afinal, todas as autoridades haviam sido previamente comunicadas sobre o cancelamento da programação. Diante disso, retornamos ao Conjunto Histórico. E ali, como que no milagre de Fátima, de forma quase silenciosa e improvável, tudo começou a se recompor.
O público, evidentemente, não correspondia à grandiosidade originalmente planejada - que envolveria escolas, instituições culturais e grande participação popular -, mas havia ali algo talvez ainda mais significativo: presença com sentido. Pessoas que, mesmo sob a ameaça constante da chuva e diante da lama que marcava o chão, decidiram estar. Houve discursos breves, objetivos. Houve o descerramento da placa, gesto simbólico que justificava, por si só, a insistência em manter aquele momento. Houve música, emoção e, sobretudo, dignidade. No conjunto reinaugurado, onde se erguem o monumento de 1909 e o mausoléu que acolhe os restos mortais de Nísia, trasladados da França em 1955, a história foi novamente convocada. E atendeu.
Ao final, mesmo sendo apenas um recorte do que se sonhara, foi belo. Intensamente belo. Porque, por vezes, a grandeza não está na quantidade, mas na resistência. Creio, sinceramente, que Nísia tenha se alegrado. Como que em perfeita sintonia com o espírito daquele dia, recebi ainda pela manhã um Registro Comemorativo e esse retrato de Nísia (publicado abaixo) do Dr. Iaperi Araújo, alusivo à data, a ser publicado pela Academia de Letras. Nele, já estava contido tudo o que viríamos a viver: a chuva, a vigília, a permanência.
E assim, entre nuvens carregadas e gestos firmes, compreendemos que há memórias que não se deixam dissolver, nem mesmo sob o desabar das mais intensas tempestades...
Hoje 24 de abril completamos 141 anos da morte em Rouen na França da nossa mais ilustre escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta nascida em Papary que leva seu nome em 12 de outubro de 1810. Hoje a comunidade pelo seu prefeito inaugurar ia um monumento diante do túmulo da escritora com uma grande solenidade que a chuva não permitiu. Foi adiado, provavelmente para 12 de outubro próximo. Glórias a nossa mais ilustre intelectual, feminista, anti-escravagista, poeta, defensora dos povos originários e ensaísta.
Iaperi Araújo


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