NÍSIA FLORESTA: PRIMEIRA ABOLICIONISTA DO BRASIL
Imagine você nascer e ter quem faça tudo por você: comida à mesa, ajuda para banho, abanar penas para afastar o calor etc etc etc. Imagine você criança, vendo adultos dando ordens o dia inteiro aos escravos, por vezes os humilhando e torturando-os física e mentalmente. Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu nesse contexto. Ela não via essa estupidez no Sítio Floresta, afinal eles não eram proprietários de escravos, à exceção a Pepe, uma preta que a acompanhou durante o tempo que ela morou no Sítio Floresta. Embora Pepe é mencionada no corpo de sua obra, não se sabe detalhes sobre a mesma, exceto o grande afeto que Nísia Floresta sentia por ela.
Nísia não viu a truculência da escravidão no sítio onde morava, mas via a escravidão nos sucessivos engenhos da Vila Imperial de Papary, pois nasceu numa região nordestina permeada por incontáveis engenhos. Na Vila Imperial de Papary assistia ao comércio de escravos no velho pé de Oiti, onde acontecia a compra e venda de escravos, próximo ao Engenho São Roque.
É impossível não admitirmos que qualquer criança que visse isso acharia normal, pois estava descobrindo o mundo. Ela olharia a sua pele, depois a pele preta, e perceberia que a diferença explicava a servidão criada pelo sistema. Pois bem, Nísia Floresta nasceu nesse contexto. Agora imagine você começar a estranhar isso e expor sua insatisfação. Obviamente que você se tornaria uma alienígena, pois incomodaria a maioria.
Verdadeiramente, os escravos pretos não eram vistos como gente por quase todos, portanto não compreenderiam uma criança ou uma jovem pedindo clemência por eles e recriminando o tratamento truculento a eles dispensado. Era esse o tratamento dado aos burros de carga e aos bois arrastando toneladas sobre os carros de madeira que gemiam quilômetros a fio, carregando os partidos de cana. Em conseqüência, se não eram gente, mereciam o mesmo tratamento.
Até hoje, em pleno século XXI, vimos cavalos e jumentos apanhando de seus donos por não conseguirem carregar as carroças. Pois saibam que o mesmo aconteceu aos escravos. Muitos morreram de exaustão. Não conseguiam dar conta do peso ou do ofício exaustivo dos canaviais e outros serviços, então apanhavam para recuperar a força. Assim, morriam. Nísia Floresta, ainda muito jovem, percebendo isso, pedia tratamento mais humano aos pretos. Inicialmente ela não pedia a abolição da escravidão. Talvez nem imaginasse ser possível acabar com aquilo.
Depois ela faz reflexões sobre a situação deplorável como eles viviam nas senzalas e sugere que recebessem maiores cuidados, mas não pede a extinção da escravidão. Certa vez alguém publicou um texto no Diário de Natal no qual acusava Nísia Floresta de endossar a escravidão. O autor se serviu de um trecho isolado de uma de sua obras, na qual ela condena as mulheres brancas por darem seus bebês para serem amamentados pelas pretas sujas. De fato ler isso assusta.
Qualquer pessoa que lesse o trecho de maneira isolada, entenderia da mesma forma. Mas Nísia Floresta, na realidade condenava a imundície e situação de insalubridade na qual viviam as escravas. Ela proclamava que a amamentação era um ato de amor, portanto o gesto pertencia somente às mães biológicas, e não às escravas. Nísia Floresta, que sabia que as mães brancas faziam isso para conservar suas siluetas – ou seja, por vaidade e preguiça – não media esforços para condenar os gestos das senhoras donas de escravos.
Muito adiante, veríamos Nísia fazendo ataques fortíssimos às mães francesas, as quais mandavam seus filhos-bebês para serem cuidados por amas de leite, em situações deploráveis nos campos próximos a Paris. Ela presenciou "in loco" o fato, tendo registrado suas impressões. O abolicionismo em Nísia Floresta passeia ao longo de suas obras, pois ela foi uma escritora que pulverizava assuntos semelhantes em várias de seus livros. Mesmo que não estivesse escrevendo sobre a escravidão, ela entrava nessas águas e logo retomava o seu objeto de discussão principal. E no caudal disso tudo encontramos uma Nísia Floresta que amadureceu lentamente a sua condição de abolicionista. Aquilo que para ela – e para todos – era normal, se tornou hostil ao longo de suas últimas publicações. E não poderia ser diferente. Ela percebeu muito cedo a desumanidade da escravidão preta, portanto precisou se camuflar no bojo dos escravagistas, escrever numa visão que não assustava tanto, mas que significava o sutil plantel da semente abolicionista.
Lentamente ela assume sua condição anti-escravagista e seus escritos se tornam mais densos e com forte criticidade. Na própria obra “A Lágrima de Um Caeté”, que não era um livro sobre escravidão, ela encontra espaço para condená-la. E essa obra foi censurada pelo Império. Pois bem, discutir o tema ABOLICIONISMO em Nísia Floresta pede a contextualização dos fatos para o necessário entendimento. E isso dá muitas laudas e horas e horas de discussões. Como sempre, coloco-me ao seu dispor para discutirmos o assunto a qualquer momento e em qualquer espaço. L.C.F 1999


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