Daqui há quatro dias comemoraremos a data da abolição da escravidão no Brasil. E é interessante entendermos o que acontecia em Papary àquela época. Muito antes de receber o nome de Nísia Floresta, a antiga Vila Imperial de Papary já carregava em suas ruas, engenhos, lagoas e igrejas as profundas contradições do Brasil escravista. Entre o açúcar, o poder dos coronéis, a influência da Igreja e a circulação de homens e mulheres escravizados, formou-se uma sociedade marcada por tensões sociais, resistência negra e disputas silenciosas pela liberdade.
Durante muito tempo, parte da historiografia tradicional do Rio Grande do Norte procurou transmitir a ideia de um estado distante das grandes convulsões sociais ligadas à escravidão. Entretanto, pesquisas recentes, estudos memorialísticos e documentos recuperados por pesquisadores da história regional vêm demonstrando exatamente o contrário: o sul potiguar também foi cenário de conflitos, fugas, articulações abolicionistas e movimentos de resistência negra.
A antiga Papary fazia parte de uma região economicamente integrada ao sistema açucareiro nordestino. Os engenhos espalhavam-se pelas áreas próximas a Goianinha, Arez, São José de Mipibu e pelo próprio território paparyense. Neles trabalhavam inúmeros negros escravizados submetidos às mais duras condições de vida.
A escravidão estava presente no cotidiano da vila. Ela aparecia nos engenhos, nos caminhos de comércio, nas relações familiares da elite agrária e até mesmo dentro da organização religiosa local. A própria antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó guardava marcas desse período. Durante décadas, negros escravizados eram separados dos brancos dentro do espaço religioso, ocupando setores específicos da igreja, numa demonstração explícita da segregação racial naturalizada pelo Brasil imperial.
Mas Papary não foi apenas território de submissão. Foi também espaço de resistência. Existem registros históricos mencionando que a antiga vila tornou-se palco de movimentações organizadas de escravizados revoltados contra a escravidão. Em meio às matas, engenhos e caminhos do litoral sul potiguar, homens negros articulavam fugas, reuniões clandestinas e estratégias de sobrevivência diante da violência do sistema escravista.
No dia 13 de maio publicarei uma série de textos sobre a escravidão ligada ao município de Nísia Floresta e à pessoa da escritora Nísia Floresta, que foi abolicionista pioneira. Das figuras mais impressionantes desse contexto falarei sobre o escravizado conhecido como Miguel Rei, liderança de um movimento envolvendo mais de cem escravizados oriundos de localidades como Papary, Arez, Goianinha e São José de Mipibu.
Sua figura permaneceu marcada na memória popular da região como símbolo de coragem e resistência negra. Os relatos apontam que ele defendia publicamente a libertação dos escravizados e discutia o tema em diferentes espaços da Vila Imperial de Papary, inclusive nas proximidades da igreja.
Outro aspecto extremamente significativo dessa história envolve justamente a atuação de setores religiosos simpáticos à causa dos negros escravizados. Existem referências históricas indicando que um sacerdote da região acolhia escravos fugitivos e lhes oferecia proteção nos próprios cômodos da antiga matriz de Papary.
Os corredores, salas e compartimentos internos da igreja teriam servido de esconderijo para negros perseguidos, revelando um lado pouco conhecido da resistência à escravidão no Rio Grande do Norte. Num período em que grande parte da sociedade aceitava a escravidão como algo natural, atitudes dessa natureza representavam coragem moral e risco político.
Esses episódios revelam que Papary possuía uma dinâmica social muito mais intensa e complexa do que normalmente aparece nos livros escolares.
Outro elemento profundamente simbólico desse passado escravista está ligado ao chamado “mercado de escravos” existente na região. Pesquisas históricas apontam que, nas proximidades do antigo caminho entre Papary e Mipibu, havia um espaço sob um grande oitizeiro onde homens, mulheres e crianças escravizadas eram comercializados para os engenhos do sul potiguar.
Ali, seres humanos eram tratados como mercadoria. Famílias eram separadas. Vidas eram negociadas conforme os interesses econômicos dos senhores de engenho. O lugar tornou-se uma espécie de entreposto do tráfico interno de escravizados na região.
Ao revisitar essas memórias, compreende-se melhor que a história de Papary - hoje Nísia Floresta - não pode ser contada apenas a partir das elites políticas ou intelectuais. Existe também uma profunda história negra, marcada por sofrimento, resistência, religiosidade, rebeldia e luta pela liberdade.
É importante lembrar que o Rio Grande do Norte participou ativamente do ambiente abolicionista nordestino. Mossoró aboliria oficialmente a escravidão em 1883, antes mesmo da Lei Áurea. Em diversas cidades potiguares surgiam debates sobre liberdade, cidadania e o futuro do país.
Nesse contexto, Papary também possuía seus conflitos internos. Os engenhos conviviam com o medo constante de fugas coletivas e rebeliões escravas. As elites locais observavam com preocupação o crescimento das ideias abolicionistas e os movimentos de resistência organizados pelos negros escravizados.
Hoje, ao recuperar essas histórias, percebe-se que a memória de Nísia Floresta vai muito além das belas paisagens naturais, lagoas e tradições culturais. Existe ali um passado profundamente humano, doloroso e necessário de ser conhecido.
Contar a história dos escravizados de Papary é devolver voz àqueles que durante séculos foram silenciados pela história oficial. É compreender que a construção do Rio Grande do Norte também passou pelas mãos negras que ergueram engenhos, abriram caminhos, resistiram à violência e ousaram sonhar com liberdade em pleno século XIX.
Pois bem, até o dia 13 de maio...
Referências
Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE - Textos “ACTA NOTURNA - O BAOBÁ DE OLHEIROS EM PAPARY”; “Padre João Maria, da Vila Imperial de Papary a Natal: O rastro de um santo”; “Engenhos de Papari e o Mercado de Escravos do Oitizeiro”.

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