| Imagem criada por inteligência artificial, sem preocupação com originalidade espacial, mas apenas com as figuras humanas. |
Como sempre registro, em 1992, em Nísia Floresta passei a desenvolver um contínuo trabalho de História Oral, recolhendo memórias espalhadas entre pescadores, trabalhadores rurais, antigos moradores do Porto, descendentes de famílias negras e pessoas simples que, sem perceber, carregavam consigo preciosos fragmentos da história cultural, religiosa e social daquela terra.
Ao longo dessas
décadas ouvi demoradamente a senhora Estelita Oliveira, neta do Cel. Alexandre
de Oliveira, o famoso Cavaleiro da Rosa; ela residia no centro, quase de frente
à rodoviária. Era benzedeira. Recolhi narrativas da tradicional família Cupiro,
da comunidade do Porto; conversei inúmeras vezes com a senhora cujo nome não me foi possível ler, tendo em vista o desgaste do grafite num velho livro de atas de 33 anos. Conversávamos, ora na casa dela, em Tororomba, ora na Escola
Municipal Yayá Paiva, onde as narrações emendavam-se umas às outras; ouvi
longamente o senhor Manoel Salvador, homem profundamente ligado à cultura
popular de Nísia Floresta, ouvi a Sra. Joaninha (Joana do Nascimento Cruz, cunhada
da sra. Raimunda, da dupla Pirão Bem Mole) dentre outras pessoas pretas, todas
tendo os seus ancestrais nascidos em Nísia Floresta.
Manoel Salvador era uma dessas figuras que parecem sair diretamente das páginas do antigo folclore nordestino. Católico fervoroso. Não era necessariamente preto, mas dizia ser descendente de pretos e indígenas antigos da região, brincante de festejos populares, mestre de Pastoril, Lapinha, Boi de Reis e quadrilhas juninas, possuía uma voz potente, grave e marcante. Era alto, expansivo, sorridente, dono de uma alegria contagiante e de tiradas espirituosas que faziam todos ao redor rir. Quantas vezes conversamos longamente em sua casa e na calçada da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, cúmplice e testemunha dos mais espetaculares contares saídos da mente brilhante desse senhor.
Quando começava a
falar das antigas festas do Rosário, seus olhos pareciam voltar para um tempo
distante. Certa vez, sentado na calçada da Matriz, recordando as
histórias que ouvira de sua avó, disse-me:
- “Luís Carlos,
aquilo era festa de fazer a terra tremer. Diziam que quando os tambores
começavam ninguém ficava parado. É lógico que era fora da igreja, depois da
celebração, não sabe, tinha pare que ficava puto, mas contam que alguns gostavam
de negros e deixavam eles quietos...”
Noutra ocasião
comentou:
- “Minha avó contava
que o Rosário dos Pretos era a festa mais bonita de Papari. Era negro vestido
de rei, rainha, bandeira colorida, pau furado, fogueira e o povo rezando
misturado com dança... o diabo a quatro, linda... Você chegou a ver os comício de Jorge Ney? Tinha tambores de quiçuqui com cabumba (cachaça) lá do Timbó... o povo bebia de cair. Eu só me lembro desses comícios de George quando ouvia falar da festa do Rosário, mas na bagunceira mesmo, era de respeito, não estou falando de gente beba... Luís Carlos eu queria ter
sido daquela ápoca... era muito bonito...”
Essas narrativas
populares, recolhidas ao longo de tantos anos, revelam um universo
profundamente rico e praticamente esquecido pela memória oficial do Rio Grande
do Norte. Em Nísia Floresta nada sabem, apenas breves informações de que os
pretos tinha sua nave reservada na Matriz. Analisando em termos
norte-rio-grandense, reconheço que as festas de Nossa Senhora do Rosário dos
Pretos constituíram uma das maiores expressões da religiosidade afro-católica
potiguar. n
eram apenas festas religiosas. Eram espaços de
resistência cultural, preservação africana, solidariedade comunitária,
afirmação identitária e sobrevivência simbólica dos negros escravizados e seus
descendentes dentro de uma sociedade construída sob a violência da escravidão.
Quantos iam para o tronco no dia seguinte, por ter feito algo que o coronel não
gostou? Nísia Floresta era um lugarejos emoldurado de engenhos.
As antigas
Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos surgiram justamente
porque os negros eram frequentemente impedidos de participar plenamente das
irmandades controladas pelas elites brancas. Criaram
então suas próprias confrarias religiosas, dedicadas especialmente a Nossa
Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Dentro
dessas irmandades havia auxílio mútuo, organização social; ajuda para enterros,
proteção espiritual, acolhimento
comunitário, preservação das heranças africanas. Certa
vez, num momento informal em que estavam diversos folcloristas em Natal, após
uma reunião da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, ouvimos a presidente
de honra, Anna Maria Cascudo Barreto contando que por inúmeras vezes, altas
horas da noite, ou no nascer do dia, Câmara Cascudo era acordado por pretos,
desesperados, pedindo que ele fosse até a delegacia, soltar diversos brincantes
de alguma manifestação folclórica que tinham sido presos. Um Bambelô, um Coco,
Um Zambê era considerado “arruaça”. E lá ia Cascudo conversar com o delegado
que, muitas vezes a contragosto, mas por respeito ao sábio doutor, acedia. Já
imaginou isso?
Quando aluno de
Artes, na UFRN, estudei amplamente e cheguei a assistir os festejos dessa festa
em Caicó, onde sempre existiram, assim como em Acari, Jardim do Seridó, Currais
Novos, Parelhas, Serra Negra do Norte, Natal e também em Papary, onde foi
extinta, embora não sei precisar a data, mas com certeza durou muito tempo, a
considerar que, se era forte no período da escravidão, imaginem após a
abolição. Mas não há registros específicos nem na Matriz de Nossa senhora do Ó,
nem na Arquidiocese de Natal. Mas com certeza essas
festas deixaram marcas profundas.
A partir do conjunto
de narrações que me foram feitas pelas pessoas acima mencionadas, soube que os
preparativos começavam muitos dias antes da abertura oficial da festa. A igreja era cuidadosamente limpa. Caiavam-se paredes eventualmente.
Ornamentavam-se altares com flores, velas, toalhas bordadas e fitas coloridas.
Restauravam-se coroas, estandartes, bastões e lanternas utilizados nos
cortejos. As mulheres passavam dias preparando
comidas: canjicas, pamonhas, milho assado, aluá, gengibirra,
bolos e doces diversos.
Em depoimento
recolhido em Tororomba a narradora mencionou o aluá, uma bebida que os escravos
preparavam na Festa de Nossa Senhora do Rosário, conforme contavam seus avós: “o
aluá era uma bebida doce, feita nuns aguidar, nuns potes grandes de barro. O
povo fazia com casca de abacaxi, açúcar e às vezes botava gengibre. Ficava
fermentando e depois serviam bem friinho, naquele tempo não tinha essas
geladeira. Na festa do Rosário tinha muito. O povo saía da procissão cansado,
depois das farra toda, das danças, e ia beber aluá nas barracas. Já a gengibra
(gengibirra) era mais fortezinha de gosto, ardia por causa do gengibre. O povo
dizia que esquentava os bofe e dava alegria pra aguentar a festa até de
madrugada...”
Nesses depoimentos
observei que a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos pode ter virado o
milênio e resistido até as primeiras décadas do século XX, pois muitas
informações estavam claras nas mentes de algumas pessoas. Obviamente que essa “reconstituição”
que faço é parte de vários depoimentos, são fragmentos que me foram contados –
ou catados aqui e ali – permitindo-me entender a beleza dessa festa cat´olica.
tendo em vista que nem Inclusive não
consigo entender a sua extinção.
Em termos da
organização da festa, os homens preparavam mastros, ensaiavam os toques das
caixas, afinavam tambores e preparavam os pífanos. O
centro da vila mudava completamente. Famílias inteiras
vinham dos engenhos, sítios e localidades vizinhas a pé apenas para assistir à
Festa do Rosário. Mas nem todos. A maioria dos senhores de terras não viam com
bons olhos. As casas eram enfeitadas com toalhas nas
janelas e pequenas bandeiras coloridas.
Dona Estelita
Oliveira relatou:
- “Vovó contava que
quando o Rosário chegava, parecia que Papary acordava diferente. Ainda antes do
amanhecer começava a alvorada... O povo despertava ao som dos sinos, dos foguetes, dos tambores, das bandas de música, dospífanos... Os
negros saiam pelas ruas daqui do centro dizendo que a festa já estava começando...
os tambores podiam ser ouvidos de muito longe.”.
Sr. Manoel Salvador
relatou:
“As novenas eram o
coração da festa. Todas as noites rezavam o terço.
Cantavam ladainhas em latim. O padre fazia o sermão dele e depois realizava a
bênção do Santíssimo Sacramento. A igreja ficava
iluminada por velas e o lampadário, aqueles tocheiros todos acesos... devia ser
lindo, né!”.
Dona Joaninha, de
Tororomba, relatou que:
- “As mulheres
vestiam roupas especiais, feitas de um tecido chamado baeta, era assim que eu
ouvi de vovô. Também usavam muito o algodão cru e roupas de sacaria. Os homens
iam de paletó. Muitos pagavam promessas à santa. Depois
das novenas tinha o leilão. Era parecido como faziam até pouco tempo quando a
festa da padroeira Nossa Senhora do Ó era mais animada... Nesses leilões tinha
de tudo: galinhas, carneiros, bolos, doces, ponche, garrafas
de bebida alcoolica, coisas que eram ofertadas pra santa, prendas doadas pelas
famílias.
Sr. Manoel Salvador
relatou:
“Esses leilões era
para garantir a irmandade do Rosário dos Pretos e ajudar nos festejos do outro
ano. A missa do Rosário era bem solene. Durante anos ela foi celebrada em latim. A
irmandade entrava em procissão, depois vinham os estandartes... tinha incenso, coro
religioso (trepado naquela parte alta da igreja) banda
musical e toque dos sinos durante a elevação da hóstia. Eram quatro sinos, Luís
Carlos. A celebração era parecida com hoje. Os irmãos do Rosário ocupavam lugar
especial dentro da igreja. Mas só nessa festa. Eles ficavam nessa banda de cá
(ele narrou isso de costas para a Matriz). E nessa festa existiam cargos, era de muito respeito e parecia que era verdade
mesmo. Tinha o rei, a rainha, o juiz, a juíza, o tesoureiro, oescrivão, os capitães,
os porta-estandarte... O rei e a rainha do Rosário era
respeitado como qualquer rei desses países aí que tem rei..”
Pois bem, é
justamente nesse contexto que emerge uma das figuras mais extraordinárias da
história negra de Papary: o escravizado Miguel Rei. As
narrativas preservadas entre os antigos moradores associam Miguel Rei às
antigas festas do Rosário dos Pretos, embora sr. Manoel Salvador não o
mencionou. Ouvi seu nome no Porto e em Tororomba. Era
um homem preto, alto, corpulento e de grande liderança, profundamente
respeitado entre os escravizados da região, Miguel aparecia nos cortejos
acompanhado de sua companheira festiva, a Rainha Amélia. Ambos integravam aquela simbólica corte negra – nos moldes típicos
de quando vemos, por exemplo, a família real britânica, pois, segundo os
relatos, eles usavam vestes reais, com manto, coroa e tudo mais – e que tanto
impressionava a população da época.
Mas - num aparte -
Miguel Rei foi muito mais do que personagem dos festejos religiosos. Ele protagonizou um dos primeiros e mais importantes levantes
contra a escravidão no Rio Grande do Norte no período entre 1860 a 1870, tendo
Papary como cenário desse acontecimento histórico ainda pouco estudado pela
historiografia potiguar (Já contei essa história em alguns textos mais antigos
neste mesmo blog).
Num mundo sustentado
pela violência escravista, Miguel ousou insurgir-se contra a ordem dominante.
Seu gesto tornou-se um dos primeiros grandes gritos de
resistência negra em terras potiguares. Por isso, defendo
que Miguel Rei deve ser lembrado não apenas como figura lendária das festas do
Rosário, mas como personagem histórica fundamental da luta negra no Rio Grande
do Norte, digno de um monumento na cidade.
Mas, continuando sobre a Festa de
Nossa Senhora do Rosário dos pretos, as coroações do rei e da
rainha constituíam um dos momentos mais emocionantes da festa (o que não difere
do presente). Tanto dona Luci quanto o Sr.Manoel
Salvador relataram que os reis utilizavam coroas, capas, bastões, espadas
ornamentadas, faixas coloridas. As rainhas usavam mantos,
flores, véus, joias simbólicas.
E, afinal, por que
reis e rainhas num universo de pretos? A pergunta parece racismo estrutural,
mas não. A história apagou fatos precisosos - embora dolorosos - da História. Embora
não me recordo o nome no momento, mas, dentre outros episódios interessantes,
passados em terras potiguares, há um muito curioso em Macaíba, onde houve uma
princesa africana trazida do continente africano, roubada como objeto,
juntamente com outros pretos comuns. Essa realeza ainda era, de certo modo,
fresca na mente dos escravizados, os quais expressavam sua cultura nesse
evento. Tudo aquilo representava a memória dos antigos reinos africanos do
Congo e Angola e simbolizava dignidade negra dentro de uma sociedade escravista
profundamente desigual. Certamente isso era visto na velha Papary com grande
indiferença. Se hoje alguns se surpreendem quando se sabe que alguns escravizados
vindos para o Brasil pertenciam às famílias reais de seus lugares, imagine
àquela época. Mas obviamente que nem todos desconheciam e desconhecem isso.
Quando fazemos um
voo imaginário nessa região compreendo principalmente Nísia Floresta, São José
de Mipibu, Goianinha, Canguaretama, Santo Antônio do Salto da Onça, Lagoa
Salgada, Ceará Mirim, principalmente - e constatamos arcaicas expressões
folclóricas como as danças Bambelô, Coco, Zambê, Pau Furado e outras (todas de
raízes africanas) - entendemos porque ainda resistem essas danças ainda com
muitas características. Recordo-me quando, em 2005, eu e meu primo Amauri
Freire, também Folclorista, quando fundamos com outras pessoas a Fundação
Cajupiranga, encontramos um tesouro chamado Mestre Paraguai. Desde os 5 anos de
idade ele animou o Bambelô de São José de Mipibu e Nísia Floresta com seus pais
que também organizavam essa brincadeira. Mestre Paraguai, hoje falecido, era
preto tisnado. Sentado a seu lado, acompanhado de um pau furado que tinha mais
de 50 anos, mantido consigo, ele cantava suas loas, praticamente escandia as
sílabas para que eu entendesse bem seus versos típicos do bambelô e os
copiasse. E assim salvamos esse tesouro da extinção. Até hoje é vivo na mesma
instituição em São José de Mipibu.
Enfim, quanto a
festa, encerrada a parte litúrgica começavam os batuques e danças. E aqui as narrativas populares tornam-se especialmente ricas.
Falava-se justamente do bambelô, dos cocos, dos batuques em
roda, das palmas ritmadas, dos cantos responsoriais, das danças de cortejo.
Os tambores comandavam tudo. O
batuque não era mero entretenimento. Era oração
corporal. Era memória africana. Era resistência cultural. Era orgulho para que os opressores os
vissem como reis, como autoridades tanto quanto eles. Os
participantes formavam rodas. Havia sapateados, improvisos corporais, dança
circular e movimentos ritmados.
O coco aparecia
frequentemente após as procissões e durante os encontros noturnos. Possuía sapateado forte, cantos improvisado, palmas ritmadas e grande
participação coletiva. Inclusive de não escravizados que entravam no
contagiante ritmo. Já o bambelô preservava fortes
elementos africanos de musicalidade e corporalidade. Em
algumas regiões do Seridó destacava-se também o espontão, dança ritual marcada
por bastões e movimentos coreográficos. As procissões
eram grandiosas, compostas pelas irmandades, por crianças vestidas de anjos, músicos,
devotos pagando promessas, reis e rainhas do Rosário, carregadores do andor.
A imagem de Nossa
Senhora do Ros´rio - e de São Benedito - desciam de seus nichos e percorriam
lentamente as ruas da vila sob intensa emoção popular. Muitas casas acendiam velas nas janelas. Outras montavam pequenos
altares diante das portas. A procissão era animada por fogos, rezas, cânticos, choros, bandas tocando canções religiosas.
Em certos momentos os negros dançavam durante a própria
procissão, conforme me contou a esposa do Sr. Cupiro. Terminada
a parte religiosa começava a grande festa popular.
A Festa de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos acontecia em outubro; era regada a comes e bebes
típicos, inclusive algumas peculiaridades como a gengibirra e o aluá, mas
obviamente que havia muita semelhança com o presente em termos de assados e
iguarias e doces comuns. Inclusive um hábito muito antigo e que ainda alcancei –
e que não vejo mais - eram pontos de venda de pitomba e cana de açúcar fincada
em pequenas estacas de bambu ou gravetos. As bandas elegravam a parte social
com dobrados, valsas, polcas, emboladas e cocos. Com certeza havia outras
facetas da festa, como brincadeiras, foguetórios, por exemplo, mas não ouvi de
ninguém tal informação.
Manoel Salvador
certa vez comentou comigo:
— “Seu Luís, o povo
dizia que naquela festa tinha reza e tinha alegria. O Rosário dos Pretos era
sofrimento virando canto.”
Os padres observavam
aquelas manifestações com sentimentos variados. Creio. Muitos apoiavam as irmandades negras e reconheciam sua importância
espiritual e social entre escravizados e libertos. Outros
demonstravam desconforto diante dos batuques e danças consideradas excessivamente
profanas ou “barulhentas”, assim como narrei o episódio que ouvi de Anna
Cascudo. Entretanto, alguns sacerdotes que exerceram o sacerdócio em Papary
destacaram-se por posições humanitárias e, em certos casos, abolicionistas.
Entre eles figuram
padres mencionados nas pesquisas reunidas no meu texto “Os Sacerdotes de
Papari”, publicado no blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, onde faço
referências a religiosos que, em determinados momentos, intercederam em favor
de escravos perseguidos, acolheram negros e demonstraram sensibilidade diante
da brutalidade da escravidão.
Temos também o Padre
João Maria Cavalcanti de Brito, uma das figuras mais extraordinárias do clero
potiguar oitocentista. Sua atuação profundamente
comprometida com a causa abolicionista. Ele não apenas discursava contra a
escravidão. Sua ação ultrapassava os limites do púlpito. Ele ajudou escravos a fugirem das senzalas, utilizou sermões para
conscientizar a população sobre a necessidade de respeito aos negros libertos e
chegou a exigir das autoridades o cumprimento efetivo da Lei Áurea. Seu pensamento possuía rara sensibilidade social para a época.
Defendia publicamente que os negros deveriam ser tratados
como cidadãos livres e iguais aos brancos. Criticava antigos escravocratas que
se recusavam a aceitar a liberdade dos ex-escravizados e utilizava jornais e
homilias para denunciar injustiças sociais. Além
disso, Padre João Maria fundou escola para crianças pobres, socorreu doentes e
desenvolveu amplo trabalho assistencial junto às populações mais humildes.
Sua figura adquire relevância ainda maior quando imaginamos
aquele sacerdote convivendo com o universo das antigas festas do Rosário dos
Pretos, onde fé católica e permanências africanas se encontravam sob os sons
dos tambores e das caixas.
A história
norte-rio-grandense destaca, por exemplo, o Padre Francisco de Brito Guerra -
figura de grande importância intelectual e política do Rio Grande do Norte - e
outros sacerdotes ligados à antiga freguesia de Papary, alguns dos quais
conviveram diretamente com o ambiente social das antigas festas do Rosário dos
Pretos. Não é difícil imaginar certos padres
observando, da porta da igreja, aquela impressionante mistura de catolicismo
barroco, devoção popular e permanências africanas. E
aqui é impossível não recordar a maior intelectual nascida naquela terra: Nísia
Floresta Brasileira Augusta. Muito antes da abolição oficial da escravidão, ela
já denunciava desigualdades sociais e defendia princípios profundamente
humanitários. Primeira mulher abolicionista do Brasil, autora de quinze livros,
produziu obras fundamentais como Opúsculo Humanitário e A Lágrima de um Caeté,
textos de avançadíssimo pensamento social e político para o século XIX.
Outro nome
profundamente importante foi o de Dom José Pereira da Silva Barros, bispo
explicitamente identificado nas pesquisas como abolicionista. Durante sua
atuação pastoral no Rio Grande do Norte, Dom José realizou discursos públicos
contra a escravidão, defendeu a emancipação dos negros e afirmou que a Abolição
constituiria “o maior presente que o Brasil poderia dar a Deus e ao Papa”.
Em uma cerimônia histórica libertou solenemente vinte e dois
escravos, gesto de enorme repercussão moral numa sociedade ainda escravista.
Sua visita a Papary, em 1882, causou grande impacto entre a
população local. Dom José integrava aquele setor
progressista do clero brasileiro que compreendia a incompatibilidade entre
cristianismo autêntico e escravidão humana. As
pesquisas mencionam ainda outros sacerdotes ligados ao movimento abolicionista
potiguar.
O Padre Pedro Soares
de Freitas aparece associado às articulações emancipatórias em Carnaúba. O
Padre Amaro Teoth Castor Brasil surge vinculado aos movimentos libertários em
Caicó. O Padre Antônio Germano Bezerra é citado no contexto abolicionista do
Açu. O Padre Estevão José Dantas aparece relacionado às campanhas
emancipatórias em Macaíba. Já o Cônego Gregório Ferreira Lustoza surge
associado às ações abolicionistas em São José de Mipibu, enquanto o Vigário
Pedro Raposo da Câmara aparece ligado às campanhas libertárias em Ceará-Mirim.
Todos esses nomes revelam algo extremamente significativo:
uma parcela importante do clero potiguar não permaneceu
indiferente à tragédia da escravidão. Alguns acolheram
negros perseguidos. Outros intercederam em favor de escravizados. Muitos utilizaram sermões, jornais e homilias como instrumentos de
denúncia moral contra o cativeiro. Todo esse contexto
ajuda a compreender melhor o universo das antigas Festas de Nossa Senhora do
Rosário dos Pretos em Papary.
Era justamente essa
fusão entre fé católica, memória africana e resistência negra que tornava as
festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos tão grandiosas em Papary. Hoje, infelizmente, restam poucas marcas materiais daqueles
festejos. Certamente os santos pretos que resistem nos nichos da Igreja Matriz
de Nossa Senhora do Ó e nada mais. Não fosse a História Oral, jamais teria sido
possível estampar esse cenário visual, portanto louvo as pessoas aqui
mencionadas e tantas outras, cujos meus grafites tão manchados não me permitem
mais ler seus nomes.
Restaram fragmentos,
ruínas silenciosas e as vozes dos mais velhos. Mas
quando escutamos atentamente as narrativas de Manoel Salvador, dona Estelita
Oliveira, da família Cupiro e da senhora Joaninha e os demais, cujos nomes
estão inelegíveis, ainda parece possível ouvir, ao longe, os tambores do
Rosário ecoando pelas antigas ruas de Papary.
REFERÊNCIAS
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore
Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
CASCUDO, Luís da Câmara. Made in Africa. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
FREIRE, Luís Carlos. “Miguel Rei: o primeiro
escravizado a gritar contra a escravidão em Nísia Floresta”. Blog
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.
FREIRE, Luís Carlos. “Os Sacerdotes de Papari”.
Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.
FREIRE, Luís Carlos. “Vila Imperial de Papary -
A visita do bispo Dom José - 1882”. Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE,
Nísia Floresta/RN.
MOURA, Clóvis. Os Quilombos e a Rebelião Negra.
São Paulo: Brasiliense, 1981.
NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. Opúsculo
Humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de F. de Paula Brito, 1853.
NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. A Lágrima de
um Caeté. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. de Menezes, 1849.
Registros orais pertinentes à Festado Rosário dos Pretos, recolhidos pelo autor junto à senhora Estelita Oliveira, família Cupiro,
senhora Joaninha e senhor Manoel Salvador, povoado do Porto/Tororomba, Nísia Floresta/RN, entre 1992 a 1994.
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