ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A EXTINTA FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS EM PAPARY (NÍSIA FLORESTA)...

Imagem criada por inteligência artificial, sem preocupação com originalidade espacial, mas apenas com as figuras humanas. 

Como sempre registro, em 1992, em Nísia Floresta passei a desenvolver um contínuo trabalho de História Oral, recolhendo memórias espalhadas entre pescadores, trabalhadores rurais, antigos moradores do Porto, descendentes de famílias negras e pessoas simples que, sem perceber, carregavam consigo preciosos fragmentos da história cultural, religiosa e social daquela terra. 

Ao longo dessas décadas ouvi demoradamente a senhora Estelita Oliveira, neta do Cel. Alexandre de Oliveira, o famoso Cavaleiro da Rosa; ela residia no centro, quase de frente à rodoviária. Era benzedeira. Recolhi narrativas da tradicional família Cupiro, da comunidade do Porto; conversei inúmeras vezes com a senhora cujo nome não me foi possível ler, tendo em vista o desgaste do grafite num velho livro de atas de 33 anos. Conversávamos, ora na casa dela, em Tororomba, ora na Escola Municipal Yayá Paiva, onde as narrações emendavam-se umas às outras; ouvi longamente o senhor Manoel Salvador, homem profundamente ligado à cultura popular de Nísia Floresta, ouvi a Sra. Joaninha (Joana do Nascimento Cruz, cunhada da sra. Raimunda, da dupla Pirão Bem Mole) dentre outras pessoas pretas, todas tendo os seus ancestrais nascidos em Nísia Floresta.

Manoel Salvador era uma dessas figuras que parecem sair diretamente das páginas do antigo folclore nordestino. Católico fervoroso. Não era necessariamente preto, mas dizia ser descendente de pretos e indígenas antigos da região, brincante de festejos populares, mestre de Pastoril, Lapinha, Boi de Reis e quadrilhas juninas, possuía uma voz potente, grave e marcante. Era alto, expansivo, sorridente, dono de uma alegria contagiante e de tiradas espirituosas que faziam todos ao redor rir. Quantas vezes conversamos longamente em sua casa e na calçada da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, cúmplice e testemunha dos mais espetaculares contares saídos da mente brilhante desse senhor.

Quando começava a falar das antigas festas do Rosário, seus olhos pareciam voltar para um tempo distante. Certa vez, sentado na calçada da Matriz, recordando as histórias que ouvira de sua avó, disse-me:

- “Luís Carlos, aquilo era festa de fazer a terra tremer. Diziam que quando os tambores começavam ninguém ficava parado. É lógico que era fora da igreja, depois da celebração, não sabe, tinha pare que ficava puto, mas contam que alguns gostavam de negros e deixavam eles quietos...”

Noutra ocasião comentou:

- “Minha avó contava que o Rosário dos Pretos era a festa mais bonita de Papari. Era negro vestido de rei, rainha, bandeira colorida, pau furado, fogueira e o povo rezando misturado com dança... o diabo a quatro, linda... Você chegou a ver os comício de Jorge Ney? Tinha tambores de quiçuqui com cabumba (cachaça) lá do Timbó... o povo bebia de cair. Eu só me lembro desses comícios de George quando ouvia falar da festa do Rosário, mas na bagunceira mesmo, era de respeito, não estou falando de gente beba... Luís Carlos eu queria ter sido daquela ápoca... era muito bonito...”

Essas narrativas populares, recolhidas ao longo de tantos anos, revelam um universo profundamente rico e praticamente esquecido pela memória oficial do Rio Grande do Norte. Em Nísia Floresta nada sabem, apenas breves informações de que os pretos tinha sua nave reservada na Matriz. Analisando em termos norte-rio-grandense, reconheço que as festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos constituíram uma das maiores expressões da religiosidade afro-católica potiguar.  n eram apenas festas religiosas. Eram espaços de resistência cultural, preservação africana, solidariedade comunitária, afirmação identitária e sobrevivência simbólica dos negros escravizados e seus descendentes dentro de uma sociedade construída sob a violência da escravidão. Quantos iam para o tronco no dia seguinte, por ter feito algo que o coronel não gostou? Nísia Floresta era um lugarejos emoldurado de engenhos.

As antigas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos surgiram justamente porque os negros eram frequentemente impedidos de participar plenamente das irmandades controladas pelas elites brancas. Criaram então suas próprias confrarias religiosas, dedicadas especialmente a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Dentro dessas irmandades havia auxílio mútuo, organização social; ajuda para enterros, proteção espiritual, acolhimento comunitário, preservação das heranças africanas. Certa vez, num momento informal em que estavam diversos folcloristas em Natal, após uma reunião da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, ouvimos a presidente de honra, Anna Maria Cascudo Barreto contando que por inúmeras vezes, altas horas da noite, ou no nascer do dia, Câmara Cascudo era acordado por pretos, desesperados, pedindo que ele fosse até a delegacia, soltar diversos brincantes de alguma manifestação folclórica que tinham sido presos. Um Bambelô, um Coco, Um Zambê era considerado “arruaça”. E lá ia Cascudo conversar com o delegado que, muitas vezes a contragosto, mas por respeito ao sábio doutor, acedia. Já imaginou isso?

Quando aluno de Artes, na UFRN, estudei amplamente e cheguei a assistir os festejos dessa festa em Caicó, onde sempre existiram, assim como em Acari, Jardim do Seridó, Currais Novos, Parelhas, Serra Negra do Norte, Natal e também em Papary, onde foi extinta, embora não sei precisar a data, mas com certeza durou muito tempo, a considerar que, se era forte no período da escravidão, imaginem após a abolição. Mas não há registros específicos nem na Matriz de Nossa senhora do Ó, nem na Arquidiocese de Natal. Mas com certeza essas festas deixaram marcas profundas.

A partir do conjunto de narrações que me foram feitas pelas pessoas acima mencionadas, soube que os preparativos começavam muitos dias antes da abertura oficial da festa. A igreja era cuidadosamente limpa. Caiavam-se paredes eventualmente. Ornamentavam-se altares com flores, velas, toalhas bordadas e fitas coloridas. Restauravam-se coroas, estandartes, bastões e lanternas utilizados nos cortejos. As mulheres passavam dias preparando comidas: canjicas, pamonhas, milho assado, aluá, gengibirra, bolos e doces diversos.

Em depoimento recolhido em Tororomba a narradora mencionou o aluá, uma bebida que os escravos preparavam na Festa de Nossa Senhora do Rosário, conforme contavam seus avós: “o aluá era uma bebida doce, feita nuns aguidar, nuns potes grandes de barro. O povo fazia com casca de abacaxi, açúcar e às vezes botava gengibre. Ficava fermentando e depois serviam bem friinho, naquele tempo não tinha essas geladeira. Na festa do Rosário tinha muito. O povo saía da procissão cansado, depois das farra toda, das danças, e ia beber aluá nas barracas. Já a gengibra (gengibirra) era mais fortezinha de gosto, ardia por causa do gengibre. O povo dizia que esquentava os bofe e dava alegria pra aguentar a festa até de madrugada...”

 Ainda sobre o mesmo assunto, numa montagem da colcha de retalho da cultura popular local, numa conversa na calçada da Matriz, indaguei sobre tal assunto o senhor Manoel Salvador, mestre de Pastoril, Lapinha e Boi de Reis. Segundo ele “Essa festa da escravaiada era festa grande demais... Depois da celebração tinha barraca de tudo quanto era comida, mas o que o povo procurava mesmo era aluá e gengibrina (gengibirra) por causa do álcool. O aluá ficava nos potes cobertos com pano. Era doce e refrescava a pessoa depois do batuque. Já a gengibirra era diferente... tinha gengibre forte, fazia até o nariz da gente arder. Minha avó dizia que negro velho gostava de tomar   gengibrina (gengibirra) escutando caixa e tambor na noite do Rosário. E o povo bebia rindo, conversando, dançando, enquanto a festa seguia pela madrugada inteira... pense num povo pra dançar, Luís Carlos, é, assim meus avós diziam...”

Nesses depoimentos observei que a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos pode ter virado o milênio e resistido até as primeiras décadas do século XX, pois muitas informações estavam claras nas mentes de algumas pessoas. Obviamente que essa “reconstituição” que faço é parte de vários depoimentos, são fragmentos que me foram contados – ou catados aqui e ali – permitindo-me entender a beleza dessa festa cat´olica. tendo em vista que nem  Inclusive não consigo entender a sua extinção.

Em termos da organização da festa, os homens preparavam mastros, ensaiavam os toques das caixas, afinavam tambores e preparavam os pífanos. O centro da vila mudava completamente. Famílias inteiras vinham dos engenhos, sítios e localidades vizinhas a pé apenas para assistir à Festa do Rosário. Mas nem todos. A maioria dos senhores de terras não viam com bons olhos. As casas eram enfeitadas com toalhas nas janelas e pequenas bandeiras coloridas.

Dona Estelita Oliveira relatou:

- “Vovó contava que quando o Rosário chegava, parecia que Papary acordava diferente. Ainda antes do amanhecer começava a alvorada... O povo despertava ao som dos sinos, dos foguetes, dos tambores, das bandas de música, dospífanos... Os negros saiam pelas ruas daqui do centro dizendo que a festa já estava começando... os tambores podiam ser ouvidos de muito longe.”.

Sr. Manoel Salvador relatou:

“As novenas eram o coração da festa. Todas as noites rezavam o terço. Cantavam ladainhas em latim. O padre fazia o sermão dele e depois realizava a bênção do Santíssimo Sacramento. A igreja ficava iluminada por velas e o lampadário, aqueles tocheiros todos acesos... devia ser lindo, né!”.

Dona Joaninha, de Tororomba, relatou que:

- “As mulheres vestiam roupas especiais, feitas de um tecido chamado baeta, era assim que eu ouvi de vovô. Também usavam muito o algodão cru e roupas de sacaria. Os homens iam de paletó. Muitos pagavam promessas à santa. Depois das novenas tinha o leilão. Era parecido como faziam até pouco tempo quando a festa da padroeira Nossa Senhora do Ó era mais animada... Nesses leilões tinha de tudo: galinhas, carneiros, bolos, doces, ponche, garrafas de bebida alcoolica, coisas que eram ofertadas pra santa, prendas doadas pelas famílias.

Sr. Manoel Salvador relatou:

“Esses leilões era para garantir a irmandade do Rosário dos Pretos e ajudar nos festejos do outro ano. A missa do Rosário era bem solene. Durante anos ela foi celebrada em latim. A irmandade entrava em procissão, depois vinham os estandartes... tinha incenso, coro religioso (trepado naquela parte alta da igreja) banda musical e toque dos sinos durante a elevação da hóstia. Eram quatro sinos, Luís Carlos. A celebração era parecida com hoje. Os irmãos do Rosário ocupavam lugar especial dentro da igreja. Mas só nessa festa. Eles ficavam nessa banda de cá (ele narrou isso de costas para a Matriz). E nessa festa existiam cargos, era de muito respeito e parecia que era verdade mesmo. Tinha o rei, a rainha, o juiz, a juíza, o tesoureiro, oescrivão, os capitães, os porta-estandarte... O rei e a rainha do Rosário era respeitado como qualquer rei desses países aí que tem rei..”

Pois bem, é justamente nesse contexto que emerge uma das figuras mais extraordinárias da história negra de Papary: o escravizado Miguel Rei. As narrativas preservadas entre os antigos moradores associam Miguel Rei às antigas festas do Rosário dos Pretos, embora sr. Manoel Salvador não o mencionou. Ouvi seu nome no Porto e em Tororomba. Era um homem preto, alto, corpulento e de grande liderança, profundamente respeitado entre os escravizados da região, Miguel aparecia nos cortejos acompanhado de sua companheira festiva, a Rainha Amélia. Ambos integravam aquela simbólica corte negra – nos moldes típicos de quando vemos, por exemplo, a família real britânica, pois, segundo os relatos, eles usavam vestes reais, com manto, coroa e tudo mais – e que tanto impressionava a população da época.

Mas - num aparte - Miguel Rei foi muito mais do que personagem dos festejos religiosos. Ele protagonizou um dos primeiros e mais importantes levantes contra a escravidão no Rio Grande do Norte no período entre 1860 a 1870, tendo Papary como cenário desse acontecimento histórico ainda pouco estudado pela historiografia potiguar (Já contei essa história em alguns textos mais antigos neste mesmo blog).

Num mundo sustentado pela violência escravista, Miguel ousou insurgir-se contra a ordem dominante. Seu gesto tornou-se um dos primeiros grandes gritos de resistência negra em terras potiguares. Por isso, defendo que Miguel Rei deve ser lembrado não apenas como figura lendária das festas do Rosário, mas como personagem histórica fundamental da luta negra no Rio Grande do Norte, digno de um monumento na cidade.

Mas, continuando sobre a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos pretos, as coroações do rei e da rainha constituíam um dos momentos mais emocionantes da festa (o que não difere do presente). Tanto dona Luci quanto o Sr.Manoel Salvador relataram que os reis utilizavam coroas, capas, bastões, espadas ornamentadas, faixas coloridas. As rainhas usavam mantos, flores, véus, joias simbólicas.

E, afinal, por que reis e rainhas num universo de pretos? A pergunta parece racismo estrutural, mas não. A história apagou fatos precisosos - embora dolorosos - da História. Embora não me recordo o nome no momento, mas, dentre outros episódios interessantes, passados em terras potiguares, há um muito curioso em Macaíba, onde houve uma princesa africana trazida do continente africano, roubada como objeto, juntamente com outros pretos comuns. Essa realeza ainda era, de certo modo, fresca na mente dos escravizados, os quais expressavam sua cultura nesse evento. Tudo aquilo representava a memória dos antigos reinos africanos do Congo e Angola e simbolizava dignidade negra dentro de uma sociedade escravista profundamente desigual. Certamente isso era visto na velha Papary com grande indiferença. Se hoje alguns se surpreendem quando se sabe que alguns escravizados vindos para o Brasil pertenciam às famílias reais de seus lugares, imagine àquela época. Mas obviamente que nem todos desconheciam e desconhecem isso.

Quando fazemos um voo imaginário nessa região compreendo principalmente Nísia Floresta, São José de Mipibu, Goianinha, Canguaretama, Santo Antônio do Salto da Onça, Lagoa Salgada, Ceará Mirim, principalmente - e constatamos arcaicas expressões folclóricas como as danças Bambelô, Coco, Zambê, Pau Furado e outras (todas de raízes africanas) - entendemos porque ainda resistem essas danças ainda com muitas características. Recordo-me quando, em 2005, eu e meu primo Amauri Freire, também Folclorista, quando fundamos com outras pessoas a Fundação Cajupiranga, encontramos um tesouro chamado Mestre Paraguai. Desde os 5 anos de idade ele animou o Bambelô de São José de Mipibu e Nísia Floresta com seus pais que também organizavam essa brincadeira. Mestre Paraguai, hoje falecido, era preto tisnado. Sentado a seu lado, acompanhado de um pau furado que tinha mais de 50 anos, mantido consigo, ele cantava suas loas, praticamente escandia as sílabas para que eu entendesse bem seus versos típicos do bambelô e os copiasse. E assim salvamos esse tesouro da extinção. Até hoje é vivo na mesma instituição em São José de Mipibu.

Enfim, quanto a festa, encerrada a parte litúrgica começavam os batuques e danças. E aqui as narrativas populares tornam-se especialmente ricas. Falava-se justamente do bambelô, dos cocos, dos batuques em roda, das palmas ritmadas, dos cantos responsoriais, das danças de cortejo. Os tambores comandavam tudo. O batuque não era mero entretenimento. Era oração corporal. Era memória africana. Era resistência cultural. Era orgulho para que os opressores os vissem como reis, como autoridades tanto quanto eles. Os participantes formavam rodas. Havia sapateados, improvisos corporais, dança circular e movimentos ritmados.

O coco aparecia frequentemente após as procissões e durante os encontros noturnos. Possuía sapateado forte, cantos improvisado, palmas ritmadas e grande participação coletiva. Inclusive de não escravizados que entravam no contagiante ritmo. Já o bambelô preservava fortes elementos africanos de musicalidade e corporalidade. Em algumas regiões do Seridó destacava-se também o espontão, dança ritual marcada por bastões e movimentos coreográficos. As procissões eram grandiosas, compostas pelas irmandades, por crianças vestidas de anjos, músicos, devotos pagando promessas, reis e rainhas do Rosário, carregadores do andor.

A imagem de Nossa Senhora do Ros´rio - e de São Benedito - desciam de seus nichos e percorriam lentamente as ruas da vila sob intensa emoção popular. Muitas casas acendiam velas nas janelas. Outras montavam pequenos altares diante das portas. A procissão era animada por fogos, rezas, cânticos, choros, bandas tocando canções religiosas. Em certos momentos os negros dançavam durante a própria procissão, conforme me contou a esposa do Sr. Cupiro. Terminada a parte religiosa começava a grande festa popular.

A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos acontecia em outubro; era regada a comes e bebes típicos, inclusive algumas peculiaridades como a gengibirra e o aluá, mas obviamente que havia muita semelhança com o presente em termos de assados e iguarias e doces comuns. Inclusive um hábito muito antigo e que ainda alcancei – e que não vejo mais - eram pontos de venda de pitomba e cana de açúcar fincada em pequenas estacas de bambu ou gravetos. As bandas elegravam a parte social com dobrados, valsas, polcas, emboladas e cocos. Com certeza havia outras facetas da festa, como brincadeiras, foguetórios, por exemplo, mas não ouvi de ninguém tal informação.

Manoel Salvador certa vez comentou comigo:

— “Seu Luís, o povo dizia que naquela festa tinha reza e tinha alegria. O Rosário dos Pretos era sofrimento virando canto.”

Os padres observavam aquelas manifestações com sentimentos variados. Creio. Muitos apoiavam as irmandades negras e reconheciam sua importância espiritual e social entre escravizados e libertos. Outros demonstravam desconforto diante dos batuques e danças consideradas excessivamente profanas ou “barulhentas”, assim como narrei o episódio que ouvi de Anna Cascudo. Entretanto, alguns sacerdotes que exerceram o sacerdócio em Papary destacaram-se por posições humanitárias e, em certos casos, abolicionistas.

Entre eles figuram padres mencionados nas pesquisas reunidas no meu texto “Os Sacerdotes de Papari”, publicado no blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, onde faço referências a religiosos que, em determinados momentos, intercederam em favor de escravos perseguidos, acolheram negros e demonstraram sensibilidade diante da brutalidade da escravidão.

Temos também o Padre João Maria Cavalcanti de Brito, uma das figuras mais extraordinárias do clero potiguar oitocentista. Sua atuação profundamente comprometida com a causa abolicionista. Ele não apenas discursava contra a escravidão. Sua ação ultrapassava os limites do púlpito. Ele ajudou escravos a fugirem das senzalas, utilizou sermões para conscientizar a população sobre a necessidade de respeito aos negros libertos e chegou a exigir das autoridades o cumprimento efetivo da Lei Áurea. Seu pensamento possuía rara sensibilidade social para a época. Defendia publicamente que os negros deveriam ser tratados como cidadãos livres e iguais aos brancos. Criticava antigos escravocratas que se recusavam a aceitar a liberdade dos ex-escravizados e utilizava jornais e homilias para denunciar injustiças sociais. Além disso, Padre João Maria fundou escola para crianças pobres, socorreu doentes e desenvolveu amplo trabalho assistencial junto às populações mais humildes. Sua figura adquire relevância ainda maior quando imaginamos aquele sacerdote convivendo com o universo das antigas festas do Rosário dos Pretos, onde fé católica e permanências africanas se encontravam sob os sons dos tambores e das caixas.

A história norte-rio-grandense destaca, por exemplo, o Padre Francisco de Brito Guerra - figura de grande importância intelectual e política do Rio Grande do Norte - e outros sacerdotes ligados à antiga freguesia de Papary, alguns dos quais conviveram diretamente com o ambiente social das antigas festas do Rosário dos Pretos. Não é difícil imaginar certos padres observando, da porta da igreja, aquela impressionante mistura de catolicismo barroco, devoção popular e permanências africanas. E aqui é impossível não recordar a maior intelectual nascida naquela terra: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Muito antes da abolição oficial da escravidão, ela já denunciava desigualdades sociais e defendia princípios profundamente humanitários. Primeira mulher abolicionista do Brasil, autora de quinze livros, produziu obras fundamentais como Opúsculo Humanitário e A Lágrima de um Caeté, textos de avançadíssimo pensamento social e político para o século XIX.

Outro nome profundamente importante foi o de Dom José Pereira da Silva Barros, bispo explicitamente identificado nas pesquisas como abolicionista. Durante sua atuação pastoral no Rio Grande do Norte, Dom José realizou discursos públicos contra a escravidão, defendeu a emancipação dos negros e afirmou que a Abolição constituiria “o maior presente que o Brasil poderia dar a Deus e ao Papa”. Em uma cerimônia histórica libertou solenemente vinte e dois escravos, gesto de enorme repercussão moral numa sociedade ainda escravista. Sua visita a Papary, em 1882, causou grande impacto entre a população local. Dom José integrava aquele setor progressista do clero brasileiro que compreendia a incompatibilidade entre cristianismo autêntico e escravidão humana. As pesquisas mencionam ainda outros sacerdotes ligados ao movimento abolicionista potiguar.

O Padre Pedro Soares de Freitas aparece associado às articulações emancipatórias em Carnaúba. O Padre Amaro Teoth Castor Brasil surge vinculado aos movimentos libertários em Caicó. O Padre Antônio Germano Bezerra é citado no contexto abolicionista do Açu. O Padre Estevão José Dantas aparece relacionado às campanhas emancipatórias em Macaíba. Já o Cônego Gregório Ferreira Lustoza surge associado às ações abolicionistas em São José de Mipibu, enquanto o Vigário Pedro Raposo da Câmara aparece ligado às campanhas libertárias em Ceará-Mirim. Todos esses nomes revelam algo extremamente significativo: uma parcela importante do clero potiguar não permaneceu indiferente à tragédia da escravidão. Alguns acolheram negros perseguidos. Outros intercederam em favor de escravizados. Muitos utilizaram sermões, jornais e homilias como instrumentos de denúncia moral contra o cativeiro. Todo esse contexto ajuda a compreender melhor o universo das antigas Festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Papary.

Era justamente essa fusão entre fé católica, memória africana e resistência negra que tornava as festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos tão grandiosas em Papary. Hoje, infelizmente, restam poucas marcas materiais daqueles festejos. Certamente os santos pretos que resistem nos nichos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó e nada mais. Não fosse a História Oral, jamais teria sido possível estampar esse cenário visual, portanto louvo as pessoas aqui mencionadas e tantas outras, cujos meus grafites tão manchados não me permitem mais ler seus nomes.

Restaram fragmentos, ruínas silenciosas e as vozes dos mais velhos. Mas quando escutamos atentamente as narrativas de Manoel Salvador, dona Estelita Oliveira, da família Cupiro e da senhora Joaninha e os demais, cujos nomes estão inelegíveis, ainda parece possível ouvir, ao longe, os tambores do Rosário ecoando pelas antigas ruas de Papary.

REFERÊNCIAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

CASCUDO, Luís da Câmara. Made in Africa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

FREIRE, Luís Carlos. “Miguel Rei: o primeiro escravizado a gritar contra a escravidão em Nísia Floresta”. Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.

FREIRE, Luís Carlos. “Os Sacerdotes de Papari”. Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.

FREIRE, Luís Carlos. “Vila Imperial de Papary - A visita do bispo Dom José - 1882”. Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.

MOURA, Clóvis. Os Quilombos e a Rebelião Negra. São Paulo: Brasiliense, 1981.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. Opúsculo Humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de F. de Paula Brito, 1853.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. A Lágrima de um Caeté. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. de Menezes, 1849.

Registros orais pertinentes à Festado Rosário dos Pretos, recolhidos pelo autor junto à senhora Estelita Oliveira, família Cupiro, senhora Joaninha e senhor Manoel Salvador, povoado do Porto/Tororomba, Nísia Floresta/RN, entre 1992 a 1994.

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