Aproveitando o mês de maio, período dedicado às reflexões sobre a Abolição da Escravidão no Brasil, retorno a velhas anotações feitas ainda em 1992, quando iniciei um estudo de História Oral no município de Nísia Floresta, antiga Vila Imperial de Papary.
Papary carrega dois marcos profundamente simbólicos
e fortes ligados à luta contra a opressão. O primeiro deles é a filósofa Nísia
Floresta Brasileira Augusta, pioneira do pensamento feminista no Brasil e uma
das primeiras vozes femininas a se posicionar publicamente contra a escravidão,
dentre outros assuntos. O segundo marco, quase apagado pela história oficial, é
a figura extraordinária de Miguel Rei - talvez uma das primeiras vozes negras
potiguares a insurgir-se publicamente contra o sistema escravista, justamente
entre as décadas de 1860 e 1870, nas terras de Papary.
Sempre que mergulho nessas memórias, percebo o
quanto o silêncio histórico recaiu sobre os negros da antiga Papary e sobre os
movimentos de resistência escrava no Rio Grande do Norte. Quando comecei minhas
pesquisas, ainda no início da década de 1990, o tema praticamente não era
discutido. Falava-se muito pouco sobre os negros potiguares, seus sofrimentos,
suas formas de resistência e suas manifestações culturais. E da mesma forma
acontecia com os povos indígenas.
Os antigos historiadores do Rio Grande do Norte -
mesmo os maiores - quase não se aprofundaram sobre o assunto. Luís da Câmara
Cascudo, por exemplo, dedicou linhas preciosas, porém breves, ao tema. O mesmo
ocorreu com Tavares de Lyra, Nestor dos Santos Lima e Ferreira Nobre. A
história provincial preferiu exaltar governadores, coronéis, bacharéis e
proprietários de engenho. Os negros quase sempre ficaram reduzidos ao silêncio.
Os próprios relatórios governamentais são parcos em informações nesse sentido.
Entretanto, foi justamente na oralidade –
praticamente como uma arqueologia – que encontrei fragmentos sobreviventes
dessa memória e que, anos depois, consistiriam num precioso achado, quando
ampliei a colcha de retalhos.
Nas antigas conversas realizadas com moradores
idosos de Papary, ouvi repetidas referências às festas do Rosário dos Pretos,
aos “reis negros”, aos batuques, às danças e às coroações realizadas todo dia 6
de janeiro na antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Eventualmente surgia,
quase como personagem lendário, o nome de Miguel Rei. Diziam que era um negro
bonito, alto, falador, de presença forte, excelente dançarino e profundamente
respeitado pelos negros da região. Mas poucos conseguiam explicar quem
realmente havia sido aquele homem.
Quem melhor o descreveu foi dona Estelita de
Oliveira, bisneta do Coronel Alexandre de Oliveira, chamado Cavaleiro da Rosa. Em
suas narrativas, Miguel não aparecia apenas como personagem das festas negras
do Rosário, mas como alguém que ousou enfrentar a escravidão em Papary. Outra
narrativa semelhante ouvi, em 1993, de uma senhora da família Cupiro, moradora
do Porto, antigo povoado de Nísia Floresta. Infelizmente, hoje não recordo o
nome daquela senhora, embora ele permaneça anotado em meus antigos cadernos de
História Oral.
Com o passar do tempo, percebi que aquelas memórias
populares encontravam eco em registros históricos dispersos.
Em 1994, ao revisitar obras de Câmara Cascudo,
encontrei referências preciosíssimas que ajudaram a reconstruir parte daquilo
que eu ouvira oralmente. Foi uma experiência incrível, pois aquelas pessoas que
narraram fragmentos daquele episódio – mesmo que não soubessem – talvez
descendessem dos próprios partícipes daquela história. Cascudo não narra os
detalhes ricos preservados pelo povo, mas confirma episódios fundamentais da
resistência negra no litoral sul potiguar.
No século XIX, o Rio Grande do Norte vivia relativo
crescimento da mão de obra escravizada, especialmente em razão da expansão
açucareira nos vales de Ceará-Mirim, São José de Mipibu, Goianinha,
Canguaretama e São Gonçalo.
Natal possuía poucos escravos em comparação às
zonas rurais, já que a capital não mantinha uma economia agrícola de grande
escala. Câmara Cascudo registra números significativos: Natal possuía 822
escravizados em 1873; 339 em 1881; 321 em 1882; 246 em 1884; e apenas 152 em
1887. Ainda assim, o Rio Grande do Norte
nunca apresentou concentração escravista comparável à de Pernambuco ou Bahia.
Muitos escravizados vinham de Pernambuco e até do Maranhão, e não diretamente
da África. Porém, com o fortalecimento dos engenhos entre as décadas de 1850 e
1860, cresceu também o inconformismo negro.
Sabemos muito pouco sobre as insurreições escravas
no Rio Grande do Norte porque os relatórios provinciais quase não registravam
esses acontecimentos. A documentação é escassa. Muitas histórias desapareceram
sob o peso do preconceito, do abandono documental e da negligência das elites
provinciais. Mesmo assim, alguns fragmentos sobreviveram. Assim como essas
sobras memoriais ao estilo do que publiquei anteriormente sobre a Festa de
Nossa Senhora do Rosário.
Nestor dos Santos Lima, por exemplo, registrou uma
importante insurreição em Goianinha. Nela, os escravizados Bonifácio, Estevão,
Leandro e Eduvirgens, pertencentes ao Engenho Bom Jardim, organizaram um
movimento revolucionário envolvendo negros de diversas propriedades, incluindo
os engenhos Bosque e Ilha Grande.
Chegaram a formar uma espécie de governo simbólico,
tendo Bonifácio como “presidente da Câmara Municipal”. Pretendiam marchar até
Natal reivindicando direitos.
Mas, como em tantas histórias de conspiração,
surgiu um delator. O movimento foi denunciado pelo escravizado Félix,
pertencente a Manoel Laurentino Freire de Alustau Navarro - professor de Isabel
Gondim - e violentamente reprimido na Mata de Baldum. Bonifácio conseguiu fugir
e, segundo relatos, refugiou-se em Goiana, Pernambuco, cidade historicamente
importante no cenário intelectual nordestino e por onde também passou Nísia Floresta.
Ao aprofundar minhas pesquisas, compreendi que Miguel Rei não pode ser entendido apenas como líder de uma conspiração escrava. Sua figura também está profundamente ligada às antigas Festas do Rosário dos Pretos, manifestações religiosas e culturais existentes em diversas regiões do Rio Grande do Norte. Em cidades como Caicó, São Gonçalo do Amarante, Goianinha, Canguaretama e na própria Papary, existiram irmandades negras ligadas a Nossa Senhora do Rosário. Essas irmandades funcionavam não apenas como espaços religiosos, mas como núcleos de sociabilidade, proteção, identidade cultural e resistência simbólica da população negra.
Os relatos orais colhidos junto às antigas famílias
de Papary descrevem festas profundamente marcantes. Segundo dona Estelita e
antigos membros da família Cupiro, no dia 6 de janeiro os negros tomavam conta
das ruas da vila. Havia batuques, tambores, danças, coroações, roupas coloridas
e cortejos que atravessavam o casario antigo em direção à Matriz de Nossa
Senhora do Ó.
Os negros possuíam lugar reservado numa das naves
laterais da igreja. Era ali que permaneciam durante os atos religiosos ligados
ao Rosário. Mesmo dentro de uma sociedade rigidamente escravista, a Festa do
Rosário criava um raro espaço de visibilidade para os negros da vila.
Naquele ambiente surgiam os chamados “reis” e
“rainhas” do Rosário. Miguel era um deles. E talvez o mais lembrado de todos. Os
depoimentos antigos que obtive com pessoas idosas de Nísia Floresta, depois de
cruzados com as informações do mestre Cascudo (único que registrou o fato), o
descrevem como um “rei negro” de grande carisma, respeitado entre os
escravizados dos engenhos de Papary, Arez e São José de Mipibu. Dançava,
discursava, organizava os festejos e exercia liderança natural sobre os demais
negros.
A Festa do Rosário dos Pretos possuía forte
dimensão simbólica. Enquanto os senhores observavam os festejos como simples
folclore religioso, os negros construíam ali redes de solidariedade, identidade
coletiva e memória ancestral. Talvez tenha sido justamente nesse ambiente que
Miguel Rei consolidou sua liderança.
Sua companheira de reinado era Amélia Rainha,
escravizada do delegado Tomás José de Moura. Décadas atrás encontrei seu
registro de óbito: faleceu em Papary no dia 14 de fevereiro de 1915, aos 96 anos
de idade. Amélia sobreviveu à escravidão. Sobreviveu ao Império. Sobreviveu à
República nascente. E, de certa maneira, sobreviveu também ao silêncio da
própria história. Após a prisão de Miguel Rei, o reinado negro teria passado
para Luís, escravizado do Dr. Francisco de Souza Ribeiro Dantas. Segundo
antigos registros e memórias orais, ele teria sido o último rei das festas do
Rosário em Papary.
MIGUEL REI E A INSURGÊNCIA NEGRA EM PAPARY
Entretanto, o episódio mais impressionante
envolvendo Miguel Rei não se restringe à religiosidade popular. Miguel,
escravizado do coronel Antônio Basílio Ribeiro Dantas, proprietário do Engenho
Sapé, conseguiu articular um movimento envolvendo mais de cem negros oriundos
de Papary, São José de Mipibu, Arez e Goianinha.
O grupo possuía até mesmo um quartel-general
improvisado na Mata da Mangabeira, em Arez. Muitas vezes imagino aquelas noites
silenciosas nas matas do litoral sul potiguar. Homens negros fugidos dos
engenhos reunidos clandestinamente, planejando liberdade, discutindo
estratégias e sonhando romper as correntes do sistema escravista.
Muito antes de algumas localidades potiguares
iniciarem oficialmente processos de libertação dos escravizados - como ocorreu
em 1883 em alguns municípios do estado - Miguel Rei já se levantava contra a
escravidão décadas antes, em Papary, enfrentando diretamente o poder dos
senhores de engenho. Isso transforma sua trajetória numa das mais pioneiras
manifestações abolicionistas e insurgentes do Rio Grande do Norte.
Mas a conspiração acabou traída. Mais uma vez, o
escravizado Félix, pertencente a Manoel Laurentino Freire de Alustau Navarro,
revelou o plano ao seu senhor, que imediatamente comunicou tudo ao delegado
Tomás José de Moura. A repressão foi rápida. Miguel acabou preso antes do
levante definitivo. Sem liderança, surpreendidos e desarmados, os demais
revoltosos dispersaram-se rapidamente pela mata.
A história oficial quase apagou completamente esse
episódio. Mas talvez seja justamente aí que reside sua maior grandeza. Miguel
Rei não foi apenas um escravizado rebelde. Foi símbolo de resistência política,
liderança cultural e força espiritual entre os negros do litoral sul potiguar. Representou
homens e mulheres que ousaram sonhar liberdade numa sociedade construída sobre
violência, racismo e exploração humana.
Por tudo isso, penso sinceramente que Miguel Rei
merece um monumento em Nísia Floresta. Não apenas como homenagem individual,
mas como reconhecimento histórico a um dos mais antigos e pioneiros movimentos
de insurgência negra contra a escravidão no Rio Grande do Norte. Erguer um
monumento a Miguel Rei significaria realizar uma reparação histórica não apenas
à sua memória, mas também aos descendentes dos homens e mulheres negros que
sofreram sob o regime escravista nas terras da antiga Papary.
Seria também uma maneira de devolver dignidade
histórica a personagens que durante décadas permaneceram invisíveis nos livros
oficiais. Mais do que isso: a valorização dessa memória colocaria Nísia
Floresta num patamar ainda maior dentro da história potiguar e brasileira. O
município, já reconhecido nacionalmente pelo nome de Nísia Floresta Brasileira
Augusta, passaria também a ser lembrado como território pioneiro das lutas
negras contra a escravidão.
Isso agregaria valor histórico, cultural, educacional
e turístico ao município. A história de Miguel Rei precisa chegar às escolas. Precisa
estar nos livros didáticos municipais. Precisa ser debatida nas salas de aula,
nas universidades, nos seminários culturais e nas comemorações cívicas. Precisa
ser lembrada todos os anos. Porque os povos que preservam a memória de seus
lutadores preservam também sua própria identidade.
Recordo-me ainda de um depoimento profundamente
marcante dado por minha prima idosa, Mirtes Peixoto Maranhão, filha de Luzia
Peixoto Maranhão, esposa de Roque Maranhão, antigo intendente de Papary. Em uma
de nossas conversas, ela relatou que, na antiga estrada entre Nísia Floresta e
São José de Mipibu, próximo à velha Estação Papary, existia um enorme pé de
Oiti, árvore hoje praticamente desaparecida da memória local. Sob sua sombra
realizavam-se negociações e comércio de escravizados.
O relato de dona Mirtes sempre me impressionou
profundamente porque dava concretude humana e geográfica àquilo que durante
tanto tempo permaneceu apenas nos livros frios da historiografia. Ela dizia que
seus avós contavam histórias de homens, mulheres e crianças negras vendidos
naquele trecho silencioso da estrada antiga. Sempre que penso naquele lugar,
imagino quantas lágrimas, quantos gritos sufocados e quantas vidas partidas
ficaram enterradas sob as raízes daquele velho Oiti, testemunha muda de um dos
períodos mais dolorosos da hist´ria de Papary.
E talvez por ali tenha passado, acorrentado ou já
insurgente, o próprio Miguel Rei. Hoje, quando o Brasil relembra oficialmente a
Abolição da Escravatura, penso que Papary - atual Nísia Floresta - possui
razões muito particulares para revisitar esse passado. Ali nasceu Nísia
Floresta Brasileira Augusta, a primeira mulher abolicionista do Brasil. Ali
também ecoou a voz insurgente de Miguel Rei. Uma voz negra, pioneira, que ousou
sonhar liberdade quando quase ninguém tinha coragem sequer de pronunciar essa
palavra.
REFERÊNCIAS:
CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura; Serviço de Documentação, 1955.
CASCUDO, Luís da Câmara. Made in Africa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
FREIRE, Luís Carlos. Textos, crônicas históricas e registros de História Oral sobre Miguel Rei, Papary, festas do Rosário dos Pretos e resistência negra no litoral sul do Rio Grande do Norte. Disponível em: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE. Acesso em: 13 maio 2026.
LIMA, Nestor dos Santos. Municípios do Rio Grande do Norte: Arez. Natal: Tipografia d’A República, s.d.
LYRA, Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Natal: EDUFRN, 1987.
FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, Nísia. Opúsculo Humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de M. A. Silva Lima, 1853.
FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, Nísia. A lágrima de um Caeté. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. de Menezes, 1849.
COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala à colônia. 5. ed. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.
REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
Depoimentos orais de ESTELITA DE OLIVEIRA; integrantes da família CUPIRO; MIRTES PEIXOTO MARANHÃO, colhidos em pesquisas de História Oral realizadas no município de Nísia Floresta entre as décadas de 1990 e 2000.

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