Entrevista
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
Professor
Josivaldo, o senhor é pré-candidato à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN.
O que representa assumir uma missão dessa natureza no atual contexto
brasileiro?
PROFESSOR
JOSIVALDO NASCIMENTO:
Representa uma
enorme responsabilidade histórica e humana. O debate sobre igualdade racial não
pode ser tratado apenas como uma pauta passageira ou burocrática. Estamos
falando de séculos de escravidão, exclusão social, apagamento cultural e
desigualdades que ainda permanecem presentes na sociedade brasileira. O próprio Ministério da Igualdade Racial possui exatamente essa
missão: formular, coordenar e executar políticas públicas voltadas ao combate
ao racismo, à promoção da igualdade racial e à defesa dos direitos da população
negra, quilombola, cigana e de outros grupos historicamente discriminados no
Brasil. Isso demonstra que o Estado brasileiro reconhece oficialmente a
existência de desigualdades estruturais que precisam ser enfrentadas. Quando pensamos no Rio Grande do Norte, esse debate ganha ainda
mais profundidade. Nosso estado possui marcas históricas ligadas tanto à
presença indígena quanto à resistência negra, além da presença cultural dos
povos ciganos, que durante muito tempo sofreram preconceitos silenciosos e
invisibilidade social. Muitas vezes as pessoas
caminham por lugares sem perceber que os próprios nomes carregam memórias
ancestrais. Veja quantos vocábulos indígenas fazem parte do nosso cotidiano:
Tororomba, Tabatinga, Arituba, Timbó, Papary, Mipibu, Apodi, Canguaretama e uma
infinidade de outros. São palavras que atravessaram séculos e permanecem vivas
na geografia e na memória cultural do Rio Grande do Norte. Isso mostra que nossa identidade potiguar foi construída a partir
da contribuição de diversos povos e culturas. Portanto, atuar numa Diretoria de
Igualdade Racial exige não apenas posicionamento político, mas também
conhecimento histórico e sensibilidade humana.
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
O senhor citou
Papary, antigo nome de Nísia Floresta. Existe um simbolismo histórico muito
forte nisso?
PROFESSOR
JOSIVALDO NASCIMENTO:
Sem dúvida. O
próprio nome Papary possui origem indígena e nos remete às raízes mais
profundas da formação histórica da região. Quando a cidade passou a se chamar
Nísia Floresta, em homenagem à escritora e intelectual Nísia Floresta
Brasileira Augusta, houve uma fusão simbólica muito interessante entre a
memória indígena do território e o legado humanista de uma mulher
extraordinária.
Estamos falando de uma cidade cujo passado reúne heranças
indígenas, presença africana, lutas sociais e memória intelectual. E quando observamos nomes como Timbó, Arituba, Tororomba, Tabatinga
e tantos outros, percebemos que essas palavras indígenas sobreviveram ao tempo.
Elas são testemunhas silenciosas da história potiguar. Muitas vezes, as pessoas passam diariamente por esses lugares sem
imaginar que estão pronunciando palavras herdadas dos povos originários do
Brasil.
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
O senhor afirmou
na entrevista anterior que o Rio Grande do Norte possui um protagonismo
histórico nas lutas abolicionistas. Poderia explicar isso?
PROFESSOR
JOSIVALDO NASCIMENTO:
Sim. O Rio
Grande do Norte possui episódios históricos importantíssimos relacionados à
abolição da escravidão. Mossoró aboliu oficialmente a escravidão em 1883, cinco
anos antes da Lei Áurea. Isso demonstra o pioneirismo político e social daquela
cidade.
Canguaretama também possui relevância histórica nesse
processo, tanto pela presença negra quanto pelas movimentações sociais e
culturais ligadas à resistência da população afrodescendente. Existe ainda um detalhe pouco conhecido, passado em Nísia Floresta,
inclusive soube dessa informação através de postagens antigas escritas em seu blog: houve nesse município movimentações e debates abolicionistas extremamente
relevantes, inclusive um levante. E precisamos compreender que a história da abolição no Brasil não
aconteceu apenas nos grandes centros políticos. Houve resistência em várias regiões
do Nordeste, inclusive no Rio Grande do Norte e Papary (hoje Nísia Floresta) teve protagonismo.
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
Dentro desse
debate sobre igualdade racial, muitas vezes a sociedade esquece os povos
ciganos. Como o senhor observa essa questão no Rio Grande do Norte?
PROFESSOR JOSIVALDO
NASCIMENTO:
Essa é uma
questão muito importante e ainda pouco debatida. Os povos ciganos fazem parte
da formação histórica e cultural do Brasil e também do Rio Grande do Norte.
Entretanto, durante muito tempo sofreram preconceitos, estigmas e exclusões
sociais profundamente injustas. Infelizmente, uma
parcela da sociedade ainda olha os ciganos através de caricaturas e
estereótipos negativos, sem conhecer verdadeiramente sua riqueza cultural, seus
valores familiares, sua musicalidade, suas tradições e sua contribuição
histórica para o país. No Rio Grande do Norte existem
principalmente grupos ciganos Calon, além de famílias de origem Rom e Sinti em
menor número. Muitos desses grupos construíram trajetórias importantes em
cidades do interior potiguar, especialmente nas regiões do Seridó, Oeste e
Agreste. Mas existe uma questão extremamente séria que
precisa ser debatida com mais responsabilidade: parte dos ciganos que vivem no
Rio Grande do Norte não é alfabetizada. E essa limitação acaba dificultando
enormemente o acesso às políticas públicas do Governo Federal. Muitas vezes, para acessar benefícios, programas sociais,
atendimentos institucionais ou mesmo documentação básica, essas famílias
encontram barreiras burocráticas enormes justamente por não dominarem a leitura
e a escrita. Isso gera exclusão social e aprofundamento das desigualdades.
E eu falo sobre isso porque já participei de eventos e ouvi
relatos de próprios ciganos expondo essas dificuldades. Muitos relataram
sentir-se excluídos, invisibilizados e desamparados diante de sistemas que
exigem formulários, cadastros digitais, leitura de documentos e procedimentos
burocráticos que eles não conseguem compreender plenamente. Esse é um ponto muito sério de inclusão social. Por isso considero fundamental que existam setores preparados para
acolher essas populações com respeito, paciência e assistência adequada. Não
basta criar políticas públicas no papel. É necessário garantir que elas
realmente cheguem às pessoas mais vulneráveis. A
educação possui um papel central nisso tudo. Precisamos ampliar programas de
alfabetização, inclusão social e acesso à cidadania para os povos ciganos,
sempre respeitando sua cultura e suas particularidades. Quando uma sociedade despreza a cultura de um povo ou ignora suas
dificuldades históricas, ela acaba produzindo ainda mais exclusão.
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
Qual o peso
simbólico de exercer uma função ligada à igualdade racial tendo nascido num
município que leva o nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta e, agora, como
você expos, traz uma vanguarda no aspecto de o próprio escravizado ter lutado
contra a escravidão?
PROFESSOR
JOSIVALDO NASCIMENTO:
É uma
responsabilidade imensa. Nísia Floresta Brasileira Augusta foi uma mulher muito
à frente do seu tempo. Diversos estudiosos - dentre eles, você, como autor
deste blog voltado para Nísia Floresta - a considera a primeira voz
abolicionista do Brasil. Aquela que defendeu princípios ligados à liberdade
humana, à dignidade social e à educação emancipadora. Ela viveu num século profundamente conservador, marcado pela
escravidão e pela exclusão das mulheres da vida intelectual. Ainda assim, teve
coragem de escrever, de questionar estruturas sociais e de defender ideias
avançadas para sua época. Por isso, quando alguém
assume uma Diretoria de Igualdade Racial em uma cidade que carrega o nome de
Nísia Floresta, automaticamente assume também um compromisso moral com esse
legado histórico. Não é apenas uma função
administrativa. É uma missão ligada à consciência histórica e à defesa da
dignidade humana. E a insurreição de escravizados, aqui ocorrida, coroa tudo
isso, trazendo um simbolismo ímpar ao município.
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
Existe um
aspecto histórico muito forte envolvendo a antiga Igreja Matriz de Nísia
Floresta e os escravizados. O senhor poderia comentar?
PROFESSOR
JOSIVALDO NASCIMENTO:
Esse é um dos episódios que
mais revelam como o racismo esteve presente nas estruturas sociais brasileiras.
Mas é importante destacar que o exemplo de Nísia era comum em todo o Brasil.
Durante muito tempo, em várias igrejas do país, havia separação racial dentro
dos próprios espaços religiosos. Na Igreja Matriz de
Nossa senhora do Ó, os escravizados possuíam uma nave reservada exclusivamente
para eles, enquanto os brancos abastados tinham “cadeiras cativas”, em lugares
de destaque. Os escravizados não podiam ocupar os espaços destinados às
famílias brancas tradicionais. Isso mostra como a desigualdade racial era naturalizada
naquele período histórico. Até mesmo dentro de um ambiente religioso existia
segregação. Em compensação Segundo pesquisas mencionadas em estudos históricos sobre a região de
Papary - atual Nísia Floresta - há padres que aparecem associados a
posicionamentos abolicionistas e à defesa dos escravizados na região, dentre
eles, um sacerdote de enorme relevância foi Padre João Maria Cavalcanti
de Brito, que presidiu a Sociedade Libertadora Norte-Riograndense em 1888 e se
tornou uma das vozes mais expressivas da causa antiescravista no Estado. À
ocasião da insurreição levantada pelos escravizados, ele execrcia o seu
sacerdócio em Nísia Floresta. Isso
é orgulho para nós, nisiaflorestenses. Em Natal temos a Igreja de Nossa Senhora
do Rosário dos Pretos, na Cidade Alta, construída pelos escravizados exatamente
para que eles se sentissem livres em sua própria igreja. Isso é terrível. Quando estudamos esses fatos, percebemos que combater o racismo
exige também preservar a memória histórica. Não podemos fingir que essas coisas
não aconteceram. A educação possui papel fundamental
nesse processo de conscientização.
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
Qual deve ser,
na sua visão, o papel de uma Diretoria de Igualdade Racial dentro de um
sindicato da educação?
PROFESSOR
JOSIVALDO NASCIMENTO:
Deve ser um
papel permanente de formação humana e consciência social. O sindicato não pode
se limitar apenas às pautas salariais. Ele também precisa discutir cidadania, democracia,
direitos humanos e igualdade. A escola é um espaço
de construção de consciência crítica. O professor trabalha diretamente com
crianças, jovens e adultos. Portanto, discutir racismo, preconceito, cultura
afro-brasileira, cultura indígena, memória histórica e respeito aos povos
ciganos faz parte da própria missão educacional. A
Diretoria de Igualdade Racial precisa incentivar debates, seminários, formações
e valorização da diversidade cultural brasileira dentro das escolas. Porque igualdade racial não significa divisão. Significa justiça,
respeito e dignidade humana.
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
Para
encerrarmos, qual mensagem o senhor deixa aos educadores e à sociedade?
PROFESSOR
JOSIVALDO NASCIMENTO:
Deixo uma
mensagem de consciência histórica e responsabilidade coletiva. Nenhuma
sociedade consegue avançar verdadeiramente enquanto continuar convivendo com
preconceitos, desigualdades e exclusões. Precisamos
ensinar às novas gerações que nomes como Papary, Timbó, Arituba, Apodi, Mipibu,
Canguaretama e tantos outros não são apenas palavras geográficas. São fragmentos
vivos da nossa história. Precisamos ensinar também que
houve sofrimento, resistência e luta por liberdade em nosso estado. Que os
escravizados existiram, resistiram e ajudaram a construir o Rio Grande do
Norte. E precisamos compreender que os povos indígenas,
negros e ciganos também fazem parte da formação cultural brasileira e merecem
respeito, reconhecimento e dignidade. E que todas essas pessoas estão
vivas nos seus descendentes. E eu sou uma delas. Assumir uma
função na Diretoria de Igualdade Racial significa justamente contribuir para
essa construção de consciência, memória e humanidade. E membrem: CHAPA 1.
Muito obrigado!

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