Talvez por ter sido mulher. Talvez por ter vivido num século profundamente patriarcal. Talvez porque sua luta principal tenha ficado historicamente associada à emancipação feminina. O fato é que a dimensão abolicionista de Nísia Floresta ainda permanece insuficientemente reconhecida pela historiografia brasileira. E isso precisa ser dito com clareza: Nísia Floresta foi, sim, uma das primeiras intelectuais brasileiras a defender publicamente posições antiescravistas, podendo legitimamente ser considerada a primeira mulher abolicionista do Brasil.
Sua postura diante da escravidão aparece de maneira mais explícita em Opúsculo Humanitário, publicado em 1853. A obra, tradicionalmente lembrada por defender a educação feminina, vai muito além disso. Nela, Nísia constrói uma profunda reflexão moral sobre a sociedade brasileira, denunciando não apenas a opressão das mulheres, mas tamb´m a violência praticada contra escravizados e amas de leite negras dentro das famílias brasileiras.
Num dos trechos mais contundentes da obra, Nísia condena o comportamento das elites brasileiras diante das amas de leite escravizadas, denunciando aquilo que chamou de “revoltante ingratidão”. A expressão tornou-se histórica porque revela algo raríssimo para a época: empatia pública e explícita para com mulheres negras submetidas ao regime escravista. Em pleno século XIX, quando grande parte da elite naturalizava a escravidão como elemento estrutural da sociedade, Nísia oussava enxergar humanidade naqueles que o sistema insistia em transformar em mercadoria.
Mas sua visão antiescravista não surgiu apenas em Opúsculo Humanitário. O pensamento de Nísia passeia em várias de suas obras. Eela defendia a abolição da escravidão e os direitos indígenas, articulando essas pautas a uma crítica ampla do colonialismo e da desigualdade social.
Na importante obra A lágrima de um caeté, por exemplo, publicado em 1849, a autora já demonstrava profunda sensibilidade diante dos povos marginalizados e violentados pela colonização brasileira. Embora a obra esteja centrada na figura indígena, constatamos nela um discurso humanitário que também dialoga diretamente com a condição dos negros escravizados. Nísia compreendia que o Brasil imperial havia sido construído sobre estruturas violentas de exclusão social e racial.
Seu pensamento possuía uma dimensão revolucionária para o período. Enquanto boa parte da intelectualidade brasileira ainda aceitava a escravidão como elemento “natural” da economia, Nísia associava civilização, progresso moral e educação à superação da barbárie social. Em Opúsculo Humanitário, ela afirma que o grau de civilização de um país podia ser medido pela forma como tratava suas mulheres e seus grupos socialmente oprimidos. Tal formulação, ainda hoje moderna, colocava-a frontalmente contra a lógica escravista do Império.
É importante compreender a coragem disso. Estamos falando de uma mulher escrevendo no Brasil da primeira metade do século XIX. Um país onde mulheres quase não tinham espaço intelectual. Um país onde negros eram vendidos em praças públicas, inclusive, em se tratando da velha Papary, eram comercializados num frontoso oitizeiro próximo à Estação Papary. Um país em que defender escravizados significava desafiar interesses econômicos profundos. E, ainda assim, Nísia escreveu, publicou, criticou, denunciou...
Não há como não enxergá-la como precursora das ideias abolicionistas no Brasil. A pesquisadora Charlotte Hammond Matthews (do Reino Unido, Escócia) registra que diversos pesquisadores atribuíram a Nísia “o título incontestável de precursora da propaganda das ideias e doutrinas abolicionistas”. Não há como dissociá-la desse realidade.
Existe algo profundamente simbólico nisso tudo. A antiga Papary, terra onde aconteceu a primeira insurreição de escravizados no Rio Grande do Norte - encabeçada pelo escravizado Miguel Rei - terra marcada pela presença da escravidão colonial, pelo trabalho de negros escravizados em suas lavouras, pescarias, serviços domésticos e festas do Rosário, acabaria tornando-se nacionalmente conhecida justamente pelo nome de uma mulher que ousou defender liberdade, dignidade e emancipação humana.
Talvez a História ainda esteja em dívida com Nísia Floresta Brasileira Augusta. Porque mais do que pioneira do feminismo brasileiro, mais do que educadora visionária, mais do que escritora de extraordinária coragem intelectual, a filósofa Nísia também foi uma voz profundamente humanitária contra a escravidão. E talvez tenha sido exatamente isso que tornou sua escrita tão perigosa para seu tempo, e tão necessária para o nosso.

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