Li sobre esse episódio e vi que Laéssio não é um criminoso comum. Seu nome tornou-se conhecido nacionalmente há décadas, sobretudo por furtos praticados em importantes instituições culturais brasileiras. Segundo reportagens e investigações divulgadas pela imprensa, ele teria atuado em locais como a Biblioteca Nacional, a Biblioteca Mário de Andrade, o Palácio do Itamaraty, a Fundação Oswaldo Cruz, a Universidade de São Paulo (USP), o Museu Nacional e diversas outras instituições culturais e bibliotecas históricas do país.E agora o vagabundo está com dois parceiros, inclusindo uma mulher.
O mais assustador é perceber o grau de especialização desses criminosos. Não se trata de ladrões improvisados. São indivíduos que conhecem acervos, catalogação, valor histórico, mercado clandestino e até mesmo os hábitos de pesquisadores e bibliotecários. Muitas vezes se apresentam como estudiosos, pesquisadores ou intelectuais interessados em temas históricos específicos. Recentemente, segundo li numa reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, Laéssio voltou a frequentar instituições culturais paulistas, tendo sido reconhecido no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, fato que levou a instituição a restringir temporariamente o acesso de pesquisadores ao acervo.
É profundamente doloroso escrever sobre isso. Quem ama livros antigos, manuscritos, jornais raros, primeiras edições e documentos históricos sabe que cada peça dessas guarda dentro de si uma parcela da memória nacional. Um livro raro não é apenas um objeto antigo: é testemunha do tempo. Há obras que existem em um ou dois exemplares conhecidos. Há documentos manuscritos impossíveis de serem substituídos. Há coleções inteiras que, uma vez mutiladas ou furtadas, jamais poderão ser recompostas, inclusive jamais relançadas como tem acontecido, por exemplo, no Sebo Vermelho, sob os cuidados de Abimael, um mecenas dos livros raros. Quando um ladrão invade uma biblioteca histórica, ele não furta apenas patrimônio físico: ele rouba a memória coletiva, interrompe pesquisas, mutila a história e lesa futuras gerações de estudiosos. A propósito disto, em 1994, vi o livro original Itinéraire d’un voyage en Allemagne, escrito por Nísia Floresta, que me foi mostrado por Enélio Petrovich e torço para que ainda esteja no IHGRN. Inclusive, dia desses conversei sobre isso com um ex-presidente do IHGRN que também é revoltado com o fato.
E o mais revoltante é perceber que tais crimes frequentemente ocorrem dentro de ambientes que deveriam ser sagrados para a cultura. Bibliotecas, institutos históricos, arquivos públicos e universidades deveriam ser templos do conhecimento. No entanto, acabam se tornando alvo de indivíduos inescrupulosos que transformam a cultura em objeto de mercado clandestino, vaidade pessoal ou acumulação privada. Reduzindo um objeto raro, e muitas vezes único, numa peça pessoal. Um vagabundo desse é ladrão, é canalha!
Confesso que essa notícia me provocou profunda indignação porque, infelizmente, tomei conhecimento de que situações semelhantes também ocorreram - e talvez ainda ocorram com "normalidade" - no Rio Grande do Norte. Essas informações me foram narradas por pessoas que ocuparam e ocupam posições importantes em instituições históricas potiguares. Não mencionarei nomes, por responsabilidade e respeito ao devido processo investigativo. Contudo, não posso silenciar diante da gravidade do assunto.
No caso do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, os desaparecimentos teriam ocorrido ao longo do tempo, de maneira lenta, silenciosa e quase subterrânea, exatamente como costumam agir ladrões especializados nesse tipo de crime. O mais inquietante é que existem suspeitas recorrentes sobre determinados indivíduos conhecidos em certos círculos culturais e acadêmicos do estado. Não afirmo aqui culpabilidade de ninguém, pois isso cabe às autoridades competentes apurar. Mas há comentários antigos, indícios observados e estranhezas difíceis de ignorar. Obras raríssimas, documentos praticamente impossíveis de serem encontrados em bibliotecas públicas ou sebos comuns, começaram a surgir aqui e ali, sendo vistos em ambientes privados e comentados por pessoas ligadas ao meio intelectual.
E é exatamente aí que mora o perigo. O silêncio. O constrangimento. O corporativismo. Muitas vezes há quem prefira fingir que nada acontece para evitar desgaste entre nomes conhecidos da intelectualidade local. Mas quem ama verdadeiramente a história não pode agir assim. O patrimônio histórico não pertence a indivíduos; pertence à coletividade. Pertence ao povo potiguar. Pertence às futuras gerações e quem faz isso é um criminoso sem escrúpulo algum.
Torço sinceramente para que providências concretas sejam tomadas. Havendo indícios, é necessário investigar. Havendo suspeitas consistentes, é necessário aprofundar apurações. E, se houver comprovação, os responsáveis precisam responder rigorosamente perante a Justiça. Não vejo qualquer exagero na possibilidade de acionamento da Polícia Federal em casos dessa natureza, sobretudo quando envolvem patrimônio documental raro, circulação de peças históricas e possível atuação articulada entre estados. Lugar de criminoso que saqueia bibliotecas históricas é diante dos tribunais. E, sendo comprovados os crimes, na cadeia.
Quem pratica esse tipo de delito deve, inclusive, ser moralmente banido da convivência acadêmica e dos espaços históricos. Porque o ladrão de livros raros talvez seja ainda mais perverso que o ladrão comum: ele rouba inteligência acumulada, destrói fontes de pesquisa, impede descobertas futuras e mutila silenciosamente a memória cultural de um povo inteiro.
Espero sinceramente que o Rio Grande do Norte enfrente esse problema com coragem, firmeza e seriedade. Sem perseguições irresponsáveis, é claro. Mas também sem omissões covardes. Há muitos indícios, muitos comentários recorrentes e muitas histórias que precisam ser devidamente investigadas. A história potiguar merece respeito. E aqueles que atentam contra ela precisam responder perante a sociedade e perante a lei. Ladrão não pode ter o nome de Historiador!
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