Seu nascimento somente foi registrado em 29 de novembro de 1919, seis anos após ocorrer, conforme consta no Livro de Registros de Nascimento de São José de Mipibu. O assento foi lavrado mediante autorização judicial, em razão do registro fora do prazo legal. Na ocasião, seu pai declarou que Renato havia nascido em seu domicílio, no Engenho Morgado, em 18 de novembro de 1913, sendo filho legítimo do casal Antônio Ezequiel Peixoto e Joana Alves Maciel.
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| Morgado, onde nasceu Renato e os demais irmãos. |
Renato era neto paterno de Ezequiel Corrêa Peixoto (1835–1930) e de Luzia Brasileira Peixoto (Luzia Brasileira Pacheco), casal que consolidou um importante núcleo familiar no Engenho Morgado. Por linha materna, era neto de João Alves Maciel (1840–1922), proprietário do Engenho Descanso, e de Joana Quitéria de Araújo (1845–1919), pertencendo igualmente a uma tradicional família da região de São José de Mipibu.
Era irmão de:
- Luzia Alves Peixoto (1905–2009), posteriormente Luzia Peixoto Maranhão, casada com o intendente Roque de Albuquerque Maranhão, do Engenho São Roque;
- Ezequiel Alves Peixoto (26 de setembro de 1909 – 8 de novembro de 1936), assassinado em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, em um sobrado localizado no centro de São José de Mipibu, aos vinte e sete anos de idade;
- João Alves Peixoto (27 de julho de 1911 – 25 de fevereiro de 1992), casado com Clhóris Trigueiro, pai de Abdon Trigueiro Peixoto e Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto;
- Palmiro Alves Peixoto (24 de março de 1916 – 8 de outubro de 1980), agricultor, posteriormente residente em Natal, casado com Severina Peixoto de Araújo, deixando extensa descendência;
- José Alves Peixoto (1918–1986).
Renato pertencia, portanto, a uma família profundamente enraizada na história agrária do litoral sul potiguar, cujos diversos ramos se distribuíram pelos engenhos Morgado, Descanso, São Roque, Olho d'Água e outras propriedades tradicionais da região. Engenheiro de profissão, Renato Alves Peixoto teve seu nome ligado a um dos episódios mais marcantes da história política do Rio Grande do Norte: a Insurreição Comunista de novembro de 1935, quando Natal tornou-se a primeira capital brasileira a permanecer, ainda que por poucos dias, sob controle dos revolucionários ligados à Aliança Nacional Libertadora.
Sua participação encontra-se documentada nos processos do extinto Tribunal de Segurança Nacional, posteriormente estudados pelo historiador Homero de Oliveira Costa em A Insurreição Comunista de 1935: o caso de Natal.
Segundo essa documentação, Renato participou da operação destinada ao recolhimento dos recursos financeiros arrecadados pelos insurgentes durante o movimento revolucionário. Coube-lhe, juntamente com o sapateiro Jaime de Brito e o motorista Francisco Braz Leopoldo, transportar a importância de 4:376$000 (quatro contos, trezentos e setenta e seis mil-réis) proveniente da Agência de Rendas Estadual.
Os recursos foram encaminhados para a chamada Vila Cincinato, local onde funcionou o Comitê Revolucionário durante os poucos dias em que os insurgentes exerceram o controle da capital potiguar. O fato de Renato integrar uma operação de natureza financeira evidencia que ele gozava de confiança por parte dos dirigentes revolucionários responsáveis pela administração do governo insurrecional.
Sua presença entre os envolvidos na Insurreição Comunista de 1935 revela um aspecto pouco conhecido da história da família Peixoto do Morgado. Enquanto muitos de seus parentes permaneceram vinculados às atividades agrícolas e ao funcionalismo público, Renato passou a integrar um dos episódios políticos mais significativos da história republicana do Rio Grande do Norte.
Sua trajetória também demonstra como famílias tradicionais do interior potiguar não permaneceram alheias às profundas transformações políticas e sociais ocorridas durante a década de 1930, período marcado pela Revolução de 1930, pela radicalização ideológica e pela reorganização dos movimentos operários e militares em todo o país. E Renato destoou a se unir a outros comunistas norte-rio-grandenses.
Após a derrota do movimento revolucionário, Renato Alves Peixoto passou a ser procurado pelas autoridades encarregadas da repressão aos participantes da insurreição. A política de combate ao comunismo adotada pelo governo de Getúlio Vargas mobilizou a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, as forças policiais estaduais, o Exército e os órgãos federais de segurança, responsáveis pela prisão e pelo encaminhamento dos acusados à Justiça de exceção, representada pelo Tribunal de Segurança Nacional.
Os participantes da Insurreição Comunista de 1935 que eram capturados pelas forças legalistas eram inicialmente submetidos a inquéritos policiais, sendo muitos deles vítimas de torturas e outras formas de violência durante os interrogatórios. Em seguida, permaneciam recolhidos em cadeias públicas, quartéis ou estabelecimentos prisionais, onde aguardavam a conclusão das investigações. Posteriormente, eram denunciados e processados pelo Tribunal de Segurança Nacional, criado em 1936 para julgar os acusados de crimes políticos contra a ordem institucional. Entre os principais locais de encarceramento destacavam-se a Casa de Detenção do Recife, a Casa de Correção do Rio de Janeiro, o Quartel da Polícia Especial, na então capital federal, e a Colônia Correcional de Fernando de Noronha, destinada principalmente ao confinamento de presos políticos considerados mais perigosos pelo governo Vargas. Muitos insurgentes permaneceram anos encarcerados, submetidos a longos processos judiciais, enquanto outros responderam às acusações em liberdade ou conseguiram permanecer foragidos durante anos para escapar à intensa repressão desencadeada pelo Estado.
Para escapar dessa perseguição política, Renato refugiou-se, acompanhado da esposa, na cidade de Russas, no Ceará, onde permaneceu durante vários anos em relativo anonimato, evitando qualquer exposição que pudesse levar à sua localização e prisão. Renato Alves Peixoto permaneceu escondido em Russas, no Ceará, durante os anos de maior repressão aos participantes da Insurreição Comunista de 1935. Com o enfraquecimento das buscas e a normalização gradual de sua situação processual - após a anistia concedida em 1945 - retornou ao estado, onde retomou sua vida profissional e familiar. Seus últimos anos se passaram no Morgado, onde sentia protegido pelas memórias de sua infância.
Ele permanecia semanas no Morgado, onde passava longos períodos recolhido, quase sempre entregue à leitura em uma velha cadeira de balanço. Homem de grande cultura, distinguia-se também pela discrição, pela reserva e pela extrema polidez no trato com as pessoas. Em 2005, meu primo Amauri e eu tivemos a oportunidade de entrevistá-lo, ocasião em que revelou o quanto se sentia acolhido e confortado naquele lugar. Ali, certamente, reencontrava as lembranças mais afetivas de sua vida: a presença da mãe, do pai, dos irmãos e as memórias de sua infância .
Como descendente direto de Ezequiel Corrêa Peixoto e integrante de uma das mais antigas famílias de São José de Mipibu, Renato Alves Peixoto ocupa posição singular na história regional, reunindo, em sua trajetória, a herança de uma antiga linhagem de proprietários rurais e a participação em um dos mais importantes acontecimentos políticos da história contemporânea do Rio Grande do Norte.
EXCERTOS...
SÃO JOSÉ DE MIPIBU - REGISTROS DE NASCIMENTO - 1918-1927
35 - Aos vinte e nove dias do mês de novembro de 1919, nesta cidade de São José, estado do Rio Grande do Norte, em meu cartório, compareceu, Antônio Ezequiel Peixoto, filho de Ezequiel Corrêa Peixoto e dona Luzia Brasileira Peixoto, casado com dona Joanna Alves Peixoto, filha de João Alves Maciel e Joanna Alves Maciel, e depois de obter licença por ter vindo fora do prazo legal, declarou: que em seu domicílio no dia dezoito de novembro de mil novecentos e treze, neste município, onde se casou, nasceu uma criança do sexo masculino, que recebeu o nome de Renato, filho d'elle, declarante e sua dita mulher. O que para constar fiz este termo que assinam com as testemunhas abaixo, a tudo presentes e commigo ...........(ilegível) Guedes o escrevi e assignam Antonio Ezequiel Peixoto, João Ferreira, Austricliano Lopes de Macedo.
......x.......
Observações importantes sobre o registro acima: O livro de assento de nascimentos que registra o nascimento de Renato Alves Peixoto nos pede algumas reflexões bastante pertinentes, a começar pelo próprio livro. Se os registros de nascimento são do período de 1918 a 1927, como pode ser registrada uma pessoa que nasceu em 1913, ano que Renato nasceu?. Na verdade, o pai de Renato, Antônio Ezequiel Peixoto o registrou tardiamente, após seis anos de seu nascimento, em 1919. Àquela época era comum esses registros tardios. Havia pessoas que tinham os seus registros de nascimento feitos no dia que se casavam, portanto o pai de Renato, se comparado a isso, não demorou muito a registrar esses três filhos. Outra curiosidade diz respeito aos escrivães, os quais escreveriam apenas o primeiro nome da criança, desse modo no registro aparece apenas "Renato". Antônio Ezequiel registrou quatro filhos no mesmo dia, sendo "Luzia" (Luzia Peixoto), nasceu no dia 2 de fevereiro de 1905, registro nº 32, e "Ezequiel" (Ezequiel Peixoto) nasceu no dia 22 de setembro de 1909, registro nº 33 e "João" nascido no dia (ilegível) de julho de 1912, registro nº 34. "Palmyro", 24 de março de 1916, registro nº 36. Curiosidade: Luzia se tornaria no futuro, Luzia Peixoto Maranhão, ao se casar com Roque Maranhão, os quais residiam no Engenho São Roque. Ezequiel seria assassinado num sobrado no centro de São José de Mipibu no ano de 1935.
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| Engenho São Roque, onde Luzia Peixoto Maranhão viveu toda a sua fase de casada com Roque Albuquerque Maranhão |
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| Sobrado onde Ezequiel foi assassinado. |


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