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| Imagem apenas inspirada na história, sem compromisso com a fidelidade, gerada por IA. |
Na casa de Cascudo, havia aquela atmosfera que só as casas verdadeiramente vividas conseguem guardar. O movimento das pessoas, a intimidade dos que ali trabalhavam, as conversas que atravessavam os cômodos, os visitantes que chegavam de todos os lugares e, no centro de tudo, aquele homem extraordinário, sentado em seu gabinete, cercado de livros, papéis, lembranças, documentos e ideias.
Cascudo estava em seu gabinete, logo na entrada da casa. Em determinado momento, alguém bateu palmas no portão. Uma das empregadas da casa foi atender. Era uma mulher simples, dessas criaturas que a vida aproxima dos outros sem cerimônia. E talvez aí esteja uma das características mais encantadoras do Nordeste: a espontaneidade. O nordestino, muitas vezes, não precisa de grandes formalidades para transformar um desconhecido em conhecido e, em pouco tempo, um conhecido em amigo. A conversa se estabelece, a distância desaparece e, quando se percebe, já existe uma intimidade que não precisou de convite.
Com aquela mulher acontecia exatamente isso. E havia ainda um detalhe: eram muitos anos trabalhando naquela casa. E trabalhar durante tantos anos na residência de quem? De Luís da Câmara Cascudo! A convivência havia dissolvido qualquer solenidade. Por isso, quando percebeu que havia um homem esperando do lado de fora, ela não achou necessário caminhar até o gabinete para avisar pessoalmente. Afinal, Cascudo estava ali perto. E, mais do que isso, tinha excelente audição. Ela simplesmente subiu um pouquinho a escadaria e, sentindo-se inteiramente em casa, chamou:
“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”
E então aconteceu o que somente Cascudo poderia fazer. Com aquela instantaneidade de raciocínio que lhe era tão característica, sem perder um segundo sequer, ele respondeu:
“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”
E está contada a história. É engraçada, aparentemente banal, quase doméstica demais. Mas talvez seja justamente aí que resida a sua grandeza. Porque, naquele breve diálogo, há um pouco de tudo o que sempre me encantou em Câmara Cascudo: a rapidez mental, o humor, a irreverência, a inteligência espontânea e aquela capacidade extraordinária de transformar uma situação corriqueira numa pequena obra de espírito.
A empregada viu um homem do lado de fora. Cascudo viu a oportunidade de fazer uma graça. E nós, tantos anos depois, podemos enxergar muito mais: podemos entrever o homem por trás do monumento, o escritor por trás do nome consagrado, o intelectual que, apesar de toda a sua grandeza, continuava sendo simplesmente “Seu Cascudo”, chamado aos gritos do alto de uma escadaria. É isso que me encanta nessa história. Porque às vezes conhecemos os grandes homens através de seus livros, de seus discursos, de seus retratos, das biografias e dos monumentos. Mas é em histórias assim, pequenas e quase domésticas, que eles verdadeiramente se humanizam.
Como eu queria ter conhecido Cascudo!
Digo isso com uma ponta de lamento, porque existem pessoas que parecem pertencer a um tempo que gostaríamos de ter alcançado. Pessoas que, embora já não estejam entre nós, continuam povoando os lugares onde viveram. Seus livros permanecem nas estantes, suas fotografias nas paredes, seus objetos sobre as mesas. E, de algum modo misterioso, a presença continua.
Mas confesso que, de certa maneira, tive o privilégio de conhecê-lo através de sua filha, Ana Cascudo, da qual apanhei algumas pérolas. Tive o gosto de conhecer uma mulher que carregava consigo uma herança muito maior do que um sobrenome ilustre. Quanto mais culta, mais simples. Quanto mais conhecedora, mais atenta. Quanto mais importante, mais disponível. Havia nela consideração, delicadeza, respeito e uma generosidade que não fazia esforço para aparecer. Era um amor de pessoa. Quando Ana Cascudo morreu, senti uma tristeza diferente. Foi como se, naquele momento, não estivesse partindo apenas uma pessoa querida, mas se fechando uma biblioteca inteira. Uma biblioteca viva, cheia de lembranças, histórias, afetos, conhecimentos e memórias que atravessaram gerações. E, ao mesmo tempo, partia um ser humano tremendamente útil à humanidade.
Mas talvez as bibliotecas verdadeiramente importantes não desapareçam quando suas portas se fecham. Ficam nos outros, nos ensinamentos que transmitiram e sobretudo, impregnadas de uma presença que o tempo não consegue apagar.
Por isso, quando penso naquele casarão, percebo o quanto suas paredes ainda guardam muito de Cascudo e de sua família. Talvez seja o silêncio dos livros. Talvez sejam as vozes antigas atravessando os corredores. Talvez seja a memória de tantas pessoas que ali chegaram e saíram levando consigo um pouco daquela casa. E talvez, se prestarmos atenção, ainda seja possível ouvir, em algum recanto da memória, uma voz chamando:
“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”
E, logo em seguida, como se o tempo não tivesse passado, venha a resposta, rápida, espirituosa, absolutamente cascudiana:
“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”
É por histórias assim que os grandes homens deixam de ser apenas nomes. Cascudo não está somente nos livros que escreveu. Está também na gargalhada que provocou, na resposta que ninguém esperava, na empregada que se sentia tão à vontade naquela casa que podia gritar por ele da escadaria, na filha que herdou a cultura sem perder a simplicidade e, sobretudo, nas pessoas que continuam contando suas histórias. E é por isso que hoje, tantos anos depois, ainda sinto que aquele homem continua lá. Não exatamente no gabinete Ou atrás dos livros, Mas dentro da memória. E, enquanto houver quem conte suas histórias, haverá sempre um pouco de Cascudo dentro da casa.

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