| MEU TIO TRISAVÔ MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO, AOS 100 ANOS, EXPEDICIONÁRIO QUE PARTICIPOU DA GUERRA DO PARAGUAI, SENDO HOMENAGEADO POR GETÚLIO VARGAS EM 1940 EM BELÉM/PA. |
O artigo “Álbum e cronologia da vida de Barôncio Guerra”, de
Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes, ambos
sócio efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte,
publicado na Revista Galo, n. 7, ano 4, constitui uma importante
contribuição para a compreensão da vida de Barôncio de Brito Guerra e, ao mesmo
tempo, do ambiente histórico, cultural e intelectual do Rio Grande do Norte nas
primeiras décadas do século XX. O trabalho foi elaborado a partir de
fotografias, jornais, revistas, almanaques, correspondências e outras fontes
reunidas em arquivos públicos e privados, com o propósito de estabelecer uma
cronologia capaz de acompanhar a trajetória de Barôncio e, por meio dela,
recuperar aspectos da própria história de Natal.
Os autores ressaltam que Barôncio Guerra, nascido em Triunfo, no Rio
Grande do Norte, em 1882, teve uma vida estreitamente ligada à capital
potiguar, onde exerceu exerceu numerosas atividades, como funcionário da
repartição de Melhoramentos do Porto, agente da Caixa Paulista de Pensões,
empresário, jornalista, advogado, delegado e chefe do comando do Batalhão de
Polícia, além de ter sido músico, escritor e participante ativo da vida
cultural da cidade. Sua existência, como observam os autores, praticamente se
confunde com a própria vida de Natal de seu tempo. Apreciando esse importante material encontramos – dentre diversos temas
distintos – os cinco potiguares que participaram da Guerra do Paraguai, os
quais são todos da minha família. Encontra-se exatamente em uma passagem da
cronologia correspondente ao ano de 1930.
Ele também cita mais dois expedicionários, os quais não são da minha família.
Os autores informam que, naquele período, Barôncio Guerra escreveu uma série de perfis sobre figuras de Campo Grande, publicados no jornal A Republica. A iniciativa teria ocorrido em resposta a uma provocação do prefeito de Natal, Omar O'Grady, dirigida ao Instituto Histórico. O dado ganha especial relevância porque os nomes dos personagens foram posteriormente preservados por Yapery Yupiassu, filho de Barôncio, que enumerou aqueles sobre os quais o pai havia escrito. Entre os sete personagens relacionados, encontram-se Alferes Antonio Martins Corrêia, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro – que são meus tios-trisavôs –, ao lado do Alferes Joaquim Castriciano de Brito e do Soldado Francisco Justiniano de Melo. É justamente nesse conjunto que reencontramos os cinco expedicionários que constituem objeto central de nossa investigação.
O registro possui importância especial porque revela que esses homens,
cuja juventude havia sido marcada pela Guerra do Paraguai, continuavam
presentes na memória histórica potiguar muitas décadas depois do conflito. Não
estamos diante, portanto, de uma simples relação de militares. Barôncio Guerra
os reuniu no contexto de uma série dedicada às figuras de Campo Grande, procurando recuperar personagens que, por
suas trajetórias, haviam adquirido lugar na memória daquela antiga localidade.
A presença simultânea de cinco expedicionários nessa relação é particularmente
expressiva. Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia
e Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e
Alferes Antonio Martins Correia passam a ser vistos, nesse documento, não
apenas como homens ligados à Guerra do Paraguai, mas como integrantes de uma
geração de personagens cuja lembrança permanecia vinculada à história de Campo
Grande. O artigo, embora não reproduza os perfis originais escritos por
Barôncio, confirma sua existência e identifica nominalmente os personagens que
foram objeto daquela iniciativa memorialística.
Essa informação precisa ser compreendida dentro da própria trajetória
intelectual de Barôncio Guerra. O artigo mostra que ele não se limitava à
atividade jornalística, à advocacia ou à intensa vida social e cultural de
Natal. Desde cedo demonstrava interesse pelo passado do Estado. Em 1908, por
exemplo, ao registrar sua participação na vida musical natalense, o texto também
o apresenta como alguém que estudava e pesquisava a história do Rio Grande do
Norte. Essa inclinação ajuda a compreender a iniciativa de 1930. Barôncio já
era então uma figura madura, com ampla experiência na imprensa e na vida
pública, e voltou sua atenção para personagens da antiga Campo Grande,
procurando registrar suas trajetórias em perfis publicados em A República.
Sua atividade deve ser vista, portanto, como parte de um esforço mais amplo de
preservação da memória histórica potiguar, desenvolvido por meio da imprensa e
relacionado ao ambiente intelectual do Instituto Hist´rico e Geográfico do Rio
Grande do Norte.
Há ainda um aspecto territorial que não pode ser desprezado. O artigo
explica, em nota, a sucessão das denominações de Campo Grande, Triunfo e
Augusto Severo, mostrando que a localidade passou por transformações
administrativas e toponímicas ao longo do tempo. Campo Grande foi a denominação
inicial; posteriormente, a localidade recebeu o nome de Triunfo e, mais tarde,
Augusto Severo. A nota esclarece que Triunfo foi adotado em 1858 e que a
denominação Augusto Severo constituiu homenagem ao grande amigo do chefe
político Luís Pereira Tito Jacome, morto na explosão do dirigível Pax, em
Paris, em 1902. Essa observação é importante para o nosso estudo porque ajuda a
compreender as diferentes referências territoriais encontradas na documentação
relativa aos expedicionários. Os homens que estamos estudando pertencem a uma
realidade histórica anterior às denominações posteriores e, por isso, suas
biografias podem aparecer em fontes diferentes associadas a Campo Grande,
Triunfo ou Augusto Severo.
É nesse cenário que a figura do Major Manoel Cornélio Barbosa
Cordeiro Peixoto adquire particular relevo. Seu nome aparece explicitamente
entre os personagens de Campo Grande sobre os quais Barôncio Guerra escreveu.
Para o presente estudo, essa informação possui grande significado, pois
confirma que Cornélio não foi lembrado apenas por sua carreira militar ou por
sua participação na Guerra do Paraguai. Sua trajetória permaneceu vinculada à
memória histórica de Campo Grande, chegando à produção intelectual de Barôncio
Guerra já na década de 1930. O artigo não fornece, nesse trecho, detalhes sobre
sua carreira militar, sua atuação no conflito ou os acontecimentos posteriores
de sua vida; não seria, portanto, correto atribuir ao texto informações que ele
não apresenta, embora isso pode ser encontrado num texto recente que escrevi
sobre cinco parentes meus, expedicionários da Guerra do Paraguai: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:
MAJOR MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO: HERÓI DA GUERRA DO PARAGUAI - O
FILHO DO RIO GRANDE DO NORTE QUE ATRAVESSOU A HISTÓRIA DO BRASIL O que o
documento efetivamente confirma é que Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro
Peixoto foi escolhido por Barôncio
como uma das figuras históricas de Campo Grande merecedoras de um perfil
publicado em A República. Leia também outra matéria que trata sobre os mesmos personagens:
O mesmo ocorre com os demais expedicionários. Padre Amaro Theot
Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas
Barbosa e Alferes Antonio Martins Corrêia aparecem associados a Cornélio na
mesma relação. O valor documental desse agrupamento é justamente a
possibilidade de enxergar os cinco homens dentro de uma mesma tradição de
memória. Embora suas trajetórias individuais tenham sido diferentes, todos
foram recuperados por Barôncio Guerra como personagens ligados à antiga Campo
Grande. Para uma investigação que busca reconstruir a participação dos
potiguares na Guerra do Paraguai, essa coincidência é extremamente
significativa. Ela demonstra que a experiência desses homens não desapareceu
com o fim da guerra nem com o passar das gerações. Ao contrário, seus nomes
continuaram disponíveis na memória local e puderam ser retomados, décadas mais
tarde, por um pesquisador e jornalista interessado em registrar os personagens
que haviam contribuído para a história de sua terra.
A própria circunstância de os perfis terem sido escritos na década de
1930 merece atenção. A Guerra do Paraguai havia terminado havia aproximadamente
seis décadas. Já pertenciam ao passado os acontecimentos militares que haviam
levado aqueles homens aos campos de batalha, e uma nova geração de potiguares
começava a olhar para eles como personagens históricos. Barôncio Guerra pertence
justamente a essa geração posterior. Ao recuperar suas figuras, ele estabelece
uma ligação entre o século XIX, vivido pelos expedicionários, e o século XX, no
qual a memória deles começava a ser transformada em registro histórico. É como
se, através da escrita, Barôncio procurasse impedir que aquela geração
desaparecesse inteiramente da lembrança coletiva. Esse gesto é de uma nobreza
admirável, pois com certeza absoluta ele teve papel importante para que a
memória desses meus cinco tios-bisavós não desaparecesse no tempo. Seus perfis,
publicados em jornal, representavam uma maneira de devolver à sociedade os
nomes de homens que haviam participado de momentos importantes da formação
histórica do Estado e do país.
O artigo de Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro adquire – com igual
valor – uma importância que ultrapassa a própria biografia de Barôncio Guerra.
Ao reconstruírem sua vida, os autores acabam encontrando essa pequena, mas
preciosa janela para a história dos cinco expedicionários. A cadeia documental
é reveladora: Barôncio escreveu os perfis; seu filho Yapery Yupiassu preservou
a relação dos personagens sobre os quais o pai havia escrito; décadas depois,
os pesquisadores recuperaram essa informação ao estudar a vida de Barôncio.
Agora, essa mesma referência retorna à investigação sobre os expedicionários da
Guerra do Paraguai. Cada geração, de certa maneira, acrescentou uma nova camada
à memória desses homens, fazendo com que seus nomes atravessassem o tempo. Isso
reforça a ideia sobre o valor da História. Digo isso porque desde criança ouvia
minha mãe falar que o seu tio-avô, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro
Peixoto, havia participado da Guerra do Paraguai, mas eu não sabia nada mais
que isso. Passei anos pesquisando, publiquei recentemente o texto acima e, nos
últimos dias, como um algoritmo, as coisas vêm aparecendo incrivelmente,
inspirando-me a escrever novos textos com novas abordagens sobre esses cinco
parentes que me orgulham.
É preciso, entretanto, estabelecer com precisão os limites da fonte. O
artigo da Revista Galo não
transcreve os perfis de Barôncio Guerra sobre os cinco expedicionários.
Ele apenas informa que esses textos existiram e identifica os personagens. Por
isso, as informações biográficas mais amplas que já possuímos sobre esses cinco
expedicionários da mesma família devem ser sustentadas pelas demais fontes que
integram nossa pesquisa, e não atribuídas indevidamente a este artigo. O
verdadeiro valor dessa publicação está em apontar para uma fonte primária ainda
não explorada neste documento: os próprios textos publicados por Barôncio em A
República. Encontrá-los poderá representar um avanço considerável, pois
permitirá conhecer não apenas os nomes, mas a maneira como um intelectual
potiguar da primeira metade do século XX interpretou e apresentou esses antigos
combatentes.
A passagem da Revista Galo constitui, portanto, uma referência
que merece ser incorporada ao estudo dos cinco expedicionários. Ela confirma
que Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e
Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e
Alferes Antonio Martins Corrêia pertenciam à memória histórica de Campo
Grande e que suas trajetórias foram consideradas dignas de registro por
Barôncio Guerra. Mais do que isso, a fonte permite perceber que a lembrança
desses homens ultrapassou o círculo familiar e militar e alcançou a imprensa e
a produção intelectual potiguar. Quando Barôncio os recupera, na década de
1930, ele não está apenas recordando soldados de uma guerra distante; está
trazendo novamente à luz personagens de uma geração que havia participado de
acontecimentos fundamentais da história brasileira. E é precisamente essa
permanência da memória que torna a referência tão importante para o este estudo.
O próximo passo, naturalmente, será buscar os perfis originais publicados por Barôncio Guerra em A República.
Se encontrados, eles poderão constituir uma fonte de primeira grandeza para a
reconstrução das trajetórias dos cinco expedicionários, permitindo comparar
aquilo que Barôncio escreveu na década de 1930 com os documentos militares,
registros familiares, jornais e demais fontes que já vêm sendo reunidos nesta
pesquisa. O artigo de Sobral e Pignataro, nesse sentido, não encerra a
investigação: ao contrário, abre uma porta. E talvez seja justamente atrás
dessa porta que estejam algumas das mais importantes informações ainda não
localizadas sobre esses cinco homens que, saídos do Rio Grande do Norte,
atravessaram a história da Guerra do Paraguai e permaneceram, décadas depois,
na memória de sua terra. Reitero: História é isso, o que pode começar com
história oral – como foi o caso da informação da minha mãe – termina em
material escrito: fato.
Referência: SOBRAL, Gustavo; MENDONÇA E
MENEZES, André Felipe Pignataro Furtado de. Álbum e cronologia da vida de
Barôncio Guerra. Revista Galo, Natal, n. 7, ano 4, p. 69-89.
Recebido em 20 jul. 2022. Aprovado em 16 dez. 2022. A passagem relativa aos
perfis das figuras de Campo Grande encontra-se na p. 82 da revista,
correspondente à p. 14 do PDF disposto na internet. O artigo informa, ao final,
que os autores consultaram jornais, revistas, almanaques, publicações do
Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, arquivos e coleções
particulares, tendo desenvolvido a pesquisa e a redação ao longo de 2021 e
2022.
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