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Anginho "Deus lhe pague", peça em gesso italiano.
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Aparentemente despercebida, passava essa velha imagem no interior da matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta/RN. Considero-a singular. Fui apresentado a ela em 1992, por dona Estelita, bisneta do Coronel Alexandre de Oliveira, então "Cavaleiro da Rosa". É chamada de "Anjinho Deus lhe pague". Quando você deposita uma moeda através de um orifício que fica nas costas do anjo, o peso da moeda aciona uma engrenagem interna que faz com que o anjinho movimente a cabeça várias vezes em sinal de agradecimento. Como se dissesse "Deus lhe pague".
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Essa peça fala por si. Eu a via como uma pegada lúdica, idealizada pelos padres do passado, pois ela soa como um brinquedo. A criança fica curiosa para ver o anjinho agradecendo, balançando a cabeça. A engenharia do anjinho "Deus lhe pague" funciona como um instrumento de educar crianças, construindo com elas a ideia do dízimo. A criança tende a perguntar "por que dar dinheiro para o anjo"? E o adulto responde "para ajudar o padre a pagar as coisas da igreja: água, luz, limpeza, material de expediente etc".
Como não foi precisada a data, não sei quando se deu o furto, mas juntamente com o furto do anjinho "Deus lhe pague", furtaram uma imagem de Santa Luzia e outra de São José, como se vê nessa postagem de uma nisiaflorestense que convive na citada matriz. O anjinho "deus lhe pague" é foi boa tacada da igreja, pois estimulava e educava as pessoas, desde criança sobre a importância de se ajudar a paróquia. Esse anjinho foi inventado num tempo em que uma peça desse tipo tinha um encanto maior, pois era uma grande novidade, um grande atrativo. A criança chegava na igreja já pensando no anjinho. Sociologicamente tem uma simbologia muito interessante. Eu era apaixonado por essa peça.

Em 1992 entrei nesse templo com dona Estelita de Oliveira, católica fervorosa e benzedeira, bisneta do "Cavaleiro da Rosa". Ela disse que, quando criança, amava dar moedas para o anjinho. Ela já era muito idosa e me contou coisas impressionantes relacionadas ao templo, como o local reservado aos pretos (escravos), bem como o local onde um determinado sacerdote escondia os escravos que corriam ao seu socorro por serem torturados por seus "donos". Dona Maria do Carmo foi outra senhora que me falou do seu encanto infantil ao dar moedas para o anjinho. Assim ouvi....
Para a minha decepção, soube, na semana passada, ao postar um breve texto sobre o anjinho "Deus lhe pague" no Facebook, que ele foi furtado da Matriz juntamente com outras duas imagens. Eram peças muito antigas. Isso é inadmissível. Como pode uma coisa como essa? Como isso passou despercebido? Como não foi anunciado na imprensa? Como uma peça pode sumir sem que alguém veja? Se some essa peça pode sumir o relicário de ouro maciço, pode sumir o lampadário de prata maciça, pode sumir qualquer coisa. Mas terá sido furtado mesmo ou alguém dado para alguém? Quem seria tão inescrupuloso a tal ponto? Que absurdo!
Quando algum equivocado questionar e se incomodar com o motivo que me faz lutar tanto para proteção das características originais dessa igreja e a salvaguarda do seu acervo sacro, eis nessa fatalidade o motivo: temo pelos ladrões de plantão. E não acredito que seja de fora. Cuidem, pois se as peças continuarem sumindo, qualquer ora some as imagens do século XIX... e daí vocês irão se lembrar de mim, mas será tarde!
Isso é um absurdo! Não devemos permitir que nossas riquezas sejam tão banalizada que não mereça uma investigação, um esclarecimento público.
ResponderExcluirGente ! Não vamos esperar sumir outra riqueza de nossa matriz, vamos fiscalizar de perto.
Em Nísia Floresta parte da sociedade se ofende quando alguém levanta a voz a favor de alguma causa de natureza da História e da Cultura. É essa mesma parte que está sempre em silêncio diante das injustiças. O padre anterior fez horrores durante a reforma nessa Matriz e alguns aplaudiram pelo aspecto visual de pintura nova. Só isso. A igreja ficou bonitinha e basta. Ninguém se preocupou com o patrimônio histórico, com restauração. Eles descaracterizou diversas partes da matriz, imagens se avariaram, coisas foram doadas e o povo em silêncio. O povo é tão culpado quanto.
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