Vou logo dizendo: esse título é mais uma brincadeira, mas com fundamento. Tenho visto, eventualmente, pessoas de outros estados brasileiros, algumas que estão por aqui a passeio e outras que vieram morar na região, produzindo vídeos “sobre o Nordeste”. Coloco a expressão entre aspas porque existe uma questão que, embora pareça óbvia, às vezes é esquecida: o Nordeste é uma região gigantesca, formada por nove estados, e não um pequeno territ´rio culturalmente uniforme. Embora o Nordeste seja a terceira maior região do Brasil, ele reúne nove estados, enquanto o Centro-Oeste reúne quatro unidades federativas e o Norte, sete. Falar “sobre o Nordeste” como se estivéssemos falando de um único lugar, com uma única maneira de falar, comer, cantar, dançar, viver e interpretar o mundo, é uma generalização que não corresponde à realidade. Quem nasceu ou vive há muitos anos em algum estado nordestino sabe que existem diferenças enormes entre um estado e outro. Essas diferenças aparecem na música, na literatura, na gastronomia, no folclore, nas danças, nos sotaques, nas expressões populares, na arquitetura, nos costumes, nas frutas, na vegetação e em inúmeras outras manifestações da vida cotidiana. O Nordeste é uma região, mas dentro dela existem muitos Nordestes. Se entre uma cidade e outra existem peculiaridades - quase dialetos - imagine nove estados.
Basta observar alguns exemplos em várias elementos das culturas do Nordeste. O frevo é uma manifestação cultural profundamente associada a Pernambuco, enquanto o bumba-meu-boi possui no Maranhão características e tradições muito particulares. A Bahia construiu uma identidade cultural própria, marcada por uma história singular e por manifestações musicais, religiosas e gastronômicas que não podem simplesmente ser tomadas como representativas de todo o Nordeste. O Ceará tem suas próprias expressões, costumes e formas de falar; Pernambuco também; Paraíba também; Alagoas, Sergipe, Piauí e Rio Grande do Norte igualmente. Mesmo estados vizinhos, separados às vezes por poucos quilômetros, podem apresentar diferenças surpreendentes. Na gastronomia, por exemplo, um mesmo alimento pode receber nomes diferentes conforme o lugar. Macaxeira, mandioca e aipim são palavras utilizadas em diferentes regiões brasileiras para designar a mesma raiz. O cuscuz aparece em praticamente toda a região, mas pode assumir preparações e acompanhamentos bastante distintos. A própria carne de sol, tão associada ao Nordeste, possui modos diferentes de preparo e apresentação. Isso mostra que proximidade geográfica não significa uniformidade cultural.
E talvez seja justamente a linguagem o campo em que essas diferenças mais facilmente provocam situações curiosas. Às vezes, uma pessoa chega a determinado estado, escuta uma palavra que nunca havia ouvido, acha aquela expressão engraçada, curiosa ou estranha e imediatamente produz um vídeo para contar aos seus seguidores “como os nordestinos falam”. O problema está justamente nessa generalização. Uma pessoa que chega ao Rio Grande do Norte não está descobrindo “como o Nordeste fala”. Está descobrindo como determinadas pessoas, em determinado lugar, utilizam a língua. Uma palavra absolutamente comum no Rio Grande do Norte pode ser desconhecida na Paraíba, embora os dois estados sejam vizinhos. Uma expressão utilizada normalmente em Pernambuco pode não fazer parte do vocabulário cotidiano de um cearense. Uma palavra comum na Bahia pode causar estranhamento em alguém do Maranhão. Isso é absolutamente normal. É assim que funcionam as línguas: elas variam conforme a região, a história, o grupo social e as circunstâncias em que são utilizadas.
Posso dar um exemplo pessoal. Embora toda a minha ancestralidade seja norte-rio-grandense, nasci no Mato Grosso do Sul, cheguei ao Rio Grande do Norte aos 24 anos de idade e foi aqui que encontrei diferenças enormes em relação a coisas que eu considerava absolutamente naturais em outros lugares. Uma delas está justamente no vocabulário. Em outro lugar onde vivi, era comum dizer que determinada criança era “atentada”, quando se queria dizer que era inquieta, travessa, incômoda, difícil de controlar. No Rio Grande do Norte, encontrei uma forma diferente de expressar praticamente a mesma ideia: “Aquele menino de fulana é muito caningado”. Aqui, “canigado” pode perfeitamente ser utilizado para caracterizar uma criança inquieta, travessa, que incomoda ou não para quieta. Para quem chegou de outro lugar, isso pode causar estranheza. Mas o que existe aí não é erro. Existe diferença regional.
E essa diferença é justamente uma das coisas mais fascinantes de uma língua. É perfeitamente normal que alguém escute uma palavra pela primeira vez e pense que ela é engraçada. É normal achar curioso um determinado modo de falar. É normal estranhar um sotaque ou descobrir que uma palavra possui um significado diferente daquele que conhecíamos. O que não é razoável é transformar o nosso desconhecimento em uma espécie de tribunal linguístico. Se eu nunca ouvi uma palavra, isso significa apenas que eu nunca ouvi aquela palavra. Não significa que ela esteja errada. Se uma expressão não é usada no meu estado, isso significa apenas que ela não faz parte da minha variedade linguística. Não significa que ninguém possa utilizá-la legitimamente em outro lugar.
Essa questão é muito bem discutida pelo linguista Marcos Bagno em seu livro Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. A obra é particularmente importante para compreender que a língua não é uma estrutura rígida, uniforme e utilizada da mesma maneira por todos os brasileiros. Existem diferentes variedades linguísticas, influenciadas pela região, pela história, pelo grupo social, pela situação de comunicação e por diversos outros fatores. Há, naturalmente, uma norma-padrão utilizada em determinados contextos formais, sobretudo na escrita, mas isso não significa que todas as demais formas de expressão sejam simplesmente “erradas”. Uma coisa é discutir adequação linguística em determinado contexto. Outra, completamente diferente, é tratar uma variedade regional como defeituosa apenas porque não corresponde àquela com a qual estamos acostumados.
Particularmente, considero impressionante a riqueza da linguagem no Rio Grande do Norte. Um exemplo que sempre me chamou atenção é a palavra “peia”, que possui cincco diferentes sentidos e usos no vocabulário regional. Dependendo do contexto, a palavra pode estar relacionada a uma surra, a um instrumento utilizado para bater ou castigar, a elementos empregados para prender ou controlar animais, peça para subir em coqueiros e a forma pejrativa de se referir ao órgão sexual masculino, ou seja são usos tradicionais registrados no vocabulário regional. Essa multiplicidade de significados é muito interessante porque mostra como uma palavra pode adquirir diferentes sentidos ao longo da história de uma comunidade. Em vez de simplesmente achar a palavra estranha, poderíamos perguntar de onde veio, como se desenvolveu, em quais situações é utilizada e por que adquiriu determinados significados. Isso é cultura. Isso é patrimônio linguístico. Isso é história preservada na fala cotidiana.
Por isso, quando alguém chega a um estado nordestino e encontra uma palavra que nunca ouviu, a atitude mais interessante não seria dizer que “os nordestinos falam assim”, porque essa afirmação já parte de uma generalização equivocada. Muito menos seria afirmar que a palavra está errada. Seria muito mais interessante dizer: “Descobri uma expressão que eu não conhecia e aqui no Rio Grande do Norte ela é utilizada dessa maneira”. Parece uma diferença pequena, mas muda completamente o sentido daquilo que está sendo apresentado. Na primeira situação, uma experiência particular é transformada em regra geral. Na segunda, uma descoberta cultural é apresentada como aquilo que realmente é: uma característica de determinado lugar. Fica muito mais bonito e civilizado publicar um vídeo nesses conformes. NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE
É preciso também entender que o Brasil é bonito justamente porque não é uniforme. Seria muito triste se todos os estados tivessem o mesmo sotaque, as mesmas comidas, as mesmas festas, as mesmas músicas, as mesmas expressões e os mesmos costumes. Uma das maiores riquezas brasileiras está justamente na possibilidade de viajar para outro estado e perceber que existem outras maneiras de falar, cozinhar, celebrar, construir, cantar e contar histórias. É isso que nos atrai e dá sentido ao ato de viajar e conhecer o novo, o diferente, o exótico, enfim. Podemos até imaginar, de maneira metafórica, cada estado como uma espécie de pequeno país dentro de um país maior. Todos pertencem ao Brasil, compartilham uma história nacional e inúmeros elementos culturais mas cada um desenvolveu características próprias. E isso é especialmente evidente no Nordeste.
Por essa razão, considero que quem produz conteúdo sobre uma região que não é a sua deveria ter um pouco mais de cuidado. Não custa pesquisar antes de afirmar alguma coisa. Não custa conversar com uma pessoa que nasceu e cresceu naquele lugar. Não custa perguntar a alguém mais velho da comunidade se determinada expressão é realmente utilizada e em quais situações. Não custa consultar um dicionário regional, um estudo linguístico, uma obra acadêmica ou um pesquisador. Às vezes, uma conversa de poucos minutos é suficiente para transformar aquilo que poderia ser um vídeo equivocado ou até desagradável em um conteúdo realmente interessante sobre cultura brasileira. Isso pode expor o youtuber ao ridículo ou gerar hostilidades, pois nem todos aceitam na boa.
E isso não vale apenas para palavras. Vale para tudo. Vale para a comida, para a música, para a dança, para a arquitetura, para as festas populares, para os costumes, para as manifestações religiosas, para as frutas, para as formas de tratamento e para tantas outras características que fazem uma comunidade ser diferente de outra. A pessoa pode perfeitamente achar uma comida estranha, uma dança curiosa, um costume engraçado ou uma palavra inusitada. Isso faz parte da experiência de conhecer um lugar diferente. O problema começa quando o estranhamento se transforma em condenação. Há uma diferença enorme entre dizer “eu não conhecia isso” e dizer “isso está errado” ou expor para zombar ou riducularizar.
Talvez uma das maiores demonstrações de cultura seja justamente reconhecer aquilo que não conhecemos. Não precisamos gostar de tudo o que encontramos. Não precisamos incorporar todos os costumes. Não precisamos utilizar todas as palavras. Não precisamos achar bonito tudo aquilo que vemos. Mas precisamos ter humildade para compreender que o nosso modo de fazer as coisas não é necessariamente o único modo possível. Se para mim uma determinada palavra não funciona, isso não significa que ela não funcione para outra comunidade. Se para mim determinado costume parece estranho, isso não significa que ele não tenha um enorme valor afetivo e histórico para quem o pratica. Se eu não utilizo determinada expressão, isso não me transforma em autoridade para determinar que ninguém deveria utilizá-la.
Há, inclusive, algo de contraditório quando alguém viaja para conhecer uma cultura diferente e, ao encontrar algo que não conhece, decide imediatamente que aquilo está errado. Afinal, viajar deveria ampliar nossas referências, não reduzir o mundo àquilo que já conhecemos. O desconhecido deveria despertar curiosidade. A diferença deveria provocar perguntas. O estranho deveria ser uma oportunidade de aprender. Quando transformamos tudo aquilo que não corresponde à nossa experiência em erro, acabamos perdendo justamente a melhor parte da viagem: a descoberta.
A facilidade de publicar qualquer coisa nas redes sociais também criou uma situação curiosa: muitas vezes, uma descoberta feita em poucas horas é apresentada como se fosse conhecimento sobre uma cultura inteira. A pessoa ouve uma expressão, registra aquilo com surpresa e, em seguida, transforma sua impressão em uma espécie de conclusão. É aí que a curiosidade, que poderia resultar em um conteúdo interessante, acaba perdendo a oportunidade de se transformar em conhecimento. Antes de explicar ao mundo aquilo que acabou de descobrir, talvez fosse mais prudente ouvir quem vive naquele lugar, perguntar a quem nasceu ali, investigar a origem da expressão e perceber se aquilo que parece estranho para um visitante é, na verdade, absolutamente natural para a comunidade. A internet pode ser um excelente instrumento para divulgar a riqueza cultural de um povo, mas também pode ampliar rapidamente um equívoco. E quando esse equívoco vem acompanhado de deboche ou de uma suposta correção da maneira como os outros falam, quem acaba se revelando não é a cultura visitada, mas a falta de conhecimento de quem decidiu julgá-la.
No fim das contas, talvez uma das melhores maneiras de conhecer o Brasil seja exatamente perceber essas diferenças. Viajar pelo país é descobrir que o português continua sendo português, mas que os brasileiros encontraram incontáveis maneiras de falar, nomear as coisas e expressar sentimentos. É descobrir que uma mesma comida pode ter nomes diferentes, que uma mesma palavra pode possuir significados diferentes, que uma mesma festa pode assumir características próprias em cada lugar e que estados vizinhos podem conservar identidades culturais surpreendentemente distintas. Por isso, estranhar é normal. Achar curioso é normal. Até achar engraçada uma palavra que nunca ouvimos pode ser normal, desde que exista respeito. O que não deveria ser normal é transformar o desconhecimento em superioridade e a diferença em erro. Quem se dispõe a falar publicamente sobre a cultura de outro lugar precisa pesquisar, ouvir, conversar e, principalmente, respeitar. Porque diferença não é defeito. Diferença é patrimônio.
E talvez seja justamente isso que torne o Brasil tão extraordinário: somos um só país, mas não precisamos ser todos iguais. O Nordeste é um excelente exemplo disso. São nove estados, inúmeras histórias, muitos sotaques, milhares de palavras, sabores, ritmos, costumes e maneiras de interpretar a vida. Não existe um único Nordeste. Existem muitos Nordestes, e cada um deles merece ser conhecido sem preconceito e tratado com respeito. No final, há uma frase simples que resume tudo: se para mim não funciona, pode funcionar perfeitamente para outro. E, quando falamos de língua, cultura e identidade, essa diferença não precisa ser corrigida. Precisa ser compreendida, afinal, se são nove países, como diabos vou saber qual idioma fala cada um? (Então preciso conhecê-los antes de sentenciá-los). OBS. Todos são muito bem vindos ao Nordeste, principalmente as pessoas civilizadas...


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