ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

ACTA NOTURNA – MÁRIO DE ANDRADE EM NÍSIA FLORESTA HÁ 96 ANOS...

Mário de Andrade ao lado do monumento de Nísia Floresta em 1929

ACTA NOTURNA – MÁRIO DE ANDRADE EM NÍSIA FLORESTA

Há 96 anos, o intelectual modernista Mário de Andrade (1893-1945) esteve em Papary (Nísia Floresta). A descoberta ou a revelação de uma nova fotografia relacionada à história de Nísia Floresta e de qualquer município, representa sempre um acontecimento de grande relevância para o município. Cada imagem incorporada ao acervo fotográfico local é uma peça que ajuda a recompor a memória coletiva, permitindo-nos enxergar, com mais nitidez, o passado que nos constitui.

Trata-se de um patrimônio visual que transcende o valor estético: ele documenta, comprova, emociona e educa. E esse valor se amplia sobremaneira quando percebemos que figuras notáveis da história do país estiveram em Nísia Floresta, visitaram seus lugares simbólicos e se fizeram fotografar diante do monumento erguido em homenagem à sua mais ilustre filha. Ver tais personalidades ali, entre o túmulo e a paisagem de Papary, é como testemunhar o encontro da história local com a história nacional, num gesto silencioso, mas profundamente revelador.

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó (1835-1855) fotografada pelo intelectual modernista Mário de Andrade em 1929. Obs. Do lado esquerdo, vemos uma sequência de casarios. Do lado direito ainda não havia moradia tão 'colada' à matriz porque era o cemitério original. Adiante, vemos o cruzeiro (atualmente inexistente).

Do final de 1928 a fevereiro de 1929, o intelectual modernista Mário de Andrade fez um amplo turismo de pesquisa no Rio Grande do Norte. À época, ele tinha 36 anos. Seus estudos tiveram um caráter etnográfico e jornalístico, que futuramente se transformaria na obra O Turista Aprendiz, hoje preservada no acervo da Universidade de São Paulo (USP). Nessa obra, Mário documenta seus momentos mais importantes sobre o convívio com a intelectualidade modernista e a cultura popular nordestina.

Casario no centro de Papary (Nísia Floresta) fotografado pelo intelectual modernista Mário de Andrade em 1929.

No próprio diário, ele diz que sua viagem visava “estudos literários” e registrar manifestações culturais populares do Nordeste. Registrou músicas, danças, festas, tradições, costumes e expressões artísticas que jamais encontraria no meio acadêmico e no universo erudito das grandes metrópoles, mas sabia que tudo aquilo constituía a essência viva da identidade nacional e precisava ser registrado.

Casario no centro de Papary (Nísia Floresta) fotografado pelo intelectual modernista Mário de Andrade em 1929.

Esse “turismo acadêmico” partiu de uma iniciativa pessoal, cujo financiamento foi patrocinado em parte pelas crônicas que ele escrevia em diversos jornais e pelo apoio que recebia em todos os lugares que visitou. Seus registros tornaram-se fontes preciosas para estudos futuros e, até hoje, são fundamentais para o entendimento do patrimônio material e imaterial do Rio Grande do Norte.

Mário de Andrade chegou a Natal por ferrovia, onde foi calorosamente recepcionado. A partir daqui, ele programou suas viagens pelo litoral e pelo sertão, cujo meio de transporte eram automóveis cedidos por anfitriões e amigos. O grande mestre Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), que à época tinha 31 anos de idade, hospedou-o em sua residência e fez-se de cicerone, acompanhando-o em quase todos os lugares, além de Antônio Bento (1902-1988) e outras personalidades locais - prefeitos, padres e senhores de engenho. Mário de Andrade era uma novidade, e isso talvez tenha revestido a todos de um espírito especial de anfitriões.


Mário visitou Macau, Assu, Caraúbas, Martins, Caicó, Currais Novos, Parelhas, Lajes, Arez, Canguaretama, Goianinha, Papary (Nísia Floresta) e São José de Mipibu. Inclusive, registrou a “Intendência Municipal” e algumas imagens do centro, encantando-se com a terra do açúcar amargo. Nos municípios, voltava-se para o que de mais significativo havia - por exemplo, as salinas de Macau, os carnaubais do sertão, os engenhos de Goianinha -, e conheceu o célebre coquista Chico Antônio (1904 -?), que o fascinou. Em Arês, Canguaretama e Nísia Floresta, ficou impressionado com os frontões dos cemitérios, que registrou como “exemplos de arte popular”.

Muito culto, Mário sabia que estava na terra onde nasceu a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885): “a mais notável mulher de letras do Brasil”, como escreveu Oliveira Lima (1867-1928). Portanto, fez questão de visitar Papary (hoje Nísia Floresta) e levar uma fotografia ao lado do túmulo. As fotografias - que hoje, às vésperas do aniversário de 215 anos do nascimento de Nísia Floresta, apresento ao município pela primeira vez - consistem em ícones que agregam um valor muito especial a todos.

Adiante, o túmulo (1954), atrás, o monumento (1909) Fotografia: L.C.Freire

Saber que Mário de Andrade esteve ali, leu as placas de bronze em língua francesa e portuguesa e, com certeza, teve Nísia como tema de uma boa conversa com Câmara Cascudo, é simplesmente extraordinário, pois impregna o local de um ar todo especial. E quando sabemos que já cogitaram remover o monumento e o túmulo dali, transferindo-os para um terreno na entrada do município, é de se ficar horrorizado. 

Fotografia: L.C.Freire

Ouvi essa divagação maluca dentro de respeitável instituição do estado, e dito justamente a mim por um intelectual, concordando com os dois autores da proposta: um dele é escritor, o outro, dono de um desses cemitérios chiques, que só enterram ricos. Obviamente que essa maluquice tinha como propósito fazer um marketing - não sobre a pessoa de Nísia Floresta - obviamente -, mas sobre os famosos cemitérios do empresário que iria patrocinar o tal monumento. 

Fotografia: L.C.Freire

Senti, claramente, que não havia intenção alguma de enaltecer a intelectual Nísia Floresta, até porque essas pessoas nunca fizeram nada em prol da história, da memória e nem do local onde está o túmulo e monumento de Nísia Floresta que, inclusive esteve abandonado até poucos meses.  Ainda bem que já demoveram essa ideia bizarra: afinal, exatamente nesse local, Nísia Floresta nasceu e viveu até os 13 anos. O local é um marco de onde alçou voo para o mundo, espalhando civilidade, um dos maiores nomes do Brasil. A aura histórica dessa localidade legitima os nisiaflorestenses a protestar sempre contra tal proposta, portanto fica o registro.

Fotografia: L.C.Freire

Construir outro monumento a Nísia Floresta no município, em outro lugar, é compreensível e não vejo problema algum, mas arrancar dali o original seria um profundo desrespeito, gesto de quem não tem o que fazer. E AQUI ESTOU PARA MOVER CÉUS E TERRAS PARA IMPEDIR. Que construam qualquer obra em qualquer lugar, mas demolir a história genuína, basta. E sei que o professor Jorge Januário de Carvalho, um guardião daquele local, se uniria a mim para tal, afinal ele traz uma história de quase meio século de respeito e valorização da memória de Nísia Floresta, fato que testemunho há 33 anos.


O Sítio Floresta, onde Nísia nasceu, guarda os semblantes de Henrique Castriciano de Souza (1874-1947), que esteve ali em 1913, e, quatro anos antes, de Câmara Cascudo, Alberto Maranhão (1872-1944), Monsenhor Antônio Xavier de Paiva (1846–1919), Cel. Francisco de Oliveira (1832-1916) - pai de Cascudo, Cel José Joaquim de Carvalho e Araújo (1853- ?) - e outras figuras à ocasião da inauguração do monumento. E o próprio Mário de Andrade, em 1929. Portanto, jamais devemos apagar essa aura histórica, se bem que só o monumento e o túmulo - por si - bastam e justificam sua permanência ad aeternum ali.

Enfim, dado o recado, vamos retomar o fio da meada. Em Papary, Mário de Andrade apreciou almoço com cajus e cocos verdes: “O horizonte de repente encurta bem pra direita e cai da banda de lá. Na barra dele o matinho ralo, certas feitas, desaparece numa careca de duna. São as praias, é o mar-de-punga ou-lê-lê-lê, é o verde mar de navegar!... E por hora e meia assim, ventada, despoeirada, o trem de ferro que vem de Pernambuco, vai fazendo ‘vuco, vuco’ e entra em Natal. Pontualmente. Quatorze horas”, escreveu.

Ao registrar suas impressões sobre Papary (hoje Nísia Floresta), Mário escreveu: “Papari lembra também a espantosa Nísia Floresta […], que mulher! Nasceu em Papari e o monumentinho comemora a amiga de Augusto Comte (1798-1857), Giuseppe Mazzini (1805-1872), colaboradora da unificação italiana, reivindicadora dos direitos da mulher, viajante na Alemanha, o diabo!”. Ao usar a expressão “monumentinho”, julgamos que ele o considerou modesto diante da grandeza da homenageada. Suas palavras traduzem a intensidade de sua admiração pela intelectual potiguar.

O monumento de Nísia Floresta foi construído em 1909, na ocasião do que então se julgou ser o centenário do nascimento de Nísia (o que, na verdade, seria 1810). O projeto foi uma iniciativa do governador Alberto Maranhão (1872-1944), em parceria com o Congresso Literário formado por diversos intelectuais. A presença de Mário de Andrade no monumento de Nísia Floresta é icônica.

Essa visita poderia meramente testemunhar um espaço de memória e, também, representar uma ponte entre a tradição oitocentista - simbolizada por Nísia - e o modernismo do qual ele era expoente. Mas a imagem representa muito mais. Do mesmo modo em que Mário estava inserido num projeto visionário com o seu Modernismo, Nísia viveu, intensa e amplamente, diversas ideias modernistas quase cem anos antes. Ao lembrar-se dela em Papary, Mário reconhecia que a intelectualidade do Brasil profundo também podia ser feminina, ousada e cosmopolita.

Em São José de Mipibu, município vizinho, a visita de Mário foi marcada por anotações sensíveis. Ele encantou-se com a Casa da Intendência (como se vê escrito em alto-relevo na própria parede) e também fez questão de fotografá-la em vários ângulos. Comentou tratar-se de “uma preciosidade arquitetônica”, enaltecendo a harmonia e a autenticidade das construções impressionantes daquele município.

O conjunto de suas impressões, vistas em textos e imagens, resultou em um legado que ultrapassa a simples narrativa de viagem. Mário deixou registros que se tornaram fontes fundamentais para os estudos do patrimônio cultural do Rio Grande do Norte. Ao destacar Papary e evocar Nísia Floresta como “espantosa”, ele não apenas reconheceu a grandeza dessa intelectual, mas também inscreveu o nome dela em um dos projetos mais ambiciosos da modernidade brasileira: a busca por uma identidade cultural plural, viva e enraizada no povo - o que tanto combinaria com a nossa Nísia, se viva estivesse.

Creio que o “encontro” entre Mário e Nísia, diante de seu “monumentinho” em Papary, simboliza a continuidade de uma tradição intelectual que liga o século XIX ao modernismo e que permanece como referência para o Brasil contemporâneo.

Pois bem, amanhã é o aniversário de nascimento da mulher Nísia Floresta, e eis que quem ganha o presente, é a cidade de Nísia Floresta, ou melhor, nós...

Igreja Matriz de Sant'Ana e São Joaquim, em São José de Mipibu (RN), fotografada pelo intelectual modernista Mário de Andrade em 1929.

Igreja Matriz de São João Batista em Arês (RN), fotografada pelo intelectual modernista Mário de Andrade em 1929.

Obs. A mesma foto de capa da postagem. Precisei cortar (a de cima) por questão estética na postagem do blog.


Intendência de São José de Mipibu em 1929, fotografada por Mário de Andrade. Originalmente esse belo prédio foi a "Casa de Câmara e Cadeia" (foi demolido)


Intendência de São José de Mipibu em 1929, fotografada por Mário de Andrade. Originalmente esse belo prédio foi a "Casa de Câmara e Cadeia" (foi demolido)


Intendência de São José de Mipibu em 1929, fotografada por Mário de Andrade. Originalmente esse belo prédio foi a "Casa de Câmara e Cadeia" (foi demolido)

Intendência de São José de Mipibu em 1929, fotografada por Mário de Andrade. Originalmente esse belo prédio foi a "Casa de Câmara e Cadeia" (foi demolido). Vê-se, atrás, um prédio icônico (demolido).

Frontão do Cemitério de Goianinha (RN), fotografado por Mário de Andrade em 1929.

Frontão do Cemitério de Arês (RN), fotografado por Mário de Andrade em 1929

Frontão do Cemitério de Arês  (RN), fotografado por Mário de Andrade em 1929

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Fonte (das fotografias feitas por Mário de Andrade):
- Mário de Andrade.Fotógrafo e Turista Aprendiz.
- Mário de Andrade. O Turista Aprendiz.
- Acervos da Universidade de São Paulo (USP).

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Conheça a filósofa Nísia Floresta, clicando aqui:














segunda-feira, 6 de outubro de 2025

NÍSIA FLORESTA: UMA PENSADORA PLURAL...


Ao longo da minha vida presenciei alguns eventos em que pessoas discursam para multidões de homens, mulheres e crianças defendendo a importância de Nísia Floresta. Em geral, esses discursos se dirigem quase exclusivamente às mulheres, alegando: “vocês foram abençoadas por ter existido uma Nísia Floresta, ela que defendeu vocês”. Embora esse tipo de fala tenha sentido e seja, de fato, importante - afinal, Nísia foi pioneira na luta pelo reconhecimento da mulher como sujeito de direitos -, a forma como sua imagem é apresentada acaba por reduzi-la a uma única dimensão: a de feminista. É como se toda a sua trajetória pudesse ser contida apenas na defesa das mulheres.

Ocorre que Nísia Floresta foi incomparavelmente muito mais do que isso. Ela foi educadora, indianista, abolicionista, republicana, escritora, jornalista, pensadora de seu tempo e do futuro. Seus escritos não se limitam a levantar a bandeira da emancipação feminina - ainda que essa tenha sido uma causa fundamental de sua vida - e muito importante, diga-se de passagem, mas abrangem reflexões sobre liberdade, justiça social, identidade nacional e progresso humano. Creio que, ao falarmos sobre essa intelectual em eventos públicos, especialmente quando ambos os sexos estão presentes, é essencial sintetizar de forma mais ampla sua obra, suas ideias e os diversos pioneirismos que a tornaram singular. Reduzir Nísia Floresta apenas ao feminismo é também reduzir o próprio legado dessa intelectual, é deixar de dizer sobre o seu gigantismo de ideias.

Se tivesse existido na época de Nísia a tecnologia de comunicação que temos hoje, certamente seu pensamento teria ecoado em todos os continentes. Os temas que ela abordava - como o direito das mulheres à educação, a defesa dos povos indígenas, a crítica à escravidão e a reflexão sobre os rumos políticos do Brasil - eram inéditos não apenas em nosso país, mas em muitas partes do mundo. Era o discurso que faltou a muitos países e que chegou ali muitos anos depois. Sua ousadia em escrever sobre tais assuntos a colocaria em diálogo com os maiores pensadores de sua época, despertando o interesse de intelectuais e reformadores sociais de diferentes nações. Não foi à toa que ela foi amiga dos mais notáveis intelectuais de seu tempo.

Sempre digo que Nísia Floresta nunca esteve de todo esquecida. Ela foi presença constante nas mídias de seu tempo, pois jornais e revistas publicaram seus textos e comentaram suas ideias. Após sua morte, ainda que de forma mais tímida, seu nome continuou circulando aqui e ali. É verdade que a centralização cultural e midiática no eixo Rio-São Paulo contribuiu para que sua presença fosse mais forte nesses lugares, além de seu estado natal, o Rio Grande do Norte (óbvio). Em outras regiões, como no Pará ou no Mato Grosso etc, sua obra talvez não tenha tido a mesma difusão. Mas afirmar que Nísia foi esquecida por longos anos é um equívoco. O que houve foi um acanhamento natural, fruto das limitações de comunicação de seu tempo.

Hoje, ao celebrarmos Nísia Floresta, temos a responsabilidade de apresentá-la em toda a sua complexidade. Sim, ela foi uma defensora das mulheres. Mas foi também uma intelectual de alcance universal, preocupada com a educação, a liberdade e o futuro da humanidade. Nísia não cabe em uma única biblioteca. Cabe em muitas, e talvez por isso mesmo transcenda todas elas. Por isso, quando falarmos de Nísia, é necessário olhar para além da militante. É preciso enxergar a pensadora que pensou os mais impactantes pensamentos...

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domingo, 5 de outubro de 2025

ACTA NOTURNA - AINDA SOBRE A RELIGIOSIDADE DE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA...

 



Nísia Floresta sempre defendeu a liberdade de cultos religiosos. Sabemos que os povos pretos, escravizados, eram proibidos de expressar sua religiosidade nos moldes de como a praticavam na África.

Foi exatamente por isso que, ao serem roubados de seus países e trazidos à força para cá, eles adaptaram os santos católicos às suas divindades africanas, prestando culto aos seus deuses, mas de maneira disfarçada.

Nesse sentido, por exemplo, tem-se:



SÃO JORGE: sincretizado com Ogum e Oxóssi, orixás guerreiros, segundo a fé desses povos escravizados, padroeiro de diversas categorias como militares e cavaleiros, e reverenciado por católicos e cultos afro-brasileiros como Ogum. Ele é retratado como um guerreiro que venceu um dragão, símbolo da luta contra as adversidades. Sua festa é celebrada em 23 de abril, data em que é invocado para proteção, força e para abrir caminhos na vida.



SÃO BENEDITO é associado a São Cosme e São Damião, ou em algumas tradições a Xangô.


NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO foi sincretizada com Oxum, a orixá das águas doces.



SANTA BÁRBARA tornou-se a orixá Iansã, senhora das tempestades e guerreira.

Em caráter de informação, há alguns santos originalmente africanos, por exemplo:


SANTO ANTÔNIO DE CATEGERÓ: Ele foi um modelo de santo escravo que inspirava obediência e serviu de inspiração para a identidade de negros escravizados.

Na verdade, Nísia Floresta não entrou nessa seara especificamente.

Nísia foi aquela pessoa que amadurecia a cada dia.

O filósofo grego Heráclito de Éfeso filosofou que "o homem não se banha duas vezes no mesmo rio". Isso é uma metáfora para a ideia de que tudo na vida está em constante movimento e transformação, e nada permanece o mesmo.

Isso se aplica a Nísia Floresta. Mas a liberdade de cultos tratada por ela se refere à qualquer tipo de religião, obviamente.

Outro faceta da criticidade de Nísia Floresta com relação à própria fé que professava, é percebida quando ela condenou veemente o poder temporal dos Papas.

Ela via essa condição papal como o instrumento maior de adulterar a doutrina cristã.

Lucius Quincio Cincinatus

Uma parte curiosa de seus escritos pode ser vista num sonho que Nísia teve com Cincinatus (V.519 a.C.), um estadista e líder militar romano, que se tornou um exemplo de virtude cívica e integridade.

Ele foi escolhido como ditador em duas ocasiões para salvar Roma de ameaças militares, derrotando o inimigo em 458 a.C. e 439 a.C..

Cincinatus é lembrado como um modelo de virtude romana e integridade cívica, especialmente por seu desapego do poder e sua dedicação ao Estado.

Após salvar o Estado, ele devolveu seu poder e retornou à sua fazenda, um ato que simboliza sua humildade e desapego da vida política.

O seu exemplo inspirou muitos, incluindo figuras modernas, como George Washington, tornando-o um símbolo duradouro do princípio republicano de que um cidadão pode e deve deixar o poder para retornar à vida privada.

Um exemplo atual de homem público que assumiu o posto mais poderoso de um país e ao concluir o seu tempo de gestão, dedicou-se a uma vida simples, embora confortável, em sua fazenda foi Mujica, no Uruguai. Inclusive falecido recentemente.

Ele sempre foi tão simples que seu carro era um Fusca.

Dia desses a terceira ex-primeira dama do país, sra. M.B. fez um comentário maldoso e mentiroso (esse povo sabe que fala para burros, então aproveita e despeja a própria burrice misturada com maldade).


Pois bem essa criatura disse que Mujica era tão socialista que todos os seus dentes eram podres e que ele tinha um Fusca velho que não funcionava. Mentira. Mujica era simples, desapegado feito Cincinatus. Mas civilizado.

Seu Fusca funcionava perfeitamente. Para ele o carro devia levá-lo lá e cá, sem pressa. E o Fusca atendeu a necessidade dele. Só mesmo Mujica! Só mesmo Cincinatus!

Onde estariam esses homens hoje?

Mas, retomando a experiência onírica de Nísia Floresta. No sonho – que é uma parábola sobre a história da humanidade – ela passeia com Cincinatus. É uma volta no tempo.... Coisas de Nísia...

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VERSÕES AFRICANAS DOS SANTOS EUROPEUS MENCIONADOS ACIMA

Ogum: São Jorge (também chamado de São Jorge Guerreiro)


Oxossi: São Jorge


Xangô: São Benedito



Oxum: Nossa Senhora da Conceição



Iansã: Santa Bárbara

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sábado, 4 de outubro de 2025

ACTA NOTURNA - QUAL ERA A RELIGIÃO DE NÍSIA FLORESTA?


Por mais que quem não conheça a intelectual Nísia Floresta hoje, e possa vê-la sob os holofotes de calúnias, preconceitos e equívocos propagados ao longo do tempo, dispostos no imaginário popular e até mesmo em jornais e livros, não estranharia que alguém estranhasse quando afirmo que ela era católica, moralista e conservadora.

Parece uma antítese, afinal ela causou "escândalo" na pequenina Vila Imperial de Papary quando, aos 13 anos de idade escolheu por livre e espontânea vontade, o seu marido e, por livre e espontânea vontade, separou-se poucos meses depois. Isso não combina com moralismo, conservadorismo e catolicismo, mas deixando esses detalhes para outro texto, vamos conversar sobre a Nísia Floresta católica apostólica romana.

Por tudo o que Nísia Floresta deixou escrito em livros e jornais, sem dúvida alguma Nísia Floresta era católica. Ela foi instruída cristãmente e, para surpresa de muitos, alguns de seus livros trazem referências bíblicas, inclusive encontros que ela teve com diversas autoridades católicas em suas viagens, inclusive, como escrevi neste mesmo blog, o seu encontro com o papa Pio IX.

Mas não se enganem, longe de uma fiel cegamente obediente, ela guardava reservas e, como lhe era peculiar, olhava como águia e observava com acuidade, ouvia as entrelinhas, muito embora muitas práticas eram tão claras e óbvias que não via quem não queria.

Ela diferiu de uma pessoa católica comum porque viu, criticou e escreveu o que viu. Deixar escrito é muita responsabilidade. Ela era uma católica reflexiva e crítica, o que não poderia ser diferente para uma intelectual. Estava muito longe dela a adesão acrítica, apologética e fanática.

O seu catolicismo é evidente em vários momentos de sua obra, e darei aqui alguns breves exemplos. Nos seus escritos de cunho autobiográfico e nos diários de viagem, acima de tudo Três anos na Itália, ela conta alguns episódios ocorridos no mundo católico e revela-se uma pessoa aberta às práticas culturais do catolicismo europeu daquele tempo, inclusive uma audiência com o Papa Pio IX e que se fez acompanhar da filha Lívia Augusta de Faria Rocha.

 

 

Seu relato e outros registros escritos de próprio punho a partir de diversas viagens são fontes claras do seu catolicismo. Se isso não deixar evidente o seu lado religioso, o que mais precisará?

No livro Conselhos à minha filha (escrito em homenagem ao aniversário da filha) encontramos várias citações bíblicas e morais, evidenciando seu profundo conhecimento da Bíblia Sagrada. A partir desse conhecimento cristão, ela faz várias recomendações à filha, apresentando-os como virtudes.

Há um trecho em que ela adverte Lívia sobre a vaidade, e para isso busca em Provérbios 16:18 a seguinte orientação “a soberba precede a ruína”. Numa outra situação ela se serve de Mateus 5:4 quando é dito que “bem aventurados os que choram, porque serão consolados”.

As citações bíblicas usadas por Nísia não são por mera casualidade, há na Nísia-Mãe uma autoridade moral em que ela se serve da tradição espiritual cristã para aconselhar maternalmente a filha.

Suas referências sagradas e sua narrativa cristã, deixa nítido o quanto ela era familiarizada ao universo católico, portanto para uma mãe moralista que foi Nísia, ao contrário de muitos julgamentos contrários (por ignorância), ela buscava na tradição o seu recurso narrativo e formador.

As escolas católicas de Mondovi, na Itália, adotaram Conselhos à minha filha como livro didático. E o que isso significa senão uma consonância dos padres católicos com o seu pensamento. Mas enquanto ela se mostra católica, principalmente nessa obra, outras obras trarão críticas pesadas à Igreja católica e as práticas clericais. E ela poderia nem ter deixado isso escrito, mas o fez, e o fez com a intenção de que o futuro não a julgasse como ingênua.

Num dos seus textos ela diz que “o luxo que rodeia certos prelados contrasta com a humildade pregada no Evangelho”, e denuncia a vida nababesca de muitos padres. Ainda em Conselhos à minha filha, ela referencia Provérbios e o Sermão da Montanha.

No ensaio Um passeio ao aqueduto da Carioca, em que ela se faz cicerone de um turista, ao passar por um convento de freiras ela diz “Deus não criou a mulher para viver encerrada em conventos, mas para exercer sua missão na sociedade”. Ela entendia que aquelas religiosas enclausuradas seriam muito mais úteis vivendo no meio do povo, ajudando-os de forma concreta. Isso, obviamente, não agradou os religiosos que a leram (mas ela não estava nem aí!).

Na obra Três anos na Itália ela descreve o Vaticano e cita diversas figuras religiosas, eventos católicos e relata minuciosamente o seu encontro com o Papa Pio IX, o qual perguntou-lhe se ela não tinha interesse em morar na Itália. Ela, inclusive, critica o comportamento inconveniente de algumas mulheres da realeza que estavam no local para se encontrar com o Papa, digamos um comportamento desprovido da etiqueta que costumamos achar que essas senhoras priorizam.

Nísia também fez críticas ao celibato dos padres, alegando que a igreja exigia uma prática difícil e desnecessária, e alegava que muitos padres não cumpriam tal regra.

Tudo isso parece contradição, afinal, como alguém critica uma religião que aparenta seguir? Mas não é bem assim. Na verdade, ela estava apenas dizendo que a fé não pode estar fora da realidade social, nem transmutada num mero formalismo imposto por religião, contrariando a natureza do homem.

Tudo isso nos revela uma Nísia que não se ocultou atrás do dogma a partir do momento que enxerga injustiças e hipocrisias sociais em silêncio.

No frigir dos ovos, ao olharmos o lado religioso de Nísia, vemos uma mulher católica, sim, mas capaz da autocrítica. Não era alienada e nem encobria os podres daquilo que analisava como contraditório, arbitrário ou errado.

O catolicismo nela provinha de sua formação cristã, inclusive de todos os seus ancestrais: pai, mãe, tias, tios etc. Desse modo vemos uma Nísia cujas convicções morais pautaram-se no cristianismo.

Sua sensibilidade, seu olhar jornalístico de observadora social não a impediram de pensar - e deixar escrito - sua capacidade de se confrontar com a própria igreja que segue no momento em que vê incongruências entre o que se prega nos altares e o que se vê no cotidiano.

Nesse sentido muito sensato, Nísia não está sozinha, pois era o perfil comum a muitos escritores do seu tempo, os quais, iguais a ela, convertiam a sua experiência pessoais e sua crítica social em produto literário e argumentativo. E assim tudo se transformava em material para textos jornalísticos, poemas, poesias, crônicas etc.

Nísia não renega o catolicismo, mas expõe que os ensinamentos cristãos estejam alinhados à vida dos que pregam o Evangelho e harmonizados com a justiça e à coerência moral.

Nísia Floresta Brasileira Augusta era católica, mas uma católica que se valia de um catolicismo reflexivo, consciente e crítico.

De Conselhos à minha filha às observações vivas de Três anos na Itália e Um Passeio ao aqueduto da carioca, por exemplo, constatamos isso. Mas sem impedir sua coragem intelectual para mostrar as falhas e reivindicar coerência e ética. Essa moeda de duas faces - fé e crítica - revelam sua grandeza como escritora com visão civilizada e admirável. 22.8.2025, 01h50.

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