![]() |
| "Zumba do Timbó" |
Na minha família há dois casos de antepassados que tinham - vamos dizer: apelidos - e pelos tais eram conhecidos, inclusive “Zumba”. Mas não têm relação alguma com “Zumba do Timbó”. Cresci ouvindo minha mãe se referir a nomes como “Joaquim Zumba”, “João Zumba”, por exemplo. E esses meus antepassados eram chamados por todos da região como “os Zumba”. Não sei detalhes sobre os mesmos, mas ter descoberto o significado histórico da palavra “Zumba” me deu bons sinais. Em Goianinha, a mãe da minha bisavó era chamada de “Mãe do Bigle” e seu marido “Pai Velho”. Assim eram conhecidos por todos. Inclusive Ormuz Barbalho Simonetti, em sua vasta obra de genealogia intitulada Os Troncos de Goianinha (2008), faz referência aos mesmos.
Nas minhas pesquisas sobre as coisas de São José de Mipibu, sempre encontro alguém que expressa curiosidade quanto ao senhor de engenho conhecido como “Zumba do Timbó”. Que nome é esse? Por que esse nome? O que significa “Zumba”? E “Timbó”? É um distrito? Onde fica? Esqueça, acaso você esteja associando o nome “Timbó” a um distrito com esse mesmo nome no município de Nísia Floresta - não há relação alguma.
Mas, primeiramente, vamos saber o que é “timbó”. Timbó é um cipó que, espremido, solta um suco espalhado nos rios para pescar. O líquido promove dormência nos peixes, e os indígenas os pegavam com as mãos.
“Timbó” era o nome de um dos engenhos de “Zumba”, na cidade de Ceará-Mirim. “Zumba” era o nome como conheciam o seu proprietário José Ribeiro Dantas Sobrinho, senhor de vários engenhos em diversas freguesias (municípios), com parentescos em São José de Mipibu e em outros municípios do Rio Grande do Norte.
A palavra “Zumba” possui origem muito antiga e provavelmente africana. Pesquisas linguísticas apontam ligação com idiomas bantos da África Centro-Ocidental, sobretudo quimbundo e quicongo, trazidos ao Brasil por africanos escravizados oriundos de Angola e do Congo. Em antigas tradições afro-brasileiras, palavras semelhantes como “Nzumba”, “Zambi” e “Zumba” apareciam relacionadas à ideia de autoridade, liderança e poder.
O caso mais conhecido é o do líder quilombola Ganga Zumba. Muitos estudiosos entendem que “Zumba”, nesse contexto, significava algo como “grande senhor”, “chefe supremo” ou “homem poderoso”. Com o passar do tempo, o termo teria sobrevivido no Nordeste colonial, especialmente em regiões de engenhos, sendo aplicado popularmente a grandes proprietários rurais e senhores de terras.
Assim, quando o povo chamava José Ribeiro Dantas Sobrinho de “Zumba do Timbó”, provavelmente o sentido popular era algo próximo de “o grande senhor do Timbó” ou “o poderoso senhor do engenho Timbó”.
E quem era esse “Grande Senhor do Timbó”?
Era José Ribeiro Dantas Sobrinho, filho legítimo de Antonio Basílio Ribeiro Dantas e Ignácia da Silva Bastos. Nasceu em 21 de agosto de 1839 e foi batizado pelo padre João Damasceno Xavier Dantas em 19 de março de 1840, no Engenho Santo Antonio, freguesia de São José de Mipibu. Teve como padrinhos Miguel Antonio Ribeiro Dantas e Maria José Dantas.
![]() |
| Balbina, primeira esposa de "Zumba do Timbó". |
“Zumba do Timbó” casou-se duas vezes. O primeiro casamento ocorreu na propriedade “Laranjeira”, em São José de Mipibu, com Antonia Balbina Viana, em 11 de fevereiro de 1858. Balbina era filha de Antonio Bento Viana e Joana Balbina Viana, esta nascida em Extremoz. Antonio Bento Viana, fundador da Vila de Ceará-Mirim, era tio do Barão de Mipibu, Miguel Ribeiro Dantas.
“Zumba do Timbó” teve muitos escravizados e alforriou-os bem antes de ser decretada a Abolição da Escravidão. Vestia-se com apurado gosto, possuía liteiras, caleças e outros utensílios usados para se locomover de uma propriedade para outra com sua família. Era Coronel da Guarda Nacional, guarnição de Ceará-Mirim, e uma das figuras mais expressivas daquela próspera localidade.
Nesse primeiro casamento com Antonia nasceram seis filhos. Tendo enviuvado, casou-se novamente em 1887 com Urcicina Raposo de Melo, 25 anos mais jovem que ele, inclusive mais moça que o filho mais jovem dele. O casamento ocorreu em 12 de fevereiro de 1887, no Engenho Floresta, em Ceará-Mirim, pertencente ao dr. Heráclio de Araújo Vilar, sendo celebrante o padre Frederico Soares Raposo da Câmara. No segundo casamento tiveram três filhos.
“Zumba do Timbó” era senhor de engenho no vale de Ceará-Mirim, dono de muitas terras. Também conhecido como “O Major”. Foi proprietário dos engenhos Sapé (uma parte fica em Papari/Nísia Floresta), Trigueiro, Timbó de Dentro (rebatizado como São Pedro), Porão, Veados, Barra de Levadas, Oitizeiros, Joazeiro, Cafuca (estes dois em Santana do Matos) e Timbó de Fora.
“Zumba do Timbó” faleceu aos 59 anos, em decorrência de um enfarto, no dia 22 de julho de 1889, no Engenho São Pedro, em Ceará-Mirim.
Há muitas histórias contadas sobre “Zumba do Timbó” e suas esposas. Algumas dessas histórias são horrorosas devido à crueldade, e quando Carlos Alberto Dantas Moura, na melhor das intenções, mencionou essas histórias em seu livro, uma neta de “Zumba do Timbó” entrou em contato com ele, furiosa, alegando que tudo era mentira.
Mexer com História muitas vezes é mexer com um vespeiro... fica no ar...
Quem quiser saber mais sobre “Zumba do Timbó” basta ler a obra de Carlos Alberto, um trabalho extraordinário, com quase 700 páginas.
FONTE: MOURA, Carlos Alberto Dantas - Família Ribeiro Dantas de São José de Mipibu (2010, edição ampliada).


Nenhum comentário:
Postar um comentário